Vou confessar uma coisa: às vezes me bate uma curiosidade de saber como as idéias para post pintam na cabeça de vocês. Na minha, se alguém quer saber, em muitas ocasiões vêm a partir de uma mera observação de alguma coisa, algum detalhe que na visão de outros passaria batido.
Vou dar um exemplo:
Eu estava num shopping chique quando vi duas moças com vestidinhos que já tiveram seus bons dias, calçando sandálias havaianas. Sei perfeitamente que estes chinelinhos hoje são peças super na moda, que não deixam ninguém mal visto por calçá-los, mesmo em ambiente um pouco mais formal. Mas, não sei porquê, achei esquisito ali, naquele momento. E acreditem: foi como mágica! Em menos de um minuto um post inteirinho me veio na cabeça, já com tudo organizadinho!
Aí vai.
*
Quando eu era menino, visitar tios ou receber a visita deles era um evento especial, com rituais muito bem estabelecidos. Eu gostava quando minha mãe dizia: “no domingo, vamos na casa do tio ou da tia tal!”. Uma vez resolvida a fazer a visita, entrava em ação a primeira fase do evento: a apresentação da intenção.
*
Hoje em dia, todo mundo tem telefone, celular, computador com e-Mail, Orkut, MSN, o escambau. No meu tempo de moleque, falar com um parente que morasse um tantinho mais distante era um pouco mais complicado. Primeiramente, nem todo mundo tinha telefone naquela época, só os com excelente condição financeira. Não era o nosso caso. Éramos uma família classe média média. Nem alta, nem baixa. Ali. Bem na média. Na cidade do Grande Rio em que morávamos, telefone era algo muito, muito caro. Quem quisesse falar ao telefone, o esquema era o seguinte: alguém ia na farmácia do seu Henrique e pagava uma certa quantia para usar o aparelho por três minutos. Interurbano era mais caro. Daí, minha mãe ligava para: a) a casa da tia (quando esta tinha telefone, até onde eu lembro, poucas tinham); ou b) para um vizinho da casa da tia, (“O senhor me chame a fulana na casa ao lado, faz favor? Muito obrigada!”). Ligação feita, tudo acertado, era só aguardar o domingo marcado para a segunda fase do projeto: colocar uma roupa elegante para não fazer feio.
*
Ahhh... Lembro como se fosse hoje! Minha mãe mandando a gente tomar banho, ela própria dando uma geral para ver se os meninos tinham se lavado direitinho, escolhendo a roupa que usaríamos, tirando os cordões de ouro de cada um do porta-jóias, passando talco Regina, Petróleo Menelik nos cabelos e perfume ”Toque de amor”, da Avon na gente. Nós ficávamos mais cheirosos que filho de farmacêutico.
Depois de todo mundo arrumado, aí é que ela ia tomar o seu banho, não sem antes ameaçar cobrir a gente de porrada se alguém se sujasse (detalhe: naquele tempo as mães não tinham medo de “traumatizar” os filhos por conta de uns catiripapos de vez em quando...). E volta e meia um de nós fazia alguma merda, sujando a roupa que ela lavara, passara e escolhera com tanto carinho.
Esporro dado, roupa trocada (quando era o caso), lá íamos nós para o ponto de ônibus (carro? Rá! Imagina...).
Fase seguinte: a chegada na casa dos tios.
*
Era uma etapa que hoje também me deixa saudades, visto que quase todos os tios que a gente visitava já cantaram pra subir faz tempo. Os tios estavam sorridentes por nos receberem. “Olha quem chegou! Vão entrando gente, não repara, não, é casa de pobre...”
Minha mãe botava todos nós para o ritual “bença, tia!”, “bença, tio!”, beijávamos a mão deles e ouvíamos o invariável “Deus te abençoe!”. É claro, tinha também o “olha como ele está crescido! Noutro dia era um bebê! Está indo bem na escola? Isso, estuda mesmo, porque o estudo não ocupa lugar. Se quiser ser alguém na vida tem que estudar.”
Cumprimentos feitos, aí era a fase do “fiquem à vontade”.
Bem, finalmente chegamos no momento sandálias havaianas. Naquela época, a gente fazia visitas usando roupas elegantes e alinhadas. Uma vez tendo chegado ao destino, o próprio dono da casa insistia para a gente colocar uma roupa “mais a vontade”. Para minha mãe, sempre pintava um vestidinho mais simples, e uma sandália havaiana.
Para as crianças, a própria mãe levava uma muda de roupa, e as sandalinhas de cada um.
*
Perceberam? A gente usava as havaianas em casa ou em momentos absolutamente informais. Jamais alguém usaria chinelo de dedo para sair, passear, ir ao cinema, como a gente vê hoje em dia. Não estou condenando, não. Só registrando. Mas, vamos prosseguir com o relato, porque eu estou gostando de lembrar dessas coisas do tempo das antigas ternuras.
*
Depois que todo mundo estava mais confortável, as criançada ia brincar e os adultos iam colocar o papo em dia. Pois é. Eu normalmente esperava para ver qual o rumo da conversa dos adultos. Se ficassem falando do “ai, minhas costas andam doendo tanto; Ah, a carestia está insuportável! onde nós vamos parar, meu Deus?”, eu ia caçar alguma coisa mais divertida para fazer. Se começassem a contar “causos” de família, eu me aboletava num canto só para escutar. Sempre gostei de ouvir relatos com histórias engraçadas, ou tristes, ou ambas.
Se estivéssemos na casa do Tio Jair, eu também podia visitar a estante com os livros e abrir a porta para uma outra dimensão chamada imaginação... Uma das chaves era a coleção “Tesouro da Juventude”...
*
Quando o almoço estava pronto, era a hora de chamar as crianças para a mesa (naquele tempo, as crianças comiam em uma outra mesa, ou comiam primeiro que os adultos). “Vamos lavar as mãozinhas, vamos, vamos, vamos!”, “ah, mãe, ta limpa, ó só!”, “não está não senhor, pode tratando de lavar! E com sabonete!”, “Ah...Tá bom...”
Na mesa, começavam as lamúrias: “mãe, num quero salada!”, “mãe, num gosto muito de bringela, não”, “galinha? Ah, não vou comer de jeito nenhum!”. Essa última frase era usualmente minha. Eu sempre detestei galinha, pato, peru, qualquer coisa que tivesse pena e estivesse numa panela. Não suportava (e não suporto) nem o cheiro! E não tinha chinelo, cinturão, nada me fazia comer aquilo. Preferia apanhar! E já tem mais de dez anos que eu não como carne vermelha também. Mas isso é outra história...
*
Uma vez decidido o que ia para o prato de cada um, vinha o momento de implicar com os irmãos, com os primos, roubar a batata frita do outro, passar a couve-flor adiante...
“Mãe, cabei! Quero mais Q-Suco!”
“Só se você comer tudo! Olha só, ainda tem comida no prato. Tanta gente passando fome no mundo e você desperdiçando!”
“Tiaaaaaa... o que tem de sobremesa?”, “Obaaaaaa! Gelatina com pedacinho de maçã!”
*
Depois do almoço, a gente doido para voltar para a correria.
“Nããão, nada disso! Vocês acabaram de almoçar. O sol está muito quente. Pode dar congestão. Vão ver televisão.”
“Ahh, mãããe...”
Era a hora do Teatrinho Trol, da turma do Pica-Pau, ou do desenho que estivesse passando. Passado o período regulamentar para não dar congestão, de volta para o pique, para pular corda, para o que fosse mais agitado possível.
*
No início da noite, era o momento das despedidas.
“Mas jááá??? É cedo ainda! Vou passar um café!”
“Não, já está na hora. Chega de incomodar. Crianças! já pro banho!”
“Ah, mããe...”
“Não tem mãe, nem pai. Já pro banho!”
E assim, banho tomado, cabelos penteados, roupa de sair novamente no corpo. Era a hora das despedidas.
“Bença tio!”, “bença tia!”
“Deus te abençoe. E vê se você se comporta! Você já é um homenzinho!”
Algum tempo era gasto nas despedidas, agradecimentos, “desculpe qualquer coisa”, “vê se aparece lá em casa! É casa de pobre, não repara...”
*
Lá íamos nós para o ponto do ônibus. Dentro do veículo, não dava nem cinco minutos e minha irmã já se esparramava no colo da minha mãe. Os meninos, tombavam de lado e faziam a mesma coisa que ela. Dormíamos de babar na camisa!
Chegando em casa, pijama, ida para a cama que no dia seguinte tinha escola bem cedo.
“Bença, mãe.”
“Deus te abençoe. Durmam com os anjos.”
*
Pois é.
Tudo isso me veio na mente assim, tlec!, num estalar de dedos. Bastou olhar as moças no shopping chique com sandalinhas.
Nossas lembranças são como um cachorrinho de estimação que pula no nosso colo inesperadamente. E as minhas ainda lambem o meu rosto, me fazem festinha, e nunca me deixam esquecer que eu era feliz e sabia perfeitamente disso.
M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Angela Maria cantando “Gente Humilde”, canção que é uma perfeita narração de meus tempos de garoto.
***********************************************

Eu ganhei mais um selo, desta vez da Dominique que me fez essa gentileza. Obrigado, amiga! Fico grato mesmo. Bem, as regras deste post-corrente dizem para escolher àqueles para quem eu vou passar. Ultimamente tenho passado para todos os amigos blogueiros que me dão a honra de visitar. Mas hoje eu gostaria de destacar alguns. Então repasso o belo selo “Esse Blog é Show de Bola” para os seguintes blogueiros:
Devaneios e Desabafos da sempre tão gentil Renatinha;
Luz de Luma, Lino Resende;
Clínica da Palavra da Maristela. O que eu mais admiro nestes três blogs é o senso de cidadania e solidariedade que os três têm, além de escreverem bem pra caramba!
Luzes da Cidade, do Francisco Sobreira;
O Apanhador de Sonhos, do Bené Chaves;
Politicamente Incorreto, do Bosco Sobreira. Vejo estes três amigos meus que muito respeito e admiro como uma espécie de Três Mosqueteiros. Gostaria muito, mas MUITO mesmo de poder me sentar um dia com eles e conversar sobre tudo o que pintar no papo.
E ainda tem o "D’Artagnan" dos mosqueteiros, meu ex e sempre professor Moacy Cirne, doBalaio Vermelho para quem dou o selo também.
Para a minha amiga Erika do sempre ótimo Oncotô, vai um selo também porque se tem uma pessoa show de bola é ela!
E selo também para o do meu novo amigo de infância J.F.
Vocês dez são DEZ!
Agora se quiserem repassar o selo para outros, deixo ao critério de vocês.



