Uma vez estávamos na varanda da casa do Jurandir, numa de nossas tradicionais festinhas movidas a cerveja, batida de (Q-suco de) pêssego e “calcinha de nylon” (parêntesis: cachaça, leite condensado e groselha. Fecha parêntesis). Eu era o “didjêi”, como se diz modernamente, ou discotecário, como se dizia naquela época. Estava botando a moçada para se sacudir ao som de “Barrabás” (“Woman”) e Paul McCartney & Wings (“Love is Strange”), quando percebi que a pista estava esvaziando. Alcir, meu “Obi Wan Kenobi” em termos musicais, veio correndo, tirou um certo compacto da capa e botou pra tocar. A pista rapidamente se encheu, com a moçada dançando bem agarradinho. Era o que eles queriam.
A música era “Don’t mess with Mr. T”. O cantor, um certo Marvin Gaye.
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Há um tempo atrás, meu camaradinha Bruno, o popular Mutatis Mutante da “Padoca do Mutante” (link aí ao lado), escreveu um comentário me avisando que está em produção o filme “Marvin”, a cinebiografia do gênio da soul music. Prometi a ele que faria um post dedicado ao grande Marvin Gaye, assim que fosse possível. Estou pagando a minha promessa.
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Marvin Pentz Gaye, Jr. nasceu em Washington D.C., no dia 2 de abril de 1939. Era o filho mais velho de um pastor evangélico, que criou seus 4 filhos com extrema severidade. Bastava um deles cometer a menor falta que o couro comia e feio. Não demoraria para Marvin se revoltar contra aquela pancadaria generalizada.
Foi na igreja onde o pai pregava que ele tomou contato com as primeiras manifestações musicais, junto com seu irmão Frankie e suas duas irmãs menores Jeannie e Zeola.
A sua relação com seu pai (veja a foto do boneco à direita) seria marcantemente problemática para o resto de sua vida.
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Logo que deu baixa no Exército, tornou-se cantor, viajando junto com o roqueiro (jurássico) Bo Diddley. Resolveu seguir para Detroit e se juntou a Harvey Fuqua, do “Harvey and the Moonglows”. Era a época de um gênero conhecido como “Doo Wop” (baladas melosíssimas, normalmente com corinhos do tipo “tchu-tchu-tchurúúúúú...”) e Marvin seria um dos poderosos neste estilo.
No que ele conheceu Berry Gordy, Jr., o criador do “Motown Sound”, aí foi nitroglicerina pura! Marvin entrou para a “Fábrica de sucessos” e a máquina registradora não parou de tilintar.
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Seu primeiro grande sucesso na Motown foi “Soulful Moods of Marvin Gaye” (1961), seguido por “That Stubborn Kinda Fella” (1963). Nesse momento, o cara já era considerado o novo Nat King Cole. Em 1964, o compacto simples que gravou com Mary Wells, intitulado “My Guy” subiu nas paradas feito foguete, disputando o primeiro lugar com quatro rapazes ingleses de Liverpool que estavam lançando “I want to hold your hand” nos USA.
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A partir dali, Marvin virou o maior vendedor de discos da Motown Records. Ah, sim. Virou cunhado do dono da gravadora também, pois casou-se com Anna Gordy, irmã de Barry, em 1961.
Todos os críticos são unânimes em apontar o seu álbum “What’s Goin’ On”, de 1971, como seminal em sua carreira. Seria possível dizer que ali estava um LP conceitual, como o fora o “Sargeant Pepper’s Lonely Heart Club Band” dos Beatles. No seu disco, Marvin falava de Meio Ambiente na belíssima “Mercy Mercy Me (The Ecology)” (aliás, a primeira vez que eu li a palavra ecologia na minha vida), da vida urbana nos USA em “Inner City Blues (Makes Me Wanna Holler)”, da guerra do Vietnã na canção-título... Um espanto naquela década de coisas espantosas que viriam a seguir.
Vejam um trecho da letra de “What’s Goin On” (“O que está acontecendo”:
Mãe, mãe
Há muitas de vocês chorando
Oh, irmão, irmão, irmão
Há muitos de você morrendo em lugares distantes
Tudo bem
Vocês sabem que temos de achar uma saída
Para trazer alguns destes seus amados aqui hoje.
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Ainda nos anos 70 ele faria um grande disco-solo e participaria de outro que podem se situar entre os melhores do período. O primeiro foi o “Let’s Get it On”. O segundo, “Diana Ross & Marvin Gaye”, ambos em 1973. Começo pelo segundo.
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Juntar duas das melhores vozes negras da América foi um achado daqueles de fazer o executivo que teve a idéia ganhar estátua na gravadora. E com aquele repertório ainda por cima...
Pelo menos três músicas estouraram nos píncaros das paradas de sucesso: “You are Everything”, “My Mistake” e a fantástica “Stop! Look! Listen”. Esse rapaz que vos escreve já atraiu muitas fêmeas de encontro ao corpo ao som desta música...Ah, meus tempos!
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Sobre o “Let’s Get it On”, nossa! chego a ver nesse momento meu amigo Alcir alucinando com essa música estourando pelos alto-falantes do seu aparelho de som Grundig...
A música-título do disco é de uma sensualidade extrema. Na letra, um cara está cantando a moça, chamando ela para fazer saliência com palavras como:
Eu tenho tentado, baby,
Tentado esconder meus sentimentos por muito tempo
E se você sente o que eu sinto, baby
Vem, ah, vem
Vamos fazer...
Ah, meu bem, vamos fazer...
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O seu sucesso aumentava e sua vida pessoal descia ladeira abaixo. O casamento com Anna Gordy foi para o espaço. Ele conheceu e se casou com Jannis Hunter, com quem teve os filhos Frankie e Nora Gaye.
Em 1982, ele saiu da Motown e foi para a Columbia, onde lançou o álbum “Midnight Love”, que vendeu dois milhões de cópias, incluindo a explosiva “Sexual Healing”.
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Mesmo com todo sucesso (ou exatamente por causa dele...), sua vida pessoal não andava nada bem. Entrou na espiral maligna das drogas, consumindo cocaína em quantidades industriais. Cheirou tanto que já não conseguia compor nem cantar . Tomado por imensa depressão, tentou o suicídio diversas vezes. Ele adorava a mãe, mas odiava o pai, provavelmente como herança dos maus tratos da infância. Por conta disso, começou a espancar o velho sempre que se irritava ou se drogava, não necessariamente nessa ordem. Até que em uma discussão com seu pai, em primeiro de abril de 1984 (ironicamente, um dia antes ter completado 45 anos), a eterna divergência entre eles teve fim. Marvin, o pai, atirou em Marvin, o filho. E a música popular universal perdeu um grande artista.
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Fico só imaginando as relações entre estes dois em vidas passadas. A solução do conflito entre pai e filho estava num trecho da canção “What’s going on”. Era só ambos terem prestado atenção:
Pai, pai
Nós não precisamos ficar tensos
Olha, guerra não é a solução
Só o amor pode vencer o ódio
Você sabe que temos que descobrir um caminho
Para trazer um pouco de amor para os dias de hoje.
M.S.
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Dedico este post ao Bruno McMut, o Mutante dono da Padoca mais musical da Internet. É isso aí, cara, Stop, look, listen to your heart...
Na Rádio Antigas Ternuras, você está curtindo "What's Going On", na voz inesquecível de Marvin Gaye...
