
Pelo menos desde o tenebroso 11 de setembro de 2001 temos ouvido e lido muito esta palavra, não é? No Aurélio, há duas definições. Uma diz: “Observância rigorosa à ortodoxia de doutrinas religiosas antigas, especialmente do islamismo”.
Acho tendenciosa essa enunciação, exatamente por conta do “especialmente do islamismo”. Só quem desconhece História vincula fundamentalismo
somente aos seguidores de Maomé. Na verdade, foram os cristãos quem inventaram essa prática. As Cruzadas estão aí que não me deixam mentir. Ou melhor, estavam lá, na primeira metade do primeiro milênio.
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Mas o Aurélio também traz outra definição para o termo: “Observância rigorosa às crenças religiosas tradicionais, especialmente em grupos protestantes dos Estados Unidos, depois da I Guerra Mundial, que enfatiza a interpretação literal das escrituras, a segunda ressurreição de Cristo, a virgindade de Maria etc.”
Arrá!
Então admite-se fundamentalismo no cristianismo. E com certeza o há em outras religiões também, como no judaísmo, no budismo... E é claro, no islamismo. No caso deles tem um agravante. Não me importo se eles optam por permanecer com hábitos da Idade Média, do tempo do profeta deles. Mas, como bem explicou Ali Kamel, os fundamentalistas não querem aquele modo de vida medieval só para eles. Eles desejam aquilo para o mundo inteiro e não sossegarão enquanto não alcançarem seu objetivo.
Sempre digo que a principal função social de uma religião é servir de balizamento moral e ético (embora ultimamente, nem isso está sendo respeitado...). Todavia, não raro se usa motivação religiosa para oprimir, causar sofrimentos nos semelhantes, em completa divergência com os ensinamentos da divindade.
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As três religiões com maior peso na História mundial – cristianismo, judaísmo e islamismo - seguem seus respectivos livros, suas respectivas Sagradas Escrituras: a
Bíblia (reunião do Antigo e do Novo Testamento), o
Tanakh (correspondendo ao antigo testamento bíblico, apenas com outra divisão) e o
Corão. Este último é o que foi escrito há menos tempo, há uns mil e quatrocentos anos, mais ou menos. E se do tempo em que eu nasci para cá as coisas já mudaram muito, imaginem desde um, dois, três mil anos atrás! Mas os que seguem cada uma destas religiões dizem que seu livro sagrado contém a palavra de Deus e esta é imutável. No aspecto filosófico, concordo. No âmbito dos costumes... bem... sou cristão, mas eu não seria tão fundamentalista. Não posso adotar hoje certas práticas que eram comuns no tempo em que as pessoas andavam vestidas com pele, pastoreando cabras diante do palácio de governo.
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Em pleno Século 21, quando a ciência já demonstrou tão vivamente teses sobre a origem do Homem, ainda se ensina o Criacionismo em diversas escolas norte-americanas. E lá nos EUA, que representa o último bastião da luta contra o fundamentalismo (islâmico), ainda se vê inúmeros exemplos de intolerância contra forma de pensar e crer diferente da deles.
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Recebi pela internet um texto assinado pelo historiador Ruben Alves (esteve no Programa do Jô nesta semana) a respeito de fundamentalistas cristãos que pautam suas vidas (e insistem em pautar a dos outros...) pelo que está literalmente prescrito na Bíblia. O texto fala de uma Laura Schlessinger, famosa comunicadora nos EUA, com um programa de Rádio de enorme audiência. Ela respondeu a um ouvinte que a perguntara sobre homossexualismo, afirmando ser isto uma “abominação”, conforme está descrito no livro de Levítico, capítulo 18, versículo 22: “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”. Este capítulo, presumivelmente escrito por Moisés, que ouviu também presumivelmente a palavra de Deus, proíbe várias coisas, especialmente veda que se “descubra a nudez” de filhos, filhas, netos, netas, mãe, pai, noras, genros... Do jeito que está escrito, literalmente um filho não pode dar banho numa mãe idosa e incapaz de se lavar sozinha, por exemplo. Mas isso é uma outra história.
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Pois é. Diz o texto que um certo ouvinte escreveu uma outra carta para a Laura, comentando a resposta da radialista sobre o homossexualismo. Transcrevo-a aqui:
"Querida doutora Laura, muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a lei de Deus. (...) Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas e sobre a forma de cumpri-las.
- Por exemplo:
gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo cap. 21, vers. 7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?
- O livro de Levítico, no cap. 25, vers. 44 estabelece que
posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que não sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?
- Sei que não estou autorizado a
ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Levítico cap.18, vers.19; cap.20, vers.18 etc.). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas. Veja que o texto não fala apenas de contato sexual, mas de
qualquer contato. Perguntar as horas a uma delas, por exemplo.
- Tenho um vizinho que insiste em
trabalhar no sábado. O livro de Êxodo cap. 35, vers.2 claramente estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?
- No livro de Levítico cap.21, vers.18-21 está estabelecido que
uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Tenho que confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para eu entrar numa igreja e me aproximar do altar de Deus?

- Eu sei também, graças a Levítico cap.11, vers.6-8, que
quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?
- Meu tio tem um sítio e deixa de cumprir o que diz Levítico cap.19, vers.19, pois
planta dois tipos diferentes de semente ao mesmo campo, e também a sua mulher deixa de cumprir o que diz o versículo, pois usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber: algodão e poliéster. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos queimá-los numa reunião privada?
Sei que a senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que
a palavra de Deus é eterna e imutável"
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Eu não teria feito melhor. Gostei muitíssimo da carta do rapaz.
Mas ainda sobre a questão que motivou a missiva do ouvinte, ou seja, ser o homossexualismo uma aberração. Bem, todo mundo sabe que sou heterossexual convicto, homem cabra macho que gosta (e como!) de mulher criatura fêmea do sexo feminino. Mas tenho vários amigos que têm opção sexual diferente da minha e são pessoas de bem, exemplos de cidadãos.
Poderia aqui, com meus parcos conhecimentos de História, lembrar que na Grécia antiga, o homossexualismo era tolerado e socialmente aceito, assim como na Pérsia, na Babilônia e em diversos lugares dos tempos idos. Contudo, queria lembrar que no próprio Antigo Testamento (e, conseqüentemente, no Tanakh) há algumas passagens um tanto ou quanto esquisitas. Como a história de Davi e Jônatas, por exemplo. Eu ainda vou falar mais detidamente sobre as peripécias do Rei Davi quando retornar com a seção “a História tem cada história”, conforme prometi quando escrevi o post “Que família, meu Deus!” sobre os incríveis parentes de Jesus. Mas quero transcrever uns versículos do tipo “eu, heim!”, conforme vocês podem constatar:
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“E aconteceu que, assim que Davi acabou de falar ao rei Saul, a alma de Jônatas (filho de Saul) se ligou à alma de Davi, e Jônatas começou a amá-lo como à sua própria alma.
(...) Jônatas e Davi fizeram um pacto, pois aquele o amava como à sua própria alma. Além disso, Jônatas despiu-se da túnica sem mangas que usava e a deu a Davi, e também suas vestes, e até mesmo sua espada, e seu arco, e seu cinto”. (I Samuel, cap. 18, vers. 1-4)
“Davi saiu então detrás da colina, lançou-se com o rosto por terra e curvou-se três vezes; e começaram a beijar-se um ao outro e a chorar um pelo outro . E Jônatas disse a Davi: 'Vai em paz. Quanto ao juramento que nós dois fizemos no nome do Senhor, que o Senhor seja testemunha entre mim e ti, e entre a minha descendência e a tua.'” (I Samuel, cap. 20, vers. 41-42)
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Ora, diriam católicos e evangélicos que vêem os escritos da Bíblia como verdades definitivas: “Eles eram apenas bons amigos”.
Sei... Arrã...
M.S.
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No momento em que estou postando este texto, vejo no marcador que faltam só 600 visitas para eu alcançar o número 200 mil. Caraco... Quem será o felizardo que fará a ducentésima visita?
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Na
Rádio Antigas Ternuras, você ouve música medieval, do tempo em que Davi andava por aí com atiradeira.