quarta-feira, abril 25, 2007

Auíka!


No outro dia, fui até o setor de suporte da informática no meu trabalho e no que eu cheguei vi uma rodinha com uns quatro mais ou menos. Um deles, justamente o chefe do setor, apontou pra mim e disse:
- Esse aí também gosta!
Eu protestei:
- Ô rapá! Presta atenção! Me respeite, sujeito! Sou homem! Vê lá se eu tenho os seus hábitos!
Eles riram. Quando a gente vê grupo de homens conversando, já imagina que tem sacanagem no meio...
- Ô mané. Não é isso, não. Estamos falando de National Kid.

Minhas glândulas salivares começaram a se assanhar. Daí, comecei a falar daquele seriado que encantou toda a minha geração (se você tem menos de quarenta e poucos, não faz a menor idéia do que eu estou falando...). Os caras desconheciam completamente o que eu estava contando pra eles. Virei ídolo daquela moçada por saber tanto sobre o Kid.
*

No meu computador do trabalho tem uma baita foto do herói japonês no wallpaper (essa imagem aí ao lado) Quem vai na minha sala e olha a foto, se for da minha geração, já pinta aquele brilho nos olhos. E quando eu falo que o único lugar do planeta onde a série fez sucesso foi o Brasil, e conto otras cositas más, a pessoa chega a pular de felicidade feito perereca profissional.
*
Pois é. Meninos, eu vi. E vou contar pra vocês.
*

O seriado foi produzido no Japão, em 1960, pelos estúdios da Toei (estreou no Brasil em 1964, na Record de São Paulo, e no Rio em 1965, pela TV Rio). Era em preto e branco (para baratear os custos de produção). O herói foi criado pelo desenhista de quadrinhos Daiji Kazumine. Foram produzidos cinco histórias, com episódios de 24 minutos cada um. Eis os nomes das histórias famosas do National Kid:

Contra os Incas Venusianos
Contra os Seres Abissais
Contra o Império Subterrâneo
Contra os Zarrocos
O Mistério do Garoto Espacial
*

Agora, sintam só as curiosidades sobre a série.
Ela era, na verdade, um grande comercial dos produtos National (que hoje têm o nome de Panasonic), a patrocinadora do programa. Nos episódios, o que aparecia de radinho e outros aparelhos daquela marca não estava no gibi! Um merchandising dos mais escancarados que a TV já viu.
Eu tenho nos meus guardados uma antiga matéria de jornal sobre o National Kid que apresenta a letra da musiquinha de abertura do seriado. Pena que eu não saiba onde guardei o raio da página. Mas fui fuçar na internet e achei a letra original com a tradução! (Babem, quarentões e cinqüentões...)



Kumo ka arashi ka
Inazuma ka
Heiwa o aisuru hito no tame
Morote o takaku sashinobete
Uchu ni habataku kaidangi
Hei, sono na wa kido - Hei, Nationaro Kido
Bokura no Kido - Kido! - Nationaro Kido

(“Será nuvem, tempestade ou raio?
Lutando pela paz do mundo...
Levantando alto as duas mãos...
Voando pelo cosmo o nosso herói...
Oh! O seu nome é Kid!!!
Hey! National Kid!
Ele é o nosso herói, Kid!!!
National Kid”)

Eu me lembro da abertura do programa, quando o locutor dizia assim:
Domina o mundo da 4ª. dimensão...
Supera o impossível...
Mais forte do que as armas científicas atuais...
Mais rápido do que os aviões a jato...
Defensor da Paz e da Justiça...
Super-homem invencível,
Seu nome é...National Kid!
*
No elenco, haviam atores profissionais misturados com amadores. O próprio protagonista, National Kid e sua identidade secreta Professor Massao, nos episódios contra os seres abissais e incas venusianos, era feito por um funcionário dos Correios do Japão (Ichiro Kojima, que deixou a série por problemas de saúde, sendo substituído por Tatsume Shiutaro). A garotada que aparecia na série, os órfãos criados pelo prof. Massao e sua assistente Tyako, foram recrutados em colégios.
Aliás, tem uma outra curiosidade hilária: o professor Massao originalmente não tem esse nome. Na história original ele se chama “professor Riusako”, mas na dublagem brasileira resolveram trocar para não favorecer trocadilhos de duplo sentido com “riu” e “saco” (Ah... anos 60!)
*

Outra curiosidade que vai deixar os admiradores da série de queixo caído: os “incas venusianos” só se tornaram “venusianos” no Brasil. Originalmente, são só “incas”, mas os responsáveis pela dublagem acharam melhor dar um planeta para aqueles caras estranhos, vestidos de morcego com um Z no peito. Os tais esquisitões adoravam o deus Awika (se pronuncia “Auíca”) e eram governados pela princesa Aura, uma japinha até bem mais ou menos...

Vejam uma cena do Kid, lutando contra os incas venusianos. Reparem na gargalhada canastrona. E no radinho National. Gente, isso era muito bom!!! (dura só 2min e 8seg)

*

O efeitos especiais mais pareciam “defeitos”. Só faltava aparecer a cordinha segurando os discos voadores. Cenas de um episódio eram aproveitadas em outros. Por isso os disco voadores dos subterrâneos são iguaizinhos aos dos incas.
Nos episódios contra os seres abissais, as fantasias de monstro dos caras eram risíveis, assim como o submarino deles. Numa cena em que um automóvel voa, vê-se nitidamente ser um carrinho de brinquedo em uma maquete. Mais tosco, impossível.
*

Os criadores da série nunca esconderam que o National Kid era uma cópia descarada do Super-Homem, cuja série com Geoge Reeves fazia muito sucesso no mundo todo. No Japão, o NK não causou nenhuma sensação, ao contrário do Brasil, sucesso garantido em todos os canais que passou (TV Rio, Globo, Tupi e Record). Nagayoshi Akasaka, criador, roteirista e diretor da série, levou um susto quando, muitos anos depois do fim da série, um jornalista brasileiro lhe falou do absoluto sucesso do herói para toda uma geração no Brasil. Ele confidenciou porque escolheram aqueles vilões:
“Existem dois grandes inimigos do ser humano. As coisas que vêm de fora e as coisas que saem de dentro. Assim criamos dois tipos de vilões: os invasores vindos do espaço e os seres abissais saídos das profundezas do oceano”.

Isso é bem típico dos anos 50/60, quando a Guerra Fria em marcha no planeta, camuflava no mundo capitalista a luta contra o comunismo, dando a vilões do espaço ou do fundo do mar ou ainda das profundezas da terra características da liturgia soviética.
Se bem que no caso do National Kid, os incas venusianos invadiram o nosso planeta para protestar contra as experiências atômicas e com o descaso com a natureza. Da mesma forma, os seres abissais atacaram a superfície como protesto pela poluição marinha e pelos testes atômicos. Em tempos de aquecimento global e ameaças de corrida nuclear pelo Irã e Coréia do Norte, seria a hora de pedir: “voltem, incas, voltem pelo amor de Awika!”
E vai que os abissais soltem o celacanto e produzam uma baita tsunami! Olha só a situação!
*
Aliás, sobre isso, lembro que em 1978, vários muros da cidade apareceram pichados com a frase “Celacanto provoca maremoto”. Nossa! Lembro que aquele mistério agitou os cariocas. Bem, os cariocas que não conheciam o National Kid, é claro... Eu e os outros fãs da série estávamos carecas de saber que aquela frase era a senha dos seres abissais na luta contra os seres da superfície e contra o National Kid. Mas as “teorias” que ouvi na época a respeito da frase são de matar de rir. Iam desde mensagem cifrada de bandidos até uma forma de atacar o governo da ditadura militar.
*
Para nossa tristeza, no incêndio que praticamente destruiu a TV Record, no início dos anos 70, ficaram torrados os rolos contendo a série. Com muito custo, e graças a longas negociações com os estúdios Toei Company e com a Sato Company, conseguiram resgatar cópias com algumas histórias (abissais, incas e subterrâneos). Lançaram aqui, em VHS e depois em DVD. Tenho ambas, minhas queridas antigas ternuras.
Quando as revejo, lembro daquele herói que veio de Andrômeda, mas principalmente, lembro de um menino magrinho, que costumava amarrar uma toalha no pescoço e sair correndo pela casa cantando “taaaaaan...Tan-tan-tan-taaaaaaaaan...”
Como já dizia Belchior, “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não...”
M.S.
Bem,amigos da Rede Globo… Eis a última cena do último episódio do National Kid. E com a dublagem original. Dura 3min e 40seg.
Não precisam agradecer. Basta curtir e enxugar aquela lágrima vadia que insiste em correr no canto dos olhos...

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Na TV Antigas Ternuras você vê algumas cenas e a abertura do National Kid. Se você não era desta época, você não sabe o que perdeu. Se você era... Ah, está aí fungando não é? Pois é. Eu também.

domingo, abril 22, 2007

Um caguëte de outro mundo – 2a. Parte (Final)


No capítulo anterior, eu comecei a contar uma de minhas travessuras do tempo do colégio e as respectivas conseqüências, que depois viriam a culminar com uma delação vinda do mundo dos mortos. Se você não leu ainda, recomendo que leia primeiro o post abaixo para colocar-se a par dos fatos.

A situação era desesperadora. Eu e Roberto GBO estávamos perdendo aulas direto. Resolvemos apelar para os céus. No caso, para Nossa Senhora da Penha.
Mais uma vez, pular o muro da linha do trem, andar sobre os dormentes, arriscar a vida na ponte de ferro, pegar o trem. Paramos na estação da Penha.
*

A igreja da Penha é famosa por ficar num penhasco (óbvio...O nome já está dizendo). Muita gente faz promessas e pedidos à santa, na esperança de receber uma graça. A nossa graça era aquela história se resolver sem que a minha mãe e a avó dele entrassem no circuito. Decidimos subir os 365 degraus da igreja de joelhos para comover a santa e o milagre acontecer.
*
Começamos a subir juntos. Não deu certo. Era só um olhar para a cara do outro para cair na gargalhada feito hienas enlouquecidas. Resolvemos nos separar. Ele ficaria no outro lado da escada. Mas não teve jeito. Bastava que um olhasse para o outro e ambos se mijavam de tanto rir. Será que a santa iria aceitar um sacrifício daquele jeito?
*

No dia seguinte, entramos na sala. Ficamos quietinhos. O coordenador apareceu e a história se repetiu. É. Não tinha jeito. Tínhamos que contar para nossos responsáveis e agüentar as conseqüências.
Em casa, eu olhava para a minha mãe, fazendo o jantar... e cadê coragem para falar? Ficava rodeando ela, feito cachorro que comeu o presunto e está envergonhado.
Acabei falando. Ouvi um dos famosos esporros de D. Ruth. Daqueles que fariam as trombetas do Apocalipse parecerem caixinha de música para bebês.
*
E lá fui eu para o colégio, com a minha mãe e seu olhar fuzilante sobre mim. Entramos, ela foi para a coordenação, eu fui para a sala. Encontro lá o Roberto GBO com os olhos arregalados, parecendo que tinha visto o Drácula montado na mula-sem-cabeça correndo atrás do lobisomem.
- Você trouxe a sua avó? Teve coragem para contar pra ela?
- Não foi preciso. Entregaram a gente de bandeja.
- Como entregaram?... Quem entregou?
Foi quando ele me contou uma triste história.

A avó dele era macumbeira. Freqüentava um terreiro de umbanda. No dia anterior, ele estava tentando reunir coragem para confessar o acontecido, quando a velha foi no terreiro. Lá, ela se consultou com uma das entidades, um cabôco, um preto velho, sei lá. Só sei que o espírito (de porco) contou toda a história para a avó do GBO. Contou minuciosamente. Parecia um travesti descrevendo uma festa de casamento. Com riqueza de detalhes. Falou do trem, da praia de Ramos, da igreja, tudo, tudo, tudo! Eu nunca vi um troço desses! Um Cabôco Língua Grande!
A avó chegou em casa cuspindo fogo que nem dragão profissional! Apertou o GBO que não teve como negar.
Ou seja: A avó estava naquele momento lá na coordenação, junto com a minha mãe.
*
Como diria Madre Teresa de Calcutá, em momentos difíceis:
- Agora é que fodeu tudo de vez!
O coordenador veio nos chamar, fomos até a sala dele e eu temia entrar na porrada lá mesmo. Encontrei minha mãe bem calma. Estranhamente calma... Ela só me disse:
- Em casa conversamos...
Duvido que Tiradentes, ao ouvir a sentença de morte, tivesse sentido o que eu senti naquele momento.
Cheguei em casa já pensando em fazer o meu testamento. Minha mãe só disse o seguinte:
- Um mês sem sair de casa. Você só sai para ir ao colégio. E volta direto pra casa.
" AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUGHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
PelamordeDeus!! Tudo, menos isso! "
Fui pegar o fio de ferro:
- Me bate! Me espanca! Arranque o meu couro! Mas não faça isso comigo!!!
*

Ela fez. Passei um mês trancafiado em uma cela de segurança máxima.
Na sagrada hora do futebol das tardinhas, os meus amigos vinham me chamar e eu dizia que não podia ir jogar. Eles perguntaram porquê e eu só falei:
- Macumba!
M.S.
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No outro dia, estava fazendo a ronda nos blogs amigos, passei no Playground dos Dinossauros, um blog-irmão deste Antigas Ternuras, também dedicado a relembrar doces momentos do passado (são quatro dinossauros autores, um deles é o Itiro que vem sempre aqui). Lá, vi um texto em que falava de viagem no tempo, como vocês sabem, uma de minhas mais queridas e antigas ternuras. Perguntava que viagem no tempo nós, leitores, gostaríamos de fazer. Eu respondi: voltar à minha adolescência, quando ia para o colégio encontrar meus amigos, depois voltava para casa, para ver National Kid na TV e jogar futebol no campinho de várzea.
Daí, me veio à mente este momento difícil que passei. Hoje, eu revivo isso tudo com um sorriso nostálgico. É muito bom ter vivido histórias assim para ter o que lembrar, o que recordar, o que contar para os amigos.
No próximo post, escreverei sobre o National Kid.
Em tempo: se vocês acham que eu inventei tudo isso, perguntem ao meu amigo-irmão Luiz, que sempre lê este blog e era meu colega de escola neste tempo...
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo uma de minhas antigas e deliciosas ternuras: "O Bom Menino", com meu ídolo de infância, Carequinha. Eu deveria ser um bom menino, mas...

terça-feira, abril 17, 2007

Um caguëte de outro mundo


Alguém aí já foi cagüetado por um espírito? Eu já. E, olha, deu uma merda federal!
Querem saber como foi? Então deixem eu fazer o que mais faço aqui neste blog: apertar a tecla REWIND e voltar a fita no tempo, até meus 12, 13 anos, quando estava no segundo ano ginasial.
*
Um dia, cheguei na sala de aula, sentei no meu lugar e estava aguardando a aula começar. Nisso... ploct!... Um pedaço de giz bateu bem na minha cabeça. Levanto os olhos e vejo o Luiz Carlos “Neguinho” (naquela época não havia politicamente correto, chamávamos nossos colegas com excesso de melanina na pele de “neguinho” e ninguém se sentia ofendido). Ele estava rindo feito um pterodátilo.
- Ah, féla da p...

Ato contínuo, peguei o mesmo pedaço de giz e mandei nos cornos dele. Foi a senha para iniciar uma troca de tiros de giz entre nós. Corri para o final da fila de carteiras, ele se entrincheirou no início da fila e voou toco de giz para tudo que é lado. Parecíamos dois pistoleiros de filme de bangue-bangue, trocando tiros de giz.
*
No que eu estou abaixado, olho no canto da sala uma lata de lixo e dentro, uma pêra semi-comida, semi-apodrecida... Uma idéia me passou pela cabeça. Lembro que fiquei avaliando se devia ou não pô-la em prática.
Sabem quando aparece nos desenhos animados um diabinho e um anjinho e ficam falando um de cada lado do ouvido? Pois é. O Marco Anjinho falava assim: “não faça isso. Pode te trazer problemas.”

O Marco Capetinha sussurrava: “que mané problema! Manda essa pêra nos cornos desse cara para ele aprender a não te provocar!”
Gente, eu tentei resistir, mas o argumento do diabinho era mais forte!
Peguei a pêra meio podre no fundo da lata de lixo, esperei o Neguinho levantar e arremessei com toda a força na direção dele.
Ele se abaixou.
Exatamente na hora em que a Neusa, a menina mais sebosa, mais antipática da sala ia passando.
*
A pêra explodiu na cara dela. Na mesma hora, a pentelha girou nos calcanhares, saindo da sala. Eu sabia exatamente o que ela iria fazer.
Voltei pro meu lugar, sentei e aguardei a punição. Não demorou três minutos, apareceu o coordenador, prof. José Carlos, na porta da sala:
- Marco, arrume o seu material e venha para a coordenação.
E lá fui eu, com passos pesados, com a sensação de que estava condenado à câmara de gás, à forca, à cadeira elétrica e à cruz. Tudo ao mesmo tempo.
*
Chegando lá, ouvi uma bronca daquela de fazer derreter o granito do piso. Ele pegou a minha ficha. Acontece que eu não tinha uma ficha. Tinha um prontuário! Já tinha feito tanta merda naquele ano, que na última me alertaram: na próxima, expulsão. E a próxima tinha acontecido. Eu acabava de dar motivos para isso.
*
Nisso, chega à coordenação mais um aluno da minha sala, o meu amigo Roberto GBO (de Grande Bobo e Otário, olha só com quem eu andava!). Ele também tinha aprontado alguma e fora mandado para a punição do coordenador.
A situação dele não era tão grave como a minha. Mas a punição também seria da pesada. Como eu era considerado um bom aluno, embora fosse um capeta, resolveram me dar uma última chance. Mas... Sempre existe um “mas” nessas situações. Mas eu teria que trazer a minha mãe no colégio. Só entraria com ela.
*

Aí é que morava o perigo. Minha mãe era muito rígida. Se soubesse o que eu tinha feito iria me dar uma coça de fio de ferro (sim, moçada, houve época em que o fio do ferro elétrico era solto! Toda criança deveria fazer uma prece silenciosa em memória do santo homem que inventou o fio de ferro preso ao aparelho!). Não, minha mãe tinha que ficar fora dessa!
A punição do Roberto GBO foi a mesma: teria que trazer a responsável por ele, no caso, a avó que o criara. E parece que ela era mais braba que siri amarrado. Que nem minha mãe.
*
Saímos para a rua e ficamos zanzando até o meio-dia, fim das aulas. No dia seguinte, entramos na sala quietinhos, nos sentamos no final das carteiras sem dar um pio, na esperança de que esquecessem da gente.
Não esqueceram.
- Marco e Roberto. Cadê os responsáveis por vocês?
- Ah... Sabe o que é, professor... Minha mãe trabalha. Não pode vir.
- Então vocês ficam suspensos até as mães de vocês terem tempo para vir aqui conversar conosco.
*

Raios. Raios duplos. Raios triplos.
Saímos os dois de sala. Eu ainda dei uma olhada na direção daquela desgraçada da Neusa. Ela, com a cara de vômito engarrafado habitual, nem te ligo...
Na rua, eu e Roberto GBO decidíamos o que fazer. Olha só a sugestão do mequetrefe:
- Vamos andar de trem?
- Pô, Roberto, eu não tenho um tostão.
- Ah, a gente pula o muro da linha do trem, vai andando até a estação de Vigário Geral. De lá, nós entramos no trem sem pagar. (veja na foto a estação e o trem de madeira puxado por locomotiva que a gente pegava)
E este débil-mental aqui topou.
*
Fomos andando pelos trilhos, passamos pela ponte sobre o Rio Meriti (putz! Que mêda! Um passo em falso ali e ficaríamos gravemente mortos pro resto da vida!), pegamos o trem. Aí, o GBO, deu mais uma idéia de jerico:
- Vamos saltar em Ramos e ir pra praia?
- Pô, cara. Estamos com uniforme do colégio!
- E daí? Ninguém vai saber!
Mais uma vez eu topei. E fomos para a praia de Ramos, antes do Piscinão. Aquilo era um cocozal da pior qualidade.

Chegamos lá, o Roberto quis nadar. Eu não topei. Ele foi.
Depois dele se refestelar nas águas, resolvemos voltar pra casa. No dia seguinte tentaríamos entrar no colégio novamente, na esperança do coordenador nos esquecer.
*
Não esqueceu, aquele filho de uma que ronca e fuça...
M.S.
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Esse post ficou muito grande, tive que dividi-lo. Publico aqui a primeira parte e no domingo eu posto a parte final. Aguardem. Vou, enfim, revelar como um espírito me delatou.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Eu sou terrível”, com Roberto Carlos.

sexta-feira, abril 13, 2007

Cada uma que aparece...


Dia desses, recebi pela Internet uma mensagem de um parceiro meu. Eis o conteúdo:
O que significa a palavra "Família"?
Você tem consciência de que se morrêssemos amanhã, a firma onde trabalhamos nos substituiria rapidamente?
Mas a família que deixamos para trás, sentirá a nossa falta para o resto das suas vidas.
Pensando nisto, já que perdemos mais tempo com trabalho do que com a família, parece um investimento muito pouco sensato, não acha?
Afinal, qual a moral da história?
Você sabe o que significa a palavra Família em inglês?
FAMILY = (F)ATHER (A)ND (M)OTHER (I) (L)OVE (Y)OU'
Pai e Mãe Eu amo Vocês!
Legal! Eu não sabia disso!
*

Que coisa linda!... Que coisa meiga!... Que coisa errada!
Não a primeira parte do texto, obviamente. De fato, passamos a maior parte do tempo longe de nossas famílias e justamente ela que nos dá o necessário reforço emocional.
O errado aí é a “explicação” sobre “family”.
Não sei de onde tiram idéias de jerico como essas, juro que não sei! Às vezes, acho que tem uma pessoa na Internet, que fica sozinha, tadinha, solitária, sem mais o que fazer além de ficar inventando lendas urbanas, bobagens que são repassadas e acabam ganhando “fundo de verdade”. Eu parto do princípio que 99% das coisa que recebo pela Internet são coisas erradas, falsas, sem nenhuma comprovação científica. E são mesmo! A quase totalidade de textos atribuídos ao Luís Fernando Veríssimo e ao Arnaldo Jabor está aí mesmo para comprovar.
*
Sobre a origem da palavra “Família”, respondi para o meu amigo o seguinte:
Família vem do latim "famulus", que significa "escravo doméstico". Este termo (e conceito) foi criado na Antiga Roma para designar um novo grupo social que surgiu entre tribos latinas, tão logo foram apresentadas à agricultura e ao trabalho forçado com justificativa legal.
Inicialmente, "família" eram todos os que pertenciam ou estavam ligados a um mesmo patriarca. Na Idade Média, passou-se a admitir como "família" somente os ligados por laços de consangüinidade e/ou decorrentes de matrimônio.
*
Por sorte, eu conhecia a origem da palavra “família”. Mas poderia não conhecer; não sou nenhum sabichão, desconheço muitas, muitas coisas. Vai que eu acredito nessa explicação bonitinha (mas ordinária) e saio repassando por aí, fazendo as pessoas acreditarem em mais esta lenda urbana, olha a situação...
*

Tem outra. Tão inacreditável quanto.
Nesta semana, de segunda a quarta, estive em Porto Alegre para fazer algumas palestras e participar do lançamento do segundo volume do projeto onde atuo, no meu principal emprego. Na segunda-feira, estivemos eu e meu coordenador, na TV RBS para participar de um programa de entrevistas. Era uma espécie de mesa redonda, com um âncora e outros participantes. Entre estes, havia um professor de português (imagino eu...). O público telespectador mandava perguntas com dúvidas sobre a nossa língua e ele respondia no ar.
Estávamos lá, esperando a nossa vez, quando o âncora leu uma pergunta dirigida ao tal professor:
“Atualmente existe uma recomendação oficial para não usar a palavra aluno e sim estudante, pois, segundo dizem, aluno em latim significa ‘aquele que não tem luz’. É verdade isso, professor?”
*

Eu, no meu canto, quase tive uma síncope, prendendo o riso (estava no estúdio, não podia fazer barulho) diante de uma bobagem sem tamanho como aquela.
O professor esclareceu, até usando de muita galhofa (eu teria feito pior, debochado do jeito que eu sou...), que aquilo era um erro colossal, que aluno, em latim alumnu, na verdade significa: “criança que se dava para criar” (segundo o Aurélio), ou “criança em fase de aleitamento”, recebendo o “leite do saber”, evidentemente (segundo o Houaiss). Pois é. Está nos dicionários. No “nosso pai” (o “pai dos burros”). Bastaria que a pessoa o consultasse para ver que é uma enorme bobagem essa de aluno ser “pessoa sem luz”... E pelo que o professor falou, tem gente do Ministério da Educação passando esse tipo de recomendação às escolas, vejam vocês...
*

As lendas urbanas estão espalhadas por aí e a Internet se transformou num excelente veículo para transmiti-las. Como sempre há olhos crédulos para por fé nas coisas que chegam pelas infovias da rede, estamos diante de uma espécie de “Febeapá” internáutico. Stanislaw Ponte Preta deve estar no túmulo se revirando de rir...
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Aviso aos Navegantes” com o sempre ótimo Lulu Santos.

domingo, abril 08, 2007

Pé de pato, mangalô três vezes!


O tema hoje é: superstição. (toc, toc, toc!)
Vou começar teclando com a mão direita pra dar sorte. Mas, antes, deixa eu beijar a minha figa. Isso afasta aquela palavrinha horrível com quatro letras. Não gosto nem de pensar nela. Deus me livre! Isola!
*
Bem, agora podemos tratar do assunto.
Este post faz parte da seção “A origem das expressões que utilizamos e que não sabíamos de onde vinham”. Quem me acompanha há mais tempo já leu aqui posts que eu fiz com minhas pesquisas nesta área (que são antigas ternuras minhas). Vou apresentar hoje a origem de duas expressões relacionadas com superstição. A primeira é:

Entrar com o pé direito


Essa é do tempo da Antiga Roma. O costume e a expressão nasceram lá, embora tal prática tenha se espalhado pelo mundo. Segundo consta, nas festas que os romanos davam era costume dos convidados entrarem nos salões dextro pede – ou seja, com o “pé direito”. Diziam eles que isso afastaria o mau agouro. Vai ver eles pretendiam encher a caveira, e, por isso, não queriam atrair má sorte. Se iriam enfiar o pé na jaca, que fosse o direito!
*
Hoje em dia, especialmente jogadores de futebol, uma das raças mais supersticiosa que eu conheço, fazem questão de entrar em campo com o pé direito. Nem sabem o porquê fazem isso, mas repetem como macaquinhos o que um outro faz.
*
A outra expressão que eu quero explicar é a:

Bater na madeira


Uma amiga minha, atriz, só entra em cena se bater na madeira três vezes. Um dia perguntei a ela porque ela faz isso. “Para dar sorte”, me respondeu. Eu insisti (sou muito chato e implicante, de vez em sempre, coisas de virginiano): “estou perguntando se você sabe por que se bate na madeira para dar sorte?”
Ela não sabia.
Aí eu expliquei:
O costume de bater na madeira é muito antigo, provavelmente de origem celta. Acreditava-se que em cada árvore existe uma divindade. Por isso, ao se entrar numa floresta era hábito bater nos troncos para despertar o deus que lá estava e invocar proteção. Especialmente para afastar maus espíritos. Se antes se procurava um tronco para as tradicionais pancadinhas, no ambiente urbano as pessoas começaram a procurar mesas, portas, o que fosse feito de madeira para o mesmo ritual (embora o deus não estivesse numa mesa; no que derrubaram a árvore, ele teria buscado outra planta pra morar; aliás, que deus mixuruca esse que nem a própria casa ele conseguiu proteger!)
*
Sei que alguns diriam: “Bobagem! Superstição é besteira, invencionice do povo ignorante!”
É. Pode ser.

Mas o costume está mais arraigado do que pode pensar a nossa vã filosofia. E existe traços de preconceito nisso também. De certa forma, confunde-se religião com superstição e aí o bicho pega, porque consideramos nossos hábitos litúrgicos como religião, e os dos outros, diferentes de nós, como superstição. Costuma-se vincular superstição ao paganismo. E não está de todo errado quem pensa assim. Mas está equivocado quem acha que o seu hábito religioso é legítimo e o dos outros, não!
O cara que faz o sinal da cruz quando passa diante de uma igreja, acredita de pés juntos que seu gesto não é superstição. Agora já tem jogador de futebol (sempre eles!), que quando chuta a bola para fora, faz o sinal da cruz (provavelmente pedindo perdão a Deus por isolar a bola na arquibancada...) e acham que isso é devoção, pedido de proteção, o escambau.
No que isto é diferente de bater três vezes na madeira? De se entrar com o pé direito em um lugar?
*

O autor, ator e diretor Fernando Peixoto costuma contar uma história curiosa. Ele teve uma secretária doméstica que num dia entrou em casa reclamando de uma pessoa que estava no mesmo ônibus que ela, com um cordão largo com um crucifixo, e que ao balanço do veículo ficava com a cruz batendo no braço dela, incomodando bastante.
Fernando tentou contemporizar:
- Mas é a cruz de Cristo! Símbolo de devoção! Você estava sendo abençoada!
Ela respondeu, mais fula ainda:
- Que mané devoção, que nada! Cruz era objeto de tortura! Queria ver se Jesus tivesse morrido na cadeira elétrica se as pessoas iam andar com uma cadeira pendurada no pescoço! Aí que iria incomodar os outros mesmo, ter uma cadeira num cordão, balançando e batendo na gente!
*
Sei que vai ter gente considerando este argumento um sofisma, mas, aqui pra nós, a mulher está careca de razão! (Já imaginaram fazer o “sinal da cadeira” diante de uma igreja???)
*

Claro que este post não vai e nem pretende mudar os hábitos de ninguém. Talvez, no máximo, levá-los à reflexão sobre o efeito prático de algumas superstições. Especialmente no que diz respeito às confusões com religião.
Superstição e religião são coisas diversas. Uma, a segunda, trata da vida espiritual; a outra, a primeira, pretende trazer benefícios imediatos e sempre terrenos, concretos.
Na superstição não há... não há... (Eu queria lembrar de uma palavra, mas esqueci... Ô meu Deus... Como era mesmo?... Huum, espera aí, deixa eu dar três pulinhos e dizer: “São Longuinho! São Longuinho! São Longuinho!”... Ah! Lembrei:)
Não há lógica científica!
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo o delicioso clássico brega “Sorte tem quem acredita nela” do sempre inacreditável Fernando Mendes.

terça-feira, abril 03, 2007

Nunca mais



Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
(...)
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”
(...)
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
(...)
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
(...)
[Trecho do poema “The Raven (O Corvo), de Edgard Allan Poe, traduzido para o português por Fernando Pessoa]
*

Noutro dia, estava indo para o estacionamento do meu prédio quando vi uma linha por sobre o meu carro. No que eu puxei, percebi que na ponta estava uma pipa que tinha voado e se alojado ali, agarrada no meu batmóvel. Uma pequena chama se acendeu nas minhas retinas fatigadas. Lembrei que fui menino e que em determinadas épocas do ano eu andava pelas ruas olhando para o alto, procurando pipas voadas que tivessem sendo cortadas por linhas com cerol para eu correr e pegá-las para o meu divertimento. Então pensei: “Mas que pandorga é esta que me ativa memórias ancestrais?... Chega assim, sem um aviso, vindo em ventos celestiais... Será que não trouxe junto a ela minha infância em rituais?”
*

E já me vi ali correndo, estendendo a linha de um “dez dos grandes” (como chamávamos o carretel maior da linha Corrente de número 10), passando a mistura de cola de madeira e vidro moído, botando no alto aquele artefato feito de varetas finas de bambu e papel-seda colorido...
*
Hoje percebo o quanto de ritual existe no simples ato de empinar papagaio ou pandorga, soltar pipa, como dizíamos e acho que ainda dizem aqui no Rio. Quem fazia a pipa escolhia com critério o bambu, cortava varetas para a armação, ligava-as com linha dando o aspecto desejado. Depois, escolher a combinação de papéis finos para revestir o esqueleto de bambu.

Eu gostava de fazer em listras vermelhas e pretas, e chamar a minha pipa de “flamenguinha”. Depois, elaborar a rabiola com as sobras do papel, andar pelos terrenos baldios atrás de lâmpadas velhas, quebrá-las e moer os cacos até ficar uma farinha branca e bem fina; coava numa meia de seda velha. Depois, derretia as placas de cola de madeira (numa lata vazia sobre uma fogueira de lenha, porque cheirava forte e minha mãe não deixava fazer aquilo na cozinha), adicionava pó secante, misturava com o vidro moído, deslizava a mistura pela linha, com a mão em concha, fazendo o fio passar por baixo do polegar, de vez em quando dar uns estanques para retirar o excesso... Esperar secar e pronto!
*
Daí, eu chamava o vento com uma cantiga mágica, de tempos imemoriais: “vem, vento, catinguelê... Cachorro do mato quer me morder...” (o significado disso? Não importa. Importava era o vento aparecer). A brisa da tarde aparecia e fazia o meu pássaro rubro-negro singrar pelos ares... sendo conduzido por mãos hábeis, na busca por outros pássaros.

Ah... E ver um combate nos céus. A aproximação era sempre com negaceios. Debicava a pipa na direção da possível vítima, fazia que ia, mas voltava... O balé no azul podia durar segundos, minutos, pequenas eternidades, esticando o prazer até não mais poder. Aí vinha o bote final. As linhas se entrecruzando e definindo quem prosseguiria no jogo. Uma delas - às vezes as duas - teria partido o cordão umbilical que as ligava ao dono. E a pipa voava, bailando no céu, virando cambalhotas livres, lindas... Até ela mansamente cair numa rua, num quintal baldio, onde mãos ávidas a esperavam para novamente fazê-la subir para o azul.
*

Mas aquela pipa caiu em completa solidão. Nenhum bando de alegres meninos, não tinha dedos ávidos para disputá-la. Jazia ali, ao lado do meu carro. Agora, estava na minha mão. “E então, triste pandorga”, pensei eu, “onde está a tua vida, dá-me então os teus sinais... Vens com tuas cores de alegria e aos meus olhos provocais... Por algum artifício não sabido, presa ao carro em seus umbrais... Traga minha infância perdida! Cessa em mim esses meus ais...”
E a resposta veio num vento sacudido: “Nunca mais... Nunca mais...”
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo 14 Bis com “Pequenas Maravilhas”.
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Pessoal: sei que ando meio sumido do ambiente blogueiro. Eu estava em semana de reestréia de meu espetáculo "Nhoque em Tempos de Crise". Ele agora estreou e, para os que moram no Rio e queiram me assistir fazendo palhaçadas, é só ir ao Teatro Glaucio Gill (Barata Ribeiro com Praça Cardeal Arcoverde, ao lado da Estação do Metrô Arcoverde, em Copacabana). A peça é uma comédia de se mijar de rir. Já teve blogueiro amigo que foi e gostou. Será um enorme prazer tê-los lá para me assistir. A peça está em cartaz de quinta a domingo, às 21h (domingo às 20h).

quinta-feira, março 29, 2007

Chique Chiqueiro


Prosseguindo a partir do post anterior sobre os hábitos de asseio das populações passadas. Mais um episódio da séria série “A História tem cada história”.

Bem... No capítulo anterior, falávamos do banho e da fase final de toda obra-prima culinária. Prosseguiremos falando da falta de saneamento e suas conseqüências para os habitantes do Rio Antigo.
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Em 1853, o então presidente da Junta, o médico Francisco de Paula Cândido, elaborou o Relatório sobre a salubridade da cidade do Rio de Janeiro em geral e a febre amarela em particular para subir à Augusta Presença de S. M. o Imperador, onde fez reflexões curiosas e interessantes a respeito da Higiene Pública da capital do país. Uma delas: “O clima, isto é, o ar respirado pelos habitantes do Rio de Janeiro tem sofrido notável modificação com o crescimento da população e com as mudanças que a civilização tem operado em seus costumes”.
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Arrá! Então a falta de educação das pessoas, os maus cidadãos que emporcalham a cidade vêm de longe? Pois é.
E o tal cientista listou alguns fatores que, na opinião dele, junto com a falta de higiene, influíam na duração média da vida das pessoas de sua época: “a emigração, o aumento da reprodução, acompanhando algumas vezes o aumento da mortalidade, a idade das paixões, onde mais se morre, afluindo para as cidades, a vida efeminada e indolente da classe abastada, a idade provecta de alguns que pode ser mais que contrabalançada pela maior mortalidade da infância (...)”. Não deixa de causar um certo espanto o comentário sobre hábitos... huum... pouco ortodoxos da “classe abastada”, especialmente por se tratar do ano de 1853, e em um relatório dirigido ao Imperador. Mas prefiro “pular essa parte”... Voltemos à porcaria.
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O Dr. Francisco de Paula fez um cálculo curioso sobre a quantidade de dejetos que eram produzidos diariamente na cidade. Segundo ele, tomando-se por base que cada homem bota pra fora, em média, 165 gramas em fezes por dia (eu sei que tem muito cagão que faz bem mais do que isso, mas, na média, dá aproximadamente esse peso, você sabia? Experimenta arriar o barro numa balança procê ver...), isto multiplicado pela população da época estimada em 266 mil habitantes perfariam 311.220 arrobas de matérias sólidas (ou seja, cocô) a se transformarem em gases, que seriam fatalmente inalados pelas pessoas. Para animais, a estimativa dava conta de 155.610 arrobas a se volatizarem in natura diariamente.
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Perceberam? Sentiram o cheiro da bosta? Hoje, reclamamos do gás carbônico dos carros. Na época, eles reclamavam do “gás carbônico” das pessoas e dos cavalos e outros animais que zanzavam pela cidade. Ou seja: da cocozada que ficava pelo chão, ao alcance de olhos e principalmente das narinas do povo...
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Não é à toa que a Carlota Joaquina vivia reclamando com o Príncipe Regente D. João que essa cidade fedia a merda...
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E, olha... Atualmente, isso não mudou muito, não. Vivemos num chiqueiro chique. Lembro que nos anos 90 eu estava ensaiando uma peça com o saudoso diretor Marcio Vianna. Ele pretendia fazer um espetáculo sobre cegos e queria que atores e público sentissem o desconforto de não enxergar. Nos ensaios, ele fez o seguinte exercício com a gente: dividiu os atores em duplas e cada um tinha que fechar os olhos e ser conduzido pelo outro pela cidade. Depois trocava. Quando fui o “cego”, caraco!, fiquei achando que a minha colega tivesse me levado para o canal do Mangue. No que a gente fica sem um sentido, os demais se aguçam. E eu, sem visão, tive meu olfato mais apurado. (Eca! Eca! Eca!) Porém, o mais engraçado é que ela me levou para andar nas ruas do centro e depois da Zona Sul da cidade! Áreas nobres! E o cheiro de bosta, mijo e lixo que impregnava meu nariz continua por aí mesmo hoje em dia. Só que nos acostumamos com ele...(Argh!)
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Por tudo isso, pelos maus hábitos de higiene da população, o Rio foi, durante os Séculos 18 e 19, a capital da pestilência nas Américas. Cólera, tifo, peste bubônica matavam pessoas como a gente mata mosquito. Querem mais um exemplo da nojeira? Olha só.
Naquela época, o tratamento mais recomendado para todo tipo de doença era a sangria. Achavam que se a pessoa botasse o sangue ruim pra fora, ficaria curada de suas mazelas. Daí, recomendava-se sangria pra tudo: Dor de cabeça? Sangria. Diarréia? Sangria. Torcicolo no pescoço? Sangria. Calvície? Sangria. O homem ficou broxa? Sangria. E nisso, quem receitava e aplicava esse “tratamento” eram os barbeiros, que na época, não cortavam só barba e cabelo, eram também uma espécie de médicos populares. Havia uma concentração deles no Beco dos Barbeiros (que existe até hoje, na Praça 15, ao lado da Igreja do Carmo). Os doentes chegavam lá, sentavam na cadeira e o fígaro perguntava: “cabelo, barba ou sangria?” “Ah, eu estou com uma afta na língua...” “Pois então, é sangria!” O doente tirava as botinas, estendia o pé e o barbeiro passava a navalha na sola dos pés, fazendo dois cortes. O paciente ficava ali, sangrando, e vendo o sangue correr por uma pequena vala no meio do beco (que existe até hoje! Pode ir lá ver!).
Agora imaginem, uma vala de sangue no meio da rua! E desembocando no mar, ali, ao lado do Paço Imperial. Os ratos, baratas e tudo o que é bicho nojento se empanturravam naquele sangue pestilento! Bleargh!
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E por falar em vala, elas eram muitas pela cidade. A mais famosa delas era a que saía do Chafariz da Carioca (vide ilustração), que ficava no largo de mesmo nome (mantido até hoje). No Século 18, a cidade tinha falta de água em seu interior. Para conseguir o precioso líquido, tinham que ir até o Rio Carioca ou pagar os escravos aguadeiros. Daí, o governo abriu 11 chafarizes no perímetro urbano. Todos abastecidos pelo Rio Carioca.

O maior deles era o que ficava junto ao Convento de Santo Antônio. A água vinha por Santa Teresa, passava pelo Aqueduto da Carioca (hoje, Arcos da Lapa, veja a figura) e desembocava no Chafariz da Carioca, onde mulheres pobres, escravos e escravas pegavam água, lavavam roupa e o escambau. Dali, a água suja seguia por uma vala que já existia na atual Rua Uruguaiana (que tinha o nome de Rua da Vala), até o mar. Pelo caminho, recebia esgoto das casas do lugar.
*

Tem uma história interessante sobre essa vala. No final do Século 18, o vice-rei Luís de Vasconcelos arrumou uma amante na Rua da Vala. Quando o marido da dadivosa senhora saía, o vice-rei ia lá afogar o ganso real. Um dia aconteceu algo inusitado. Estava lá, D. Luís, na maior saliência com a amante, quando ela ouviu sons na rua:
- Ih! É o meu marido!
D. Luís levantou-se da alcova de um salto:
- Caralhos me fodam! Ele não pode me pegar aqui! Eu sou o vice-rei!

- Esconda-se no armário!
- Ó pá! Sou português mas não sou burro! Até em piada todo mundo sabe que o armário é o primeiro lugar que os cornos procuram amantes!
- Então, alteza, cate seus panos de bunda e chispe-se pela janela, que ele já está entrando!
E foi o que D. Luís fez. Catou ceroulas, sapato, camisa, abriu a janela e pulou para a rua... atochando os pés na vala!
- Raios! Por todos os infernos! Que merda! @%&#$%§&*!!!!!!!! (Melhor não traduzir essa parte, esse blog é de família)
Daí, no dia seguinte, o vice-rei D. Luís mandou canalizar e cobrir a vala da Rua da Vala. Melhorou sensivelmente o saneamento do local. E isso, graças ao adultério da amante do representante da Coroa portuguesa. Estão vendo? Chifre é cultura e pode ser benéfico para a população.
Tempos depois, o chafariz foi desativado. E hoje, o metrô passa por baixo da Rua Uruguaiana, exatamente onde havia a famosa vala.
M.S.
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Quando eu dou minhas aulas e faço as minhas palestras sobre História Urbana do Rio eu conto essas histórias, falo assim desse jeito que eu escrevi. Pode ser a maior “fuleragem”, como dizem no Nordeste, mas nunca recebi queixas. O povo diz que aprende e não esquece...
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “What a wonderful world”, com o grande Louis “Satchmo” Armstrong. Depois de falar de tanta merda que os seres humanos fazem, nada como uma melodia do céu para a gente lembrar do mundo maravilhoso que nos rodeia.

domingo, março 25, 2007

Avós do Cascão


E lá vamos nós para mais um texto da séria série “A História tem cada história”. Hoje, falaremos sobre um tema pra lá de prosaico:

Saneamento.

Vamos lá?
Diga-me você, ó leitor, existe coisa melhor do que chegar em casa, suado, e entrar numa ducha daquela que lava a alma da gente? Ou então acordar pela manhã e dar uma chegadinha no banheiro, sentar no trono e mandar um “número 2” com toda calma e delícia do mundo, tem coisa mais prazerosa? No primeiro caso, ao fim do banho, fechamos a torneira e tudo o mais escoa pelo ralo. Nada mais temos a ver com aquelas águas. No segundo, ao fim da “obra”, apertamos um simples botão e aquele pedaço de nós desaparece de nossas vistas sem mágoas, sem despedidas. Que coisa boa, né? Mas, olha, antigamente não era assim, não!
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Até o Século 19, iniciozinho do 20, a quase totalidade das casas não tinha banheiro. Aquele cômodo reservado, onde lavamos o nosso corpinho sensual, onde também tiramos a famosa “água do joelho” e ainda eventualmente “esculpimos uma cerâmica”, só bem mais tarde entrou para o cotidiano das casas.
“Mas, como é que era?” – perguntariam vocês, com olhinhos fúlgidos de curiosidade.
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Bem, ao longo do Brasil Colonial e mesmo do Brasil Império, tomar banho era praticamente uma cerimônia, um ritual. Não existia um cômodo específico pra isso: trazia-se uma enorme tina de madeira pro quarto, enchia-se de água quente (ou morna, ou fria, de acordo com o gosto de cada um) e começava o banho da família. Em tempos idos, toda a família tomava banho na mesma água, começando pelo chefe, depois pela mãe, o filho mais velho, assim por diante. O filho mais novo tomava banho na lama de seus parentes. Sorte dele que, como banho era uma cerimônia, não acontecia todos os dias.
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A família branca brasileira descendia diretamente de portugueses, que, como os europeus de forma geral (posso garantir isso pelos latinos e anglo-saxões; não estudei eslavos e nórdicos detidamente) viam o ato de tomar banho como uma obrigação, e digo mais: um ato perigoso e arriscado. Explico.

De tempos em tempos, a Europa era flagelada pela Peste Negra (nome que davam à peste bubônica), que matava gente feito moscas. Em Portugal, teve grandes surtos nos Séculos 14, 16, 17 e 19. Os médicos de então, diziam que quando as pessoas tomavam banho, tiravam a proteção natural da pele. E mais: os poros ficavam abertos, propensos a pegar doenças que estavam no ar (eles não sabiam que a bubônica se pegava pelos ratos). Daí, quando um rei tomava banho, ficava de quarentena por umas três semanas, não atendendo a ninguém, não dando audiências, para que seus poros abertos não captassem nenhuma doença. Da mesma forma, se um nobre ou plebeu tomava o seu banho (anual, semestral, mensal...), ele não queria saber de contatos com quem não tivesse se lavado, pois temia pegar alguma ziquizira. Nessa, tomar banho passou a ser coisa muito perigosa, já diriam os avós do Cascão. Tal costume veio pro Brasil. Os portugueses estranhavam o fato dos índios viverem se banhando todo dia, toda hora. Os nativos, ditos selvagens, reclamavam do fedor da portuguesada, que não era chegada a uma lavação. De qualquer forma, o hábito do banho diário só entrou nos costumes locais bem mais tarde.
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Voltemos para o Século 19. Falei do banho, agora falo do natural hábito de se “escorregar um moreno”, “arriar uns tocos”, como diria o povaréu.
Isso todo mundo fazia e faz em qualquer época, sem restrições. Tem gente que ainda “desliza o barroso” cantando “você foi saindo de mim, devagar e pra sempre...” Pois é. Mas antigamente, puxava-se o penico que jazia embaixo das camas (era de barro, ferro esmaltado ou porcelana, de acordo com as posses da família), sentava-se o buzanfã e se paria um “rabo de macaco”, que se aninhava caprichosamente no fundo da peça. Em determinada hora do dia, alguém (escravo ou membro da casa) recolhia o conteúdo barroso dos penicos, deixando-os limpos para serem novamente usados. A complicação estava em se definir qual destino dar ao conteúdo dos penicos...Aí é que estava o busílis!
*

Eram duas as opções: uma, era abrir a porta ou janela, gritar: “arreda, ioiô, que lá vai cocô!”, arremessando a “cerâmica” à sua própria sorte. Quem trafegasse pela rua, ao ouvir esse alerta, tratava de se defender do torpedo fedorento que viajava pelos ares. De forma geral, o toletão caía em alguma vala negra ou mesmo jazia pela rua, feito um galho escatológico, um resíduo do outono visceral humano (eita, que hoje eu estou com a cachorra!).
A outra opção, era despejar os penicos num barril que continha “as águas da casa” – o conteúdo das tinas de banho, das tinas de lavar louça etc. Em determinada hora do dia, um escravo da casa ou empregado da família levava este barril para despejar no mar. Ou então, contratava-se um dos “escravos-tigres”, também chamados de os “tigrados”, que eram a “Companhia de Águas e Esgotos” da época. Eles zanzavam pelas ruas do Rio de Janeiro, com um barril na cabeça. Se alguém quisesse se desfazer de suas “águas de casa”, despejava o conteúdo de seu barril no barril do escravo. Pagavam algumas moedas e o “tigrado” se incumbia de jogar os restos no mar.
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Por que “tigrados” ou “tigres”? Bem, os negros andavam pelas ruas do Rio com um barril cheio de merda na cabeça. Com o fortíssimo calor, a bosta derretia, escorria pelas frestas do barril e, obviamente, pela cabeça e rosto do escravo, que ficava com a cara preta cheia de listras marrons, lembrando um tigre...
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O curioso nesta história era onde os “tigres” despejavam o conteúdo dos barris. No mar, diante do Paço Imperial (veja na ilustração, no círculo vermelho). Ou seja, vários barris de titica eram despejados defronte ao Palácio do Governo Imperial brasileiro. Imagina fazerem isso em Brasília, diante do Palácio do Planalto! (Até já posso ouvir meus amigos blogueiros DO e Marconi Leal dizendo: “hoje a bosta está DENTRO do Palácio do Planalto!”)
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Já imaginaram o cheiro que as ruas do Rio tinham naquela época? E o mar, nas proximidades do Centro? Eca! Eca! Eca!
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Este post está ficando muito grande. Continuo na próxima postagem. Tem outras historinhas interessantes sobre hábitos de Higiene do Rio Antigo. É só aguardar.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo Simone cantando “Saindo de mim”, em homenagem ao que sai de nós... “de uma forma sincera...definitivamente”...

quarta-feira, março 21, 2007

Ainda festejando...


O Antigas Ternuras completou dois anos. Então, vamos comemorar! Quer dizer, vamos continuar comemorando!
Na semana passada, republiquei um texto postado aqui entre 2005-2006. Agora, vou republicar um texto do segundo ano de criação do blog, entre 2006-2007.
Escolhi este daí debaixo.
Espero que gostem, como eu gostei de relê-lo.
M.S.
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Meu primeiro amor

Bem, amigos do Antigas Ternuras... Não sei vocês, mas eu lembro direitinho da primeira vez que eu me apaixonei. Não estou falando da minha primeira namorada. Eu me refiro à primeira criatura fêmea por quem caí de amores; o meu primeiro amor.
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Eu tinha 7 para 8 anos. Estudava na Escola 7.19 França. Todos os colégios daquele tempo, no antigo estado da Guanabara, tinham um número antes do nome. Não me perguntem o porquê.
Naquela época, eu estava morando com a minha tia, no bairro carioca da Piedade. Eu já era o capetinha que todos os professores de minha vida escolar tiveram a oportunidade de conhecer. Mas havia alguém que me fazia sossegar o facho, só com a sua presença. O nome dela era Elizabeth. A coisa mais linda desse mundo. Muito clarinha, longos cabelos negros, que ela amarrava em rabo de cavalo com uma graciosa franjinha quase lhe cobrindo os olhinhos cor de jabuticaba madura. Nossa! Quando ela sorria na minha direção, acontecia um certo fenômeno na minha fisiologia: minhas tripas viravam purê, o coração parava e meu sistema auditivo rateava, só captando uma espécie de zumbido.
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Se ela sabia que eu era apaixonado por ela? Não sei, acho que não. Obviamente eu nunca disse. Talvez tivesse percebido pela minha cara de anjo pidão quando olhava para ela. Uma vez pensei escrever um bilhete para a Elizabeth. Anônimo, é claro. Estava escrevendo quando minha mãe me pegou no maior flagra! Quis morrer ali mesmo. E morria um pouco a cada vez que minha mãe comentava que o “Marquinho estava apaixonado por uma tal de Elizabeth” com os vizinhos, com meus parentes, com o verdureiro, o açougueiro, o veterinário que ia vacinar a nossa cachorra, com Deus, o mundo e mais a população do bairro. Acabei desistindo do bilhete anônimo. Ficava lá, amando a menina em segredo. Ou quase.
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É uma coisa curiosa essa a de amar alguém secretamente. Pelo menos para mim era. A gente olha para a pessoa amada e põe mãos nos olhos, acariciando-a silenciosamente. A pele não sente, mas o coração pressente. Amamos um ser físico, idealizando uma criatura abstrata que só existe na nossa mente. Dá uma gastura, mas é um sofrimento gostoooso, que nem coçar frieira e bicho do pé.
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Era assim que eu amava a Elizabeth. Sonhava com ela, imaginava que cresceríamos juntos, eu já entrosado com a família dela, namoraríamos, noivaríamos e casaríamos. Viriam os filhos, os almoços na casa de nossos pais, macarrão com almôndegas ou então inhoque. Como vocês podem ver, em matéria de sonhar e prever o futuro eu era pior que a Mãe Diná!
E a menina lá, sem ter a mínima idéia do futuro que eu estava sonhando por nós dois.
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Elizabeth foi meu primeiro amor e minha primeira desilusão. O castelo de algodão doce dos meus sonhos se desfez amargamente numa bela tarde de sol.
A direção da escola já tinha avisado a todas as turmas que em determinado dia viria um fotógrafo para tirar fotos dos alunos em slide, para fazer um monóculo. Acho que vocês já tiraram foto assim. O cenário era uma mesa, sobre ela uma placa com o nome da escola, à esquerda um globo terrestre e atrás um mapa do Brasil. Cada aluno sentava, cruzava os braços sobre o tampo da mesa, sorria e clic.
*

Naquela tarde ensolarada, tão logo tocasse o sinal do fim das aulas ao meio-dia, todas as turmas deveriam descer para o pátio e entrar em fila para tirar a foto. Quando a minha turma desceu já havia uma multidão na fila e não parava de chegar gente. Estava uma balbúrdia, uma azucrinação que as coordenadoras não conseguiam controlar, por mais que ameaçassem os alunos. Eu estava eletrizado, cheio de idéias para bagunças. Mas aí veio a Elizabeth e ficou a umas três pessoas na minha frente. Eu não gostava de tocar zaralha na frente do meu pequeno amor. Tive que me comportar.
A fila andava devagar, pelo visto aquilo iria durar muito tempo. Foi quando senti uma baita vontade de “tirar uma água do joelho”. Chamei a coordenadora e perguntei se poderia ir ao banheiro. Ela disse que poderia, mas eu perderia o meu lugar na fila. Olhei pra frente, tinha umas trinta pessoas. Olhei pra trás, tinha umas cem. Tudo bem, eu ia agüentar, disse para a coordenadora.
*
Acontece que criança não é como adulto, que pode passar horas com vontade de fazer xixi desconfortavelmente na boa. À medida que a fila andava, aumentava a vontade de me esvair em mijo. Comecei a suar frio. Mentalmente rezava para todos os santos de plantão e mais os reservas, suplicando que aquela fila andasse rápido. A cabeça começou a doer, os gritos dos moleques só pioravam a situação, eu olhava para o rostinho da Elizabeth e até amenizava a minha agonia, mas a situação ficava desesperadora. Eu já estava perto da mesa onde as fotos estavam sendo tiradas, faltava pouco, bastava segurar mais um pouquinho, olhei para a Elizabeth, alguns pingos fugidios escapuliram e umedeceram a cuequinha, a mesa cada vez mais próxima, se ao menos a criançada parasse de gritar, olha! eu já podia até divisar os continentes no globo terrestre sobre a mesa onde bateríamos a chapa, mas eu senti que a catástrofe era iminente. Faltava bem pouco, consegui ver o mapa da África no globo, mas e todo aquele Oceano Atlântico?, não vai dar pra segurar!

Foi quando botei o Cabo da Boa Esperança pra fora e me aliviei ali mesmo. Na fila. Na frente de todo mundo. O jato da urina batia nos cascalhos do pátio fazendo um barulhinho engraçado, mas era encoberto pela gargalhada de todo mundo que estava naquela maldita fila. Todos riam, todos apontavam para o menino que fazia xixi na frente de todo mundo, todos gargalhavam...inclusive a Elizabeth.
*
Urinei até o final, dei as três sacudidinhas regulamentares, guardei o bicho e continuei na fila. As risadas ainda ecoavam por todo o pátio, entretanto eu nem ouvia mais. Nem sequer escutava a bronca que a coordenadora estava me dando naquele momento. Sentia meu corpo todo anestesiado. Olhei para a Elizabeth com a certeza de que meus planos para com ela tinham escoado para o ralo. Nada mais de namoro, noivado, casamento, filhos, macarrão aos domingos... Como eu poderia continuar apaixonado por uma menina que me viu, de pinto de fora, fazendo xixi?
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Chegou a minha vez de tirar a foto. Sentei, cruzei os braços, sorri automaticamente, olhei para a câmera, clic.
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Peguei minha pasta e tomei a direção do portão da escola, no rumo de casa, naquela tarde tão bonita. Seguia em silêncio, vez ou outra chutando pedras que encontrava. Fazia noite na minha alma, mas o sol teimava em perfurar as folhas das árvores, salpicando meu caminho de gotas de luz.
M.S.
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E vocês, caros amigos, lembram do seu primeiro amor?
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Na Rádio Antigas Ternuras, vocês estão ouvindo “João e Maria”, com Chico Buarque e Nara Leão.