Dia desses, sonhei com um porquinho da Índia que falava comigo. (Não reparem, mas os meus sonhos costumam ser muito doidos, mesmo...). Ah, se fosse em meus tempos de moleque, já ia eu direto pro bicheiro jogar uns caraminguás no coelho – afinal de contas, também é mamífero roedor e bastante parecido com o famoso preá, ou porquinho da Índia...
No bairro onde me criei e mesmo em Piedade, onde também morei por uns tempos, jogar no bicho era atividade cotidiana, embora meus pais nunca jogassem, muito menos meus tios carolas. Mas eu vivia solto nas ruas e me dava muito com gente que fazia regularmente a sua fezinha. Eles me ensinaram os meandros do jogo do bicho e lembro que eu costumava deixar adultos espantados com o meu conhecimento sobre o assunto.
Aliás, até hoje em dia, gente que me vê como um intelectual (Rá! Tolinhos...) se admira de eu saber cercar um milhar pelos sete lados, por exemplo...
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Não sei se vocês sabem, mas o jogo do bicho é invenção estritamente brasileira, e carioca, mais precisamente. Começou como uma idéia do Barão de Drummond para poder manter o Jardim Zoológico que ele tinha criado e que lhe dava muita despesa. Querem saber como foi? Péraí. Vou apertar o rewind da fita e voltar até os idos de 1873. Fica este post como mais um da séria série "A História tem cada história..."
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João Baptista Vianna Drummond (1825-1897), a partir de 1888, Barão de Drummond, foi um grande empreendedor. Tinha um enorme tino comercial. Por volta de 1873, ele comprou da Princesa Isabel, com a intermediação do pai da moça, um certo Pedro II, de quem Drummond era amigo, uma enorme porção de terra, chamada Fazenda dos Macacos. Pagou 120 contos de réis, uma soma respeitável, que ele pretendia ver de volta e com dividendos. João Baptista se associou à Companhia Arquitetônica e juntos, pretendiam transformar aquelas terras no primeiro bairro residencial planejado do Rio de Janeiro. Para começar, ele foi pedir a concessão de uma linha de bonde puxado por animais (cavalos, burros, mulas...).
O núcleo central da cidade ficava distante dali e sem meio de transporte, nem com ordem do Papa alguém se dignaria a ir para aquelas lonjuras. Pois bem. Linha de bonde instalada, traçaram o plano urbano do bairro, todo feito em ruas paralelas, cortando um boulevard (avenida larga e arborizada) que se chamaria 28 de setembro, data em que foi assinada a primeira Lei Aúrea, que depois ficaria conhecida como Lei do Ventre Livre (a de 13 de maio de 1888 é a segunda Lei Áurea, embora tenha ficado definitivamente conhecida assim). Drummond era um abolicionista convicto. O bairro se chamaria "Vila Isabel" (a de Noel e de Martinho da Vila), para dar aquela puxada de saco básica na Princesa, de quem tinha comprado as terras.
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Até aí, tudo bem. Só que os vendedores montaram suas barraquinhas e nada dos compradores aparecerem. Drummond viu que precisava de alguma coisa muito interessante para atrair as pessoas. Teve a idéia do Jardim Zoológico. Comprou um punhado de animais e os dispôs em jaulas para serem observados. Pronto! Foi na mosca! O povaréu começou a chegar. Vinham para ver os bichos e acabavam se interessando por um lote naquele empreendimento.
Um sucesso! Mas, como eu escrevi lá em cima, manter o zôo custava caro. O leão comia como um leão. O jacaré passava o dia de boca aberta só esperando o rango. O camelo nem fazia questão de beber, mas estava seco por comer. Alimentar a tropa estava fazendo o caro Drummond gastar uma nota branca (não digo "preta", pois, como eu disse, o cara era abolicionista...).
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Primeiro, ele pensou em meter a faca no Imperador. Metaforicamente, é claro... E durante um bom tempo, o Pedrão patrocinou a alimentação da bicharada. Aí veio a República e o muquirana do Deodoro falou que não daria um centavo para amigo da monarquia. Foi quando Drummond teve uma brilhante idéia! Criou uma loteria onde cada número representava um bicho e cada ingresso daria direito a um bilhete numerado para o participante concorrer no sorteio que era feito no fim do expediente, onde era apontado o "bicho do dia". O prêmio era ingressos grátis para o Zôo.
O negócio fez tanto sucesso, o carioca sempre foi tão chegado a uma jogatina, que a proposta do jogo do barão foi desvirtuada. Já corria dinheiro nas apostas do bicho. Posteriormente, o jogo do bicho foi proibido, embora alguns governantes (especialmente alguns chefes de polícia) o tolerassem.
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Mesmo proibido, o jogo fez um baita sucesso, ganhou as ruas do Rio e de outros estados. Apareceram pessoas que bancavam as apostas, correndo os riscos (que nem eram tantos assim...). O sistema foi organizado, com prêmios estipulados (que permanecem até hoje...), desta forma: quem acertasse no milhar, receberia quatro mil vezes o dinheiro apostado, ou seja: para cada real apostado em um milhar, em caso de acerto o vencedor levaria quatro mil réis. No caso da centena, 200 réis, da dezena, 70, e assim por diante.
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O brasileiro, esse povo tão criativo, quando o assunto é sacanagem ou possibilidade de ganhar algum, criou um sistema de palpites pelos sonhos. Sonhar com rei, joga-se no leão; com muitas crianças, bota-se fé no coelho; com a sogra, vai-se com tudo na cobra; com algum tipo de saliência, o macaco será o preferido... E vai por aí afora.
O grupo 24 – o do veado - virou sinônimo do rapaz homossexual, mas essa forma pejorativa de se referir a quem pratica o sexo "que não ousa dizer o nome", como se falava antigamente, não veio daí. Um dia eu conto essa história...
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E nesta terra onde o jogo é proibido – embora o governo seja o maior banqueiro da parada – sonhar com um bicho pode ser o passaporte para a fortuna fácil. Não deixa de ser uma ironia: sonhar para realizar os sonhos... E sonhar, como vocês sabem, não custa nada...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o grande Altamiro Carrilho em "Eu sonhei que tu estavas tão linda"...Maravilha, né não?
