terça-feira, agosto 31, 2010

Tempo de eleições, de burros e cavalos


Bem, amigos do Antigas Ternuras... O Horário Eleitoral Gratuito está no ar.
(Pausa para ouvir a música que a minha, a sua, a nossa Rádio Antigas Ternuras – a rádio que toca no seu coração – reservou para ilustrar este post. É só clicar na setinha)

Pois é. Mais uma eleição se aproxima. Lembro da primeira vez em que fui votar para presidente. Isso alguns anos depois de ter participado do famoso comício das Diretas Já, o do milhão de pessoas na Candelária. Naquela época, eu fui para a rua, cheio de botom na camisa, distribuindo folhetos, com o ideal de vencer o Collor, nem que fosse só aqui, no Rio de Janeiro.
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Mas essa não foi primeira vez que eu meti no buraco da urna. Nem vou dizer qual foi porque vocês vão achar que eu fui cabo eleitoral do Epitácio Pessoa. Não sou tão velho assim. Mas assisti ao nascimento do Horário Eleitoral Gratuito, desde o tempo da Lei Falcão, quando só podia aparecer na telinha o retrato 3x4 do candidato, nome e número. Depois, deixaram os caras falarem e foi quando ficamos com saudades do tempo das fotos...
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Hoje, não vejo o Horário Eleitoral, porque Deus se apiedou de nós e criou a TV por assinatura, louvado seja! Estou livre de ver candidato que diz: “eu sou o Baixinho do Gás. Você me conhece! Conto com o seu voto!”.
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Já tem algum tempo em que eu não dou aqui as devidas explicações sobre a origem de expressões de uso corrente, seção mais ou menos fixa deste blog. E desta vez, escolhi duas delas que, entendo eu, tem a ver com estas próximas eleições. As expressões são:
Dar com os burros n’água e
Tirar o cavalo da chuva.
O que elas tem a ver com as eleições? Ah, isso eu deixo por conta da imaginação de vocês...
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A expressão “dar com os burros n’água” vem do tempo do Brasil Colônia, quando não tinha trem, avião, caminhão, nem um mísero skate para transportar os produtos produzidos em nossa Terra Brasilis. Portanto, o ouro, o cacau, o charque, o açúcar e posteriormente o café eram levados em lombo de mulas e burros pelas estradas de então, na direção de portos e de grandes centros que se incumbissem de fazer a distribuição e exportação.
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Agora vocês imaginam as condições das estradas do interior daquela época. Não tinha pontes, acostamento, viadutos, nada! Eram áreas secas e outras embrejadas ou mesmo alagadas. Quando o dono da tropa decidia enfrentar as poças, às vezes ele descobria que o que parecia ser uma “pocinha” na verdade era uma baita lagoa e os pobres dos burrinhos, ó... Glub! Glub! Glub!... se afogavam. Por conta disso, criaram a tal expressão para se referir a algo que era feito com grande esforço, mas que acabava em insucesso.
E aí? Vocês conhecem algum candidato que vai dar com os burros n’água nessa eleição?
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O “tirar o cavalo da chuva” que os mais eruditos e pernósticos preferem dizer: “tirar o mamífero equídeo da precipitação atmosférica” vem de tempos um tantinho mais recentes. Consta que no Século 19, quando alguém ia na área rural visitar um parente, um amigo, ia com seu cavalo, ou com sua charrete. Se a visita fosse vapt! vupt!, o visitante deixava a sua Ferrari (a escuderia do cavalinho) amarrada na frente da casa. Se estivesse chuviscando ou fazendo sol de rachar o coco, o pobre bucéfalo permanecia ali. Quando a visita era demorada, o dono tinha permissão para levar o cavalo para o estábulo, ou a área protegida reservada aos animais. Mas a ida do animal para o estábulo, sempre dependia da autorização do dono da casa. Se a prosa estivesse boa, se o anfitrião se agradasse da conversa e quisesse estendê-la, convidar o visitante para o almoço ou para a merenda da tarde, dizia para a pessoa: “pode tirar o cavalo da chuva”.
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E quando o visitante dizia ter compromisso, algo a fazer que o impedia de se demorar, mas era do interesse do dono da casa retê-lo ali por questão de educação, de desejar esticar a visita por ser agradável etc. e tal, e o cabra insistia em ir embora? Aí o anfitrião mandava essa: “pode tirar o cavalo da chuva, porque você não vai sair daqui agora!”
Por conta disso, a expressão passou a significar um convite à desistência de alguém para fazer o que imaginava.
Há algum candidato para quem você diria “pode tirar o seu cavalinho da chuva, que meu voto você não terá nem se o saci pererê cruzar as pernas!”?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve "Brasil", na voz de Cazuza e Gal Costa.

sexta-feira, agosto 20, 2010

"Calma... Não é o que você está pensando!..."


Alguma vez, em alguma situação, você já se viu dizendo esta frase do título?
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Enquanto você pensa nisso, peço que assista a estes três rapidíssimos vídeos, cada um tem cerca de 30 segundos.







Que situação, heim?
E aí volto a repetir a pergunta acima: alguma vez, em alguma situação, você já se viu dizendo a frase “Calma, não é o que você está pensando!”?
Eu já.
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Há muito tempo atrás, eu estava levando para passear uma colega de trabalho de uma unidade de outro estado. Ela não conhecia o Rio e fui levá-la numa noite para, por exemplo, tomar um chopp no Bar Veloso, aquele em que Vinícius e Tom viram a garota de Ipanema Helô Pinheiro passar. Depois do chopp, estávamos no meu carro, conversando, quando ela me disse:
- Hum, estou precisando tomar insulina. Eu sou diabética.
Dizendo isso, ela tirou da bolsa seringa e um vidrinho e começou a calibrar a dose.
Eu perguntei se ela precisava de ajuda, o que eu podia fazer. E ela só pediu que eu segurasse no braço dela enquanto estivesse injetando.

Foi quando parou um carro ao lado do meu. Uma rádio-patrulha. Um dos PM acendeu uma lanterna na nossa direção e me viu segurando o braço dela enquanto ela se injetava.
Calmamente, o policial saiu da patrulhinha, com a mão no coldre da arma, debruçou-se na janela do meu carro e eu, com o meu melhor sorriso amarelo, só conseguir dizer:
- Calma, não é o que você está pensando!...
Claro, aquela situação constrangedora foi perfeitamente explicada, o cara viu o vidrinho de insulina, viu a carteira de diabética da moça, tudo resolvido. Mas... por alguns segundos eu me vi preso, algemado, aparecendo no Jornal Nacional como traficante.
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Teve outra.
Eu estava fazendo temporada da peça “Na era do Rádio”, no Teatro Delfin. Lá, tinha dois camarins: um para os atores, outro para as atrizes. Mas, homens e mulheres, era comum entrarmos nos dois camarins para conversar ou para resolver algum assunto. Numa vez, eu estava colocando as calças do figurino do meu personagem, quando vi que o fecho-éclair da braguilha estava com problemas.

Saí do meu camarim procurando a Gisa, a nossa camareira, para ela fazer o devido conserto. No que eu entrei no camarim das mulheres, dou de cara com uma das atrizes inteiramente nua. Ela estava sozinha ali.
Eu fiquei todo sem jeito, balbuciando desculpas, mostrando que o zipper estava defeituoso... Eu me virei para sair dali rapidamente e acabar com aquele constrangimento. Foi quando a camareira entrou no camarim e viu aquela situação: uma atriz nua e eu saindo dali tentando fechar o fecho-éclair...

Procurei argumentar. Olhem só o diálogo:
- Calma, Gisa... não é o que você está pensando...
- Eu não estou pensando nada... – e foi saindo.
- Espera aí... Você vai me deixar assim?
- Assim, como? Você quer uma toalhinha?
- Arrá! Então você estava pensando em sacanagem, não é safadinha?
- Olha, meu querido... Se tem alguém safado aqui, não sou eu!
- Ó céus...
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E você? O que me diz? Já passou um perrengue desses em que teve que dizer essa bendita frase? O quadrinho dos comentários é todo seu. Sou todos olhos.
M.S.
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Na TV Antigas Ternuras, você vê filmes da campanha “Don’t judge too quickly” (Não julgue apressadamente).

quinta-feira, agosto 12, 2010

Deu bode em Gotham City


No capítulo anterior, vimos que Gotham existe, fica na Inglaterra e é muito mais velha que o Brasil (para quem chegou agora, leia o post que está abaixo desse). Agora, como prometi, vamos ver onde o Morcegão entrou nesta história. Mas antes, vamos ligar a Rádio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração – e sintonizar a canção que vai ilustrar este bat-post.

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O escritor norte-americano Washington Irving (1783-1859) esteve na Gotham inglesa no início do Século 19. Achou tudo muito bonitinho, e ficou encantado com a história da “cidade dos loucos”.










Quando ele escreveu um artigo para a revista ianque “Salmagundi”, em 1807, sabe-se porquê ele chamou New York, sua cidade, de “Gotham”. Vai ver os vizinhos do Irving faziam a linha “lelé pititiu”, totalmente pirocas das ideias. Ele pespegou a alcunha no lugar e o mais engraçado é que o apelido pegou. Começaram a surgir casas de comércio com o nome da tal cidade britânica: era um tal de “Padaria Gotham”, “Sapataria Gotham”, “Drogaria Gotham”... E isso durou por muitos anos, chegando inclusive ao meado do Século 20.
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Foi quando um certo Robert Kahn resolveu mostrar para seu amigo William Finger, o esboço de um heroi de quadrinhos que ele tinha imaginado para competir com o “Superman”, que começava a fazer enorme sucesso em fins dos anos 30. O tal heroi, chamado por ele de “Bat-Man”, tinha máscara igual a do Arlequim, roupa vermelha, sem luvas, duas asas negras rígidas nas costas e se balançava numa corda (veja imagem).

William sugeriu modificações: outra a roupa, trocar a máscara por um capuz que cobrisse metade do rosto, as asas por uma capa preta de tecido, com a bainha recortada, para que quando ele corresse parecesse asas de morcego. E Robert Kahn, com o pseudônimo de Bob Kane (foto ao lado), aproveitou as ideias e apresentou seu “Bat-Man” para a editora National Comics. Sem citar o amigo Bill Finger como co-autor (mas que bat-sacanagem! Tem gente que chama o Bob Kane de babaca até hoje por conta dessa desfeita).
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Bill Finger (1914-1974) e Bob Kane (1915-1998) foram contratados pela editora para escreverem e desenharem as tiras do “Batman” (mudaram a grafia do nome dele), mas os créditos de criação seriam dados só ao Kane, embora Finger (também co-criador do “Lanterna Verde”) tenha dado praticamente toda a formatação do personagem.

Finger criou o vilão “Coringa”, junto com Jerry Robinson e Kane. Em entrevista, ele disse que, na criação do arqui-rival do Batman, se inspirou no cartaz do filme “O homem que ri” (veja ao lado a semelhança). O outro parceiro, Robinson, que ainda está vivo, foi o criador do Robin, segundo ele, inspirado no Robin Hood (olha ele aí de novo!) e não na redução de seu nome, nem no famoso passarinho.
Foi Bill Finger quem criou a cidade onde o Batman viveria. Inicialmente, como diz matéria recente da revista “Galileu”, ele pensou em nomes fictícios como “Coast City”, “Capital City” ou “Civic City”. Foi quando, ao folhear um catálogo telefônico, ele viu um anúncio de uma “Gotham Jewelry” (Joalheria Gotham) e bateu aquele “eureka!”.
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Muita gente pensa que o nome Gotham vem de “gótico”, por isso a cidade do Batman tem aquele ar sombrio. Rá! Bullshit! Conversa fiada! A palavra “Gotham” vem de “Goat (bode)+ Home (lar)”, porque o vilarejo inglês super agrário, rural e caipira tinha muitos criadores de caprinos. Mesmo a Gotham City dos desenhos de Bob Kane e de seus sucessores não era nada gótica. Era uma cidade normal, uma megalópole onde se misturavam características de New York (terra dos criadores do heroi), de Chicago, de Londres etc. Acontece que nos gibis, as bat-histórias acontecem quase sempre a noite, visto que o Batman é um heroi noturno (é morcego, pomba!), ao contrário de Metropolis, cidade solar, onde seu heroi da cueca vermelha recebe poderes do sol amarelo. E mesmo assim, o tom gótico de Gotham só foi introduzido nas histórias a partir dos anos 80.
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Vejam só como as coisas acontecem: a Gotham original era conhecida como “cidade dos loucos”. Eis que a Gotham City fictícia acabou também virando uma terra de malucos, com arqui-vilões cada vez mais doidões. Lá, inclusive, foi criado o Asilo Arkham, onde o Coringa tem uma suite permanente, assim como seus vizinhos de cela Pinguim, Senhor Gelo, Charada, Kane (nome em homenagem a um dos criadores?), Espantalho, Duas Caras, Hera Venenosa...
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Bem, devo confessar que o Batman é o meu heroi favorito. Quando pequeno, eu chamava minha bicicleta de “Batmóvel”; hoje chamo meu carro assim (seja ele qual for). Em meados dos anos 90, eu criei o login de e-Mail “batmarco”. Mas algum chupador de ideias sem criatividade, já se apossou dele no Gmail e no Yahoo, onde tive que virar “Batmarko” com K. Leio e vejo tudo o que aparece sobre o Homem-Morcego. Adorava o seriado-comédia com Adam West e Burt Ward, dos anos 60, até hoje compro gibis antigos do Batman, vi todos os filmes, desde os péssimos feitos por Tim Burton (Batman e Batman Returns) e Joel Schumacher (Batman Forever – argh! e Batman e Robin – BLEARGH!), até os maravilhosos Batman Begins e Batman – O cavaleiro das trevas, de Chris Nolan.
Para vocês verem como eu sou bat-maníaco: dêem só uma olhada na foto que eu mandei para figurar na galeria de autores do Humor Vermelho vol. 2...
M.S.

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E por falar em Humor Vermelho 2, a Usina de Letras estará na Bienal do Livro, em São Paulo, de 12 a 22 de agosto, com o estande 56 na Rua K, onde será lançada a nossa antologia na terra da garoa. Quem for de Sampa, apareça lá!
E vocês sabiam que o livro é o quarto mais vendido da rede de Livrarias da Travessa, uma das maiores do Rio?
Santo best-seller, Batman!
Foto de Celso Pupo, no lançamento.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o quarteto de cordas Ensemble São Paulo mandando ver no “Tema de Batman”. Uma bat-música de câmara, com bat-violinos, bat-violoncelo e bat-contrabaixo!

sábado, agosto 07, 2010

Gotham: Batman e Robin Hood?


Se alguém lhe perguntasse, nobre leitor, quem tem mais a ver com Gotham: Batman ou Robin Hood? O que você diria? A resposta está na ponta da língua? Responderia de bate-pronto? Olha, eu devo lhe sugerir um pouco de calma. Para responder com exatidão, pergunte se é sobre a Gotham real ou a fictícia?
(Aí você me perguntaria: “Como? Existe uma Gotham de verdade?”)
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(Huum... Que tal ouvir uma musiquinha enquanto lê este post? Pois a Radio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração – te oferece esta canção para ilustrar este modesto post)

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Por alguma razão, você já escreveu no procurador do Wikipedia – free encyclopedia a palavra “Gotham”? Não? Se você o fizer, surgirão informações referentes a pelo menos duas alternativas: real places (lugares que existem) e In media and enterteinment (nos meios de comunicação e entretenimento). Na primeira opção, vai aparecer um vilarejo em Nottinghamshire, na Inglaterra, que tem o nome de Gotham. Também vai informar que existe uma cidade com este nome no estado norte-americano de Wisconsin e uma aldeia no sul da Inglaterra, próxima à Verwood, Dorset. Ah, claro: Gotham é um apelido de New York City.
Logo, sobre a sua pergunta se existe uma Gotham real, a resposta é SIM. Até mais de uma.
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“Mas não é a cidade de Batman e Robin? O que o outro Robin, o arqueiro, o Hood, tem a ver com isso?”, é o que você está pensando, não é?
Bem, o vilarejo Gotham real e original pertence ao condado inglês de Nottingham, onde está a Floresta de Sherwood, local onde o lendário herói flechoso se escondia do Xerife de Nottingham e do Príncipe (depois rei) John.

Esse vilarejo está lá desde o Século 11, pelo menos. E o lugarejo é importante na História da Inglaterra por ter passado aos anais como a terra dos “homens sábios”. Ou dos “homens loucos”. Eu explico. Tão logo assumiu o trono da Inglaterra, em 6 de abril de 1199, o rei John I, o chamado João Sem Terra, exatamente aquele Príncipe John, que era infernizado pelo Robin Hood (olha ele aí de novo!), resolveu arrochar o povo inglês, soltando o faminto leão dos impostos para cima deles. A ordem era morder tudo ou quase tudo. O vilarejo de Gotham estava à beira da falência. Com a chegada de mais e mais impostos, os moradores tiveram que optar entre comer ou pagar ao rei e, consequentemente, morrer de fome.
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O João Sem Terra quando tomou conhecimento da insubordinação do povo de Gotham, mandou um baita exército para entrar lá e botar para quebrar. Os moradores quando souberam que o bicho ia pegar para o lado deles, tiveram uma louca e brilhante ideia: fariam o papel de malucos de pedra, daqueles que rasgam cocô e comem dinheiro, não necessariamente nessa ordem.
Quando os exércitos do rei chegaram lá, babando, querendo beber sangue de camponês com canudinho de bambu, encontraram umas coisas esquisitas: tinha vaca em cima do telhado, um relógio cuco pendurado numa árvore e com uma cerca em volta para o passarinho não fugir, um sujeito montado a cavalo e com duas sacas sobre os próprios ombros, dois homens tentando afogar um peixe, gente vestida da forma mais esdrúxula que tinham visto.
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Aquilo deixou os soldados do rei muuuuuito preocupados. Na época, achavam que loucura era contagiosa, que nem pereba de menino. Vai que um daqueles aldeães piroca das idéias babasse em cima deles... Certamente ficariam loucos! O melhor a fazer era passar sebo nas canelas e voar fora dali, correr e contar ao rei que não tinham como cobrar impostos daqueles lelés da cuca. Com isso, Gotham passou a ser conhecida como a “vila dos loucos”. Tempos depois, os menestreis de antanho cantariam em versos aquela história de heroísmo, quando simples camponeses passaram a perna no rei. Tem até um livro famoso, intitulado “Merrie Tales of the Mad Men of Gotham” (Contos divertidos dos homens loucos de Gotham), publicado no Século 16.
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Vocês devem estar achando que eu estou curtindo com a cara dos meus cinco leitores, inventando essa história maluca, não é? Hã-hã. Não estou, não! Querem ver minhas fontes? cliquem aqui e aqui.
Veja uma foto da Gotham real.
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Mas, pelas pelancas do Pinguim... como é que o Batman entrou nesta história? Seria mais uma charada do Charada? Uma das loucuras do Coringa? Quem sabe a gostosa da Mulher-Gato está metida no meio? Então, amigos, para saberem por que a cidade do Morcegão recebeu este nome, não percam o próximo capítulo aqui, neste bat-blog, na próxima bat-semana, no mesmo bat-canal...
M.S.
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Humor Vermelho 2 – A noite de autógrafos!
Amigos, o lançamento da antologia “Humor Vermelho Vol. 2” foi um tremendo sucesso! Foram vendidos naquela noite exatos 259 livros! Nós, os autores dos textos, saímos com a mão doendo de tanto escrever dedicatória. Eu, pelo menos, saí!
Eu fiquei muito feliz porque o meu conto do volume 1 é citado na peça promocional para despertar nos leitores o desejo de comprar o livro, e o mesmo aconteceu com o meu texto do segundo volume! Entre escritores famosos, roteiristas da Globo e o escambau, os meus contos foram citados! Puxa...
Quem quiser adquirir o livro, custa só R$ 20,00. Entrem na página da editora (aqui) e façam seu pedido.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Música Medieval (desconheço autor e quem toca).

sexta-feira, julho 30, 2010

O futuro de volta?


Lembro que quando era beeem jovenzinho, vi o filme do Stanley Kubrick, “2001 – Uma odisseia no espaço” e fiquei me perguntando como seria este primeiro ano do Século 21. Na série “Perdidos no Espaço”, que eu adorava (aliás, preciso fazer um post sobre este seriado...), a data de lançamento da nave “Júpiter II”, com a Família Robinson, era 16 de outubro de 1997. E eu também ficava intrigado, imaginando se neste futuro previsto já viveríamos um clima de ficção-científica.
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Pois é.
Nenhuma das duas datas acertaram suas previsões. Ainda não dominamos o espaço sideral. Ir à Lua é possível, mas caro para caramba. Há planos e previsões de colocarmos o Homem em Marte antes de 2030. Mas, não sei não... Temos tantas urgências para resolver aqui na Terra mesmo.

E eis que um e-Mail está circulando pela internet dando conta de que mais uma data simbólica e representativa da ficção científica acaba de vencer:
O dia 6 de julho de 2010.
(E aqui é a deixa para você ouvir a bela melodia que a minha, a sua, a nossa Radio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração – selecionou para ilustrar este post. É só clicar na setinha do you tube)

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Segundo o tal e-Mail, esta é a data que foi programada no painel do DeLorean prateado do Professor Emmett Brown que levou ao futuro ele e seu jovem amigo, Marty McFly com sua namorada Jennifer.

Isso no filme De volta para o Futuro II.
Arrá! Lembrou, não é?
A trilogia “Back to the Future” foi realmente fantástica! Dela, destaco especialmente o segundo filme, para mim, o melhor. O jogo de passado, presente e futuro foi muitíssimo bem feito pelos roteiristas. Entretenimento dos bons. Quem não viu os três filmes (que foram lançados em 1985 (parte 1), 1989 e 1990 (parte III)), que trate de conseguir o DVD ou baixá-los pela internet. Quem os viu, pode revê-los sem problemas, pois é diversão garantida.
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E você lembra de como estavam as coisas naquela Hill Valley do futuro? Se compararmos com o nosso presente, o skate antigravitacional, esquece. Atualmente não temos nada sequer parecido. Carros voadores? Como os do filme, esquece também. Garçons holográficos atendendo num café temático, ihhh mas nem pensar mesmo! Mas o anúncio do filme “Tubarão 19” em 3D, bem, quase chegamos lá, não é? Não pela franquia do filme do peixão psicopata assassino, que graças a Deus já acabou. Mas pelo 3D dos dias de hoje que virou febre nos cinemas e televisões. Será que essa foi a única “previsão” que o filme acertou?
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Na verdade, não sabemos ainda.
Esse tal e-Mail foi uma gracinha de algum gaiato que, sem ter o que fazer no momento, montou essa fotografia. No filme, a data correta é 21 de outubro de 2015. Podem constatar na real imagem do filme, abaixo.
. Logo, se receberem este e-Mail, não saiam repassando porque ele não traz verdade.
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Mas será que em 2015 teremos as maravilhas tecnológicas que o filme apresentou? Quem viver, verá, mas acho particularmente difícil. Vai demorar muito para a gente andar em carros voadores, como na obra cinematográfica de Robert Zemecks, magnificamente produzida por Spielberg e sua turma. Com sorte, conseguiremos andar em carros elétricos, que gradativamente deixarão de usar combustíveis poluentes, porque as preocupações com o ambiente vão aumentar com o passar dos anos.


De qualquer forma, pretendo estar vivinho da silva em 2015 para conferir o que a ficção acertou e o que passou longe. Quer dizer, se o mundo não acabar em dezembro de 2012, como previram os maias...
Quanto a viajar ao passado, ah... Isso eu faço sempre! Basta fechar os meus olhinhos sensuais que me revejo menino, com cabelos e negros, sem dor nas costas e nas juntas, e sem os vincos no meu rosto, vendendo alumínio, cobre e garrafa para poder pagar o cinema e sonhar com o futuro que me chegava pela tela.
M.S.
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OLHA O HUMOR VERMELHO VOLUME 2 AÍ, GEEEENTEEEE!!!!
Caros amigos, clientes e fornecedores: gostaria de avisar que no próximo dia 4 de agosto de 2010, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, aqui no Rio de Janeiro, será lançada a antologia de textos humorísticos “Humor Vermelho Volume 2”, pela Editora Usina de Letras (preço: R$ 20,00 só!). Eu participei do primeiro volume – cuja primeira edição está esgotada -, com o conto “Escutando cabelo crescer”. Fui selecionado para participar do segundo volume, com o texto de humor escatológico intitulado “Missão: Tirar o charuto do beiço”. Quem o leu disse que se mijou de rir, o que me deixa particularmente feliz. Além de mim, há outros 21 autores, todos muito talentosos, com contos de fazer o Cristo Redentor se dobrar de tanto gargalhar. Entre os meus cinco leitores habituais, os que puderem comparecer na noite de autógrafos, certamente me darão muito orgulho e alegria.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Earth Angel (Will you be mine)”, por Marvin Berry And The Starlighters, do filme “De Volta para o Futuro I”. Da pontinha da orelha, não é?

sexta-feira, julho 23, 2010

Ô de casa!


Eu já contei neste blog o ritual que envolvia a ida da minha família para a casa de algum parente para uma visita. Caso alguém aí tenha a curiosidade de ler ou de reler, basta clicar aqui.
Sei lá o porquê, me deu vontade de contar o que acontecia quando nós recebíamos a visita. Também envolvia muitos rituais.
Mas antes, que tal ouvir o que a minha, a sua, a nossa Rádio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração - reservou para ilustrar musicalmente este post? Basta clicar na setinha e continuar a ler.

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Mas... Onde seu estava? Ah, sim. Recebendo a visita dos parentes. Quando meu pai era vivo, a minha casa era muito visitada pelos tios. Ele gostava de fazer feijoada para receber irmãos/irmãs e cunhados/cunhadas. Lembro dele preparando desde a véspera. Vinha tanta gente que ele usava latas de 20 quilos. Cozinhava no fogão de lenha. Ele era um exímio cozinheiro. Minha mãe diz que eu herdei isso dele, mas tenho a consciência de que pilotando fogão não chego nem na unha do pé dele...
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Comida pronta, ele armava uma mesa enorme feita com tábuas e cavaletes, para caber todo mundo. E aí era só receber o povo. “Ô de casa!”. Minhas tias chegavam trazendo mais comida. Na maior parte das vezes, a sobremesa. Tinha o ritual do “pede a bênção para sua tia, seu tio, sua madrinha...”. Hoje, quando meus sobrinhos, que também são meus afilhados, são instigados por minha irmã a me pedir a bênção, faço uma rápida viagem no tempo e me vejo guri, beijando, com um sorriso maroto, as mãos dos mais velhos. Ah, sim. E ouvia as frases-padrão de sempre: “nossa! Como o Marquinho está crescido!”, “Mas continua tão magrinho... Esse menino tem espinhela caída, tem que mandar rezar!”, “Você está indo bem na escola? Olha que estudar é importante! O estudo não ocupa lugar!” e vai por aí a fora.
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Depois dos beijos, dos cumprimentos, todo mundo ia trocar de roupa, vestir algo mais confortável. E calçar também, é claro. Era a sacrossanta hora de liberar os calos e joanetes, comprimidos durante a longa viagem de ônibus.
Meu pai, mais que solícito, ia de irmão/irmã para cunhado/cunhada a ver se estavam à vontade, se queriam beliscar alguma coisinha (sempre queriam! Minha mãe dizia que eles viviam para comer, não comiam para viver...), “Ruth, cadê a linguicinha?”, para meus tios que gostavam de um goró (nem todos eram chegados), tinha sempre uma caipirinha, uma cerveja Portuguesa casco escuro, ou uma cerveja preta “barriguda” Black Princess.
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Eu acompanhava aquela movimentação com alegria e entusiasmo que só as crianças tem. Adorava ver aquele frege todo, e, como sempre, ganhava presentes dos tios; era a hora de curtir o agrado recebido: de meu tio Jair, livros e gibis; da minha madrinha Irene, uma roupinha; dos outros tios, brinquedos ou uma lembrancinha qualquer que sempre me deixava com os olhinhos brilhando.
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“Vamos sentar, minha gente! Não repara, não... É comidinha simples...”. Meu pai sempre dizia isso na hora de chamar o povo para se aboletar na mesa. E eles vinham já comendo com os olhos as travessas de arroz, a couve mineira, os torresminhos... Não tinha salada, que aquela turma não era chegada em folhas. O pessoal gostava de pegar “no pesado”, mesmo. Saladinha não dava sangue. Começava a dança dos pratos, do “bota mais um pouquinho, que isso está com uma cara ótima...”, do “cadê a pimentinha?”... Dentro em pouco tempo, já tinha um bando de gente atracada com um pé de porco, uma costelinha...
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Depois de encherem o bandulho (como meus parentes chamavam a pança), de tomarem engradados de cerveja, de Guaraná Antárctica e refresco de Groselha, ninguém arredava da mesa. Vinha a sobremesa e o momento que eu mais gostava: lembrar as histórias de família! Ah, eu não tinha olhos e orelhas a medir para acompanhar tudo! Quando tinha algum toque mais picante num causo, sempre aparecia um chato para lembrar: “olha, que tem criança e senhoras presentes!”. Ah, que bosta. Eu queria ouvir tudo! Incluindo as sacanagens da família!
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Cinco, seis horas depois de sentarem-se à mesa para almoçar, todo mundo ainda estava por ali. “Será que ainda sobrou um pouquinho de feijão para comer com pão?” Ô, se não tinha sobrado!... Meu pai mandava descer pão em profusão e café para toda a manada. Minha mãe não se conformava com aquilo. “Mas, meu Deus... Ferreira, você acabou de almoçar e ainda quer tomar café com pão?” Sim, queria. E ainda botava um prato de jiló cozido na água e sal para ele comer com azeite! Meus parentes eram guerreiros...
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Tinha a hora da cantoria, com eles lembrando de músicas do tempo em que carnaval se chamava “entrudo”. Algumas tias se afastavam um pouquinho para “descansar” (leia-se: “dormir de babar no travesseiro e roncar feito o leão da Metro”). Queriam que eu fosse dormir também, mas eu era besta de perder aquele forrobodó de histórias e causos?
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Lá pelas oito, nove da noite, era hora de “picar a mula”, como meu tio Jair sempre dizia. Recolocavam a roupa de sair, reparavam que alguns botões não se deixavam fechar (por que será, heim?), enfiavam gemendo os pés nos martirizantes sapatos, não sem gemidos e protestos!, e começavam os rituais de despedida. É claro, eu tinha que pedir a bênção a todo mundo novamente, ouvir conselhos e admoestações para comer direitinho, pois estava muito magrinho...
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Levávamos todos à porta, mais despedidas, e ali ficávamos vendo todos partirem, até chegarem na esquina, de onde acenavam mais uma vez, desaparecendo de nossas vistas. Fim de domingo. Para mim, significava banho, pijama e cama. Para meu pai, banho, pijama e televisão, enquanto minha mãe ajudava a organizar o caos da cozinha.
No travesseiro, eu remoía as histórias ouvidas, comparava com as contadas da outra vez, lembrava da risada engraçada de minha tia Avelina, e dormia sorrindo por que era feliz e sabia.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o saudoso Paulo Moura, que recentemente foi tocar no céu, e Heraldo do Monte tocando “Naquele tempo”.

sexta-feira, julho 16, 2010

Trevas e modernidade


Desde o simbólico ano de 2001, estamos em pleno Século 21, durante muito tempo previsto como representação da modernidade, dos tempos em que a tecnologia comandaria nossas vidas. O escritor Arthur C. Clarke imaginou que em 2001, primeiro ano do século e do milênio, viveríamos uma odisseia no espaço. Lembro que quando pequeno, via desenhos animados que mostravam que neste século, viveríamos em clima de Jetsons, com carros voadores, robots e o escambau.
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Está claro que dividir o tempo em anos, décadas, séculos e milênios é uma abstração. Em boa parte do mundo ocidental, tomou-se como ano 1 o do nascimento de Jesus Cristo, ou do presumível ano em que o Salvador nasceu. Mas para muitos, não estamos em 2010. Para os judeus, vivemos em 5770 (a partir do suposto ano da criação de Adão). Para os chineses, o ano é 4708. Já os budistas, contam o ano a partir da morte de Buda, em 483 a.C., o que significa que para seus seguidores estamos em 2554. O Islã assegura que vivemos em 1432 (o ano 1 foi a Hégira, a fuga de Maomé, em 622 d.C.).
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Como se vê, os calendários do mundo levam em conta as religiões. Queiram ou não os ateus e agnósticos, nossa vida é profundamente gerida pelas manifestações religiosas. O que, em alguns aspectos, pode ser extremamente complicado, para dizer o mínimo.
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Como estava dizendo, para boa parte da humanidade, vivemos ou deveríamos viver em tempos em que a ciência, a tecnologia, seria parte fundamental de nossas vidas. E efetivamente o é. Eu nunca me canso de me espantar com as maravilhas científicas que aparecem a cada momento, com o sentido de trazer modernidade contínua à vida das pessoas. E igualmente me espanto quando constato que, paralelamente ao mundo tecnológico de hoje, há um mundo medieval, uma Idade das Trevas atual, onde ciência e avanços da modernidade sequer arranham valores culturais arraigados desde o tempo em que Noé brincava com barquinhos de papel na chuva.
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Ontem fui assistir ao filme “Flor do deserto”, admirável produção alemã/austríaca/inglesa, que conta a trajetória da ex-top model somali Waris Dirie (magnificamente interpretada por Liya Kebede).

Para não casar com um velho babão que a tinha comprado adolescente ao pai, ela fugiu pelo deserto da Somália, até chegar na capital, Mogadisco, sendo de lá enviada pela avó para trabalhar na embaixada de seu país na Inglaterra. Era mantida na casa consular o tempo inteiro, não aprendeu o inglês. Quando estourou a revolução em seu país, para não ter que voltar para aquele inferno, fugiu da embaixada, se embrenhando pelas ruas de Londres, catando restos de comida no lixo e dormindo nas calçadas. Ela conheceu uma balconista que a indicou para trabalhar como faxineira numa lanchonete. Lá, foi descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson e seu rosto de linhas perfeitas acabou levando-a à vida de modelo e manequim.
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Até aí, é apenas um filme de superação entre tantos com histórias semelhantes. Mas o que o deu um nó na minha cabeça foi o depoimento dado, inicialmente a uma jornalista inglesa e depois, no plenário da Organização das Nações Unidas.

Ela contou sobre o hábito que o seu país muçulmano tem de fazer com que crianças de três anos sejam levadas para o meio do deserto onde uma mulher lhes corta o clitóris, os pequenos e grandes lábios da vagina com gilete enferrujada, e depois costura tudo usando espinhos de uma planta específica, deixando apenas um orifício mínimo para a urina e o sangue menstrual, além de uma horrível cicatriz. Se a menina não passa por este rito, é considerada por seu povo como impura, suja, prostituta. Muitas morrem de infecção após este ritual. As que sobrevivem, ao se casarem, o marido pega uma faca e rasga o órgão sexual da moça para então penetrá-la.
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(A atriz Liya e a Waris real)
No filme, enquanto a personagem narrava esta mutilação cruel, e havia cenas demonstrando como essa barbaridade era feita, eu me retorcia de horror na poltrona. Na fila abaixo da que eu estava, uma mulher acompanhada do marido, chorava convulsivamente. A plateia sequer respirava durante o relato.
O filme acabou, a gente ficou sabendo que a Waris real tornou-se embaixadora da ONU, que após o seu depoimento houve pressão para que todos os países onde se cometia esta barbárie abolissem as mutilações. Leis foram criadas proibindo que se fizesse essa coisa medonha. Desafortunadamente, em muitos países islâmicos, apesar da proibição, ainda se faz, hoje, 2010, mutilações em meninas como na pequena Waris, em 1968, e em mil e tantos anos antes.
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Em alguns países da Europa, como a Noruega, por exemplo, a expectativa de vida ao nascer de uma mulher é de 82,6 anos. Na Somália é de 51,1 anos. Neste pequeno país do oeste africano, não importa se estamos em 1432 muçulmano, 5570 judaico, 2554 budista ou Século 21 cristão. Lá, o tempo consegue a proeza de não passar. Entra ano e sai ano e eles estão na Idade das Trevas.
M.S.
(video com 1 minuto de duração)

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Na TV Antigas Ternuras, você vê crianças somalis cantando.

sexta-feira, julho 09, 2010

Ai que saudade...


Num dia desses, fui visitar o blog da Luma, coisa que sempre faço e recomendo. Lá, vi o post Paixão Antiga, onde ela fala, entre outras coisas, de saudade. E mais: define esse sentimento tão especial como “Saudade é festejar a morte de um fato”. Claro que esta frase está num contexto próprio que se perde quando simplesmente retirado, portanto recomendo que leiam o belo post dela para se sentirem instigados como eu me senti. Destaquei esta frase por ela exatamente fazer gerar em mim reflexões que reparto com meus cinco leitores.
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Não é tarefa fácil definir sentimentos. Tente enunciar “amor”, “paixão”, “desejo”, para ver se não tenho razão. E definitivamente não é tarefa simples definir “saudade”. Mas muita gente boa tentou. Querem ver? Vejam estas definições (e depois voltem para continuar a leitura) de gente poderosa como Neruda, Clarice Lispector, Quintana, Millôr, Drummond...
Particularmente, gostei muito da frase do Guimarães Rosa: “Saudade é ser, depois de ter”.
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(Aproveite que você voltou e clique na seta para ouvir a canção que a Rádio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração - selecionou para acompanhar a sua leitura)

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Este é um blog temático, cujo objetivo é trazer fatos e coisas que mexam com a memória e despertem reflexão e conhecimento e alguns suspiros saudosos, é claro. E isto com boa dose de afeto no coração. Poderia até adotar como mote para este blog a célebre frase de Coelho Neto: “A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração”.
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Mas então a nossa querida Luminha nos trouxe esta frase, que recordar é um pouco como cortejar a dor. Ou a loucura, por meio da dor. Assim, no supetão, admito que me inclinei a discordar. A saudade que cortejo é que nem coçar bicho do pé, uma dorzinha gostoooosa... (Ouvi essa de um mineiro de roça e quem sou eu para renegar a sabedoria do homem do campo...). Não tem a ver com dor ou loucura. Mas vejam só uma coisa:
A palavra “saudade” tem origem latina – de solitas, solitate = “solidão”. Porém, na forma arcaica do termo, ela recebeu influências de soydade, derivada de “saúde”.
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Arrá! Então podemos ver saudade como manifestação melancólica... MAS, também podemos entendê-la como algo perfeitamente saudável. E esta forma de senti-la depende, obviamente, da ambiência psicológica em que estamos. Para alguém que perdeu um ente querido ou um amor, certamente essa saudade vai agir por dentro, como se alguém comesse pão com gilete e esperasse para ver o resultado. Para alguém que quer somente visitar a tal cabaninha no canto do coração, para quem teve e agora quer ser, lidará, sem dúvida, com o tal componente saudável.
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Mas Luminha está eivada de razão quando divide as pessoas entre as que lembram (conscientemente) e as que esquecem (conscientemente). Às vezes a memória é um barbante amarrado em sorrisos e lágrimas. Quando puxamos o fio, vem tudo de uma vez. E isso desencoraja muita gente, que prefere guardar o novelo numa gaveta da cômoda chamada “esquecimento”.
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Saudade envolve dores e delícias. A expressão “matar as saudades” é irreal e imprópria. Saudade é fênix, é Lázaro, não morre e se morre, revive. Também não é certo dizer que “saudade mata”. Pelo contrário: ela deixa a gente vivo para poder torturar mais um pouquinho. Igualmente não acredito que saudade é relembrar, visto que me sinto saudoso até do que não vivi.
Saudade nem sequer é privilégio dos homens. Já está provado que animais também a sentem.
Eu tenho saudade e ela me tem. A saudade é a constatação de que o vivido foi bom. Ô se não foi...
E você, tem a sua definição de saudade?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho cantando essa delícia que é “Ai que saudade d’ocê”, de Vital Farias.