segunda-feira, novembro 06, 2006

A Feiticeira


Responda rápido: se você tivesse o poder de, ao mexer o nariz, fazer acontecer qualquer coisa, o que você faria primeiro?
Acho é o que se pergunta boa parte das pessoas que assistiam (ou assistem) ao seriado “A Feiticeira”. Entre as séries mais clássicas na história da TV mundial, certamente esta é uma das mais famosas.
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(Clip com 86 segundos)


Ela foi ao ar, pela primeira vez, na rede norte-americana ABC, no dia 17 de setembro de 1964 (véspera do meu aniversário) e fez um sucesso colossal, para a alegria dos executivos da rede que estavam temerosos com uma série que tratava de bruxarias em um país (hipocritamente) puritano. Mas até 1972, com 255 episódios em oito temporadas, a série foi gravada e agradou a todos, embora nos dois últimos anos de produção já não fizesse tanto sucesso. Os EUA passavam por transformações profundas e uma história de alegre magia e leves trapalhadas domésticas parecia não ter mais espaço na vida dos americanos.
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Mesmo assim, ela não deixou de ser reprisada, nem nos Estados Unidos nem no resto do mundo, Brasil inclusive. Até hoje ela passa tanto no canal 21, quanto no Nickelodeon. Mais de uma geração cresceu ao som daquela musiquinha inconfundível (aliás, é o ringtone do meu celular) que abria o seriado. (Quer ver um trechinho da abertura da série? Clique aqui.)
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(Clip com 97 segundos)

Para quem não conhece a série (será que existe alguém assim?) ou que quer relembrar do que se tratava, “A Feiticeira” (Bewitched, no original – que quer dizer “Enfeitiçado”) era sobre uma moça americana típica (Samantha) que se apaixonou por um publicitário (Darrin Stephens, mas no Brasil foi chamado na dublagem de James) e se casou com ele. Só que ela era uma bruxa. Ao mexer a ponta do nariz, tinha o poder de fazer quase qualquer coisa. E o que é pior: tinha uma família de bruxos altamente enlouquecidos que viviam transformando a vida do pobre James num inferno.
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A série lançou para o estrelato os seus protagonistas, Elizabeth Montgomery (que virou uma espécie de “Namoradinha do Mundo”) e Dick York. Ela era casada com o produtor da série, William Asher. E mesmo atores de sólida carreira, como Agnes Moorehead – a sogra Endora, mãe de Samantha – conseguiram enorme projeção com o seriado.
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Há muitas curiosidades interessantes envolvendo a série. Por exemplo: um dos principais atores – Dick York – teve de sair da produção, em 1969, por motivo de saúde. Foi substituído por Dick Sargent, sem se dar maiores explicações ao público e a mudança colou!
Outra: a filha da Feiticeira, Tabatha, foi representada por nada menos que cinco duplas de gêmeas: três no episódio do nascimento do bebê, uma quando a menina estava um pouco maiorzinha e uma, a que ficou mais tempo, pela dupla Erin e Diane Murphy.

Talvez a maior curiosidade é o fato de Liz Montgomery na verdade não mexer o nariz. Ela mexia a parte de cima do lábio superior (fazia isso sempre que estava nervosa, era um tique), mas o fazia com tanta habilidade que parecia estar mexendo o nariz.
Fofocas de bastidor: Três séries famosas eram filmadas na mesma época e nos estúdios da Colúmbia: A Noviça Voadora, Jeannie é um Gênio e A Feiticeira. As três atrizes protagonistas das séries (Sally Field, Barbara Eden e Elizabeth Montgomery) dividiam a mesma sala de maquiagem. Bárbara gostava de chegar cantando, o que irritava Elizabeth tremendamente, por ela gostar de silêncio pela manhã. Ela diariamente implorava para que a “Jeannie” parasse a cantoria (por que não a enfiava numa garrafa, não é?) e nem sempre conseguia que a atriz parasse de soltar seus gorjeios.

Aliás, quando a NBC quis lançar uma série concorrente de “A Feiticeira”, que seria “Jeannie é um Gênio”, seu criador, o escritor de best sellers Sidney Sheldon foi pedir a opinião de Sol Saks e William Asher, criadores de “Bewitched”. E eles deram muitas dicas.

Teve um episódio dos Flintstones em que A Feiticeira foi ser sua vizinha. Os personagens do desenho (na foto) foram dublados pelos próprios Liz e Dick.

Colocaram em David White (o Larry) o apelido de “Cabelo de Algodão” (Cotton Hair), o que o deixava enfurecido quando o chamavam assim nos próprios episódios.
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A série teve diversos personagens. Eu, particularmente, gostava de dois deles: o Dr. Bombay (“chamando Dr. Bombay, chamando Dr. Bombay, emergência, venha imediatamente!”), que costumava fazer suas aparições da forma mais hilária possível, e Phillys Kravitz, a vizinha que vias as coisas incríveis que aconteciam na casa de Samantha e começava a chamar o marido (“Abner! Abner!”) que nunca conseguia ver e por isso tachava a mulher de doida.
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Dos atores que fizeram parte do elenco da série, quase todos já faleceram. Entre os que mais apareciam:

Elizabeth Montgomery, em 1995, de câncer colorretal(quando os primeiros sintomas apareceram ela não deu importância... Se tivesse se tratado, poderia ter se curado); Dick York, em 1992

(morreu de enfizema, pobre e esquecido, gastando tudo o que podia em tratamento de saúde – veja em uma de suas últimas fotos); Dick Sargent, em 94, de câncer na próstata; Agnes Moorehead, em 1974, de câncer (dizem que todos os atores e técnicos envolvidos no filme "Sangue de Bárbaros" (The Conqueror), cujas filmagens foram feitas em um lugar que tinha sido usado para testes nucleares, morreram deste mal, incluindo John Wayne, Dick Powell e Susan Hayward);

David White, em 1990; Marion Lorne, a Tia Clara (na foto, com Agnes e Liz), em 1968, do coração; Alice Pearce, a primeira Phillys Kravitz, em 1966; Sandra Gould, a segunda, em 1999; George Tobias, o Abner, em 1980; Paul Lynde, o Tio Arthur, em 1982.
Ainda estão vivos: Bernard Fox (o Dr. Bombay), inclusive apareceu em “Titanic” e “A Múmia”; Alice Ghostley (Esmeralda), as gêmeas Erin e Diane Murphy (as Tabatha) e os gêmeos Greg e David Lawrence (os Adam, segundo filho de Sam e James).
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No ano passado, Nicole Kidman e Will Farrel fizeram um filme com o mesmo nome da série. Não era uma refilmagem, só uma homenagem. Mas o resultado foi horrível! Passem longe desse filme!
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Sobre a pergunta que fiz no início do post, a minha resposta é: eu mexeria o nariz para voltar até o ano de 1983 e corrigir certas coisinhas que deveria ter feito na época.
E você?
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Na TV Antigas Ternuras, você vê dois clipes: um com cenas do seriado, outro com a abertura do primeiro episódio. Divirta-se!
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Os comentários feitos aqui pelos que me honram com a leitura são sempre respondidos por mim quando divulgo novo texto. Salvo alguma impossibilidade, os dias de postagens são segundas, quartas e sextas.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Hino ao Amor


Ah, Edith… Minha amiga que tanto me acalentou em dias difíceis… Quando o Amor me trespassara o peito com uma flecha única, quando sofri, quando chorei por quem não tinha como retribuir minha paixão... Ah, Edith... É com você que quero falar hoje.
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Tenho o mesmo peito trespassado. Mas por uma seta que o inquieto Eros fez dividir em duas e feriu também outro coração. As palavras de amor que outrora saíam de meus lábios e ecoavam no vazio, hoje tem rumo certo.
Nesta minha modesta oração, quero louvar o seu amor... E por extensão, louvar a todos que amam o Amor que ama demais.
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Ah, ma petite Piaf... meu pequeno pardal de canto triste, qual uma fênix em exposta combustão, deixando-se crestar em holocausto freqüente. Querida Edith, hoje você já não canta mais. Agora você é a própria canção. Tomou o lugar dela, como imagino fosse o seu desejo.
Como disseste em sua canção de amor maior, nada importa se quem amamos nos ama também.
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Cante, querida Piaf... Cante para nós e nos mostre como amar com a sua força. Nas adversidades, precisamos amar assim. Acreditar que os que amam terão a Eternidade para estar juntos, onde problemas já não mais existirão.
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Se o amor chega na hora certa, mas no momento errado... Sempre nos restará o céu e toda a sua imensidão... Porque Deus há de reunir os que se amam, como os reflexos da Lua se unem ao azul do mar calmo.
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Obrigado por sua voz, querida amiga, obrigado por seu canto que nos umedece os olhos, refrigera o peito e nos faz diferentes de todos os seres vivos na Terra...
Fique com Deus, Piaf...

M.S.
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Edith Giovanna Gassion (1915-1963) nasceu em Paris, filha de um acrobata normando e de uma cantora de café descendente de italianos. Sua infância foi pobre e difícil ao lado da avó, que dirigia um bordel em Bernay, na Normandia. Devido a problemas de saúde, Piaf ficou cega por volta dos três anos de idade, recuperando a visão temos mais tarde.

No início da adolescência, Piaf passou a acompanhar o pai em algumas apresentações circenses. Aos 15 anos já cantava nas ruas de Paris, em cafés, feiras e praças. Nessa época, apaixonou-se por um soldado da legião estrangeira, com quem teve uma filha, Marcelle, que morreu antes de completar dois anos de idade. Mais tarde, após tentar inutilmente mostrar seu trabalho a algumas gravadoras e editoras, foi descoberta por Louis Leplée, dono de um cabaré famoso na época. Foi ele, dono de um cabaré famoso na época, quem a iniciou na vida artística e a batizou "Piaf" - passarinho.

Ela teve uma carreira de muito sucesso e uma vida de muitos amores, quase todos encerrados de modo triste. Seu grande amor foi o pugilista Marcel Cerdan (ambos na foto). Para ele, Piaf compôs sua célebre canção “L’Hymne à L’Amour”. Em outubro de 1947, ela estava em New York e Marcel em Paris. Ele iria encontrá-la após uma série de lutas beneficentes que faria em prol de pugilistas inválidos. Sozinha e saudosa, ela lhe telefonou e pediu que pegasse o primeiro avião, pois de navio, iria levar uma semana pra vê-lo. Ele tentou argumentar, ela insistiu muito.
Foi a última vez que eles se falaram. O avião que o transportava caiu próximo aos Açores, no Atlântico Norte.
Nessa mesma noite, Piaf tinha apresentação marcada em uma casa noturna de New York. Ao entrar no palco, depois de ser delirantemente aplaudida, ela pediu silêncio e disse que naquela noite cantaria só para Marcel, e iniciou a apresentação com a canção que fizera para ele. Ao final da quinta música, ela desmaiou no palco. Ao voltar a si, apenas balbuciava: “eu o matei!...”
Eis a tradução da sua canção maior:
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“O céu azul sobre nós pode desabar
E a Terra bem pode desmoronar
Pouco me importa, se tu me amas
Porque se me dá o mundo inteiro
Desde que o amor inunde minhas manhãs
Desde que meu corpo esteja tremendo sob suas mãos
Pouco me importam os problemas
Meu amor, já que tu me amas
Eu irei até o fim do mundo
Mandarei pintar meu cabelo de louro
Se tu me pedires
Irei dependurar a lua
Irei roubar a Fortuna
Se tu me pedires
Eu renegarei minha pátria
Renegarei meus amigos
Se tu me pedires
Bem podem rir de mim
Farei o que quer que seja
Se tu me pedires
Se um dia a vida te arrancar de mim
Se tu morreres, se tu estiveres longe de mim
Pouco me importa,
Se tu me amas
Porque eu morrerei também
Teremos para nós a eternidade
No azul de toda a imensidão
No céu não haverá mais problemas
Meu amor, acredite que nos amamos
Deus reúne os que se amam.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “L’Hymne à L’Amour”, na voz da cotovia da França: Edith Piaf...

quarta-feira, novembro 01, 2006

Sebastião e Maomé


Atendendo a milhares de pedidos dos leitores do Antigas Ternuras, prosseguimos com a explicação sobre a origem de expressões de uso corrente.
Apresentaremos duas que são bastante utilizadas.
A primeira é:

Ficar a ver navios.

Esta expressão é usada para definir o estado de alguém que está aguardando coisa boa e que acaba se decepcionado porque o que ardentemente esperava não veio. Mais ou menos como ficou Antônio Carlos Magalhães, na Bahia, e o PFL em todo o Brasil, nessas últimas eleições. Também é usada como sinônimo de “ficar na saudade”, “tomar uma volta”, “ficar com cara de bobo” e outras com palavras que não cabem num blog de família como esse, mas vocês já entenderam, não é?
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A origem dessa expressão remonta ao Século 16, quando D. Sebastião (1554-1578), rei de Portugal, decidiu ir pro pau contra os mouros islamitas, no norte da África. Na batalha de Alcácer-Quibir ele foi morto e o que é pior: seu corpo nunca foi encontrado. (E aí pergunto: por que o George W. Bush não seguiu o exemplo de D. Sebastião e foi guerrear pessoalmente no Iraque? Essas guerras modernas, sem a participação de quem as decretou, são um saco...)
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Já que não tinha um cadáver, o povo começou a achar que ele não tinha morrido, que fora arrebatado numa carruagem de anjos e que em algum momento voltaria, em toda a sua glória, para reassumir o trono português. Eles tinham de acreditar em alguma coisa melhor. Como o rei não tinha filhos, com o seu desaparecimento a coroa de Portugal iria para o parente mais próximo: ninguém menos que Felipe II, rei de Espanha, a grande concorrente da expansão marítima portuguesa. Estavam entregando ao adversário, de mão beijada, um vasto império colonial. Seria mais ou menos como se, com a morte do presidente do Corinthians, viesse a assumir o clube justamente o presidente do Palmeiras (podia dar um exemplo aqui do Rio, envolvendo o Mengão e o clube das Forças das Trevas; mas tanto quanto possível, quero essa raça longe do meu blog! Esses sebentos não servem como exemplo para nada!).
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Então, vejam só a situação: o rei desaparecido e a coroa indo parar na mão dos espanhóis. Ou seja, D. Sebastião tinha que voltar de qualquer maneira! Criou-se ali o movimento messiânico sebastianista, que suspirava e ansiava pela volta do rei. Diariamente, um bando de portugueses subia ao Alto de Santa Catarina, uma elevação de Lisboa, para ficar olhando pro mar, esperando D. Sebastião retornar. Pois é. O máximo que aquele povo conseguia era ficar a ver os navios passando na costa. E ainda aparecia um engraçadinho para perguntar:
- Ora, raios, Bastião já beio?

A outra expressão que explicaremos aqui é:

Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha.

Tudo bem. Eu sei que se costuma falar ao contrário, “se Maomé não vai à montanha etc. etc....” Mas ela originalmente foi criada da outra forma, significando se alguém não dá o primeiro passo, cabe a outrem fazê-lo. Porque foi exatamente assim que o fato aconteceu. Se não, vejamos:
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Maomé (570-632), profeta do islamismo, passou anos pregando a nova religião, baseada no único Deus, Alá. Ele conseguiu converter muitos novos fiéis, mas uma boa parte do povo estava reticente em acreditar no que ele pregava.


Certa vez, estava falando de seu Deus para um grupo de árabes, que o desafiaram: se Alá fosse mesmo tão poderoso, que ele, Maomé, movesse o monte Safa para perto de si. O profeta tentou, mas não conseguiu.

Daí, já que a montanha não veio até Maomé, ele foi até próximo do tal monte e lá disse aos seus desafiantes que foi uma graça de Alá ele não ter conseguido o milagre. Segundo ele, se a montanha tivesse se movido, mataria todos ali reunidos.
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Você achou que foi muito “171” de Maomé mandar essa pra cima dos caras? Tudo bem, pode até ter sido. Mas não sou eu quem vai dizer isso. Vai que um fundamentalista lê um troço desses aqui e resolve botar uma bomba no blog, olha só a situação!
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras você está ouvindo “Danças Sagradas de Isis”, por Marcus Viana.
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Em fins de outubro de 2005, há exatamente um ano, eu coloquei um contador no blog. De lá pra cá, mais de 20 mil visitas. O que me alegra muito. Pra vocês, 20 mil beijos!

segunda-feira, outubro 30, 2006

Túnel do Tempo


Quem me acompanha há mais tempo sabe que eu sou fascinado pelo tema “viagem no tempo”. Meu filme favorito é “Em Algum Lugar do Passado” e ainda tenho um blog que se dedica em relembrar os bons tempos vividos.
Logo, não é de admirar a ninguém que eu tenha a antiga série “Túnel do Tempo” como uma de minhas favoritas.
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Ela foi produzida entre 1966 e 1967 e infelizmente só durou uma temporada de 30 episódios. Irwin Allen, seu criador, disse que a baixa audiência que teve no canal ABC não justificava os altos custos da produção de cada episódio. Depois que a série foi cancelada, virou cult, sendo reprisada sempre. Atualmente, pode ser vista aos sábados, no canal pago TCM.
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A série tratava das histórias vividas por dois cientistas que trabalhavam para o supersecreto Projeto Tic-Toc, que tinha custado bilhões de dólares ao governo americano. Tratava-se de uma máquina, o Túnel do Tempo, que podia transportar pessoas e objetos através do tempo. O elenco básico da série era: James Darren (Dr. Anthony Newman), Robert Colbert (Dr. Douglas Phillips), Lee Meriwheter (Dra. Ann McGregor), Whit Bissel (General Kirk) e Jon Zaremba (Dr. Raymond Swain).

Logo no primeiro episódio, para impedir que um senador americano cortasse a verba para o projeto, primeiro Tony e depois Doug, entram no Túnel e vão para o passado, caindo a bordo do Titanic, na véspera do choque com o iceberg. Já deu para sentir a agonia que dava vê-los tentar convencer o comandante do navio (na foto) que aquela joça iria afundar...
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Como a máquina do tempo ainda estava em estágio experimental, os dois não podiam retornar ao tempo presente. Por isso, nos episódios seguintes, eles foram para diversas épocas, vivendo aventuras com personagens da História mundial ou presenciando fatos históricos marcantes: uma aparição do cometa de Halley (1910),

Pearl Harbour, um dia antes do bombardeio japonês (1941) (veja a foto), a Guerra de Tróia, a Revolução Francesa (1789), o presidente Lincoln (1861), Merlin e o Rei Arthur, Josué e as Muralhas de Jericó, Genghis Khan... E o mais curioso é que onde quer que caíssem, todo mundo falava em inglês!
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De qualquer forma, no Brasil, a série foi um grande sucesso tendo sido até utilizada como referência por professores de História. O menino Marco ficava fascinado por aqueles caras que podiam viajar no tempo pra lá e pra cá. Eu imaginava se um dia isso seria mesmo possível e que eu adoraria ser voluntário para um projeto desses. Pensava que eventos eu gostaria de conhecer ao vivo e em cores.

De cara, o primeiro que eu gostaria de presenciar seria os últimos dias de Jesus na Terra. Além do lado religioso, eu ia querer conferir aspectos que estão nos Evangelhos e que eu acho que foram deturpados ao longo do tempo. Mas, como não falo hebraico antigo, ia querer viajar no Túnel do Tempo imaginando que Jesus, Pedro, Judas, Pôncius Pilatos, todos falassem em inglês para eu poder me comunicar com eles.
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Dos atores que participaram do elenco da série, Bissel e Zaremba já faleceram. Lee Meriwheter

virou uma vovó lindona, aos 71 anos (veja a foto), James Darren (70 anos) se tornou um cantor de Las Vegas, com um jeitão brega toda vida

(veja a foto da capa de um de seus discos) e Robert Colbert (75 anos) vive aparecendo em eventos que celebram as antigas séries de TV. Só que engordou, ficou careca, mais parecendo aquele tio-avô super-divertido que a gente tem (veja a foto também).

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E você, gostaria de viajar no Túnel do Tempo? Que evento histórico gostaria de presenciar?
M.S.


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Na TV Antigas Ternuras, você vê um clip com cenas de alguns episódios da célebre série.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Uma visita do passado


Noutro dia, estava chegando ao meu condomínio e o porteiro me avisou que tinha alguém à minha espera na recepção. Vou até lá e vejo, de longe, um homem velho com um imenso saco vazio nas mãos sujas e sem viço. O aspecto geral daquele idoso era de absoluta derrocada.
- Pois não. O senhor quer falar comigo? – perguntei, curioso.
Ele me olhou com olhos enevoados, mas ainda vivazes. Um leve sorriso encrespava-lhe a comissura dos lábios.
- Você não se lembra de mim? – inquiriu-me com voz rouca e um tantinho zombeteira.
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Curioso. Ao ouvi-lo, me deu a impressão de que já tinha escutado aquela voz. Entretanto, passando mentalmente sua fisionomia por toda uma lista de pessoas possíveis não conseguia obter resultado favorável.
- O senhor me conhece de onde?
- Desde quando você era bem pequeno e se recusava a comer o que sua tia colocava no prato.
Naquela hora eu gelei. Claro! Só podia ser ele! Eu tinha ali, diante de mim, o “Velho do Saco”!
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Quando eu morei um tempo com meus tios, no bairro da Piedade, na hora do almoço eu costumava ficar enrolando para comer o que não fosse apetitoso para crianças de seis anos, como era o meu caso. O bife e a batata frita eu encarava na boa. Mas arroz e feijão, se eu pudesse, ficava engabelando até pararem de insistir com a famosa frase “Come, Marquinho!” Era aí que entrava em ação o “Velho do Saco”. Meu tio Jair dizia assim:
- Ah, não vai comer, não? Então eu vou chamar o “Velho do Saco”!
E ia para a varanda, falando alto: “Velho do saco! Aqui tem um menino que não quer comer arroz e feijão!”
Em seguida, eu ouvia um som gutural, que dizia:
- Cadê o menino que não quer comer! Vou botar ele aqui no saco!
Era o bastante para o pânico e o pavor tomarem conta de mim! Em rápidas garfadas, eu dava cabo de tudo o que estivesse no prato.
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Tudo começou com uma história que meu tio contou sobre um velho que pegava crianças, colocava em um saco e as levava para fazer sabão. Meu tio narrava com detalhes sórdidos e absolutamente aterradores. Na cabeça de uma criança, que já fantasiava tudo, que lia gibis, Monteiro Lobato, livros de aventuras com monstros mitológicos, aquilo era uma festa! Daí, o “Velho do Saco” era sempre convocado para resolver questões básicas sobre minha alimentação.
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E eis que eu o via ali, diante de mim. E justamente no momento presente, quando mais preciso fechar a boca e não comer desembestadamente. Quando tento evitar que esta massa adiposa, que insiste em crescer ao redor da minha cintura, não se desenvolva além do razoável!
- Olha, já não tenho mais medo de você... Eu estou crescidinho... – tentei contemporizar.
O Velho riu gostosamente.
- Já percebi. E não cresceu só pra cima, não. Pros lados também...
Aí já era demais:
- Péralá! O senhor veio aqui pra me chamar de gordo?
- Não. Preciso de um favorzinho. Pelos velhos tempos. – disse-me, piscando um olho cheio de catarata e buscando cumplicidade.
- Favor? Que tipo de favor?

- Explico. Hoje em dia, ninguém acredita mais em mim. Os pais que assustei quando pequenos se recusam a me invocar pra assombrar seus filhos. Tem um bando de desocupados, esses psicólogos que ficam inventando essa bobageira de que não se deve assustar as crianças, que traumatiza. Besteira! É melhor que elas tenham medo de personagens do imaginário a estarem desde cedo envolvidas no mundo real dos adultos. Hoje, elas já têm medo de ladrão, de bala perdida... No outro dia, eu vi uma mulher dizendo ao filho que se ele não se comportasse iria chamar a polícia. Ao terem medo de mitos, estão estimulando a fantasia. Logo crescem e deixam de se amedrontar com este pobre Velho do Saco. Passam a ter medo de coisas bem mais paupáveis... Estou te dizendo: mito não traumatiza. A violência, sim.
- É... De certa forma eu concordo com você. Minha família me criou me botando medo de você e nem por isso eu virei um serial killer de pais.
- Não é o que eu digo? Pois é. Com isso, muitos personagens do imaginário infantil estão desaparecendo ou tendo que se adaptar aos novos tempos, como a Cuca, que agora tem crachá da Rede Globo, inclusive.

O Bicho Papão faleceu no mais completo esquecimento. Fui no enterro. Que tristeza! Que abandono! Somos criados e nutridos pelo medo infantil. Se as crianças nos desconhecem, como poderemos sobreviver?
- É. Faz sentido. Mas onde eu entro nisso?
- Soube que você escreve sobre coisas antigas... Que gosta de relembrar histórias gostosas dos bons tempos... Daí...
- Daí?
- Não dava para você falar de nós? De mim, por exemplo? A simples lembrança da minha figura já me sustentaria por algum tempo. Escreva sobre o seu bom amigo “Velho do Saco”.
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Eu olhei para aquela criatura tão estranha, que, no entanto, fez parte de mim, de minhas lembranças por longo tempo.
- Vou ver o que eu posso fazer. Não prometo nada.
Ele sorriu um sorriso sem dentes a mostra. Será que eu percebi mesmo um certo brilho, uma faísca naquele olhar?

Por um instante fiquei pensando nos medos que tive quando criança, em quadros mentais que eu criava masoquistamente para sofrer, para expressar a minha dor.
Quando levantei os olhos, o Velho já tinha se afastado. O menino que há em mim sentiu um calafrio lhe percorrendo a espinha. Na mesma hora, vi o saco que ele levava às costas adquirir um pequeno volume. Ele parou a sua caminhada, girou e me olhou agradecido. Fiquei acompanhando a sua figura se perder de minhas retinas, virando numa esquina de minha memória.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras você ouve “Adagio Albinoni”, por André Rieu.
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Para quem nunca ouviu falar no “Velho do Saco”: Mito antigo de origem européia, que chegou ao Brasil via Portugal. Aqui, se desdobrou em algumas variações. No Sul brasileiro, é um velho que arranca os olhos das crianças mal-comportadas. No Nordeste é conhecido como Papa-Figo, um velho que se alimenta do fígado de crianças que atrai com doces e brinquedos. No Sudeste, alguém que pega crianças desobedientes para fazer sabão. Cada um a recontava segundo seus próprios objetivos para assustar os pequeninos.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Abraços grátis


Imagine você andando na principal avenida de sua cidade e então subitamente encontra alguém com um cartaz escrito:
“Abraços grátis”
O que você faria?
a) Virava o rosto para o outro lado e passaria batido
b) Pensaria na razão de o hospício deixar esse maluco solto por aí
c) Apertaria a bolsa ou a carteira de encontro ao corpo achando que o cara é um tremendo 171
d) Abriria um sorriso e os braços e topava o convite.

Vamos ver, na TV Antigas Ternuras, o que fizeram os passantes da rua onde o cara exibia o tal cartaz.



Como vocês viram, mais de cinco mil pessoas entraram no jogo. Ficou até uma cena bacaninha, algo com bastante humanidade (no sentido de benevolência e amor ao próximo). Eu acho muito legal a chamada "Terapia do abraço". Nada como um pouco de sentimento no nosso cotidiano.
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Mas fico pensando no que aconteceria se alguém fizesse isso aqui, no meu Rio de Janeiro. Uma pessoa, com um sorriso largo, em plena Avenida Rio Branco, ou no Largo da Carioca, com o tal cartaz.
O historiador Sergio Buarque de Holanda (pai do Chico) disse que o brasileiro é um “homem cordial” (há controvérsias; dizem que o primeiro a falar isso foi Rui Ribeiro Couto). Essa tal cordialidade seria, segundo ele, relativa ao fato deste homo brasilis agir segundo o coração; nem tanto no sentido de ser bondoso e bem mais por orientar suas ações pelo afeto e pelo rápido clima de intimidade que ele logo estabelece.
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Nesta linha, imagina-se que uma empreitada como essa seja um baita sucesso, com o Largo da Carioca ou a Avenida Rio Branco se abraçando, com todos emocionados.
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Pessoalmente, tenho minhas dúvidas se isso aconteceria mesmo.
Os costumes, hábitos, práticas sociais são adequados a cada tempo. Na época das antigas ternuras, o riso e o abraço eram bem mais francos do que hoje. Atualmente, andamos pelas ruas assustados, imaginando se a “roleta russa da violência” não vai nos alcançar desta vez. Aqui no Rio, no último final de semana, uma família estava em seu carro, na Tijuca, quando foram parados por dois assaltantes. Os sujeitos depenaram a família e os passaram para o banco de trás, saindo com o carro. Os meliantes não andaram nem 500 metros e foram parados por outros dois ladrões, que fizeram a limpa nos “colegas de profissão” (realmente, já não se tem mais ética neste país...) e saíram com o carro deixando todos na rua.

Num clima como esse, daria para a gente sair abraçando desconhecidos por aí?
Não me admiraria se aparecesse mesmo por aqui um cara com esse cartaz, alguém fosse abraçá-lo e ele diria baixinho no ouvido da vítima: “Perdeu! Perdeu! Não reage que isto é um assalto. Vai passando a grana!”
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Estou exagerando?
Talvez sim, talvez não. Na dúvida, se alguém vier me dar um abraço grátis, antes vou “dar uma geral” no cara, revisto-o de cima a baixo e se ele estiver “limpo”, sem nenhum “ferro”, aí, sim, abraço na boa.
Como se dizia no tempo das antigas ternuras: “seguro morreu de velho!”
M.S.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Vaias em Palmas


Não sei vocês, mas eu sempre gostei de uma boa prosa, daquele papo descontraído entre amigos, onde a gente relata histórias mirabolantes, descreve com minúcias fatos hilariantes, conta vantagens descaradamente para tentar impressionar os outros.
Isso costuma ocorrer com freqüência quando uma roda de homens se faz em torno de uma mesa num boteco. Eu não sei se o mesmo ocorre em um círculo só de mulheres. Para mim, por exemplo, continua insondável o mistério das idas coletivas delas ao banheiro feminino. Sabe-se lá o que conversam naquele recinto! Ou talvez nem conversem tanto, mas prefiram ir juntas para evitar que uma fale mal da outra, ou para impedir que uma avance no homem da ausente. Vai saber...
*

Mas quando um grupo de homens está junto, e os trabalhos e conversas são abertos com uma cervejinha gelada, pode apostar que teremos um festival de risos e gargalhadas.
Uma vez encontrei um amigo meu, começando a contar um de seus “causos”. Como eu conhecia a “peça”, pressenti que dali vinha coisa...
- Ô, grande Marco! Tá sumido! Senta aí, ouve só essa...
Esse meu amigo – vamos chamá-lo de “Carlos” – é um manancial de histórias daquelas da gente ficar com dor na coluna de tanto rir. O curioso é que ele não sabe contar piadas. As histórias que ele narra aconteceram com ele ou com a família dele e são engraçadíssimas. Ouvi-las é certeza de mandíbulas doendo de tanto gargalhar. Eu tinha sabido que ele esteve fora por uns quatro meses, em viagem a serviço pela empresa em que trabalhamos. Mas, deixa o Carlos contar...
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- O meu chefe me mandou para Palmas, no Tocantins, para coordenar um trabalho lá. Disse que eu ficaria pelo menos uns três meses. Minha mulher detestou a idéia. Reclamou pra dedéu. Mas eu a convenci dizendo que com as diárias que eu ia economizar poderíamos trocar de carro. Ela já estava cansada de ficar na estrada, com as meninas, por conta de enguiços do “Trovão Azul”.
“Trovão Azul” era como ele chamava o carro deles. Era um Chevette 81 que roncava feito um enceradeira, sacolejava feito uma batedeira de bolos, esquentava mais que um fogão quatro bocas. Quer dizer, aquilo era um eletrodoméstico, nunca um meio de transporte!
Prosseguindo:
- Fomos pra Palmas eu e o “Peixoto” (melhor não dar o nome real de ninguém envolvido nessa história...). Chegando lá, fomos prum hotel baratinho, mas limpo. Em pouco tempo eu já estava nos braços da putalhada.

E eu acredito! Poucos caras que eu conheço tem tanta vocação para “cair nos braços da putalhada” do que o Carlos. Ele não rejeita ninguém! Com ele, se o coração está batendo, se for mulher, se fizer sombra no chão e der pra ele, não tem jeito! Ele cai dentro!
Mas, fala Carlos:
- Uma noite eu estava numa boate, eu e o Peixoto, aí fizemos amizade com a filha de um figurão de lá, que estava acompanhada por um grupo grande. Juntamos as mesas e ficamos lá de papo. A mulher me olhava de um jeito que eu senti que iria me dar bem. Começamos a tomar uns uísques. Eles estavam me chamando de “Branco”. Numa hora lá, a Maísa (nome fictício, é claro...), botou a mão na minha perna. Pensei: “essa morre hoje”... E era um tal de Branco pra cá, Branco pra lá...
O apelido de “Branco” tinha as suas razões. Carlos tem mais ou menos um metro e 85 de altura, é louro, de olhos verdes. Lá em Tocantins, uma figura quase nórdica como essa devia se destacar. Daí, virou “Branco”. O apelido pegou e até os companheiros de trabalho o chamavam assim.
Prossiga, Carlos:
- Uma hora lá, a Maísa, cheia de birita nas idéias, chegou no meu ouvido e disse: “Quero dar pra você, Branco. E vai ser hoje!” Topei na mesma hora, claro. Pensei em levá-la lá pro quarto do hotel.

Chamei o Peixoto e falei: “Aí, eu vou comer essa mulher lá no nosso quarto. Posso contar com a sua colaboração?” O Peixoto disse: “Tudo bem, mas eu quero ver!” “Que isso? Vai querer entrar no quarto? Ela não vai topar...” “Não, eu fico escondido lá na varanda. Você deixa a janela aberta, puxa a cortina que eu fico só espiando por uma fresta. Ah, deixa, vai!...” “Tá legal. Mas, ó, não vai me empatar a transa, heim?” “Não, fica tranqüilo. Só quero dar uma olhadinha”.
E assim foi. Levei a Maísa pro quarto, o Peixoto ficou lá na varandinha, só de butuca, só olhando.
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Enquanto a Maísa tirava a roupa, Carlos foi até o banheiro do quarto e voltou de lá com uma latinha de Pomada Minâncora (nem me perguntem o que ele pretendia fazer com ela!...). Começaram os embates amorosos. Peixoto só de olho. Foi quando Maísa começou a apresentar o seu repertório de gritos:
- Ai, Branco, vai, Branco! Ai meu Deus! Huuuummm, vem, Branco! AHHHHHHH, BRANCOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!
A mulher gritava, bufava, resfolegava, gemia, gania, rangia, rugia, vociferava tudo ao mesmo tempo e EM ALTOS BRADOS! Ela berrava mais que porco na faca, fazendo um escândalo que excitava mais ainda o nosso herói.

Aliás, numa hora lá, ele levantou a cabeça e viu, por trás da janela, Peixoto pulando e agitando os braços. Aí pensou: “Ele está gostando. Vou caprichar mais ainda na performance.”

Dali pra frente o que se viu é absolutamente inenarrável neste blog de família. Era lept! lept! lept! E vap! vap! vap! E tome-lhe! tome-lhe! tome-lhe! Com a mulher se esganiçando cada vez mais e cada vez mais alto:
- AI, ME MATA, BRANCO! VAI, BRANCO! ME CHAMA DE VAGABUNDA, BRANCO! AIIIIIIIIIIIII, BRANCOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
(Fora o que ele contou que ela gritou, mas que eu não reproduzo aqui de jeito nenhum!...)
Do lado de fora, na varanda, Peixoto pulava alucinado e, para o Carlos, era sinal de que estava aprovando a sua, digamos, exibição.
Na verdade, as razões da agitação do Peixoto eram bem outras.

Naquele hotel também estava hospedada uma delegação de evangélicos da Assembléia de Deus que ia participar de um Congresso na cidade. Quando os crentes ouviram aquela gritaria, começaram a sair dos quartos aos brados de “É o apocalipse! Isso aqui é o reino de Satanás! Salve-nos, Senhor Jesus!”
Eles se reuniram em frente ao estabelecimento em total desespero achando que tinham se hospedado no hotel dos infernos, em meio a luxúria e a perversão.
Quando os ardorosos amantes encerraram aquela verdadeira batalha de sexo, saliência e libidinagens, Maísa foi até o banheiro para tomar um banho. Nisso, Carlos chegou até a janela para perguntar se o Peixoto tinha gostado do espetáculo.
- Se eu gostei? Vem só dar uma olhada lá pra baixo...

Carlos foi e viu um bando de crentes, alguns rezando ajoelhados, outros falando em línguas e outros puxando o coro de “Glória, Glória, Aleluuuuuuuuia!”
Os evangélicos procuraram a direção do hotel para protestar e tentar parar com aquela pouca-vergonha, mas como achar o gerente às duas horas da manhã?
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No dia seguinte, Carlos entrou no refeitório do hotel para tomar café da manhã com a cara mais limpa. Mas já tinham identificado de qual quarto saiu aquele escândalo todo. No que ele botou os pés no refeitório, recebeu a maior vaia dos crentes da Assembléia. Sem contar os chamamentos de “tarado”, “safado”, “sem-vergonha” e “belzebu-capeta” que ele teve que ouvir.
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A direção do hotel, gentilmente convidou os dois, o saliente e o voyeur a se retirarem do hotel. E eles tiveram que procurar outro lugar para encostar seus panos de bunda.
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Enquanto ele narrava essas histórias pra todos nós que estávamos na mesa, de ouvidos ávidos, sem nem piscar, mais e mais pessoas foram atraídas para o grupo pelas nossas risadas, quase tão histéricas que os gritos da Maísa.
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Se aquilo foi verdade? Parece que sim. Procurei o Peixoto e ele me confirmou tudinho e disse que nunca passou tanta vergonha como naquela noite.
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Bem, meninas, vocês agora têm uma mostra do que rola nas mesas de bar em grupos só de homens. Aos meninos, recomendo que não façam essas estripulias do Carlos sem acompanhamento profissional. Afinal de contas, o Ministério da Saúde adverte: “Fazer saliência com mulher histérica é prejudicial a qualquer reputação”.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Je t’aime moi non plus”, com Serge Gainsbourg e Jane Birkin.
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Queridos amigos: o Antigas Ternuras ficou fora do ar neste fim de semana por alguma razão que desconheço. Provavelmente esta anta que vos escreve fez alguma lambança. Quando republiquei o blog, ele voltou a aparecer. Peço desculpas pelos entreveros.
E continuamos no rumo do visitante número 20.000! (Quem será?...)