quarta-feira, janeiro 31, 2007

Isso dava o maior bode!


E lá vamos nós para mais uma explicação para expressões que costumamos usar, mas não sabíamos sobre sua origem. Esta é mais uma seção fixa do nosso Antigas Ternuras.
Hoje, apresentaremos a origem da expressão

Bode expiatório

Tem gente que faz alguma confusão com este tipo de caprino. Um contínuo que trabalhava no meu local de trabalho disse certa vez, quando aconteceu uma merda lá no setor: “Eu é que não vou ser o bode respiratório!”
Esse bode é outro, bem diferente do que eu pretendo explicar. Passemos, então, às devidas explicações.
*

O seu sentido atual é que alguém vai "pagar o pato" (expressão que já expliquei aqui), uma determinada pessoa vai se dar mal, vai pagar por erros cometidos por todos.
Existe mais de uma explicação para esta expressão. As mais difundidas são as do ponto de vista hebraico e do grego. Acho a versão dos helênicos mais bonita e opto por contá-la.
Voltemos, então, ao tempo da antiga Grécia. Ao tempo em que os gregos cultuavam deuses que tinham características muito humanas. Depois, veio o domínio de Roma que adotou as mesmas divindades, só trocando os nomes. Pois é. Cada um daqueles deuses, tinha um (às vezes mais de um) animal que lhe era devotado. A Zeus (Júpiter, em Roma), dedicavam a águia; a Atena (Minerva), a coruja; a Hera (Juno), o cuco; a Posídon (Netuno), o touro; a Apolo (Febo), o lobo; a Dioniso (Baco)... o bode.
*

Apolo (o da esquerda) e Dioniso eram filhos de Zeus, logo, eram irmãos. Mas tinham características bem diferentes para os gregos. O primeiro era o deus da polis, da cidade civilizada e culta, o deus da organização lógica.

O segundo (o da direita) era deus do vinho, da folia, era cultuado fora do limite da polis, da cidade, pois representava a loucura, o delírio, características opostas à organização. Mas, veja bem, esta desorganização era fundamental para a organização. Era a válvula de escape, o parâmetro do caos necessário para a existência da ordem. Apolo e Dioniso eram deuses opostos, mas complementares e fundamentais na polis. Basta dizer que a Música era considerada como uma dádiva de Apolo; e o Teatro era dedicado a Dioniso.
Este, diziam os gregos, se manifestava nas pessoas pelo transe. Se alguém caía em estertores assim,do nada, garantiam que era Dioniso pintando na área. Os epilépticos eram considerados como protegidos pelo deus, visto que nos seus ataques, estavam, na verdade, segundo eles, incorporando aquela divindade. Por isso, todos os epilépticos eram bem tratados, ninguém os fazia mal, nem os deixavam passar necessidade.
*

Um certo dia do ano era dedicado a Dioniso, o Baco dos romanos. Eles escolhiam um dos epilépticos da cidade como rei naquele dia. Vestiam-no com uma pele de bode, entronizavam-no no poder e tudo o que ele pedisse era prontamente atendido Neste dia, faziam vários festejos dedicados a Dioniso, sempre fora da cidade. Era quando entravam em ação as suas sacerdotisas, as bacantes. E a bacanal corria solta! E tome saliência! Naquela festa, enchiam os cornos de vinho, penduravam a toga no cabide e caíam dentro sem culpa.
*

E sabem porquê? Porque alguém iria assumir a culpa de todas as transgressões que cometessem naquele dia de orgia, em que ninguém era de ninguém. Mas quem seria a criatura, meu Zeus, que expiaria por todos?
Ora, o rei-bode.

Não era ele a personificação do deus? Tudo não era feito em seu culto e louvor? Então, ele seria o expiatório da culpas, da quebra na organização lógica da cidade. As pessoas precisavam voltar para os seus afazeres limpas de toda culpa, podendo olhar na cara da mulher do vizinho sem constrangimentos, depois de ter praticado com ela todo o kama-sutra, desde o “canguru perneta” até o “churrasquinho grego”.
*
Então, no fim do dia, corriam ao rei-bode. Colocavam-no em uma liteira, enfeitada de uvas e flores. Faziam uma grande passeata, entoando canções em honra a Dioniso, e seguiam na direção de um penhasco. Lá, arremessavam no abismo o rei-bode, o bode que expiava por seus erros, o bode expiatório.
*

Feito isso, retornavam a polis, reassumiam suas vidas sem culpas. De nada poderiam ser acusados. Estavam todos tomados pelo deus.
*
Vocês já devem ter percebido que há uma forte semelhança entre partes desta história com o que acontece no Carnaval, em seu aspecto de festividade sem culpa, cuja absolvição é obtida na Quarta-Feira de Cinzas, não é? E também com um outro personagem muito importante na História, que é considerado como aquele que nos salvou de toda culpa, assumindo nossos pecados em seu sacrifício, certo?
Bem, como dizia meu querido mestre, Junito Brandão, com quem aprendi esta história: “os arquétipos são sempre os mesmos. Ainda que em épocas e lugares diferentes”.
M.S.
********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras você está ouvindo os Tribalistas cantando “Já sei namorar”. Uma boa música para os seguidores de Dioniso cantar...
********************************************
Se você quiser saber a origem desta expressão pelo ponto de vista hebraico, clique aqui
********************************************
No post anterior, muita gente ficou perguntando o que afinal era espinhela caída. Eu confesso que não sabia. Fui pesquisar na internet. Quem quiser saber com exatidão, clique aqui.

sábado, janeiro 27, 2007

Espinhela caída


Noutro dia, eu estava assistindo à ótima minissérie “Amazônia”, quando ouvi a personagem da Betty Goffman dizer que precisava “rezar espinhela caída”.
*
É impressionante como algumas palavrinhas têm o poder de nos arremessar numa espécie de “Túnel do Tempo” e a gente volta ao passado, recordando cenas inteiras, como se tivesse passando um filme diante dos olhos.
*
Eu iria escrever a minha história com “espinhela caída”, mas aí lembrei que já tinha escrito e até publicado aqui, nos primórdios do blog. Resolvi rever o texto, dar uma mexidinha, inserir imagens e música e republicá-lo. Posso dizer, sem susto, que espinhela caída é uma de minhas antigas ternuras. Quem já padeceu desse “mal”, haverá de se lembrar...
*

Há alguns dias, li nO Globo, na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, uma crônica sobre “espinhela caída”. Talvez você que esteja me lendo não saiba o que diabos vem a ser isso. O Joaquim lembrou bem que esta era uma “doença de suburbano”. Eu vou mais além: De morador da periferia, também. Mas atenção, muita calma nesta hora: não há nenhum tipo de preconceito no comentário Joaquim (que confessou ser nascido e criado na Vila da Penha, com muita honra) ou no meu. Espinhela caída dava (acho que não dá mais...) na criançada do subúrbio (onde morei por uns tempos) e do Grande Rio (onde me criei) por fazer parte daquela cultura. Como jogar bola de gude, soltar pipa, rodar pião, comer goiaba no pé, jogar futebol em campinho de várzea, brincar de pique-bandeira, carniça, garrafão, pular corda...Vocês entenderam, não é? Eu não consigo imaginar um morador de Ipanema, Copacabana, Flamengo e arredores indo numa rezadeira para rezar espinhela caída. Essa é uma cena que nunca vou ver no Leblon de “Páginas da Vida”.
Também não imagino ver nenhuma criança de lá jogando búrica em quintal de terra.
*

Esclarecimento feito, passemos à espinhela. O que será, com mil tubarões, espinhela caída? Segundo minha mãe e minha tia, eu tinha isso. Na época, não sabia exatamente o que vinha a ser esse troço. Suspeitava que tinha a ver com o estado de magreza absoluta que as agitadas crianças do meu tempo viviam. A gente não tinha videogame, via pouco televisão, daí, estávamos sempre correndo, brincando, agitando. Acho que por isso o pastel e o cachorro-quente da cantina da escola não viravam gordura no nosso corpo. Queimávamos aquilo tudo em uma hora de pique-tá ou subindo e descendo a ladeira com carrinho de rolimã.
Mas, espinhela caída... Talvez tivesse a ver com o meu osso esterno que é um pouco profundo.
*
Sei que, de tempos em tempos, a minha mãe ou a minha tia Avelina, que morava em Piedade e com quem eu cheguei a passar uns tempos, me olhavam com olhos críticos e diagnosticavam: “espinhela caída!” Daí, a minha tia falava:
- Marquinho, vai chamar a Dona Maria!

Era a rezadeira da vila em que morávamos, na Rua Padre Nóbrega, 494. A casa da minha tia era a 4, ou “IV”, já que os números eram escritos em romanos. A da D. Maria era a I. Eu adorava ser acometido pela tal espinhela caída. Justamente para ser rezado pela Dona Maria e ter que ir na casa dela para chama-la. Lá, morava a sua neta, Ângela, um de meus amores infantis. Eu tinha uns 7 anos. A Ângela, uns 13. Já tinha até peitinho. (Imagino a matrona em que ela deve ter se transformado...)
*

Pois bem. Eu ia lá, chamava a D. Maria, via a minha paixonite, e voltava para casa. Logo em seguida, chegava aquela velha senhora, com um galhinho de arruda nas mãos. Eu ficava em pé, diante dela, ela começava a me rezar. Murmurava palavras que eu não conseguia distinguir, sempre me cruzando com a arruda.
- Vira de costas.
Eu obedecia. Ela fazia a mesma coisa que tinha feito antes, com um detalhe: ela sempre começava a bocejar durante o processo de reza. Acredite se quiser: eu sentia um formigamento de leve pelo corpo, durante aquele ritual. Uma sensação gostoooosa...
Depois de rezado, e, imagino, curado do ataque de espinhela caída, minha tia dava um dinheirinho para D. Maria, que se ia com passos rápidos, cuidar de seus afazeres na casa I, na casa da minha amada Ângela.
*
Certamente a ciência diria que a reza da D. Maria servia tanto como a colherada de Rum Chreosotado que minha tia me dava toda noite, antes de dormir (“para não ficar constipado”, ela dizia). Mas é inegável que tanto uma, quanto outra faziam da minha infância um imensa cristaleira de lembranças que eu, muito tempo depois, teria muito gosto em abrir. Nem que fosse apenas para espanar o pó.
M.S.
********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Bola de meia, bola de gude”, com o sempre fantástico 14-Bis.

terça-feira, janeiro 23, 2007

A História tem cada história!


Quando ministro minhas palestras por aí, sempre digo que a disciplina História não é inútil ou que ela leva as pessoas a decorebas sem sentido. Aliás, nenhum professor de História atualmente bota seus alunos para decorar nada.
A função da História é explicar fenômenos de nossa realidade e proporcionar reflexões sobre eventos que ocorrem nas sociedades, pois, como eu costumo dizer, quem despreza o seu passado, se perde no presente e não constrói o seu futuro. Ela não é absolutamente estática, muito pelo contrário. Se na Matemática 2+2 será sempre igual a 4, na História, nada é definitivo.
Certa vez, eu estava fazendo uma palestra em um Teatro e perguntei à platéia: “Na frase: Pedro Álvares Cabral foi quem descobriu o Brasil, tem quantos erros?”
Um ou outro arriscou alguma coisa. Aí eu expliquei quantos erros efetivamente havia na sentença.
*

Eu não sou historiador. Infelizmente, pois adoraria sê-lo. Sou jornalista e ator, mas sempre fui apaixonado pelo estudo da História. Desde que aprendi a ler e ficava fuçando no Tesouro da Juventude de meu tio e no Lello Universal de meu pai (herdei as duas enciclopédias), buscando sempre conhecer fatos históricos. Ainda novinho, lia a Bíblia não por conta de razões religiosas, mas para tomar conhecimento daqueles fatos incríveis narrados ali.
Portanto, estudar História é minha paixão, minha antiga e eterna ternura. Atualmente, como já disse aqui, trabalho em um projeto ligado à pesquisa histórica. E para mostrar a vocês que o estudo desta disciplina não é uma coisa chata, começo aqui mais uma seção fixa do Antigas Ternuras: “A História tem cada história!”, onde vou contar fatos históricos pitorescos, unindo conhecimento e entretenimento, com as habituais doses de humor.
*

E começo, justamente, explicando quantos e quais são os erros da frase lá de cima, sobre o descobrimento do Brasil.
Tem, no mínimo, três.
*
Tecnicamente, o Brasil não foi descoberto. Uma terra só pode ser descoberta se não for habitada. E aqui (e na América como um todo) existiam trocentas nações indígenas, em diversos graus de cultura e desenvolvimento. O certo é dizer que o Brasil foi achado, encontrado (e invadido, ocupado) pelos europeus.
*

O segundo erro dá conta de que o nosso querido Pedro não foi o primeiro a pisar nessa terra brasilis. Na verdade, nem o segundo, nem o terceiro.
Comprovadamente, o primeiro europeu a pisar em solo que seria futuramente chamado de Brasil, foi o português Duarte Pacheco Pereira (esse aí na foto, a direita), que aportou em algum ponto entre o Pará e o Maranhão, em 1498 (esse fato, só foi revelado recentemente pelos portugueses). E, meses antes de Pedro Álvares chegar aqui, o espanhol Vicente Pinzón esteve no que hoje é o Ceará, em janeiro de 1500 (dizem que também esteve no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, mas historiadores acham improvável). E, neste mesmo ano, outro espanhol, Diogo de Lepe, esteve na foz do Amazonas. Tudo isto está plenamente documentado, não são lendas. Mas, por tradição, ninguém vai tomar de Pedro Álvares a chancela de ser o primeiro a achar as novas terras a oeste d´África, mesmo se sabendo que o nosso velho Pedrão, no máximo, é o responsável pelo achamento da Bahia... Mas, certamente, ele não tem culpa nenhuma da axé music, nunca mandou ninguém “sair do chão”, nem “jogar as mãozinhas pro alto”.
*

E o terceiro erro da frase está no próprio nome do gajo. Quem esteve no Brasil foi o fidalgo português Pedro Álvares de Gouveia (o barbudo aí da foto à esquerda). Ele só teria “Cabral” no nome a partir de 1515. Eu explico.
Naquele tempo, só o filho primogênito tinha direito ao sobrenome do pai. A razão disto era evitar brigas e o enfraquecimento do poder familiar. No caso do clã Cabral, caberia ao primogênito o sobrenome, o título de senhor de Belmonte e as propriedades da família. O filho mais velho era João Fernandes Cabral e só com a sua morte, em 1515, o nome, o título e as terras passaram para o filho homem seguinte, Pedro Álvares.
*

Vocês poderiam perguntar: “Mas por que a gente não aprendeu isso na escola?”, e eu candidamente responderia: “Não tenho a menor idéia”. Como não entendo o motivo destes fatos ainda permanecerem ocultos das aulas de História do Brasil (se algum professor que me lê explica isso atualmente pros alunos, me perdoe).
Numa visão eurocêntrica, ou seja, centrada na Europa, na civilização branca, que deteve por muito tempo a cunha de “História oficial”, era preferível dizer que se estava “descobrindo” novas terras para serem colonizadas e cristianizadas (ô... Eles tiveram uma atitude muito cristã...).
Os três navegantes europeus que aqui estiveram antes da famosa chegada de 22 de abril de 1500 não puderam divulgar suas descobertas por conta do Tratado de Tordesilhas, já que o português Duarte encontrou terras na parte espanhola da América do Sul e os espanhóis Pinzón e Lepe acreditaram terem avistado terras na banda portuguesa. E ninguém ali iria botar azeitona no bacalhau ou na paella de ninguém...
Na famosa Carta de Caminha, em nenhum momento ele cita o nome do Pedro. Só o chama de “o Capitão-Mor”. Quando retornou a Lisboa, depois do achamento das terras, Pedro Álvares se desentendeu com o rei D. Manuel I e caiu em desgraça no reino. Quando ele foi reabilitado (muito tempo depois), já tinha o nome de Cabral, e ficou assim conhecido pela História.
*
Pois aí está o primeiro texto desta nova seção. O que vocês acharam?
M.S.
*******************************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Minuete”, com o ótimo conjunto português Madredeus.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Chocolate com Pimenta


O que você estava fazendo no dia 19 de janeiro de 1982?
*
Eu estava de cama, me restabelecendo de um problema de saúde. Eis que entra minha mãe no quarto e me dá a notícia: “Marco, deu na televisão que a Elis Regina morreu”.
*

Lembro de ter ficado pasmo. “Mas morreu de quê? Foi acidente?”. Naquele momento, minha mãe não soube responder. Depois, eu saberia a causa mortis e ficaria mais pasmo ainda.
*
Há 25 anos, emudecia a voz de Elis Regina Carvalho Costa, gaúcha de Porto Alegre, 36 anos, uma das maiores intérpretes de todos os tempos. É curioso saber que há hoje em dia toda uma geração que sequer era nascida quando ela cantava e encantava multidões.

Tem muita gente da comunidade blogueira que só sabe quem foi Elis pela TV e pelos discos. E sabendo disso, eu, que a vi nos tempos em que ela sacudia os braços, cantando “Arrastão”, me sinto mais velho ainda.
*
São 25 anos sem Elis. Tenho vários discos dela. Mas nunca a vi em show e não me perdôo por isso. Ela ficou no Canecão por séculos, no fantástico show “Saudades do Brasil” e eu não fui. Pouco antes de morrer, ela esteve no Teatro João Caetano, que ficava a metros da minha casa, com o show “Trem azul” e eu não fui. Raios! Raios duplos! Raios triplos! Como eu pude deixar de ir ver os shows da Elis?
*
Vídeo com 3min e 38seg - Importante: para interromper a execução da música de fundo e assistir ao vídeo, clique na imagem de um papel com “X” no alto, na sua barra de ferramentas, debaixo de “Exibir”.


Para mim, ela sempre foi uma Cantora maiúscula. Sua interpretação de “Atrás da Porta” é uma das coisas mais lindas, mais pungentes que eu já ouvi. Gosto tanto dessa música, dessa interpretação de Elis, que eu, certa vez, ganhei um papel numa peça cantando essa música no teste. Naquela hora, eu só precisei lembrar da emoção que ela me passava quando cantava esta canção. Daí, não foi difícil.
*
Tudo o que ela cantava ficava maravilhoso. Até o que nem era grande coisa, como por exemplo “Alô, alô, marciano”, música que não me diz nada na voz da Rita Lee, mas que vira um croissant delicioso na voz da Pimentinha.
*
Dizer qual disco dela eu prefiro? Também é difícil. Além do citado “Saudade do Brasil”, tenho especial prazer no “Elis”, de 1972, em que ela gravou “Casa no Campo”, e também o “Essa mulher”, com aquela beleza de interpretação para “As aparências enganam”, e o “Falso Brilhante”, e o... Ah. Não tem disco dela que eu não prefira.
*

Eu a idolatrava, quando estava viva. Sabia que o seu apelido de “Pimentinha” era por seu gênio, humm... digamos, forte. Para mim, a voz dela era doce como chocolate. Eu me surpreendi quando descobri histórias cabeludas sobre ela. Numa entrevista, perguntaram o que ela achava de algumas pessoas a considerarem de antipática. Resposta de Elis, literalmente: “Ah, o que é que há? Eu canto pra caralho e ainda querem que eu seja simpática?”
Eu queria, sim, Elis. O fato de termos recebido dons não é para nos considerarmos como se estivéssemos acima da humanidade. Um artista é um operário de seu ofício, como um médico, um engenheiro, um mecânico, um operador de fotocopiadora também o são. Imagina se todos os que fossem especialmente talentosos se arvorassem no direito de escoicear a humanidade?
*

Um amigo meu me contou que foi, certa vez, na casa da Elis, quando ela estava casada com Cesar Camargo Mariano. Ele foi acompanhando a Beth Carvalho, a pedido desta, que estava se borrando de medo de encarar a Elis. É que a Beth soube que a Elis tinha ouvido “Folhas Secas”, música que o Nelson Cavaquinho tinha dado para ela, e que resolveu também gravá-la. Elis ouviu a música no estúdio do Cesar, que estava fazendo os arranjos do disco da Beth. A sambista sabia que o impacto de sua gravação não seria nem de longe igual ao da Pimentinha. A idéia de ambos era tentar demovê-la de sua intenção, afinal, o Nelson tinha dado a música para ela, Beth. Ribamar, esse meu amigo que a acompanhou, me disse que a Elis tratou os dois como uma leoa faminta trata um filhote de gazela. Os dois saíram de lá apavorados, a Elis gravou a música, e, obviamente, fez mais sucesso que a gravação da Beth.
*

Todas as histórias escabrosas que ouvi sobre a Elis não arranharam a minha admiração pela grande artista que ela era. Até hoje eu continuo a sentir o mesmo prazer em ouvi-la cantar. Nunca outra cantora aliou voz, técnica e emoção como ela fez.
Sinto saudades de suas interpretações. Sinto saudades do tempo em que aguardava sair o disco da Elis. Parafraseando Drummond, hoje a minha saudade é apenas um som tocando na vitrola. Mas como dói.
********************************************

A nossa amiga Vera Fróes pediu que eu participasse da blogagem coletiva sobre a Elis. Embora eu não participe mais de blogagens coletivas, resolvi fazer esse carinho para a Elis, minha antiga e eterna ternura, e para a própria Vera.
********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Elis cantando “Nada será como antes”.
Na TV Antigas Ternuras, você vê um vídeo com Elis cantando, de forma emocionada e emocionante, “Atrás da porta”.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Uma pergunta que não vai calar


Pense nesta pergunta e depois me responda:

A natureza humana é boa ou má?

Veja bem: eu não estou perguntando sobre a sua natureza. Pergunto sobre a raça humana, sobre a humanidade como um todo.
*
No ano passado, vi dois filmes que me deixaram pensando muito. Um foi “Senhor das Armas”, baseado na história de um cara que existe mesmo e que enriqueceu traficando armas para governos e milícias africanas, indiscriminadamente. Ele diz que não torce pra ninguém morrer. Ele prefere que os soldados errem os tiros, para poderem comprar mais balas na mão dele.

O outro foi “O Jardineiro Fiel”. Ficção (será?) sobre um laboratório que vai pra África testar seus medicamentos. Se as cobaias morrem ou têm efeitos colaterais, aí fazem ajustes, antes de produzir em massa pro mundo todo. Os caras do laboratório dizem que os remédios vão curar e salvar a vida de milhões. E que uns poucos negros que morrem ou ficam com seqüelas são o justo preço pelo avanço da ciência.
*
Recentemente, eu fui ver “Diamante de Sangue”. Filme excelente. A história? É ficção, mas baseada em fatos históricos que realmente aconteceram. Em Serra Leoa, país africano, rebeldes lutavam contra o governo até recentemente, compondo uma milícia que matava crianças, mulheres, homens, velhos, quem passasse na frente deles. Isso, gritando que os estavam libertando da opressão do governo.

Quando não matavam, decepavam mãos e braços de quem pegavam. Ou capturavam os mais fortes para trabalharem como escravos, nas minas de diamante. Com as gemas ali garimpadas, os rebeldes podiam comprar armas melhores que as do governo, que, por sua vez, também contrabandeava diamantes para comprar outras armas e combater as milícias. No filme, fiquei sabendo que cerca de 15% dos diamantes do mundo são os chamados “diamantes de sangue”, ou seja, são obtidos por trabalho escravo e contrabandeados para serem misturados com outras pedras de procedência legal e aí ninguém saber de onde exatamente vieram. Naquele país, efetivamente se matava por prazer, por perversidade. Mutilava-se pessoas por diversão.
*
Mas, diriam alguns, isso é cinema, é entretenimento, é ficção.
*
No final do ano passado, eu recebi uma tarefa. Escrever resumos históricos de todos os países filiados à ONU. Isso para um site que vai ser posto no ar em breve. Um trabalho fascinante. São 192 países e, com a pesquisa que fiz, fiquei conhecendo suas histórias. Descobri, por exemplo, que mil anos antes de Cristo, os chineses já dividiam o ano em 365 dias, os meses em 30 dias, os anos em 12 meses. Isso bem antes do calendário Juliano, que nos rege até hoje.

Ah, sim. Li também que espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses exterminaram a população indígena das Américas. Muitas tribos foram extintas por esses colonizadores, todos cristãos. Na África, além de traficarem escravos, que eram capturados e vendidos pelos próprios negros de tribos rivais, a matança também foi generalizada. A França, por exemplo, assassinou dois terços da população nativa da Costa do Marfim. Se somarem os que foram trucidados pelos países imperialistas, dá uns dez Holocaustos no barato.E genocídios assim aconteceram em todos os continentes do mundo, em todas as épocas.
*
Mas isso é História, diriam alguns. Tem muito tempo. Hoje em dia, é outra história.
*

Li, durante a minha pesquisa, que até os anos 50 e 60 do século passado, Portugal escravizava negros nas lavouras de cacau de São Tomé e Príncipe, a ponto de haver um boicote internacional ao produto, se viesse das mãos negras escravas da África. Êpa! Anos 60? Eu já tinha nascido!

E mais: Até a quinzena passada (ou seja, dezembro de 2006), a Somália era um país sem governo. Anarquia total. Milícias islâmicas assumiram o poder vago, mas a matança desenfreada não parava de acontecer. Finalmente no final de dezembro, tropas do “governo” indicado pela ONU e da Etiópia invadiram aquilo lá e assumiram o poder.
Estima-se que atualmente na África morra, de forma brutal, cerca de 50 mil pessoas por dia.
Isso não dá nos jornais porque não é considerado notícia. Não tem novidade. Um atentado na Europa, em que venham a morrer umas cinco pessoas, é manchete em todo o mundo. Agora, 50 mil exterminados na África não dá nota de rodapé em página par.
*
Em 11 de setembro de 2001, primeiro ano do Século 21, cerca de 1600 pessoas, americanos na maior parte, morreram por conta da explosão do World Trade Center. Uma infâmia! Começou-se uma guerra para vingar os mortos ou punir os culpados. Se somarmos os soldados americanos mortos no Afeganistão e no Iraque, dá uns três 11 de setembro. E a história não acabou.
*
O mundo viu, eu vi aqui no computador da minha casa, o genocida Sadam Houssein pendurado numa corda, condenado por suas atrocidades. Outros genocidas, como Tony Blair, George W. Bush, Osama bin Laden continuam soltos por aí.
*

Mas tudo isso acontece longe do Brasil, diriam alguns. Aqui essa guerra não chega.
*
Deu no site da BBC: média de mortos no Iraque, país em guerra, é de 53,5 assassinatos por cem mil habitantes. Caramba! Número alto, não é? Mesmo para um país em beligerância aberta...
Bem, aqui no Brasil, terra do samba e pandeiro, do coqueiro que dá coco, do mulato inzoneiro, do homem cordial, tivemos os seguintes números: em Pernambuco, 50,7 homicídios por 100 mil; 49,4 no Espírito Santo; 49,2 no Rio de Janeiro.

Na semana entre Natal e Ano Novo, traficantes entraram em um ônibus, jogaram gasolina e tocaram fogo, queimando velhinhos que não conseguiram sair em tempo.
Crianças assaltam e matam. Chefes do crime do presídio mandam atacar a população por bilhetes ou por telefone, sempre dizendo no fim da comunicação: “fé em deus”. (coloco esse deus em minúscula por provavelmente ser uma divindade pagã, que exige sacrifícios humanos. Certamente eles não crêem no mesmo Deus que eu...).
*

Sobre este quesito religião, observo que a teologia judaico-cristã e até mesmo a islâmica proíbem seres humanos de matarem outros seres humanos, sob pena de castigos terríveis. Esta é ou era a principal função social da religião: ordenar a sociedade, incutir medo para não haver transgressões, criar o temor a Deus como forma de contenção dos excessos humanos. Durante um certo tempo isso funcionou “mais ou menos” no espaço urbano. Hoje, a impressão que tenho, é que não existe o menor temor de que fazer algo errado perante Deus vai acarretar em castigo. É como se Deus nem existisse, a vida, pois, acaba aqui. Então, que se viva, rápido e intensamente, porque morreu, acabou. Este é o pensamento dominante.
*
Volto à pergunta inicial, à pergunta que não vai calar:

A natureza humana é boa ou má?

Veja bem: eu não estou perguntando sobre a sua natureza. Pergunto sobre a raça humana, sobre a humanidade como um todo.
O que você me diz?
M.S.
****************************************************
Se nhoras e senhores...A Rádio Antigas Ternuras tem a honra de apresentar... Mr. Ray Charles. O que essa música, que fala de um certo lugar além do arco-íris, tem a ver com este meu texto? Nada. Tudo. Fica apenas como um toque, lembrando que embora humanidade jogue para o Universo coisas terríveis como as que descrevi, também é capaz de fazer obras belíssimas como esta.

sábado, janeiro 06, 2007

Prêmios Pipoca Fumegante e Refrigerante sem gás e sem gelo 2006


Chegou a hora dos mais aguardados prêmios do ano.
Como fiz no ano passado, para filmes e programas de 2005, eis que volta o Troféu Pipoca Fumegante para os melhores filmes e programas de TV e Troféu Refrigerante sem gás e sem gelo para os piores de 2006.
Serão premiados os melhores filmes nacionais e internacionais, além dos melhores programas de TV aberta e por assinatura. E também receberão prêmios os piores filmes e programas do ano que passou.
E vamos aos felizardos!
*

Na categoria Melhor Programa da TV aberta, não temos indicados. O ano de 2006 foi
tão ruim para as telinhas, que no entender da comissão julgadora do prêmio (ou seja, eu), nada se salvou. Talvez um ou outro capítulo da minissérie JK, um ou outro Globo Repórter, um trecho do Fantástico perdido...Mas na verdade, não deu pra ver destaque que mereça o prêmio Pipoca Fumegante na TV aberta brasileira em 2006.
*

Já na categoria Pior Programa da TV aberta, os concorrentes são tantos, que não foi possível chegar a um consenso. As novelas, TODAS, foram podres. Os que habitualmente são péssimos, como “A Diarista”, “Sob Nova Direção”, “Zorra Total”, “Domingão do Faustão”, “Turma do Didi”, neste ano conseguiram ser piores ainda.
De forma que o prêmio Refrigerante sem gás e sem gelo 2006 vai para TODA TV ABERTA no ano passado. Argh!
*
Na TV por assinatura, o caso é bem diferente. Aliás, ai do telespectador que não tem essa salvação da lavoura, especialmente nos finais de semana! Na categoria Melhor Programa da TV por assinatura, são vários os candidatos, a começar pelas minhas séries favoritas, como “Lost”, “Star Trek Enterprise”, “Ghost Whisperer”, “Smallville”, “Supernatural”, “24 Horas”, “Desperate Housewives”, todas em novas temporadas ao longo do ano. Todas foram excelentes! Mas o Prêmio Pipoca Fumegante 2006 nesta categoria vai para...
VIDA NO VENTRE – MAMÍFEROS, Especial do Canal National Geographic.

Absolutamente sensacional! O especial mostra como a vida se faz entre vários mamíferos, desde a fecundação, passando pela gestação, até o parto e os primeiros dias dos filhotes. Eu aprendi coisas incríveis que desconhecia por completo sobre o assunto. Eu, que fui um aluno medíocre em Biologia, arrebentaria numa prova, depois de ver a série e suas curiosidades. Vale a recomendação, quando o especial for reprisado. Tem mais de três horas de duração, mas não cansa de jeito nenhum. Não tem legendas, foi narrado (e muito bem!) pela Malu Mader. Imperdível!
*

Já o Prêmio Refrigerante sem gás e sem gelo 2006, para o Pior Programas da TV por assinatura, vai para a série MEDIUM. Até tem um argumento interessante: uma moça com poderes mediúnicos os utilizando para ajudar a polícia a solucionar casos intrigantes. Mas é chato de dar dó. A atriz que faz o papel principal tem o carisma de uma réstia de cebolas.
*
Passemos aos filmes.

Para Melhor Filme Brasileiro em 2006, os indicados nem são muitos. Tenho também que admitir que não vi muitos e talvez alguns que merecessem estar entre os destaques nem foram assistidos por mim. Paciência. Vale o que eu vi. E entre as poucas produções brasileiras que se destacaram no ano, cabe destacar o tocante documentário “Morro da Conceição”, o sucesso “Se eu fosse você” (filme bem feito e muito divertido), o simpático “Tapete Vermelho”, o hilário “Wood e Stock – Sexo, Orégano e Rock and roll”, que me fez passar vergonha no cinema de tanto que eu ri...
Mas o escolhido é...
O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburger.
Filme tocante, que retrata os anos de chumbo da repressão, quando alguns pais tinham que sair “de férias” para não serem presos e, certamente torturados nas mãos do aparelho policial da época. Belíssimos desempenhos, roteiro bem construído, certamente vai render outros prêmios aos produtores, além do Troféu Pipoca Fumegante 2006.
*
Como Pior Filme Brasileiro, não tenho indicados. Como disse, não vi muitos e os poucos que assisti não mereceram o Refrigerante sem gás e sem gelo.
*
Na categoria Melhor Filme Estrangeiro de 2006, são muitos os candidatos. Não que o ano tenha sido particularmente favorável para as produções que chegaram aqui. Na verdade, achei tudo meio “mais ou menos”, nenhum filme neste ano para entrar para a galeria de “filmes imortais”. Mas certamente houve algumas belíssimas produções e até ficou difícil destacar algumas. Mas tenho que aplaudir “O Corte”, "Orgulho e Preconceito", "V de Vingança", "Pequenas Flores Vermelhas", “Volver”, “Boa Noite, Boa sorte”, “Capote”, “Pais, Filhos e Etc.”, "Uma Verdade Inconveniente", “O Grande Truque”, “O Ilusionista”, “A Era do Gelo 2”, “Cassino Royale”...
Todavia, o Prêmio Pipoca Fumegante 2006 nesta categoria, como no ano passado, vai para dois filmes:
CLUBE DA LUA (“Luna de Avellaneda”, Argentina, dir. Juan Jose Campanella) e PEQUENA MISS SUNSHINE (“Little Miss Sunshine”, EUA, dir. .Jonathan Dayton e Valerie Faris)
Dois filmes esplêndidos! O primeiro, mostra com muito humor e muita reflexão os efeitos do cataclisma econômico que assolou os argentinos há alguns anos. Um clube num bairro da Grande Buenos Aires era, nos anos 50 e 60, o grande catalisador das atenções e opções de lazer de uma coletividade. Com a debacle econômica, o clube passa a espelhar a decadência daquelas pessoas. Sumariamente falido, ele recebe uma proposta de venda para transformá-lo em um cassino, dando emprego para todos os sócios que, em grande maioria, estão roendo beira de penico. O destaque (entre muitos) vai para as duas cenas no restaurante, onde, na primeira, uma professora de francês toma um baita prejuízo de um “executivo” e depois vai a forra no ex-marido que a abandonou e não pagou pensão. A trilha sonora é admirável, especialmente o “sambinha” tocado por bandoneóns. Os grandes desempenhos dos atores merecem também ser destacados. Se sair em DVD, podem pegar para ver com as minhas bênçãos.
Veja o trailer, que dura 3 min e 6 seg.

*
“Pequena Miss Sunshine” é admirável em todos os sentidos. Filme extremamente barato (custou 8 milhões de dólares!), o que confirma mais ainda a célebre máxima de que não é necessário se gastar 200 milhões de dólares, encharcar um filme de efeitos especiais de computação, para se fazer uma grande obra. A história do filme pode ser resumida assim: uma tradicional família americana resolve levar a filha para concorrer ao título de Miss Sunshine, na Califórnia. Não sei se esse concurso existe, mas acho bem provável que sim. É a cara dos EUA. Ele mostra o quanto o americano, o quanto os Estados Unidos são cafonas, bregas de dar nojo. É impressionante como nós, os macaquitos, ficamos felizes por imitar, adorar, venerar a cultura americana, que perde de mil a zero da nossa própria cultura (veja bem: reconheço grandes realizações culturais americanas, mas no geral, ela é muito brega). Aqui, quando se quer parecer sofisticado, fala-se em inglês ou se imita o american way of life. Lá, os americanos sofisticados veneram a França, o francês, Paris, a cultura francesa. Aqui, os departamentos de marketing convenceram até as pessoas de baixo poder aquisitivo a ter vergonha do português a usarem camisetas com frases em inglês e darem nomes aos filhos de Jennifer, Stephanie, Jonathan, Máicol (escrevem Michael assim!) ou Wandergleysson. As nossas adolescentes falam um misto de português e inglês, crentes que estão abafando, quando na verdade estão sendo comuns, padronizadas.
Pois é. O filme mostra toda cafonice americana, por intermédio de uma família onde o pai é um perdedor nato, a mãe uma frustrada, o avô um sátiro drogado, o tio é gay e acabou de tentar o suicídio, o filho adolescente um rebelde sem causa e a pequena candidata ao título de Miss Sunshine, uma patetinha típica ianque. Nem vou destacar nenhuma cena, pois gargalhei de chorar em várias. Não dá para perder! Desde já, estou na torcida para que ele ganhe alguma coisa significativa no próximo Oscar.
Veja o trailer, com 2 min e 27 seg.

*

Como Pior Filme Estrangeiro do ano passado, são muitos concorrentes ao Troféu Refrigerante sem gás e sem gelo. Teve um filme que nem lembro o nome, só lembro que era francês e tinha uma mulher canibal, uma coisa triste! Teve o “Matchpoint”, do Woody Allen, que todos dizem que é excelente, mas eu achei péssimo, um “Hitchcock de quinta categoria”. Teve o tal de “O Albergue”, uma excrescência em forma de celulóide. E ainda o “A Feiticeira”, que fez a Elizabeth Montgomery e o Dick York se revirarem em seus túmulos. Mas eu fico com...
JOGOS MORTAIS III.
Esse filme foi feito por um psicopata, especialmente dirigido aos psicopatas que eventualmente podem gostar daquilo. Credo...
*
Aí está, moçada. Sei que este meu prêmio exprime o meu gosto pessoal e que nem todos vão concordar. Mas esse é o grande lance. Se todos gostassem ou detestassem as mesmas coisas, a vida seria muito chata, não é mesmo?
Parabéns aos premiados e vamos ver o que vai rolar nas telinhas e telonas de 2007.
M.S.
**************************************************
Na TV Antigas Ternuras, você vê os trailers de “Clube da Lua” e “Pequena Miss Sunshine”.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Pé na tábua, 2007!


Como diria o Pedro Bial: Estamos de volta!
Lá se foi mais um ano. Eis aí mais um ano. Vida que segue...
As expectativas para 2007 só podem ser as mais alvissareiras possíveis. Tenho eu mesmo muita fé nos projetos que empreenderei nestes próximos 365 dias.

No futebol, vejo com muita esperança a participação de meu amado Mengão na Libertadores. Este torneio já foi um bicho-papão e não é mais. Aliás, não vejo bichos-papões no futebol mundial.
Portanto, vamulá, Mengão! (Para desespero dos torcedores das Forças das Trevas, aquele time dos Comensais da Morte, dirigidos pelo Voldemort do futebol, aquele-que-não-deve-ser-nomeado, cuja sigla do nome é E.M., aquela molambada bacalhosa e sebenta, o time da “cruz-credo! de malta”, o clube que rima com “asco” [No Aurélio: asco=Sentimento ou sensação de repulsa ou nojo; repugnância]).
*
O ano de 2006 acabou. Deixou saudades? Será lembrado no futuro como um ano de antigas ternuras? Por mim, com certeza. Tenho nele “datas nacionais” para serem comemoradas eternamente. Tive maus momentos, é claro. Mas o saldo do ano foi altamente positivo.
*
Mas neste post gostaria de falar dos que se foram, no finalzinho do ano, e de quem terei saudades por representarem antigas e queridíssimas ternuras para mim.
Começando por:
Joseph Barbera
O menino Marco cresceu rindo e se divertindo com vários personagens que ele criou, junto com seu parceiro William Hanna, que foi para o andar de cima em 2001, primeiro ano do Século 21.

Posso citar alguns dos personagens que ele criou, na grife Hanna-Barbera, que acompanhei na TV ou nos gibis. Os meus favoritos são: Tom e Jerry, Flintstones, Jetsons, Jonny Quest, Dom Pixote, Pepe Legal, Zé Colméia, Olho Vivo e Faro Fino, Tartaruga Touché, Peter Potamus, Bibo Pai e Bobi Filho, Plic e Ploc e Chuvisco, Jambo e Ruivão, Wally Gator, Maguila Gorila... Acho melhor parar, porque a lista está ficando enorme. (Quer conhecer o mundo Hanna-Barbera? Clique aqui.)
Ah... Lembro do tempo em que eu chegava do colégio (em mil, novecentos e não vem ao caso...), ligava a TV, enquanto almoçava, para ver “Globo Cor Especial” ao som da musiquinha que nunca esqueci: “Não existe nada mais antigo, do que caubói que dá cem tiros de uma vez... Agora a gente deve ter saudade do zing! pou!...Do cinto de inutilidades...No nosso mundo tudo é novo e colorido...Não tem lugar pra essa gente que já era... Morcego velho, bangue-bangue de mentira, vocês já eram... O nosso papo é alegria!”

Passava depois de “Vila Sésamo”. Sempre tinha desenhos da dupla Hanna-Barbera. Ou era a “Corrida Maluca”, ou “Manda Chuva”, ou “Matraca Trica e Fofoquinha”, ou “Mosquete, Mosquito e Moscardo”, ou “Bacamarte e Chumbinho”... Tudo era visto com olhos brilhantes de um menino que sabia intuitivamente que na infância reunimos coisas num baú que mais tarde receberá o nome de “Recordações”...
Pois é. Um dos caras que ajudou a colorir a minha infância se foi, aos 95 anos, no finalzinho de 2006. E me despertou antigas, mas sempre queridas ternuras... Vai com Deus, Joe Barbera! Aposto que tem fila de anjos te pedindo pra desenhar um de seus personagens em pedaços de nuvens.
*
Outro que se foi e de quem trago boas lembranças foi o “papa do soul music”, o velho James Brown.

O curioso é que eu no início, não era chegado nas suas músicas. Lembro que estava no Científico (alô, moçada mais nova! Este era o atual “Segundo Grau”) e um amigo, o Wilsinho, vivia me dizendo que o “quente” era o Brown. Eu não levava fé. Dizia que preferia Marvin Gaye, Isaac Heyes, Steve Wonder... E nem dava a chance de ouvir direito aquele cara com cabelo que parecia cotonete de orelhão.
Até o dia em que o Nelson Motta passou um clipe do Brown no saudoso “Sábado Som”. Lembro que quando eu vi, levei um susto. Êpa! O que era aquele baixão bem marcado? E aqueles metais alucinantes? E mais importante; o que era aquela voz que fazia a gente se sacolejar mesmo sem querer?

Quando encontrei o Wilsinho estendi a mão à palmatória. O cara era bom mesmo!
Lembro que no final dos anos 90, James Brown esteve aqui no Brasil e fez um show no Metropolitan (atual Claro Hall). Fui com um casal amigo e dancei até cair, ao som de “Sex Machine” e especialmente de “I Feel Good”.
James Brown teve uma vida, huum... digamos, agitada. Foi preso diversas vezes por conta de drogas, por andar armado e por enfiar a mão na lata da esposa. É...O cara pegava pesado fora do palco. Mas eu estava mais interessado no que ele fazia dentro do palco. E o cara mandava muito bem. Não sei se ele foi pro Céu, pro Inferno ou por Purgatório. Mas seja onde for, tem festa no pedaço!
*

O terceiro que cantou pra subir em dezembro e me deixou saudades, foi um senhor chamado Carlos Alberto Braga, mas que muitos o chamavam de Braguinha ou João de Barro. Esse eu conheci pessoalmente. Fui na casa dele (em 1994) e fiz uma entrevista gravada em vídeo para o meu Banco de Dados sobre a História do Rádio.
Ele me deixou impressionado com a sua excepcional memória. Cantou para mim e para o amigo que estava na entrevista comigo trocentas de suas composições, desde a primeira que fez até a última. Contou histórias deliciosas, como a do dia em que foi assistir ao jogo Brasil x Espanha, na Copa de 1950. A Seleção Brasileira dando uma coça nos espanhóis, 6 x 1, e a torcida começa a cantar a sua marchinha “Touradas em Madri” (“Eu fui a uma tourada em Madri/E quase não volto mais aqui/Pra ver Peri/Beijar Ceci/Parará Timbum...Bum...Bum...”). Braguinha me disse que ali, naquele momento, quase teve um troço, ao ver/ouvir cento e tantas mil pessoas cantarem sua composição. Ele começou a chorar de felicidade. Nisso, um cara do lado dele, na arquibancada, comentou: “Vê só como são as coisas... Milhares de pessoas cantando de alegria e um espanhol filho da puta aqui do meu lado, chorando...”

Ah, Braga... Lembro que quando eu te convidei para ver a peça que eu fazia, “Na Era do Rádio”, você disse que iria, com prazer, levando a sua esposa, Dona Astréia, filhos e netos. Eu fiquei mais feliz ainda quando, do palco, eu os vi na platéia. Avisei ao Sergio Britto e ele, no fim da peça, dedicou o espetáculo a você, que foi aclamado pelo público.
Nem vou destacar nenhuma de suas várias músicas. Só vou lembrar que a letra do hino “Carinhoso” é sua, o que muita gente não sabe, acha que tudo foi feito por São Pixinguinha. E quem não disse ou escreveu para o ser amado: “meu coração, não sei porquê, bate feliz quando te vê...”? Eu já. E ela sabe que os meus olhos ficam sorrindo, e o muito, muito que eu a quero...
Vai com Deus, grande Braga! A Estrela D’Alva no Céu desponta e a Lua anda tonta ao saber que você está ali, cantando, pertinho dela...
*
Além destes, outras de minhas ternuras se foram em 2006, como Carequinha, Emilinha Borba, Al Lewis (o vovô Monstro)... É. Todos nós iremos um dia, não é? Não tem jeito...
Só uma coisa me preocupa neste novo ano: ele termina em 007. Como bem disse o Veríssimo, ele tem “licença para matar”. E aí é que mora o perigo...

***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Carinhoso”, hino imortal de São Pixinguinha e São Braguinha, na voz de Elis Regina, que completa, neste janeiro, 25 anos que se foi...