Domingo é dia em que tenho muitas ocupações. Quase não tenho tempo para tanta coisa. Para começar, inicio o dia como terminei a noite de sábado. Dormindo. E durmo até partes remotas de minha anatomia fazerem bico.
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Acordo, banho, desjejum, jornal. Resolvo caminhar na Quinta da Boa Vista, aqui pertinho. São 40, 50 minutos de marcha batida. Volto pra casa, mais banho. Normalmente, vou almoçar na minha mãe. Mas não é incomum eu pilotar as poderosas turbinas do meu fogão e preparar o meu rango dominical.
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Com o bucho cheio, o próximo tópico da minha agenda é fun-da-men-tal. Eu me estiro no sofá, me dedicando à prática do escutar cabelo crescer. De vez em quando pego um resto de jornal, mas na maior parte do tempo eu me ocupo mesmo em dar ouvidos aos meus capilares. Boto um CD para tocar e fico nessa ocupação até enjoar. E eu demoro pra enjoar disso.
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Neste domingo, botei um CD da Nana Caymmi, me larguei no sofá, um tasquinho do Globo na mão, ê vida mais ou menos! No que toca essa música que vocês estão ouvindo, esse clássico de Aldir Blanc, levanto os olhos do jornal. Um portal, que conheço muito bem, se abre na minha cabeça. Uma idéia entra em gestação.
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Nisso, toca a campainha. Vou abrir a porta e... surpresa! Era o Tempo vindo me visitar.
- Ora, ora...Quem é vivo sempre aparece! – exclamo com alegria.
- Se não matam o tempo, eu estou sempre vivo... – ele me responde sorrindo.
- Por favor, entre! A que devo a honra?
- Eu estava passando...
- Sei...O Tempo passa... – interrompi.
Ele fingiu que não percebeu a piada infame.
- ... e resolvi vir te fazer uma visita rápida... Se você tiver tempo, é claro.
Retribuí na mesma moeda, ignorando a gracinha dele.
- Toma alguma coisa? – perguntei, amigável.
- Tempo não toma...Os outros é que tomam tempo... – respondeu, com um sorriso cínico afivelado na cara de pau.
- Huummm...Bem humorado. Gosto disso. Mas o que fiz para merecer sua amável visita?
- Vim lhe agradecer. Você tem me dedicado muito tempo...
- Ah, muito obrigado. Faz tempo que não ouço um agradecimento tão sincero...
- É de coração, pode acreditar.
- Tenho mesmo escrito sobre um de seus filhos...
- O Passado....É...ele é o meu mais velho. Me dá mais alegrias que tristezas.
- A mim também. Que coincidência. De seus outros filhos, o Presente e o Futuro, eu também gosto. Mas você entende, minhas afinidades são com o Passado...
- Entendo, é claro. Meu filho do meio, o Presente, também é ótimo. Mas vive com pressa. A gente quase nem o percebe...
- O seu caçula eu nunca vi...
- Ah, do Futuro ninguém sabe, não é?
Resolvo provocar o Tempo.
- Você tem algum preferido?
- Não...São todos partes de mim. E não se deve rejeitar o que faz parte de nós, não é?
- Bem, há algumas partes de mim que estão me rejeitando. Por pura rebeldia. Meus cabelos, por exemplo. Estão muito rebeldes. Eles estão se rebelando e me deixando. Sinto que estou perdendo eles aos poucos. Você tem algum conselho para lidar com essa situação?
Ele riu gostosamente.
- Não, não... Nem tenho tempo pra isso. Já vou me botando.
Protestei.
- Mas já? Fique mais um pouco!
- Je m’en vais...
Levantei-me para abrir a porta e quando fui ver, o Tempo tinha passado e eu nem percebera.
Naquele momento, a Nana cantava:
“No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso
Ele não vai poder me esquecer.”
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Desculpe, caro Aldir, mas eu não posso esquecer o Tempo de jeito nenhum. Ele também é parte de mim...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo a querida Nana Caymmi, cantando “Resposta ao Tempo”, de Blanc e Cristóvão Bastos.
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Gostaria de agradecer muito às amigas Claudinha, Márcia, Ana Carla, Saramar, Luma, Vendetta e Yumi, que toparam responder ao meu convite em seus blogs com textos belíssimos (recomendo todos a todos!) e aos que responderam no meu próprio espaço de comentários. Nada como lidar com gente talentosa...

