quarta-feira, outubro 21, 2009

Maria Solteirona


Numa noite dessas, tive um sonho enlouquecido. Bem, até aí nada de novo. Meus sonhos são sempre enlouquecidos. Eu nunca usei droga nenhuma e costumo dizer que nem preciso. Com os sonhos que tenho, parece que eu misturo LSD com Nescau e tomo um copo cheio na hora de dormir.
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No sonho, eu estava em alguma antiga cidade. Eu andava pelas ruas e ao cruzar com algumas pessoas elas me disseram: “Moço, cuidado com o fantasma da Maria Solteirona”. Eu achei aquilo muito curioso e perguntei que raio de fantasma era aquele e me explicaram que naquele lugar, houve uma mulher de nome Maria que morrera sem ter se casado. E como ela tinha cantado para subir virgem, sem ter colocado a baratinha no espeto, vagava à noite, com uma arma na mão, atrás de homens desacompanhados e quando os encontrava, os ameaçava com a garrucha. Disseram eles que teve muito homem que viu a Maria Solteirona, mas poucos sobreviveram para contar a história.
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Eu avisei a vocês que meus sonhos são coisa de maluco...
Bem, eu ouvi a história que me contaram e disse que não acreditava nisso, que estava com vontade de perambular pela rua porque queria chupar manga. E continuei a caminhada.
Daí que eu fiquei sozinho no lugar, ouvindo aquele zunido de vento nas árvores. Foi quando eu vi uma mulher vestida de noiva, com grinalda e tudo, com uma baita espingarda na mão. Ela era branquíssima, parecia que tinha talco no rosto. Nisso, o vento parou. Com o susto, cheguei a cair para trás. A aparição me apontou a arma e disse, com uma voz de filme do Vincent Price: “Você não acredita em mim, não? Pois vai ter que casar comigo ou vai morrer...”
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Eu me lembro da nítida sensação de aperto no peito e na garganta. Eu queria falar, tinha na mente a frase: “Espera... Calma... Vamos conversar...” Mas não saía nada! E aquela mulher branca, toda de branco se aproximando, dizendo que eu ia morrer.
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Foi quando minha namorada me acordou, perguntando porque eu estava gemendo e me debatendo. Meu pijama estava empapuçadão, meu coração batia no ritmo da seção de tamborins do Salgueiro. Caraco... Que mal estar!
Contei para ela o sonho que tive, rimos juntos e voltamos a dormir. Ela, bem mais rápido. Eu fiquei com receio de voltar para aquele pesadelo.
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A sensação de que eu estava vivenciando aquela história foi tão grande que depois procurei saber o que significa sonhar com fantasma. Há quem diga que são más notícias e há quem assegure que é sorte durante três dias.

Fiquei sabendo que noiva fantasma é coisa antiga, que existem muitas histórias, muitas lendas sobre isso, cada cidade tem a sua. Talvez pelo fato de vestirem branco com tecido transparente, talvez pela consequência social de uma mulher ser largada no altar... Aí já comecei a refletir sobre o assunto. Imaginei a pressão de uma sociedade machista e patriarcalista sobre a mulher para que ela exercesse sua função reprodutora que garantisse a perpetuação da família. E se ela era abandonada perto de deixar o celibato - uma anomalia que rotula a mulher como “solteirona” e antigamente a deixava estigmatizada por toda a vida, tendo que zelar pelo seu bom nome e sua virtude - aquele fato se transformaria numa carga excessivamente pesada que só poderia ser aliviada pela morte. E ela seria obrigatoriamente enterrada com o vestido de noiva (hábito que vem desde o Século XVII), acabando por se transformar um assombração.
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O assunto já estava ficando para lá de interessante. Resolvi pesquisar para saber se existiu mesmo alguma “Maria Solteirona”. Entrei na internet e... achei um monte de história de fantasmas de noivas e solteiras.
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Encontrei a lenda de “Ale Coelhinha”, uma mulher loura, solteira, razoavelmente bonita, embora dentuça, e que gostava de cair na noite, passando o rodo na rapaziada. Parecia que ela tinha calor na bacurinha e dava mais que chuchu na cerca. O comportamento liberal da moça provocou a inveja de uma vizinha solteirona que se incomodava com o fato da Coelhinha sair todas as noites caçando algum homem que quisesse afogar a cobra caolha nela. A rancorosa escreveu uma carta anônima, como se fosse de um dos rapazes que passaram pela cama da Ale, dizendo que tinha transmitido AIDS para ela. Desesperada, a moça foi fazer o exame. Quando saiu o resultado, ela nem quis abrir para ver. Acreditando que estava mesmo com a doença, foi para casa, colocou o envelope debaixo do travesseiro, tomou veneno e se matou. A invejosa, quando soube, deu boas gargalhadas. Mas quando foi dormir, sonhou que a loura lhe aparecia, fazendo acusações e prometendo que continuaria em espírito frequentando os mesmos lugares onde pegava os rapazes.
E muita gente viu suas aparições nas boates...
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Na Paraíba, em João Pessoa, no bairro de Engenho Velho, tem uma lenda que fala de Branca Dias, uma bela moça, noiva de um bom rapaz, que recebeu propostas indecorosas de um padre taradão, que queria botar a tora para serrar com ela. Como ela se recusasse, ele a denunciou à Inquisição e ela virou picanha assada nas fogueiras do Vaticano Grill. A partir daquele momento, muita gente passou a ver o fantasma da moça vagando pelas ruas do lugar.
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Em Minas Gerais, terra mater de todas as lendas urbanas que envolvem fantasmas, tem a da noiva de Congonhas que foi abandonada pelo noivo que resolveu virar padre. Em total desespero, ela se matou, cortando os pulsos, no próprio seminário (onde hoje está a Escola Municipal Fortunata de Freitas Junqueira) e a partir de então, ela vive assombrando os alunos, ora nos corredores, ora no banheiro feminino (ainda bem. Já pensou um moleque com o passarinho de fora, urinando, e dá de cara com a noiva fantasma? Na hora o pinto dele murcha e vira uma verruga!).
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Em Faxinal, no Paraná, certa vez uma família estava andando pela estrada a noite quando a criança que estava com eles viu uma moça de branco, sentada numa pedra, fazendo crochê. Ela disse para a mãe: “Olha que moça bonita!” A mãe olhou na direção que ela apontara e não viu nada. A mulher ficou intrigada e foi pesquisar para saber se havia alguma história esquisita acontecida por ali. Soube, então, que um noivo matou a noiva, pouco antes de se casar, e jogou o corpo exatamente naquele lugar.
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A história mais próxima da minha “Maria Solteirona” é a da “Noivinha fantasma do Cemitério da Água Verde”, em Curitiba. Diz-se por lá que uma noiva foi abandonada pelo noivo e acabou morrendo de desgosto. Então passou a vagar como alma penada pelo lugar, abordando homens desacompanhados que passam por ali, procurando um outro noivo. Ai que mêda!
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Vejam só que coisa... Eu tenho um pesadelo com noiva fantasma (que não sei como se instalou no meu subconsciente) e acabo descobrindo um assunto interessantíssimo para post.
E você, já viu alguma noiva fantasma?
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o tango “Por una cabeza”, orquestrado por Astor Piazzola para o filme “Perfume de Mulher”.

quarta-feira, outubro 14, 2009

"Sob a luz bruxuleante de uma vela..."


Na Hora H, na hora da verdade, a gente corre por fora, abraçando causas, a ferro e fogo, acenando com possibilidades. Isso em grande estilo. Juro de pés juntos, sem meias-verdades, a olhos vistos. Não quero deixar dúvidas no ar, mas sob a luz bruxuleante de uma vela, fazendo um exame de consciência, digo que essa confusão é página virada. É hora de renovar as esperanças, de mostrar o nosso poder de fogo, de entrar para rachar. Sem dormir no ponto.
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Este texto enlouquecido aí de cima é um largo exemplo de chavões, clichês, lugares-comuns, frases feitas. A maioria dos bons escritores foge dos clichês como o diabo foge da cruz. Aliás, esta expressão é um baita dum chavão.
Diz o dicionário que clichê ou chavão são expressões desgastadas pelo uso constante, modismos que empobrecem o discurso falado ou escrito. E o pior é que essa praga se infiltra no vocabulário nosso de cada dia e é quase impossível não proferir um ou outro clichê. Especialmente quando estamos naquela conversinha besta, sem compromisso. Quem aí não entrou num elevador com o vizinho e para quebrar o silêncio não disse: “Está um calor de matar!”, “vem chuva aí”, “dia abafado, não é?”
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Porém o chavão cotidiano é um pouco mais palatável que o escrito, ou o dito nos meios de comunicação. Estatisticamente, dizem os estudiosos que o vocabulário médio das pessoas está oscilando pelas 150 palavras, e que entre os mais jovens, não passa de cem. Talvez seja verdade. Nunca se ofereceu tanta informação, tantos meios de comunicação e mesmo assim vivemos tempos em que se lê muito pouco, vai entender.
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E como não há o hábito de expandir o conhecimento pela leitura variada (jornais, livros, revistas de informação), muita gente apela para os velhos clichês na hora de falar e/ou escrever. As pessoas tem preguiça de ler. Tem preguiça de procurar um estilo elegante de escrever e-Mails, MSN, Orkut, twitter...
O tempo das pessoas está cada vez mais exíguo. Faz-se muitas coisas ao mesmo tempo, a comunicação tem que ser rápida, evitam palavras com mais de duas sílabas. A tendência é reduzir tudo para um dissílabo, no máximo, estourando, um trissílabo. Pois é. No nosso patropi, as pessoas querem ficar sussas, com tudo belê, então o negócio é no pá-pum. Falar, escrever “país tropical”, “sossegadas” ou “beleza”, toma tempo, e tempo ninguém tem de sobra.
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Atualmente, para a minha tristeza, a minha classe profissional, a dos jornalistas, é a que mais usa clichês, chavões. Eu leio os artigos nos jornais, ouço os telejornais e me pergunto para onde teriam ido a elegância vocabular dos bambas do passado, como Nelson Rodrigues, Castelinho, Rubem Braga, Joel Silveira, Drummond, João Saldanha...
Aliás, o jornalismo esportivo é o principal repetidor de chavões. Chega a dar raiva ver tanta pobreza vocabular nos coleguinhas. Antigamente, locutores diziam que um time estava atacando, avançando, subindo ao ataque, penetrando, agredindo, arremetendo, invadindo o campo adversário... Hoje só dizem: “chegando”. E só. É “chegar” para tudo, qualquer coisa que um jogador faça é “chegar”. E as palavras “vencer” e “vitória” que estão entrando em extinção? Hoje, um time não quer vencer, ganhar, alcançar a vitória. Só querem o “resultado”. Mas, com mil tubarões, o que vem a ser “resultado”?
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Às vezes tenho a impressão de que ninguém quer ser original em nada, que o mundo caminha para a padronização total e global de tudo, de roupas, de penteados, hábitos, modos de falar... Noutro dia, eu estava num shopping, esperando a sessão de cinema começar, comecei a prestar atenção nas pessoas que passavam por mim. A maioria se vestia igual, com penteados muito parecidos, todas tatuadas, quase todas com percings e rigorosamente todas falando do mesmo jeito.
Aquilo me lembrou uma linha de produção!
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Sei que estou malhando em ferro frio, fazendo tempestade em copo d’água, usando mão-de-ferro, buscando uma tábua de salvação, querendo sacudir a poeira da língua falada e escrita. Bem, trocando em miúdos, sem golpe baixo, é o que eu queria dizer. Será que vem chumbo grosso por aí?
M.S.

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Na TV Antigas Ternuras, você vê um vídeo de 56 segundos que poderíamos intitular, usando uma frase feita, como: “a necessidade faz o sapo pular”.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Eu me recordo


Sempre que me perguntam qual a minha lista de melhores filmes que eu vi na vida não deixo de incluir no topo da relação uma obra cinematográfica que me é particularmente querida: “Amarcord”.
Tem um outro filme que é minha paixão particular: “Em algum lugar do passado”, cuja trilha, inclusive, é a minha música favorita de todas que existem. Mas eu não relaciono este em listas de melhores filmes. Ele tem valor sentimental para mim. Esteticamente, bem sei que ele não é nada de especial, embora não seja, definitivamente, um filme ruim.
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Mas “Amarcord” tem, para mim, valor sentimental e é uma obra maravilhosa esteticamente, cinematograficamente e outros “mentes”. É, ao meu ver, o grande filme de Fellini, que só filmou coisa boa. No dialeto da região italiana em que ele nasceu (na cidade de Rimini), Amarcord significa “Eu me recordo”. Com o filme, ele relembra, com uma saudade gostosa, de sua infância/adolescência, dos personagens que foram parte de sua vida, mesmo naqueles tempos difíceis do fascismo italiano.
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Eu já assisti a este filme 16 vezes e volta e meia pego o DVD e me deixo levar por aquelas lembranças fellinianas. Quem não o viu, não sabe o que está perdendo.
Lembro que quando minha mãe o assistiu, nos anos 70, quando ele foi produzido, chegou em casa e disse que tinha visto um filme que a fizera lembrar de mim. Isso porque aparece um garoto, que segundo ela, fez gracinhas que eu devia fazer na escola. “Êpa!” – protestei eu, indignado. “Eu sou muito comportado, não faço gracinhas nem travessuras no colégio”. Eu disse isso com a maior cara de pau, sem nem ficar vermelho. Lembro que minha mãe olhou para mim com uma cara que dizia: “arrã... sei... Quem não te conhece é que te compra.”
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Ela não me disse qual era o tal garoto (aparecem vários). Nem precisou. Quando vi o filme, soube direitinho qual era. E digo mais: se eu tivesse visto as cenas quando tinha aquela idade, provavelmente faria o mesmo ...Bwa-ha-ha-ha-ha-ha... (Essa é minha risada satânica...)

Ah, Fellini... A gente sabe que uma pessoa é gênio quando consegue nos falar diretamente ao coração e mente, mesmo sendo de época, cidade, país diferentes...
Essa cena do filme que está aí em cima, por exemplo. Olha, tinha dia que o almoço lá de casa era bem parecido, com minha mãe ameaçando um dia sumir no mundo, avisando aos berros que ia dar uma coça com fio de ferro no meu irmão se ele voltasse a pegar minha máscara de mergulho para tomar banho na caixa d’água de casa dizendo que era o “Príncipe Submarino”...
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Soube que o Arnaldo Jabor voltou a filmar e quis justamente fazer uma espécie de “Amarcord” de sua geração, o seu “Eu me recordo”. Pois é. Acredito que todo mundo tenha o seu “Amarcord”. Se pudesse fazer um filme, com certeza faria o meu “Amarcord”. Como ninguém me dá grana para filmar o meu filme de recordações, escrevo num blog bem na linha “Amarcord”, e é o que tenho procurado fazer por aqui já há quatro anos.
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Pois vocês sabem do que “eu me recordo”?
Eu me recordo de minha mãe me chamando para tomar o meu prato de mingau feito com maizena e chocolate em pó Bhering e depois eu discutia com meus irmãos para saber quem ia raspar a panela. O mesmo acontecia quando tinha angu... Eu me recordo de pedir para brincar na chuva e insistir muito para minha mãe deixar e quando ela concordava eu fazia a festa até ela me chamar para tomar banho, passar álcool na cabeça e tomar uma colherada de Rhum Creosotado ou vinho moscatel para não me constipar...

Eu me recordo quando os telefones eram pretos, as geladeiras e fogões eram brancos, as casas de minha rua eram “simples, com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que era um lar”... Eu me recordo de tomar hidrolitol; de, no botequim, dividir um grapette e um litro de água mineral com gás com meus amigos, pois não tínhamos dinheiro para comprar um refrigerante para cada um... Eu me recordo de pegar vagalume e esfregá-lo na camisa para ficar brilhando, de capturar libélulas para amarrar uma linha fina no rabo dela, soltá-la e ficar controlando feito pipa no ar... Eu me recordo de deixar a janela do quarto aberta para sentir o perfume de “dama da noite” que exalava do jardim, de olhar pra lua e desenhar a figura de São Jorge nela com a ponta do dedo... Eu me recordo de chegar feliz no colégio para ver meus amigos, sair com eles para jogar totó, trocar gibi e livrinhos de bolso; de torcer para o professor mandar a Therezinha apagar o quadro só para ver o fundo das calcinhas dela quando levantava o braço... Eu me recordo de ficar sentado na beira do campo, mordiscando um talo de capim, esperando o sol baixar para começar a jogar futebol, de ficar triste em casa quando chovia no final de semana, impedindo a sagrada pelada de sábado e domingo...

Eu me recordo de ir ao parquinho ver as lutas com lutadores do programa Telecatch Montilla, de vaiar o Mongol e o Verdugo, e aplaudir o Demônio Cubano e o Leopardo... Eu me recordo de ficar torcendo para começar a ventar e para isso eu cantava a musiquinha: “vem, vento, caxinguelê, cachorro do mato quer me morder” e quando dava para colocar a pipa no alto, desafiar os outros cantando: “Tá com medo, tabaréu, sua linha é de papel”... Eu me recordo de minha mãe tomar susto toda vez que entrava no meu quarto e dava de cara com um mega pôster na parede do Fio Maravilha com a camisa do Mengão; de excursionar com o time em que eu jogava, o Sociedade Esportiva Codajás, e fazer cantoria no ônibus, especialmente entoando o hino do clube, cujo refrão era "ê calunga, esse time não pega macumba, calunga..."

Eu me recordo de juntar dinheiro da mesada, passar na Ultralar e comprar um compacto simples do Bread ou da Gladys Night and the Pips ou do James Taylor e correr para a vitrola da marca ABC A Voz de Ouro e botar o disco para tocar até quase furar... Eu me recordo de ir ao cinema nos domingos, voltar para casa, reunir os amigos da rua e contar o filme todo, inclusive representando cada personagem, de economizar na passagem de ônibus para comprar um sorvete daquelas máquinas com vidros de xarope colorido... Eu me recordo de brincar, de rir, de chorar...
Ah, como eu me recordo de ter sido uma criança feliz!
M.S.

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Eu quero agradecer de coração à amiga Samara que me deu um selo The Best 2009 (mas não tenho conseguido entrar no blog dela para linká-lo) e ao amigo Marcos Dhotta que também me ofereceu o selo "Este blog tem e faz História" e pediu que eu o repassasse para três blogueiros que escrevessem textos de recordações. Bem, atendendo ao pedido do Marcos, repasso este belo selo que aí está para o blog Playground dos Dinossauros, em que também escrevo, para o Morcegos e o Transmimentos de Pensações.


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Na TV Antigas Ternuras, você vê, lá em cima, uma das muitas cenas hilariantes do filme “Amarcord”, de Fellini. E aqui embaixo, um lindo clip com a música “Rio Antigo”, de Nonato Buzar e Chico Anísio. Eu não sou do tempo de quase nada que a música fala, mas ela tem o exato clima que eu quero passar neste post. Eu também quero muita coisa que não existe mais no Rio Antigo ou nas cidades do Antigo Brasil, mas que eu sei que era e é muito bom.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Ripa na Chulipa, Lúcifer!


Hoje, 28 de setembro, há exatos cem anos atrás, nascia, em New Heaven, Connecticut/USA, Alfred Gerald Caplin, que se tornou conhecido como Al Capp. Bem sei que a maioria dos meus 17 leitores estará se perguntando: “E nós com isso?”. Pois é. Para mim, é uma data importante. Al Capp foi o criador da história em quadrinhos “Ferdinando”, também conhecida como “A Família Buscapé”. E sabem por que é importante para mim? Eu comecei a aprender a ler nas tirinhas do Ferdinando no jornal O Globo. E depois, prossegui nos gibis dele, publicados pela Rio Gráfica (hoje, Editora Globo).
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Era a historieta favorita de meu pai. Lembro que ele chegava do trabalho já com o jornal debaixo do braço (na época, o Globo era vespertino, saía pouco antes das 18h). Ele tomava banho, jantava, botava o pijama e ia pra cama ler pacientemente o seu jornal, de cabo a rabo. Minha mãe ficava ao lado dele e adivinhem que se metia entre eles e ficava buzinando a paciência dos dois, perguntando tudo?
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Naquele tempo, a penúltima página do segundo caderno dO Globo era toda dedicada a tirinhas de quadrinhos: Fantasma, Tarzan, Nick Holmes, Mandrake, Pafúncio, Reizinho, Brucutu, Flash Gordon, Príncipe Valente...e Ferdinando! Meu velho dava boas risadas com a aventuras do pessoal de Brejo Seco, o vilarejo onde o moço vivia com sua mãe, Chulipa Buscapé, e seu pai, Lúcifer Buscapé, e mais muitos outros personagens maravilhosos, como a boazuda Dulçurosa Suíno, que vivia abraçada com um porco e cheia de moscas voando por cima, a Violeta, sempre perseguindo Ferdinando para casar, até que um dia conseguiu pegá-lo na corrida anual do Dia de Maria Cebola, o índio Gambá Solitário, Joe Cabeleira e vai por aí a fora.
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Como meu pai gostava, eu perguntava para ele do que ele estava rindo. E ele, com paciência de um relojoeiro chinês aposentado, me lia os balões e me dizia cada palavra escrita. Eu acabei decorando algumas palavras e sabendo todas as letras. Não demorou muito e eu já estava juntando uma letrinha na outra, perguntando o que não entendia.
Portanto, para mim, os quadrinhos do Ferdinando são ternuras para lá de antigas e muito queridas. Não posso deixar de homenagear quem me ajudou a despertar para a leitura.
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Al Capp era de família bem pobre, filho de imigrantes da Lituânia. E para piorar ainda mais a situação, quando o moleque tinha nove anos foi atropelado por um bonde e perdeu uma perna. Aquilo seria definitivamente marcante em sua vida.
Quando ele contava com 19 anos, descobriu a tira de quadrinhos Mutt e Jeff, de Bud Fischer. No que ele soube que o desenhista ganhava três mil dólares por semana com aquilo, resolveu tentar seguir seus passos e sair da merda em que ele e a família estavam atolados até o pescoço. Criou uma historieta, chamada “Coronel Gilfeather”, e a enviou para a agência Associated Press. Ele se deu bem, arranjou um emprego ganhando seus trocadinhos, mas ele queria bem mais.
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Seis meses depois, resolveu se mudar para New York e tentar a sorte. Por azar, ou melhor, por sorte, foi atropelado de novo. Não perdeu nenhum pedaço do corpo, e seu atropelador era ninguém menos do que Ham Fischer, criador dos quadrinhos Joe Sopapo. Fischer saiu do carro para ajudar Capp a catar seus papéis espalhados pelo chão e quando viu que eram desenhos acabou contratando-o como assistente. Ele ficou algum tempo com Fischer, mas ele queria bem mais do que ser um mero auxiliar. Criou uma historieta chamada “Li’l Abner”, onde um rapagão caipira vivia aventuras no interiorzão americano. Mandou os quadrinhos para o King Features Syndicate, que gostou, mas pediu que ele transferisse o personagem da roça para a cidade grande, com o que Capp não concordou. Ele tentou outro sindicato, até conseguir, em 1934 (há exatos 75 anos atrás), um contrato com a United Features. E estourou tanto nos EUA, como no mundo afora.
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Capp gostava de dar nomes absurdos para os seus personagens, a começar pelo próprio protagonista (“Li’l Abner” em inglês é “Pequeno Abner”, como chamavam o Ferdinando, um cara daquele tamanho, vejam só...). Era difícil até de traduzir. Tiveram que recriar em português toda a nomenclatura dos caipiras de Brejo Seco (Dogpatch, no original). Eu até creio que os tradutores fizeram um ótimo trabalho. Vejam só: Mammy Pansy Yokum virou “Chulipa Buscapé”; Lucifer “Pappy” Yokum era o “Lúcifer Buscapé”, Daisy Mae, virou “Violeta”, Moonbeam Mcswlne passou a ser a tal “Dulçurosa Suíno”, Lonesome Polecat e Hairless Joe, eram “Gambá Solitário e Joe Cabeleira”.
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Ferdinando herdou a sua força descomunal de sua mãe, Chulipa, e a ingenuidade de seu pai, Lúcifer, que era um moleirão covarde, de vez em quando tomando uns catiripapos da esposa. Aliás, só devia ter “ripa na Chulipa” quando o velho Buscapé passava o rodo na velha. Já até imagino ela gritando naquela hora do “vamuvê”: “Vem, Lúcifer! Mete fumo que o cachimbo está aceso!”.
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O grande barato nas histórias da Família Buscapé era a crítica que o Capp fazia do modo norte-americano de vida, da sanha destruidora do sistema capitalista, que devorava os excluídos, e até debochava com muito talento do macarthismo, a doutrina de caça às bruxas que perseguiu tanta gente sob a acusação de práticas comunistas. Brejo Seco era uma representação da América e eu diria até de vários lugares do planeta. O leitor ria daquelas aventuras sem talvez perceber que estava rindo de si mesmo.
Por sua capacidade de fazer rir criticamente, Capp recebeu elogios de ninguém menos que John Steibeck, autor de “A leste do Éden”. Steinbeck inclusive recomendou Capp para o Prêmio Nobel de 1953. Disse ele: “Para mim, só Cervantes e Rabelais souberam criticar tão causticamente e essa crítica ser aceita e divertir a tantos. Ele é o melhor escritor do mundo”.
Li’l Abner já foi desenho animado, filme com Buster Keaton (1940) e com Peter Palmer e Julie Newmar (a estonteante Mulher-Gato do seriado Batman) em início de carreira (1959). Foi musical na Broadway mais de uma vez e eu confesso que adoraria participar atuando em uma montagem brasileira da Família Buscapé.
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Muita gente diz que a invenção mais genial de Al Capp foram os Shmoos. Eram criaturinhas divertidas que se transformavam em qualquer alimento que a pessoa desejasse. Bastava olhar para eles com fome que eles alegremente viravam frango assado ou pernil. Davam ovos, leite e manteiga de graça.

Os shmoos se reproduziam facilmente e seriam capazes de acabar com a fome no mundo. Todavia, nas historietas, os capitalistas identificaram nos bichinhos os grandes inimigos do sistema e acabaram convencendo Ferdinando e os habitantes de Brejo Seco que eles deveriam morrer para que todo mundo voltasse a ser explorado como sempre aconteceu.
Essas historietas em pleno macarthismo fizeram muita gente ficar de olho atravessado para Al Capp.
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Ah... Saudades de ver meu pai lendo e gargalhando com as aventuras de Ferdinando... Por isso, aqui vai o meu muito obrigado a Al Capp. Ele morreu em 1979 (há exatos 30 anos), doente, entrevado em cadeira de rodas. Desde 1977 já não mais desenhava seus incríveis personagens que levaram um certo menino a começar a se interessar por leitura, e que posteriormente não parou mais, lendo tudo o que lhe cai nas mãos.
Deus te abençoe, Al Capp. Se ninguém lembrou de seu centenário de nascimento, este eterno menino não te esquece nunca.
M.S.

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Na TV Antigas Ternuras, você vê um engraçadíssimo desenho animado de Ferdinando intitulado “Dia de Maria Cebola” (Sadie Hawkins Day). Neste dia, criado por Ezekiah Hawkins, pai do “dragão” Sadie Hawkins, para desencalhar a filha tribufu, havia uma corrida em que os solteirões seriam perseguidos pelas encalhadas de Brejo Seco. Se uma das “beldades” conseguisse agarrar um solteiro, ele teria que se casar com ela. Era a grande chance de Violeta (Daisy Mae) pegar Ferdinando (Li’l Abner) de jeito. O animador deste desenho foi Dave Fleischer, o mesmo de Popeye. Isso pode ser percebido nas características de Chulipa...
(Se o filme der uma travada, mexam no botãozinho para adiantar e depois retroceder a imagem)

segunda-feira, setembro 21, 2009

Opções


Eu costumo dizer que fazemos escolhas desde a hora em que acordamos. Sempre temos diante de nós algumas opções para escolher uma. E isso faz com que nossa vida seja de um jeito e não de outro. Eu inclusive tenho uma história na cabeça (nos meus arquivos mentais intitulados “um dia isso pode virar peça, filme, post ou conversa fiada de botequim) onde uma pessoa encontra outra na rua, conversam, esta dá um cartão com telefone e ela depois pensa se deve ligar ou não. Nessa minha história, a peça, filme, post ou papo fiado mostraria os rumos que a tal pessoa tomaria ligando ou não.
Pois é. Viver é fazer escolhas e conviver com elas.
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Num domingo desses, li na Revista do Globo a coluna da sempre boa Martha Medeiros onde tinha um texto chamado “A melhor coisa que não me aconteceu”. No artigo, a Martha fala de uma frase que o ator Clive Owen disse quando não foi escolhido para ser o novo James Bond. E começa refletir sobre a melhor coisa que não aconteceu a ela.
Disse a colunista que foi uma viagem à Disneylândia que não rolou e, em troca, aconteceu uma outra à Bahia, que foi tudo de bom.
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Lendo o texto dela, fiquei pensando em qual grande coisa que não me aconteceu, mas que em troca fez rolar uma outra melhor ainda. Nossa... Foram tantas as opções que se apresentaram a mim e eu tive que escolher... E cada uma faria minha vida mudar completamente.
Bem, tem uma que, acredito, foi bastante determinante para tudo o que viria em seguida. Quando eu era mocinho, fiz concurso para o Banco do Brasil umas três vezes e não passei em nenhuma. Naquela época, quem passasse em concurso do BB tinha um excelente emprego para toda a vida. E eu fiquei arrasado, me sentindo uma besta quadrada, com QI de ameba mongolóide, por não ter passado. Depois, pintou um concurso para o Instituto de Resseguros, local em que eu tinha trabalhado dos meus 15 aos 17 anos e adorava. Também não passei e quase cortei os pulsos com barbeador elétrico cego de tanta tristeza. Cheguei a ficar de cama, com depressão. Definitivamente, eu era uma anta com cérebro do tamanho de um amendoim. Descascado.
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Enquanto eu já me conformava em ganhar a vida como servente de pedreiro, ou gari, ou vendendo o meu corpinho sensual para velhas senhoras solitárias, apareceu um concurso para trabalho temporário num órgão do governo. Sem nenhuma expectativa, fiz as provas e tirei em oitavo lugar. Finalmente, os meus dois únicos neurônios, “Tom” e “Jerry”, resolveram fazer as pazes e trabalhar direito. Consegui o emprego que de temporário virou permanente e é lá que me encontro há trocentos anos.
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Nesta repartição fui convidado, certa vez, para entrar para um grupo de teatro amador. Posteriormente, virei ator profissional, autor teatral, pesquisador premiado para espetáculos teatrais, professor de História do Teatro. Eu não consigo me entender hoje sem o Teatro na minha vida.
Lá, também trabalhei como instrutor de treinamento, jornalista e pesquisador na área de História, minha função atual, que me enche de orgulho e prazer.
Tenho absoluta certeza de que se tivesse passado no Banco do Brasil ou no Resseguros nada disso teria me acontecido. Eu nem imagino o que estaria fazendo hoje, mas o Destino fez uma ótima opção para mim.
Você já pensou nas outras opções que a vida te ofereceu e você não seguiu, o que alterou diametralmente seu modo de viver?
M.S.
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Quero agradecer do fundo do coração aos que lembraram de meu aniversário no dia 18 de setembro, e deixaram mensagens aqui pela data. Vocês sabem como emocionar este velho blogueiro sentimental...


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No outro blog onde periodicamente escrevo, o Playground dos Dinossauros, tem um post meu em que falo da minha antiga coleção de plásticos. Aquilo que hoje leva o nome de adesivo, mas que antes fazia propaganda de coisas como Flit, Brylcreem e Zé Colmeia. Quem quiser me dar a honra...
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Para ilustrar este post, falando das opções que a vida nos reserva e aproveitamos ou não, a TV Antigas Ternuras mostra este filminho chamado “Foto de casamento”.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Quando não existia Melhoral


O gentil leitor destas mal tecladas linhas deve lembrar dos remedinhos de antigamente, não é? Eu já falei aqui, em post anterior, que minha mãe e minha tia me davam Melhoral Infantil, Rhum Creosotado, Biotônico Fontoura, Emulsão Scott, Calcigenol, Sal de Frutas Eno, Xarope Melagrião, além de um sem-número de chás e outras mezinhas, incluindo a eventual rezadeira de espinhela caída.
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Para os mais novinhos, talvez eu esteja falando em grego arcaico. Boa parte destes remédios caiu no esquecimento ou foi substituída por outros produtos mais modernos para atenuar nossos males e carências. Pois é, rapaziada. Como diria o notável Jotaefegê: “Meninos, eu vi”. E vivi neste tempo em que vaca subia em coqueiro de tamancos. Como vocês sabem, sou da época em que “mostrar a perereca” era apenas apontar para o pequeno batráquio.
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Mas, é claro, existiu um tempo antes de eu nascer. E naquela época, os remédios eram bem diferentes dos que eu tomei. Por exemplo: quando as crianças do final do Século 19, início do 20 ficavam constipadas, tossindo à noite, as zelosas mães davam este remedinho.

Pois é, meus caros. A Bayer fabricava este xaropinho a base de heroína para a petizada de então. E as crianças ficavam tranquiiiilas, dormiam como anjinhos depois de uma boa colherada deste santo remédio. Algumas sonhavam com elefantes cor de rosa, mas a fabricante do elixir garantia que isso não fazia mal algum. Como se sabe, “se é Bayer, é bom”.
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As crianças norte-americanas também tinham seu atenuante para tosse, asma (na época se escrevia “asthma”), gripe e pneumonia. Era este aqui:

Fabricado pelo laboratório Martin H. Smith Company, de New York, esse aí levava vantagem sobre o concorrente alemão: tinha glicose para adocicar um pouco o amargor da heroína. Como se sabe, criança não gosta de remédio amargo. Mas esse, elas a-do-ra-vam!
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Mas às vezes, a asma (ou asthma...) atacava à noite, e a criança nem conseguia respirar direito, ficava arfando, parecendo uma bomba de encher pneu de bicicleta, com os pulmõezinhos fazendo “fuimmm... fuimmm...”. E o que as desesperadas mães faziam no século retrasado? A mesma coisa que as mães do século 21 fazem: botam os pirralhos para fazerem inalação. Só o remédio de hoje era bem diferente do daquela época:

Bastava aquecer a água numa panela, jogar uma colher de sopa desta maravilha a base de ópio, botar o catarrento para inalar o vapor e pronto! O anjinho voltava a dormir na paz de Deus.
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Quem tem ou teve filho na fase bebê, sabe que é comum eles acordarem no meio da noite, com cólica, ou mesmo com insônia. E tocam a chorar, impedindo os pais de dormirem. Pois é. Naquela época isso também acontecia. Ah... Mas as mães contavam com um poderoso aliado que aquietava os nenéns, fazendo-os parecer querubins no bercinho.

Esse elixir maravilhoso continha 46% de relaxante álcool e uma boa porção de ópio. A Stickey & Poor, laboratório fabricante do paregórico, garantia que bastava três gotinhas na agüinha dada a bebês de até cinco dias de nascido que acabava o chororô. Para nenéns com duas semanas, o indicado era 8 gotas. Se já tivesse maiorzinho, com mais de cinco anos, a posologia era 25 gotas. Mas e os pais? Nada? Imagina! Eles também eram filhos de Deus! Para adultos, o recomendado era uma colher de sopa bem cheia. E bons (e alegres) sonhos para todos.
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Todo mundo sabe que volta e meia criança tem dor de dentes, não é mesmo? Adulto também. No meu tempo, havia três santos remédios: “1 instante” e “1 minuto” e a fabulosa “cera do Dr. Lustosa”, feita em São João Del Rei até nos dias de hoje. Mas e naqueles tempos distantes? Como faziam para abrandar as dor dos pequerruchos? Assim, ó:

Estas miraculosas pastilhas (drops) de cocaína eram a salvação dos que gemiam de dor de dentes nos idos de 1885 em diante. E o laboratório Lloyd Manufacturing Co. assegurava que os drops melhoravam o humor de quem os chupassem. Os usuários ficavam relaxados e sorridentes, com cara de quem viu passarinho verde dançando hula-hula. Nada de choro de criança!
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E por falar em drops de cocaína, esses aqui eram benfazejos para aliviar irritação da garganta do pessoal do Século 19.

Especialmente do gogó de atores, cantores, oradores. Todo mundo usava. Que pastilha Valda, que nada!
Até imagino os vendedores ambulantes entrando nos trens e bondes anunciando: “olha o drops de cocaína! É o passatempo da sua viagem! Alivia a tosse e refresca a sua garganta! E deixa um suave frescor na sua boca!”
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Tem época que criança não quer comer, não é verdade? Na minha época, me davam Biotônico Fontoura ou Rarical. No tempo de meus bisavós, nos USA, davam uma dose deste vinho de cocaína.

Dizia a bula que bastava um cálice antes da refeições que as crianças recobravam o apetite. Papavam tudinho! E tinham a maior disposição para correr, brincar, se agitando sem parar com os dentinhos trincados. Uma maravilha!
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E por falar em vinho à base de coca, tinha um que combatia a gripe e era especialmente recomendado pelo papa Leão XIII. O Sumo Pontífice não ficava sem a sua dose diária, estava sempre com uma garrafinha desta miraculosa bebida. Dizia até que quando tomava uma talagada, via Jesus andando de velocípede a sua volta soprando catavento. O papa deu uma medalha para o fabricante, o signore Angelo Mariani. Vejam no rótulo a cara feliz do Leão XIII e seu sorrido de Mona Lisa depois de uma dose. Sem dar uma pro santo!

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Estão vendo, caros leitores? A ciência médica do Século 19 tinha os seus segredinhos para aliviar o sofrimento do povo da época. Quando eu estava pesquisando para o meu livro “Popularíssimo – o ator Brandão e seu tempo” vi nos jornais antigos que era comum as pessoas elegantes carregarem uma “bocetinha de cocaína”, como diziam naqueles tempos, para de vez em quando darem uma cafungada, como alguns faziam com rapé. Nas festas, então, era comum servirem o pozinho branco para favorecer o divertimento e proporcionar alegria aos comensais. Como se sabe, hoje em dia não se faz mais isso...
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Já que estamos falando de assuntos ligados a saúde, gostaria de mostrar este vídeo feito numa igreja evangélica, onde um pastor faz recomendações de higiene aos presentes. É muito interessante ouvir o que o pastor diz. Imagino que ele não seja da Igreja Universal, porque senão ele estaria cobrando pelos conselhos aos crentes.

M.S.
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O livro “Humor Vermelho” - onde tenho um modesto texto - foi lançado na Bienal do Livro, aqui no Rio de Janeiro, com a presença de alguns dos autores. Foi um sucesso! Um monte de gente apareceu por lá, comprando o livro e buscando nossos autógrafos. Vejam uma foto do estande da nossa editora, com os autores à frente.

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Na TV Antigas Ternuras, você vê os sábios conselhos do pastor Jajá.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Alegria, alegria!


Na semana passada, tive dois excelentes motivos para estar mais feliz que pinto no lixo. Primeiro, teve a noite de autógrafos da coletânea de humor que participei com um modesto texto postado aqui no seu, no meu, no nosso Antigas Ternuras, o velho guarda-louças de boas lembranças. Entrei nesta a convite da minha mui querida amiga Isabella Saes (do Mente Inquieta), por sinal, madrinha deste meu blog.
Pois é. Saiu o livro “Humor Vermelho”, com textos muito bem humorados de 22 autores, entre eles o amigo que vos tecla.
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A noite de autógrafos foi na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Cheguei lá e nem acreditei quando vi aquela multidão de gente ávida, sequiosa por um exemplar e pelo autógrafo dos autores. Cheguei ainda meio atordoado com aquele mundaréu de gente e a Isabella já mandou eu me aboletar a mesa e começar a autografar os livros. Fiquei sentado ao lado do Antonio Tabet, o dono do hilariante blog Kibe Loco, que todo mundo certamente conhece. E o Tabet é um cara sensacional! Com cinco minutos de papo já éramos amigos de infância. E vocês já imaginaram: Kibe Loco e Antigas Ternuras, lado a lado, não poderia sair nada que prestasse. A gente ria até de fratura exposta.
Para completar a minha felicidade, esteve lá o meu amigo Júlio César Corrêa, do excelente blog Bala Perdida, que inclusive tirou algumas fotos para mim.
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Lá pelas 23 horas, a livraria fechou e nós, autores, pudemos nos confraternizar um pouco. Fiquei sabendo que o título do meu texto, "Escutando cabelo crescer", estava fazendo um baita sucesso, muita gente dizendo que iria passar a usar a expressão quando quisesse dizer que ficou de papo pro ar. Fiquei feliz por isso.
Disse a Isabella que naquela noite foram vendidos 355 exemplares do nosso Humor Vermelho. Caraco! Que o Paulo Coelho e a J. K. Rowlings se cuidem! Já me vejo experimentando o fardão da Academia Brasileira de Letras...
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Saíram algumas notas nos jornais sobre o evento e reproduzo duas delas, onde, acidentalmente apareço nas fotos. Mas não dei uma de “papagaio de pirata”, não. Sei lá, acho que foi sorte.
Agora teremos mais duas noites de autógrafos: uma na Bienal do livro (Estande Usina de Letras, Pavilhão Laranja A17), aqui no Rio, no dia 13 (próximo domingo), às 17h; outra em São Paulo, na Livraria da Cultura da Av. Paulista, no dia 7 de outubro, às 19h. Vou ficar transbordante de felicidades se puder encontrar meus amigos nestes eventos.
Quem quiser adquirir o livro, basta pedi-lo numa boa livraria (pode ser num site de uma das poderosas), que, imagino, vai encontrar.

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O outro motivo de alegria para mim foi a minha posse na diretoria do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras, cidade do Vale do Paraíba do Sul a 111 km do Rio de Janeiro. No ano passado eu fui convidado para fazer uma palestra neste instituto (sobre as companhias itinerantes de teatro no Vale do Paraíba do Sul, no Século 19) e ao final, me fizeram o gentil convite para entrar para o corpo de sócios. E agora, na eleição da nova diretoria, fui indicado para um dos cargos, o que muito me orgulha.
Abaixo, vocês podem ver o prédio em que está sediado o IHG Vassouras e a nova diretoria empossada.


Caramba... Eu, um reles jornalista e ator, em meio a historiadores e professores do mais alto gabarito...
É por isso, caros amigos, que eu ando muito feliz, rindo até para assombração do outro mundo.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Zé da Velha e Regional tocando a deliciosa “Ainda me recordo”. Para se ouvir em êxtase, não é?

quarta-feira, setembro 02, 2009

Escolhas


Certa vez, um professor de Filosofia propôs uma pergunta aos alunos: se soubessem que teriam apenas 24 horas de vida, o que fariam?
Um aluno disse que entraria numa igreja e ficaria rezando até o momento fatídico; outro, disse que cairia dentro da mulherada, passando o rodo geral. Uma colega ao lado deste, sorriu e balançou afirmativamente a cabeça, concordando, também virando uma croupier em potencial para recolher as fichas da boa vida na gandaia. Um outro afirmou que venderia todos os bens e daria tudo pros pobres; uma aluna revelou que procuraria fazer as pazes com o pai, com quem estava brigada.
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E assim, vários alunos deram a sua resposta. Até que um deles perguntou ao professor: “O que você faria, mestre?” Ele calmamente respondeu que tocaria a vida dele da mesma forma que tinha vivido até então. Ele se dizia em paz com Deus, com a família, era casado e amava a mulher e queria estar ao lado dela e dos filhos na hora derradeira. Tinha, até aquele momento, uma boa vida, combatera o bom combate e justificara a sua existência.
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Lembrei desta história lendo o noticiário sobre a morte de Ted Kennedy. Há algum tempo ele sabia que o tumor em seu cérebro o tornava um doente terminal e que a qualquer momento deixaria o mundo dos vivos. Dizia a matéria que nos seus últimos dias, ele se deliciava com taças de sorvete com biscoito e gostava de assistir ao sol se pondo, sentado, ao lado da mulher, numa cadeira do tipo espreguiçadeira, na varanda de sua casa. Nunca se revoltara com a doença, ao contrário: se dizia feliz e completo. Que tivera uma boa vida, que agradecia aos céus por ter podido fazer tudo o que fez em sua carreira de parlamentar, por ter sido o único dos irmãos homens a saber quando a morte chegaria e não ser surpreendido por ela.
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Tanto estas revelações sobre Ted Kennedy, quanto a história do professor me fizeram pensar a respeito. E, coincidentemente (ou não), há poucos dias minha mãe estava conversando comigo e se disse triste, porque sabia que estava velha e, consequentemente próxima de morrer. Ela começou a chorar, dizendo que tinha medo de morrer, que se entristecia com cada pôr-de-sol, pois significava mais um dia passado, mais um dia em direção da hora final, que deixaria os filhos e netos, o que seria de nós? Preocupações de mãe. Tentei acalmá-la, disse que todos nós caminhamos para esta hora, mas se olharmos para o caminho trilhado e vermos o que deixamos e o que aprendemos, teremos sempre a sensação de dever cumprido e ela tem razões de sobra para poder dizer como São Paulo escreveu numa epístola: “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”.
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Mesmo para quem sabe que a morte é apenas uma mudança de estágio, que temos uma alma imortal, ainda assim não é fácil conviver com a partida definitiva de alguém que amamos ou mesmo a nossa passagem. Daí, procuramos nos confortar uns aos outros, com o que melhor pudermos dizer e fazer. Recentemente, uma amiga me disse que tinha perdido uma pessoa querida e que se sentia triste. Recomendei-lhe uma prece espírita muito bonita e a oração amenizou um pouco a sua angústia. Ontem mesmo, recebi um comentário feito por alguém que, nem imagino como, chegou até um antigo post meu, aquele em que eu falava da mensagem na letra da música “I can see clearly now”, se dizendo confortada pelas palavras que leu naquele momento de angústia em que estava passando.
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Claro, palavras não vão retirar por completo a dor de uma perda. Não vão convencer a minha mãezinha de que ela deve deixar de se preocupar conosco. Mas aí eu lembro da escolha que o Ted Kennedy fez. Entre sorver uma taça de fel, de dor e angústia, ele preferiu uma de sorvete com biscoito. A procurar ver a vida com tonalidades cinzentas, ele optou por mirar o sol se pondo, numa aquarela multicolorida.
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Eu acredito que viver é mais que se trancar numa igreja para somente rezar, ou partir em busca de prazeres fáceis, ou ainda acumular e/ou dispor de bens materiais. Cada uma dessas coisas, em seu devido momento, é bom, é prazeroso de se fazer. Mas efetivamente, temos outras possibilidades.
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Escrevo este post olhando pela janela a noite estrelada. Cada pontinho de luz que vejo é um astro que nasceu, viveu e certamente vai desaparecer. Mesmo sem ter a consciência disso, cada estrela já desaparecida produziu calor benfazejo, iluminou a escuridão, inspirou poetas e cantores, cumpriu sua missão.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Pavane for a dead princess”, de Ravel.