
Ontem a Rádio Nacional completou 70 anos. Uma data marcante para a história das comunicações do País e para o escriba deste blog, visto que definitivamente a Rádio Nacional sempre será uma de minhas mais caras e antigas ternuras.
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Para quem tem menos de 40 anos, talvez a Nacional não signifique muita coisa. Mas para
nosotros, mais...huuumm... experientes, ela representa uma viagem ao mundo mágico da imaginação, com delícias incomparáveis. Perguntem aos pais e avós de vocês. Talvez eles lembrem o que é acompanhar o “Direito de Nascer”, ou “Jerônimo, o Herói do Sertão”, construindo na mente a história, todo o cenário, os personagens, somente a partir dos sons que saíam daquela caixinha encantada.
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O “Direito de Nascer” eu não ouvi, também não sou tão velho assim; mas “Jerônimo”? Ah... Não perdia um capítulo! Ainda hoje eu sei cantar todinha a música-tema:
Quem passar pelo sertão
Vai ouvir alguém falar
Do heróis desta canção
Que eu venho aqui contar
Se é pro bem, vai encontrar
O Jerônimo protetor
Se é pro mal, vai encontrar
O Jerônimo lutador
Filho de Maria Homem nasceu
Serro Bravo foi seu berço natal
Entre tiros e tocaias cresceu
Hoje luta pelo bem contra o mal
Galopando, está em todo lugar
Pelos bravos a lutar sem temer
Com Moleque Saci pra ajudar
Ele faz qualquer valente tremer...
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Lembro de mim, garotinho ainda, acompanhando atentamente “Histórias do Tio Janjão – Do tempo em que os bichos falavam”. Ou gargalhando, ouvindo “Balança Mais Não Cai”, especialmente com o quadro “Primo Pobre, Primo Rico”. Sem nem sequer imaginar que no futuro, eu seria amigo do “Ratinho Timóteo” (feito pelo radioator Gerdal dos Santos) e do “Primo Pobre”, inesquecível criação do meu diletíssimo Brandão Filho.
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E os cantores e cantoras? Eu me recordo que quando andava de trem, ou de lotação, vinham os vendedores de Modinhas, revistinhas com as letras dos principais sucessos lançados pelo Rádio. Eu pedia pra comprarem pra mim e depois ia imitar os artistas. Precisavam me ver cantando “Conceição”, que nem o Cauby Peixoto! Quem diria que muitos anos depois eu iria fazer este número em Teatro, na peça “Nas Ondas do Rádio”, que escrevi e apresentei em 2002, com enorme sucesso...
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Na briga Marlene x Emilinha, eu sempre fui Marlene. Mas depois que conheci as duas, conversei bastante com elas, as entrevistei pro meu banco de dados sobre a História do Rádio, fiquei sem preferida. Gosto das duas, indistintamente. Lamentei muito o passamento da Miloca. E até hoje, quando encontro a Marlene, lembro das fofocas sobre o povo do Rádio que ela me confidenciou.
Nunca vou esquecer da Emilinha, a “Favorita da Marinha”, toda faceira, cantando “Se a canoa não virar, olê, olê, olá... Eu chego lá!”... Ou da “Favorita da Aeronáutica”, a talentosíssima Marlene, cantando “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Mariiiiiia...”
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As duas eram as grandes damas dos programas de auditório da Nacional. Especialmente no “Programa César de Alencar”. Lá em casa, às 15 horas dos sábados, aquela célebre musiquinha ressoava pelos cômodos:
Essa canção nasceu pra quem quiser cantar
Canta você, cantamos nós até cansar
É só bater (plá, plá, plá, plá!)
E decorar (plá, plá, plá, plá!)
Pra recordar vou repetir o seu refrão
Prepare a mão (plá, plá, plá, plá!)
Bate outra vez (plá, plá, plá, plá!)
Esse programa pertence a vocês!
Quando eu fiz o personagem “César de Alencar” no Teatro e entrava em cena dizendo, como ele fazia, “Alô! Alôô! Alô!”, a platéia vinha abaixo...
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Em 1994, o ator e diretor Sergio Britto me convidou para o elenco e também ser um dos pesquisadores da peça “Na Era do Rádio”. Foi ali que emburaquei no assunto “Rádio” e em especial, na Rádio Nacional. Montei um banco de dados a partir das minhas pesquisas e principalmente com base nos muitos artistas da RN que eu entrevistei e que acabaram virando meus “amigos de infância” (alguns já o eram, sem eles mesmos saberem...). Destes, destaco, além do Gerdal e do Brandão, Hélio do Soveral, Nádia Maria e Ênio Santos, entre os que já foram pro andar de cima, e a cantora Elen de Lima, minha querida amiga...
Amigos de eu freqüentar a casa. E mais outros que são tantos que relacioná-los encompridariam muito este post.

Além dos próprios artistas, eu virei amigo dos familiares deles também. Cito, por exemplo, minha grande amiga Isabela Saes, neta do meu ídolo Lauro Borges, mentor e principal personagem da “PRK-30”, um dos melhores programas humorísticos de todos os tempos. Aliás, eu já contei aqui, foi graças a Isabela que eu criei este meu blog.
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E aí está... 70 anos de um sonho chamado Rádio Nacional. Muita gente do passado diz que a RN foi, nos tempos áureos do Rádio, o que a Rede Globo é hoje, na Era da TV. Eu discordo. Guardadas as devidas proporções, a Globo não tem a dimensão que a Nacional possuía. O “Plim-Plim” não teve cinco orquestras contratadas, nem todos os maiores comunicadores, nem os maiores cantores, todos assalariados da emissora, que foi a primeira a projetar a arte do Brasil para todo o mundo. Nos bons tempos da Nacional, ela era ouvida, em ondas curtas, até em Moscou! E recebia correspondência de ouvintes de lá.
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Pelo microfone da Rádio Nacional passaram grandes artistas da música, do Teatro, da cultura... Lembro com saudade de programas que preenchiam minhas tardes e noites de guri. Recordo de “Incrível, Fantástico, Extraordinário”, com o inigualável Almirante (ali, aprendi a gostar de histórias de terror...), de “As Aventuras do Anjo”, de “Um Milhão de Melodias”... E hoje me orgulho de ter todos estes programas em fita cassete, que guardo como tesouro!
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Parabéns pelos 70 anos da Nacional! Eu agradeço pelos sonhos que ela me proporcionou em minha infância. E fez tantos outros sonharem antes de mim... Tudo começava ao girar um botão... Durante muitos anos, esse gesto foi repetido várias vezes ao dia em milhares de lares brasileiros. O aparelho de Rádio, aquela caixinha mágica, foi, por décadas, mais um parente a conviver nas casas. Todas as noites, as famílias voltavam as atenções na sua direção. Era o “oratório” das gentes, pobres e ricas, que só tinham que deixar a imaginação preencher as molduras que as vozes carregadas em erres colocavam à disposição dos ouvintes.
Muitas de minhas ternuras começaram pela Rádio Nacional... Eu me sentia parte de um universo especial, quando ouvia o locutor falando “amigo ouvinte”... Ah, querida emissora! Nas suas ondas, o barco da minha imaginação sempre navegou com brisa leve, a partir de um simples toque em seu dial... Que vivas para sempre, como um monumento à arte e ao talento do Brasil. E como um marco do menino Marco, com sua eterna cabeça de sonhos...
M.S.
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Na Rádio Nacional do Antigas Ternuras, você ouve Cauby Peixoto e a sua eterna “Conceição” (no Teatro eu cantava igualzinho, podem acreditar...)