Dia desses, eu estava lendo o sempre excelente blog do Dilberto, líder do clã dos Morcegos, família que muito gentilmente me acolheu, e vi a homenagem que ele fez ao seu clube do coração. Não vou citar aqui o nome do clube porque não o cito a não ser pejorativamente, visto ser o grande rival do meu amado Mengão. Mas vocês já devem saber de qual time falo... Ele tem o nome de um almirante português conhecido por ser cruel com seus comandados e ter cometido atrocidades na Índia, depois de ter trilhado o caminho marítimo até lá, no Século15.
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Pois bem. Disse o meu caro primo Dilberto que este time “foi o primeiro a ter jogadores negros no elenco profissional”. Eu discordei e apresentei argumentos que desfazem este equívoco. Ele contra-argumentou afirmando ter lido esta informação vinda do jornalista Sergio Cabral (pai do atual governador do Rio), que é reconhecido como pesquisador cultural. E na verdade o é e dos bons. Eu o tenho como uma grande influência no meu estilo de escrever perfis biográficos, assunto em que ele é mestre.
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Acredite, caro primo Dilberto: eu já ouvi o Sergio falar isto, assim como muitos outros e sempre fiquei embatucado com esta afirmação. Você e os torcedores do seu time proclamam isto como uma grande vantagem, algo a ser glorificado. E eu sempre achei isso muito estranho. O seu clube tem óbvias ligações com a colônia portuguesa e ao longo da História, os portugueses nunca se caracterizaram pela tolerância racial. Foram os maiores escravocratas da História da humanidade. A quantidade de negros que eles capturaram ou compraram na África ao longo dos séculos 15 ao 20 – sim, em meados do século 20 eles exploravam mão-de-obra escrava em São Tomé e Príncipe - ultrapassou a casa dos milhões. Certamente, se admitiam negros na equipe, nos anos 20 do século passado não o fizeram por serem “democratas” ou “admiradores” da raça negra.
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Aqui faço uma advertência: eu não estou dizendo que os portugueses são racistas ou escravocratas. Falo como estudioso de História. Há alguns mui queridos lusitanos que aqui freqüentam e por quem tenho enorme carinho e que não são racistas, nem caçam escravos. Falo de tempos idos. Ao longo dos séculos 16, 17 e 18, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses também escravizaram nossos irmãos negros d’África. Só que os portugueses o fizeram por mais tempo, dominando o tráfico negreiro no Atlântico Sul. E no início do Século 20, quando o Brasil tinha abolido a escravatura há cerca de uns 30 anos antes, acho difícil que portugueses fossem “generosos” com uma raça que por tanto tempo foi explorada por eles.
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Com esta linha de raciocínio na cabeça, fui pesquisar, ler, entrevistar, conversar com estudiosos, para ver o quanto de verdade existia na afirmação de que o clube da cruz de Malta fora o primeiro a admitir negros no seu elenco. E constatei que ele não foi mesmo o primeiro. Nem o segundo. Nem o terceiro. Nem o quarto. Nem mesmo o quinto!
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O primeiro clube de futebol carioca a incorporar negro na equipe foi, obviamente, um time proletário: o Bangu Atlético Clube, formado por funcionários da Fábrica de Tecidos Bangu. Isso em 1905. E entre estes, havia um negro, cujo nome era Francisco Carregal (veja o rapaz na foto publicada na revista O Malho, de 1905), o que despertava indignação nos times adversários, todos aristocratas e de famílias tradicionais.
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Em 1907, um destes times tradicionais, o Botafogo Futebol Clube, colocou para jogar um negro.
Os clubes adversários (Fluminense, Paysandu, Rio Cricket principalmente) declararam que não disputariam nenhuma partida contra alguém de cor negra. O rapaz teve a sua inscrição no clube cancelada e foi obrigado a sair do time. Curiosamente, em 1915, o Fluminense admitiu um rapaz nitidamente mulato, de nome Carlos Alberto. Este, se envergonhava de sua origem e tentava disfarçar a cor de sua pele com, acreditem, pó-de-arroz!!! A anta nem imaginou que o suor faria a maquiagem escorrer, ficando muito pior do que antes. A torcida adversária não perdoou: chamava os jogadores do Fluminense de os “pó-de-arroz”. A torcida tricolor não se importou e até aceitou o apelido. Tanto que o pó-de-arroz é símbolo do time até os dias de hoje (e garanto que muito tricolor não sabe da origem do apelido...)
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Antes do mulatinho tricolor, o time do Andaraí, também de proletários e operários, por volta de 1910, já tinha escalado afrodescendentes no seu time.
Em 1918, o América Futebol Clube entronizou um jogador negro, cujo apelido era Manteiga. Também causou um certo desgaste entre os adversários.
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Vejam bem: o futebol era um esporte aristocrático. Guardadas as devidas proporções, era como hoje é o tênis. As torcidas eram comportadas, as senhoras freqüentavam os jogos (chamavam de matches), era tudo muito cheio de fru-frus. O primeiro jogo a causar uma certa comoção foi a disputa do Campeonato Sulamericano de 1919, em que o Brasil se sagrou campeão contra o Uruguai, com um gol de Friedenreich. O jogo ficou tão famoso que Pixinguinha compôs um chorinho com o título de “1x0” em homenagem à conquista.
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Pois bem. O clube originário da colônia portuguesa já disputava regatas desde 1898. Este sim era o verdadeiro esporte das “multidões” aqui no Rio de Janeiro. Em 1915, resolveu também disputar o campeonato de futebol. As primeiras participações, com o time integrado de membros da colônia, foram ridículas. No primeiro jogo já tomaram uma goleada homérica. Os portugueses que patrocinavam o time, viam entre os seus empregados negros, nos muitos armazéns de secos e molhados, vários com habilidade bastante desenvolvida no trato com a bola. Como originariamente o clube cruzmaltino sempre foi ressentido com as gozações dos garotões da Zona Sul (sua própria fundação foi feita em cima deste rancor), queriam entrar na disputa para ganhar. Os lusos pagavam "um por fora" aos seus empregados negros para disputarem os jogos com a camisa do clube. Até os deixavam treinar, aliviando a jornada de trabalho deles. Isso por volta de 1920.
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A partir daí, criou-se a balela de que o clube da colônia portuguesa era “democrático” e admitia pessoas de todas as raças e de qualquer condição sócio-econômica. Começaram a disseminar que o clube da cruz foi o primeiro a admitir negros, o que é uma deslavada mentira. E uma grande bobagem, visto o contexto histórico da época ser totalmente diferente.
Recentemente, saiu no jornal O Globo uma matéria contando o que descrevi aqui: clubes proletários como Bangu e América e até aristocráticos como Fluminense e Botafogo já admitiram negros. Hoje, os cruzmaltinos já não dizem ser os “pioneiros”. Afirmam que foram “o primeiro clube a ser campeão com negros no plantel”, o que é bem diferente de ser o pioneiro, não é?
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Eu não estou inventando nada disso. Quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo o livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mario Filho. Lá, ele diz com todas as letras que o papel de pioneiro em relação à aceitação de futebolistas negros em seus quadros é equivocadamente atribuído ao clube da cruz de Malta (na verdade, cruz pátea ou patée...).
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E mais digo eu: Aos que dizem que o clube era “permissivo” e “democrático”, deixo uma pergunta: se um daqueles negros que trabalhavam nos armazéns e jogavam no clube se apaixonasse por uma filha de um português dirigente do time, ele permitiria que a filha se casasse com o rapaz “de cor”? Se eram tããão democráticos assim, deveriam permitir. Vocês acham que eles permitiriam?
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Escrevi isto para mostrar a vocês que não se deve engolir sem mastigar bem direitinho certas verdades que andam por aí. Não é só em termos de futebol. A História não é uma disciplina das Ciências Exatas. Ela é absolutamente dinâmica, novas descobertas acontecem todo tempo. Tudo o que se de fazer é estudar, pesquisar. É o que, modestamente, costumo fazer.
M.S.
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O Antigas Ternuras recebeu da Bruxinha, do sempre excelente blog Labirintos do Sol e da Lua, mais um prêmio, pelo qual agradeço muitíssimo pela lembrança e pela gentileza. Conforme a regra do post-corrente, indico outros cinco que merecem, até mais do que eu, este prêmio. Só cinco... Aí é que complica... Mas vamos lá:
- Luz de Luma
- Balaio Porreta
- Loving Me for Me
- Nãnaninanena
- Transmimentos de Pensações
Estes meus indicados devem agora indicar outros cinco que façam jus ao prêmio e publicar a imagem do selo.
Agradeço igualmente à amiga Samara Angel pelos selos que me ofertou. Uma delicadeza que me deixa comovido. Obrigado, do fundo do coração!
Ainda nos agradecimentos, muito, muito obrigado a Fernanda Ruiz, pela minha indicação para o “Blog Day 2007” como um de seus favoritos. Eu me sinto honrado pela escolha e muito feliz com a indicação.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o excepcional Luciano Pavarotti, cantando “Nessum Dorma”, da ópera Turandot, de Puccini. A música não tem nada a ver com este post, mas fica como uma homenagem ao grande tenor, recém-falecido, que tornou pop muitos clássicos. E deu uma interpretação magistral, emocionante a esta ária.
