Certa vez, quando eu era bem menino, minha mãe estava conversando com alguém que lhe perguntou a idade. Ela disse: “29”. E eu, que estava ao lado, lhe corrigi: “Não, mãe, a senhora tem 32!”
Minha mãe sorriu amarelo, disse para a pessoa que eu estava enganado e quando eu tentei argumentar, ganhei um baita beliscão assim... muuuuuito discretamente... Achei melhor ficar quieto. Quando saímos de perto da tal pessoa, a minha mãe me deu umas sacudidelas, com os olhos fuzilantes de raiva: “Nunca mais me desminta na frente das pessoas, está ouvindo?”. Quase que o tempo fechou para mim naquela hora. E eu, criança que ainda não entendia uma coisa chamada “mentira social”, fiquei sem saber o que dizer ou pensar. Eu tinha certeza da idade dela, ela se enganara. Por que tive que ouvir a voz de trovão da minha doce mãezinha?
Bem... Ela deve ter tido os seus motivos.
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Pois é. Viver em sociedade é ser obrigado a dizer pequenas mentiras a cada dia, sob pena de passarmos por pessoas desagradáveis. Alguém totalmente franco vai angariar mais inimigos que o George W. Bush no Iraque. Lembro de uma frase de Nelson Rodrigues que disse: “Se as pessoas pudessem adivinhar o pensamento uma das outras, não se olhariam na cara”.
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Dia desses, eu recebi um e-Mail com o título: “As mentiras mais contadas”. No texto, há o personagem e sua frase. Exemplo: O Dentista: “Não vai doer nada”; O Devedor: “Amanhã sem falta”; O Orador: “Apenas duas palavras...”; O Pobre: “Se eu fosse milionário distribuía dinheiro pra todo mundo!”; O Vendedor de sapatos: “Depois alarga no pé”. E vai por aí a fora.
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A mentira é cultural. A mentira está no DNA do ser humano. Os políticos mentem e a gente finge que acredita. O marido mente pra mulher e ela nem finge; não acredita mesmo, porque sabe que é caô, 171, papo de migué, embromação. Você que me dá o prazer de ler, já pensou em quantas mentiras diz por dia? Algumas até mesmo sem sentir, como: “Pode deixar que depois eu te ligo!”, “Aparece lá em casa!”, “Não, eu gosto. Só estou sem fome.”
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Claro que estas mentiras sociais são, na maior parte das vezes, inofensivas. Há mentiras mais sérias, que podem prejudicar, trazer prejuízo. Ou podem magoar bastante. Claro que existem ocasiões em que falar a pura verdade é muito mais complicado que deixar escapulir uma “cascata”, como chamávamos a mentira no tempo das antigas ternuras.
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E me diga você: mentiras sinceras interessam? Você acredita que uma boa evasiva, um torcicolo no pescoço da verdade pode salvar uma situação? Uma das frases que me fazem empalidecer feito defunto de véspera é: “você acha que eu estou gorda?” Ai do homem que ousar responder a esta pergunta, seja com que resposta for!
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Para os antigos vikings, Loki era do deus da mentira, do logro, do engano. Na cultura greco-romana, este papel ficava a cargo de Hermes/Mercúrio. Para a civilização judaico-cristã ocidental, o diabo é o pai da mentira. Como o ser humano é bom em arranjar desculpas e culpados para as suas próprias falhas, não é não?
A mentira não tem deus, nem pai. O ser humano mente, sempre mentiu e vai continuar mentindo, em qualquer tempo, em qualquer cultura. E nos tempos em que vivemos, parece que existe uma convenção sócio-econômica de que mentir é a melhor política.
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Nada é o que parece ser! Tem algo obtuso por trás de tudo e a gente nunca sabe o que é verdade e o que não é. Vejam os jornais. Vejam as propagandas. Olhem só para os anúncios. Alguém aí já recebeu uma pizza igual a da foto na loja? Um sanduíche igual ao do letreiro da lanchonete?
Pois é. E agora deram para mentir com o corpo! Você olha a bunda da mulher e pode ser falsa. Olha pro peitão e pode ser enchimento de espuma. Aquele cara que mostra um baita volume sob a calça pode estar usando uma cueca com recheio falso, só para a mulherada achar que ele é bem dotado (vejam a foto)! Até a cueca, meu Deus!!!
Estas são apenas reflexões livres, pensamentos soltos de quem estava até bem pouco tempo estirado no sofá, escutando cabelo crescer, e pensando em que historinha do boitatá eu teria que contar para não ir no ensaio de sábado. Tsc, tsc, tsc... Melhor não inventar mentira nenhuma. Dá um trabalho miserento sustentar mentira!
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De qualquer forma, acabo de me lembrar de uma figuraça de minha infância: Carlim Berreba. Uma vez, ele irrompeu uma roda de bate-papo, com olhos elétricos, cuspindo perdigotos, dizendo furibundo:
- As três maiores mentiras da humanidade são: “O trabalho enobrece o homem”; “dinheiro não traz felicidade” e “vou botar só a cabecinha!”.
O Berreba tinha cada uma...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Maria Bethânia cantando, do grande Tito Madi, “Cansei de ilusões”. Bela música, heim?



