sexta-feira, julho 20, 2007

Estas botas foram feitas para caminhar


Entre as seções fixas deste blog, uma das que mais gosto de fazer é a “Origem de expressões que costumamos usar mas não sabemos de onde vem”. Como já disse aqui, sempre tive a maior curiosidade em investigar isso. É uma de minhas antigas ternuras, mesmo!
Escolhi desta vez contar as origens de:

Onde Judas perdeu as botas.

O significado, para quem não sabe, é lugar longínquo, distante, láááá longe. Tem uma outra expressão com o mesmo sentido, que fala de uma certa parte remota da anotomia do Judas, onde o sol não alcança. Mas vamos falar somente de suas peças do vestuário.
Li sobre essa num dos livros do Câmara Cascudo. Mas... não sei, não... A explicação que ele deu é meio duvidosa.
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Segundo ele, depois que Judas traiu Jesus, ficou mortificado de remorsos e acabou se enforcando em uma árvore (a própria Bíblia tem dúvida: em Mateus, ele se enforcou; em Atos, ele se jogou de um precipício). Diz o nobre Cascudo que ele se matou sem as botas e que não acharam com ele os famosos 30 dinheiros (na verdade, siclos de prata). Daí, soldados romanos e alguns aventureiros partiram em busca das botas do Judas, onde ele presumivelmente teria escondido o saco com as moedas de prata. Dizem que foram longe atrás do calçado. Não se sabe se acharam ou não. De qualquer forma, a expressão passou adiante como um lugar inacessível, muito distante.
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Bem, esta explicação tem dois problemas muito complicados. O primeiro é que dificilmente Judas teria aceitado as moedas. Ele não entregou Jesus por dinheiro, mesmo porque ele não precisava. Há indicativos de que ele era rico, o mais endinheirado dos apóstolos, junto com Mateus, ex-coletor de impostos. Li em algum lugar que Judas tinha sido designado por Jesus como tesoureiro do grupo, justamente por ser o cheio da grana da rapaziada, graças à sua família de ricos comerciantes na aldeia de Queriote (seu nome vinha de ish Qeryoth, “filho da cidade de Queriote”).
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“Mas por que ele entregou Jesus?” Perguntariam vocês. Bem, Judas era ligado a um grupo subversivo que planejava atos de terrorismo contra os dominadores romanos. Ele era um judeu conhecedor do Torá e acreditava piamente que o “Messias” viria para libertar a Judéia do jugo romano. E ele sabia que esse Messias era Jesus. Só que nas Escrituras estava escrito que o enviado de Deus viria com a espada vingadora e que lideraria um baita exército contra os opressores. E Jesus ficava naquele discurso de paz e amor, parará...pereré... Ele imaginou que se provocasse Cristo, Ele se insurgiria contra os soldados de Roma e a porrada iria comer.
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Judas foi dar a informação ao Sinédrio na esperança de ver o circo pegar fogo. Como era praxe, quem desse informações aos soldados do Templo fazia jus ao prêmio de 30 moedas de prata (não era um grande valor, na verdade). Muito provavelmente, Judas nem tocou nessa grana (veja no quadro ao lado). Ele queria ver sangue. E, de qualquer forma, viu.
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A outra coisa difícil de engolir nesta história das botas era o fato de que ninguém naquela época, na Judéia, usava botas. Mesmo porque, com aquele calor boçal de lá, botas iriam assar os pés de quem as usasse, provocando um chulé monumental de fazer ressuscitar o mar Morto para vê-lo morrer de novo com a inhaca. Se os habitantes da Judéia usassem botas e sem meias ainda por cima, o primeiro milagre de Jesus não seria transformar água em vinho e sim, água em Polvilho Antisséptico Granado e vinho em Tênys Pé Baruel!
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E se Judas escondesse as moedas nas botas, o dinheiro estaria para sempre contaminado pelo chulé, não servindo mais para o comércio. Lembrem-se que judeus são conhecidos por seus enormes narizes. No que a catinga do parmezón chegasse naquelas largas fossas nasais, ia ter judeu chamando Jesus de “Genésio”. E mais: Pôncius Pilatos não iria lavar só as mãos: aproveitaria e lavaria o corpo todo para ver se conseguiria se livrar do fedor monstruoso que pairaria na Galiléia.
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Já imaginaram Jesus na cerimônia do “lava-pés”, com seus apóstolos descalçando botas? A profecia não se cumpriria! Em vez de morrer na cruz, ele faleceria envenenado pela carniça chulezenta! E que imagem teriam as igrejas hoje? O Mestre Jesus caído no chão, com a língua de fora, olhos revirados, segurando uma bota fedorenta! Olha a situação!
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Mas, se Judas não usava botas, de onde veio a expressão?
Bem... Tem uma outra hipótese que andei vendo. É tão fantasiosa quanto, mas...
Diz uma lenda que houve um judeu, de nome Ahsverus (ou Ahsuerus), habitante de Jerusalém; sapateiro por profissão. Sua oficina ficava no trajeto de Jesus, rumo ao Calvário. E quando o Divino Mestre passou diante de seu estabelecimento, Ahsverus o teria insultado e debochado de seu infortúnio. A lenda diz que Jesus o amaldiçoou (imagina...) a zanzar pelo mundo, sem morrer, até o Dia do Juízo Final.

Nasceu aí a lenda do “Judeu Errante”. E essa história correu chão. Um bispo da Armênia jurou, no Século 4, que conhecera uma testemunha da paixão de Cristo. No Século 7, viram o andarilho em Damasco. Séculos depois, o tal highlander estava na Espanha e depois na Itália. No Século 16, na Alemanha. Até no Brasil disseram que o viram em Pernambuco, durante o domínio holandês, lá no Século17. Disseram que de lá, ele foi para Minas Gerais, tendo sido visto chorando sangue numa Sexta-Feira da Paixão.
Bem, eu não queria falar nada, não, mas... Eu vi na TV um cara com as características do Judeu Errante, um sujeito amaldiçoado, na torcida do vasco, uniformizado e com um cartaz escrito "Filma eu Galvão!".
A expressão das botas se referiria a este personagem por sua profissão de sapateiro e por ser andarilho. E lembre-se que o radical “Judá”, presente em “Judas” e em “judeu” torna as coisas bem parecidas. Um judeu amaldiçoado se confunde com o chamado “grande traidor”. Isso faz sentido.
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De qualquer forma, quando você se referir a um lugar distante como “aquele onde Judas perdeu as botas”, tente mudar para “onde Judas coçou o calo”, ou “onde Judas machucou o joanete”, ou quiçá, “onde Judas arrumou uma unha encravada”.

M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Theme from Exodus”, com 101 Strings.
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Em tempo: Quem gosta de um bom texto, de belos poemas, não pode deixar de ler o livro da minha amigapratodavida Marcia (Clarinha) do Brincando com as Palavras. Aliás, este é o nome do belo livro. Se eu fosse vocês, iriam no blog dela e o comprariam rapidinho. Eu já comprei o meu exemplar. Recomendo!

segunda-feira, julho 16, 2007

Em Algum Lugar no Futuro



Rio de Janeiro, ano de 2057. Anotação de diário n. 382. Tema: Vida em 2007.

“Estava investigando sucata de antigos computadores. Vi um disco rígido jurássico que ainda estava em bom estado. Levei para um amigo que mantém uma relíquia, coisa incrível, um computador que precisa teclar as palavras e não transformar os eletro-impulsos mentais em frases como hoje em dia.
No hard disk tem uma série de textos numa pasta nomeada: “Pro blog Antigas Ternuras”. O dono do blog, que assina os textos como “M.S.”, escreveu sobre como era a vida em seu tempo e, pelo que pude entender, sobre sua infância e adolescência, que ele chama de “tempo das antigas ternuras”.São histórias do século passado, algumas engraçadas, outras nem tanto. Achei tudo muito curioso.
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“Interessante. Houve um tempo em que crianças tinham largos espaços vazios para brincar, moravam em casas com terrenos cheios de árvores e até subiam nelas, comiam frutas direto dos galhos. Hoje, só vemos árvores pela TV e nos museus, em hologramas. Claro, tem algumas reservas naturais, mas, como se sabe, não se pode entrar lá normalmente. Só cientistas e pessoas ricas têm acesso.
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“Vi que houve um tempo em que crianças brincavam com segurança na rua até à noite (!!). Os que tinham melhor condição financeira se misturavam livremente com os que tinham poucos ou quase nenhum créditos monetários. Não eram inimigos, não tinham animosidade, chegavam inclusive a serem amigos (!!!). Bem diferente de hoje, em que nós, que temos créditos para consumir bens, vivemos em separado dos que não possuem. Estes, como se sabe, vivem na zona sem lei, onde se mata gente como exterminamos formigas. Deus nos livre de um habitante da Zona de Guerra entrar nos nossos condomínios!! Eles não têm civilidade e vão destruir nossas propriedades e, pior, atentarem à nossa segurança, querendo beber a nossa água limpa e nos passarem suas doenças.
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“Nos textos do tal blog antigo fala-se de animais que não chegamos a conhecer como borboletas e pássaros. Sei como eles são por ver imagens na enciclopédia virtual holográfica. Eram bonitinhos, mas não sei exatamente para que serviam. Não entendi bem o que é “polinizar flores”, já que as que temos são cultivadas em estufas.
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“Foi interessante saber que naquele tempo as pessoas tomavam vários banhos por dia. Meu Deus! Que desperdício de água! Qualquer um sabe que hoje o nosso sistema de limpeza de germes e impurezas por jato de ar quente é muito mais funcional! Água é para se beber! Temos poucas fontes de águas totalmente limpas e é preciso ter muitos créditos para acessar a elas. Para quem não tem, só resta a água reciclada que tem gosto horrível de pó químico (eu já experimentei uma vez e detestei).
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“Mas o que me fez mesmo nadar em curiosidade foi saber que eles tinham pleno acesso a livros impressos em papel (!!). Os nossos livros digitais e os em lâminas degradáveis são muito melhores! E nem consomem árvores (na verdade, nem há muitas disponíveis para virarem celulose...) É certo que nem lemos muito hoje em dia. Também, com toda informação podendo chegar a nós até pela escova de dentes, não é preciso ficar lendo...
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“Os textos falam de automóveis. Não sabemos mais o que é isso desde o Engarrafamento Total, ocorrido há vinte anos. Tem carro preso lá até hoje. Nossos Veículos Coletivos de Trânsito Inter-condomínios são bem mais práticos. E por serem elétricos, não poluem mais ainda o nosso ar já complicado.
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“Uma coisa curiosa: naquele tempo parece que eles riam muito. Viam graça em tudo e pareciam se divertir com qualquer coisa. Que estranho... Eu não vejo tanto motivo para rir. Pelo menos, não tenho muitos hoje. Temos que estar concentrados no trabalho. Qualquer distração e não atingimos nossos objetivos funcionais. Já pensou se eu perco o meu emprego? Tem muita gente que está de olho na minha vaga. Se eu falhar, me substituem e eu fico sem uma fonte de créditos. Eu não posso nem quero me mudar para a Zona de Guerra, fora dos seguros condomínios. Acho que nem sobreviveria lá.
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“Nosso Conselho Governante precisava ver como eles faziam política naquele tempo! Não sei como o gênero humano conseguiu chegar até os dias de hoje. Eles se matavam por qualquer motivo e não por ar purificado e comida proteinada como hoje. Aliás, li nos textos que eles cozinhavam em aparelhos estranhos chamados “fogões”. O nome fogão vem de fogo, alimentado por hidrocarboneto fóssil em estado gasoso. Há muito tempo não temos mais isso. Acho que prefiro a nossa comida baseada em complexo concentrado de proteínas. Dá menos trabalho para desembrulhar e comer. Embora eu tenha visto lá a foto de um pão caseiro que me deixou com vontade de experimentar.
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“Bem, por hoje é só. Computador, fim do registro”. Clic.

(vídeo com 6min41seg)

Esta menina no vídeo é a canadense Severn Suzuki. Ela esteve no Rio de Janeiro, na ECO-92, onde fez este discurso, que mais parece um alerta sobre o futuro. Você acha que, de lá pra cá, as coisas mudaram?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras você ouve “Gymnopedie n. 1”, de Eric Satie.
Na TV Antigas Ternuras, você vê o discurso de Severn Suzuki na Eco-92, Rio de Janeiro.

quarta-feira, julho 11, 2007

Moleque Gonzaguinha


Nesta manhã o Gonzaguinha me tirou do reino de Morfeu. Quando chega 6h, o rádio-relógio é implacável e canta para me dizer que é hora de ir pro batente. E desta vez, quem cantou para eu despertar foi Luiz Gonzaga Jr., o Moleque Gonzaguinha, como ele mesmo admitiu ser chamado.
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A música era a belíssima Ponto de Interrogação (quer ouvir a música? Clique no título, mas antes clique no “X” para interromper a que está tocando no blog). Aquela cujo refrão diz:
Eu preciso é ter consciência
Do que eu represento nesse exato momento
No exato instante, na cama, na lama, na grama
Em que eu tenho uma vida inteira nas mãos.
Fala, ou melhor, pergunta ao homem se ele verdadeiramente se importa com a mulher que ele tem nas mãos, no momento sublime e prazeroso do ato de amor.
Só essa música, daria um post de três laudas. Mas não é disso que eu quero falar hoje.
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Já tem um tempinho que eu não escuto músicas na voz do Gonzaguinha. Ele morreu em 1991, num trágico acidente de carro, e se durante um tempo era muito comum ouvir suas belas canções no rádio, naquela sua voz rascante ou sendo interpretada por outro cantor, hoje em dia, nem tanto. O que é uma pena.
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Eu gostava muito de suas músicas. Gosto ainda. Lembro de ter visto um show dele memorável. Foi naquele projeto criado pelo saudoso Albino Pinheiro - o Seis e Meia, onde dois artistas se apresentavam, no João Caetano, sempre naquele horário, a preços populares. Eu assisti a toda primeira temporada da série de shows, que começou com João Bosco e Clementina de Jesus. Coisa maravilhosa!
O Gonzaguinha fez o dele junto com a célebre Marlene, aquela das batalhas de fãs da Rádio Nacional. O show foi tão bom que eu voltei no dia seguinte.
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Não o conhecia pessoalmente (pena, porque eu adoraria!), mas travei conhecimento com duas mulheres que mantiveram romance com ele. Fiz escola de Teatro com uma, a Lelena, e fui companheiro de elenco de outra, a Sandra Pêra. Ambas falavam muito bem dele. Aliás, na época em que ele morreu, eu estudava Teatro na Casa de Artes Laranjeiras, a CAL, com a Lelena. Quando ouvi no rádio que ele tinha falecido, foi nela a primeira pessoa em que pensei. Eles já não estavam mais juntos, mas segundo ela, o Gonzaguinha foi o seu grande amor. Ele inclusive lhe compôs uma canção: “Avassaladora” (essa que vocês estão ouvindo). Quando a Lelena me contou que o cara tinha feito essa música pra ela, eu até exclamei:

- Caraco, Lelena, você faz tudo isso? Parabéns, heim, minha filha!
E ela, toda modesta, disse:
- Que nada! O Gonzaga ‘viajou’! Os músicos da banda dele ficavam me sacaneando, dizendo era culpa minha, deles ficarem gravando várias sessões da música, até que o Gonzaga se desse por satisfeito...
E eu, enxerido que só eu, ficava botando pilha:
- Ah, não vem com essa, não! Se ele fez uma música com essa letra, alguma coisa tem a ver! Conta aí, vai... Na hora da saliência entre vocês, rolava isso?
A moça era muito discreta. Fechou-se em copas e não consegui arrancar nada!
Quando ela soube do acidente com o Gonzaguinha, entrou em choque e teve de ser sedada. Depois eu e colegas da turma de Teatro fomos visitá-la. A bichinha estava em pandarecos...
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Lembro de ter lido uma entrevista no Pasquim com a Rita Cadillac, em que ela foi bem mais... huuum... efusiva e reveladora que a Lelena. Disse ter sido ele um dos melhores homens que passaram pela sua cama. Segundo ela, “o Gonzaguinha sabia dirigir o Cadillac”, se é que vocês me entendem... Ah, moleque!
Um elogio assim, vindo de uma mulher que deve ter se deitado com metade da humanidade é valiosíssimo!
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A Sandra Pêra teve uma filha com o Gonzaguinha, a Amora. Hoje é cantora também. Quando estávamos fazendo a peça “Na Era do Rádio – o Show”, a Sandra conversava com a gente do elenco e falava com muito carinho do pai de sua filha. Dava para perceber o brilho nos seus olhos, como se uma estrelinha cadente desabasse do céu só para reacender brasas que nunca se apagaram...
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Quando eu era mocinho, teve uma música do Gonzaguinha que me consolou um mal de amor. Eu estava apaixonado por uma criatura que praticamente desconhecia a minha existência. E eu ficava ouvindo Espere por mim, morena, e pensando na menina. Curtindo uma fossa daquelas de beijar rabo de cachorro, com a voz do Moleque Gonzaga me consolando: “espere por mim, morena... espere que eu chego já... o amor por você, morena, faz a saudade me apressar...”
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Em Começaria tudo outra vez, Gonzaguinha, com o verso “a cuba-libre da coragem em minha mão, a dama de lilás me machucando o coração...”, traduziu melhor do que ninguém o que era o adolescente que fui, nos bailinhos na varanda da casa do Jurandir.
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E no lusco-fusco da madrugada de hoje, o Moleque cantou pra mim, me fez ganhar o dia sem que eu sequer tivesse tirado da cama o meu corpinho sensual.
Pra você, Gonzaga... cujo grito de alerta faz tanta falta nos dias de hoje...para você, eu mando um abraço apertado de irmão saudoso, de menino amoroso, de compatriota orgulhoso de ter vivido no seu tempo... Diante de tudo o que minhas retinas cansadas olham, meus tímpanos gastos ouvem, faço minhas as suas palavras:
É, a gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está com
A bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela
É, a gente quer viver pleno direito
A gente quer é ter todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão!
Viva Gonzaguinha!
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Avassaladora”, a música que o Moleque Gonzaguinha fez pra Lelena.

sexta-feira, julho 06, 2007

Com a mãe no meio


Eu acho que já escrevi aqui: no trajeto entre a minha casa e o meu local de trabalho eu passo por uns cinco colégios. E todos com a garotada espalhada pelos arredores, conversando, namorando ou simplesmente brincando, que é o que mais fazem. Dia desses, eu passava perto de um bando de estudantes, quando um deles jogou uma tampinha de refrigerante na cabeça de um outro que estava de costas e distraído. Quando esse se virou para reclamar, o cínico atirador já estava disfarçando, como se nem fosse com ele. O que não impediu o atingido de abrir o verbo:
- Veado! Féladapulta! Vai jogar na @#$%&* da mãe!
Que nem acontecia no meu tempo de moleque, no tempo das antigas ternuras! E com as mesmas palavras! Garotos... Ré! Ré! Ré!...
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Prosseguindo no meu caminho, fiquei pensando: por que, quando se quer ofender alguém do sexo masculino, se costuma chamar de veado e em seguida xingar a mãe? Por que ninguém chama alguém de “ladrão”, “corrupto”, “nazista”, que certamente são ofensas muito mais graves do que se referir à suposta preferência sexual ou postura liberal de comportamento da genitora de uma pessoa?
Fiquei matutando sobre o que motiva as pessoas a buscarem ofensas sempre neste sentido.
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Bem, como tinha tempo para pensar, fiz minhas reflexões.
Para os latinos, acusações que envolvam a sexualidade e especialmente atinjam a mãe são consideradas as mais graves. Não consigo imaginar um sueco chamando alguém de filho da puta. Nem um russo, por exemplo, acusando alguém de ser homossexual. Sei que na língua inglesa existe o “son of a bitch” (“filho de uma cadela”), mas o sentido desta ofensa é bem mais o de “bastardo”, ou seja, aquele concebido fora de uma relação legal. Xinga-se alguém disso, acusando-o de ser fruto de uma transgressão sócio-jurídica, nem tanto pelo aspecto comportamental. O sentido do xingamento deles é diferente do nosso.
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Na verdade, intrinsecamente falando, isso nem era para ser considerado como ofensa. Se alguém opta por se relacionar com alguém do mesmo sexo, é problema dele. É o mesmo para quem escolhe a profissão que vai seguir, o time por que vai torcer, os artistas que irá admirar... São coisas de foro íntimo.
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E se a mãe de alguém é professora, aeromoça, médica, engenheira ou escolhe ser garota de programa, é problema dela, de julgamento ético e pessoal de quem faz essa opção.
Mas, especialmente entre crianças e adolescentes, nada cala mais fundo do que ser acusado injustamente (porque se for justamente aí deixa de ser ofensa...) de ser veado ou de ser filho de uma prostituta.
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E por que essa ofensa vira coisa muito grave?
Bem, vamos para as minhas considerações, mas antes quero deixar bem claro que o que vou dizer é como vejo a sociedade, não é como eu penso.
O homem latino tem função bem determinada na constituição familiar. Cabe a ele ser o pai, o provedor, o dono da semente que fecunda a mulher e passa adiante seus cromossomos (mesmo que a figura do homem chefe de família esteja em processo de mutação; majoritariamente, o homem está destinado a ser isso aí que eu falei). Não pode haver dúvida sobre sua sexualidade, uma vez que isto faria com que se sentisse desvalorizado ou menos respeitado em sua comunidade por não satisfazer sexualmente a esposa, por não adotar, de forma geral, uma postura viril necessária para criar e proteger o seu núcleo familiar (como era feito desde o tempo das cavernas...), por adotar práticas condenadas pela religião, eterna guardiã da moral, bons costumes e principalmente por assumir comportamentos contrários à procriação ordenada e ordeira dos fiéis.
Transgredir essas determinações é cair em erro gravíssimo perante a sociedade.
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No caso das mães: nós, latinos, temos na figura de Nossa Senhora o modelo de virtude em que deveriam se espelhar todas as mulheres, especificamente todas as mães. Não pode haver numa genitora desvios que a afastem demasiado da postura que Maria, mãe de Deus deixou como exemplo. Comportamento sexual e virtude e retidão de caráter são coisas intrínsecas, fazem parte da atitude esperada de todas as mulheres. Se uma mãe transgride isso, ela traz para si e para a sua prole a reprovação de seus pares. De uma mãe só se espera uma sexualidade monogâmica e absolutamente comportada. O contrário disso é passível de ser “apedrejada”, mesmo se for com palavras ofensivas, que a marquem como “diferente” pela sua comunidade.
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Chamar alguém de ladrão, de corrupto em nossa sociedade, é grave, mas são duas atividades que podem ser confundidas com esperteza e ser “esperto” no Brasil é virtude, não é defeito. Portanto, se o objetivo é atingir moralmente quem se quer ofender, deve-se buscar temas que calem fundo: o comportamento sexual não-esperado de um homem e de sua genitora.
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Estas foram reflexões ligeiras de quem estava caminhando, não pesquisei a fundo sobre o assunto. E, principalmente, volto a dizer que é uma análise que eu faço de um fenômeno social, não estou criticando ou prejulgando a sexualidade alheia. Esclarecida esta parte, digo que estas reflexões que faço, para mim, fazem muito sentido.
E para vocês?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Garotos”, com Kid Abelha.

segunda-feira, julho 02, 2007

Pais e Filhos - Escolhas


Uma das funções da religião, talvez seu maior papel social, é o de contenção de excessos da parte maligna da natureza humana. Por conta disso, a religião predominante no mundo, o cristianismo, especialmente a Igreja Católica, tratou de criar a figura de um diabo muito feio e de um inferno eterno para onde seriam lançadas as almas dos pecadores. Com isso, tentavam inibir (sem muito resultado...) transgressões com a ameaça de padecimentos horríveis. Inventaram um diabo feio e mau pra caramba, que era onipotente, onipresente, onisciente, quase uma imagem em negativo do próprio Deus. Aliás, eu já escrevi aqui sobre isso. Era imprescindível que os homens temessem a Deus para não enfrentarem o Coisa Ruim.
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A civilização ocidental se desenvolveu no princípio de que o julgamento de Deus era irrecorrível e que não existe advogado nenhum no Universo que possa iludir um tão cioso juiz como o Onipotente, que tudo sabe de cada um de nós. Vejam, por exemplo, em “Hamlet”, de Shakespeare. O rei Claudius, que tinha assassinado o seu irmão e casado com Gertrudes, sua cunhada, para herdar o trono da Dinamarca, sabia que estava condenado a um destino terrível e que não tinha salvação para o seu crime. Uma de suas falas:
“Nos processos corruptos deste mundo pode a justiça ser desviada pela mão dourada do crime, e muitas vezes o prêmio compra a lei; mas não lá em cima, onde não valem manhas”.
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Ao longo da minha formação como pessoa, meus pais foram extremamente rígidos com a minha educação e a de meus irmãos. Meu pai e minha mãe nos controlavam apenas com o olhar. Era suficiente para sabermos que se continuássemos a fazer o que estávamos fazendo o pau iria comer. Se eu ou meus irmãos saíssemos da linha, tinha surra e castigos nos esperando. Meu pai era um homem de princípios rígidos. Minha mãe o é até hoje. Ambos sempre estiveram atentos à nossa educação e nos passavam exemplos de conduta que tínhamos que seguir. Embora ambos não tivessem lá grandes culturas, parecia seguir Pitágoras, que pregava que para formar o homem era preciso educar a criança. E de uma sólida formação moral e de comportamento para nós, ambos não abriram mão.
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Portanto, eu cresci sob o temor da lei de Deus e debaixo de uma sólida formação moral que meus pais me deram.
Daí o meu estado de pasmo e incredulidade quando leio os jornais dos dias atuais. O presidente do Senado, uma das figuras maiores de um dos poderes da República, se enreda feito mosca numa teia ao tentar justificar que não usou dinheiro de um lobista para pagar suas obrigações. E todas as provas levam a crer que debaixo daqueles caroços tem muito angu! Um outro senador, que já foi governador, vai prum escritório privado dividir dinheiro com um comparsa, quantia essa de origem suspeitíssima!
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E não para aí a minha estupefação. Leio que cinco jovens que nunca passaram fome, que chegaram à faculdade, que tem pais que podem lhes dar um carro de presente, saem pela noite para assaltar e espancar mulheres nas ruas. Li que há indícios que eles fazem parte de comunidades no Orkut chamadas “Mulher é tudo vagabunda” e “Puta tem que apanhar na cara”.
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O que leva uma pessoa que já é rica, que tem posses que lhe garantem uma vida mais que confortável, a procurar o dinheiro ilícito? Que motivação faz alguém arriscar a reputação por trinta dinheiros?
E mais grave: o que entusiasma jovens a se divertirem espancando seres humanos? Rirem ao causar sofrimento a alguém que não lhes fez nada?
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Vi no Fantástico o pai da moça espancada, um pedreiro modesto, com pouquíssima instrução, dizer que teve uma criação rígida dos pais e que passou essa educação firme para a filha. Esta revelou que seu pai a controlava somente com os olhos, como o meus pais faziam.
Li que o pai de um dos jovens admitiu que o filho errou, mas que seria uma “injustiça” jovens que estudam e trabalham serem punidos com cadeia só por terem feito uma, digamos, travessura. Esse pai tem instrução, bom emprego, mas não sei que educação recebeu dos pais, nem como educou o filho. Certamente não foi como os meus pais, nem como o pai pedreiro da Sirlei, a moça espancada gratuitamente.
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Meu pai era um simples funcionário público, ganhava pouco, mas era dinheiro honrado e com ele nos sustentou enquanto foi vivo. Minha mãe, outra funcionária pública, fez das tripas coração, quando ele morreu para nos dar uma vida simples, mas digna. Ambos ensinaram a nós, seus filhos que roubar, pegar o que não é nosso, é errado e condenável. O pai da Sirlei, um operário que vive de biscates, criou os filhos com a maior dignidade. A própria Sirlei trabalha como secretária doméstica e procura repassar para o filho de três anos todos os valores que aprendeu em casa.
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Não tenho idéia da criação que o senador Renan Calheiros recebeu dos pais, nem a que passa para os filhos. Tampouco tenho informações deste tipo do senador Joaquim Roriz.
Mas sei que ambos não tiveram pais como os meus, nem como os da Sirlei. E estou vendo o que estão passando para os seus filhos. Renan, Roriz, os cinco jovens e seus pais poderão até se safarem das confusões em que se meteram. Mas, se existe Deus, e eu acredito que Ele existe, vai haver um momento em que eles se defrontarão com a Sua lei. Aqui, no plano terreno, eles podem se salvar, mas não lá em cima, onde não valem manhas, lá, de jeito nenhum.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Aos nossos filhos”, de Ivan Lins e Vitor Martins.

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E os prêmios não param de chegar!
A amiguinha Fernanda me agraciou com o Prêmio Blog Cultura, destinado àqueles que são considerados como de fundo cultural. Puxa! Quanta honra! Obrigado, Fernandinha!
Agora, segundo as regras, tenho que indicar cinco outros blogs que considero como culturais. Essa é sempre a pior parte... mas vá lá, meus indicados:
Labirintos do Sol e da Lua
Luz de Luma
Morcegos
Lino Resende
Balaio Porreta 1986
Agora, vocês peguem o selo e escolham seus cinco!
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Gostaria de agradecer muitíssimo às amigas Luma, Claudinha, Lila Rose, Nena e Adelaide por me indicarem para as 7 Maravilhas. Esses posts-correntes de prêmios (sei que vocês preferem chamar de “meme”, a palavra da moda no mundo blogueiro, mas pra mim, meme é “vovó” em francês, por isso vai post-corrente, mesmo...) têm a grande propriedade de demonstrar carinho e amizade por amigos que nunca vimos, mas sentimos afinidades de pensamento.
Fico comovido com as demonstrações de afetos de vocês.
M.S.

quarta-feira, junho 27, 2007

Esse coqueiro que dá coco...


Lembram daquela canção de Caymmi que diz assim: “Coqueiro de Itapoã... Coqueeeeeeeeeeiro!...”?
Uma bela canção, uma bela imagem.
E daquela outra, mais famosa: ...“Depois sentir o arrepio do vento que a noite traz E o diz-que-diz-que macio que brota dos coqueirais”... ?
Quem não gostaria de agora estar numa praia paradisíaca, estirado numa rede entre coqueiros, só escutando cabelo crescer?
Ah, coqueiros...Típica imagem do Brasil, não é?
Pois é. Não é. Ou melhor, não era.
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E lá vamos nós para mais um post da séria série: “A História tem cada história...”
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Por incrível que possa parecer, o coqueiro não é vegetação nativa do Brasil. Foi trazido para cá, do Sudeste Asiático, pelos colonizadores portugueses. Os gajos eram dados a fazerem este tipo de experiência. Como eram grandes comerciantes e foram os primeiros ocidentais a estarem nos cinco continentes, levavam daqui pra ali, dali pra aqui plantas que introduziam em outros ecossistemas. Atualmente, seria uma atitude politicamente incorreta, mas naquela época os lusos estavam pagando e andando para isso.
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Outra do nosso cancioneiro:
“Mangueira, teu cenário é uma beleza... Que a natureeeeeza crioooooou...”
Sim, foi a natureza. Mas a natureza do Sudeste Asiático. A manga foi mais um vegetal trazido de lá pelos portugueses para o Brasil. Assim como as batatas, inglesa e doce, o inhame, a pimenta-do-reino, o chuchu...e até a banana!!!
Duro de acreditar, não é?
Mas assim foi.
A batata-inglesa é originária do Peru, foi levada de lá para a Espanha, de onde os portugueses a introduziram no Brasil. A batata-doce veio também dos Andes (embora há fontes que garantem ter vindo do Oriente). O inhame nos chegou da Ásia. A pimenta-do-reino é mais uma planta transplantada do continente asiático. O chuchu, da América Central. E por aí vai...
Ah, sim. Yes! Nós temos banana! Mas ela veio do Sudeste Asiático.
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Aposto que vocês estão se perguntando: “Mas, com mil quiabos... O que é natural do Brasil?”
Pois é. O quiabo, não. É africano. Mas a mandioca é brasileira! Assim como o pau-barbado e o picão-preto (você está com lombriga? Entra no picão-preto que limpa tudo. Veja acima a flor do picão, que está neste site, pra vocês não acharem que eu estou de sacanagem...).
E além desses vegetais de duplo-sentido, também são do Brasil a pimenta malagueta, o caju, o guaraná, o amendoim, o cacau (também cultivado na América Central), a seringueira...
Bem sei, vocês dirão: “oh, a seringueira!”... Mas não desdenhem da seringueira, não! Essa história dos caras que entram na floresta para tirar leite do pau já deu muito dinheiro pro Brasil E os ingleses pegaram mudas daqui e levaram para o Sudeste Asiático (talvez como forra pelo tanto que aquela região deu ao Brasil) e agora lá tem mais do que aqui.
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Bem, essa foi minha modesta contribuição para vocês terem a confirmação da frase de Caminha: “Aqui, se plantando, tudo dá!” E deu mesmo.
Mas, quando vocês estiverem comendo um prato típico brasileiro, como arroz, feijão, bife, ovo frito e salada de alface e tomate, saibam que nada disso é verdadeiramente nativo do Brasil. E se pedirem um cafezinho com muito açúcar, estarão completando o cardápio de produtos estrangeiros da sua dieta.
Bom apetite!
M.S.

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A amiga Adelaide Amorim do blog Umbigo do Sonho (entre outros), teve a extrema gentileza de indicar o Antigas Ternuras como uma das “7 Maravilhas do Mundo Blogueiro”. Olha... Né pouca coisa, não heim! Pelas regras do jogo, tenho que indicar outros sete blogs que eu ache que mereçam esta denominação. E é aí que o bicho pega... Só sete? Mas vários blogs que eu costumo visitar são maravilhosos!
Bom... regra é regra, vamos fazer o possível para cumpri-la. Mas, olha, gente... Quem não estiver entre estes sete não fica triste, porque todos os blogs de minha lista são verdadeiros Coliseus, Pirâmides, Taj Mahals, Grandes Muralhas, Cristos Redentores de tão maravilhosos. Lá vão meus sete:
Abrindo Janelas
Apoio Fraterno
Caminhos dos Contos
Lino Resende
Nãnaninanena
Ramsés do Século XXI
Transmimentos de Pensações

As regras são as seguintes:
1. Podem participar na votação todos os blogueiros que mantenham blogs ativos há mais de um mês.
2. Cada blogueiro deverá referenciar sete nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogueiro só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor lhe aprouver], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: 7.maravilhas.blogoesfera@gmail.com. No e-mail, além das escolhas, os votantes deverão indicar o link para o post onde efetuaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 01/07/2007.
4. Para evitar constrangimentos os organizadores avisam que serão considerados votos nulos:
- O voto do blogueiro em si próprio ou em blogs em que participe;
- Os votos no blog O Sentido das Coisas. No dia 7.7.2007 serão anunciados os vencedores e disponibilizadas todas as votações.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Aquarela do Brasil”, cantada pela sempre ótima Gal Costa.

sexta-feira, junho 22, 2007

Pula a fogueira, iaiá...


Existe coisa mais gostosa do que festa junina? Dos comes e bebes até a quadrilha, tudo é muito prazeroso. Quando menino, minha mãe vestia os três caipirinhas dela a caráter e lá íamos pro arraial. Lembro do meu irmão, com quatro anos, falando bem alto: "Mãe, olha a fudeira!"...
Tenho várias antigas ternuras ligadas às festas juninas. Uma, por exemplo, não vejo mais hoje em dia.
As barraquinhas de fogos.
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Até imagino que a geração depois da minha nem saiba o que seja isso. Talvez nas cidades do interior a tradição se preserve, mas tenho lá minhas dúvidas...
Para quem não sabe do que eu estou falando, explico:
Quando eu era moleque, no tempo em que Adão era escoteiro, ia chegando o mês de junho e tinha gente aprontando a sua barraquinha para vender fogos de artifício. Para construir a sua, era só pegar um caixote largo ou mesmo algumas tábuas. Forrar com papel fino, pendurar uma lanterninha na frente... pronto! Até sei que não vou encontrar imagem disso na internet, por isso, desenhei uma para vocês terem uma idéia do que era uma barraquinha de fogos. Essa aí a direita.

*
Pois é.
Ia chegando o fim da tarde, os "comerciantes" tomavam banho, botavam a barraquinha apoiada em uma cadeira na porta de casa e esperavam pela freguesia que ia comprar bombinha, estalinho, estrelinha, busca-pé, roda de fogo, cabeça-de-negro, cobrinha e os fantásticos barbantinhos-cheirosos. Esses merecem ser detalhados:
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Eram pedacinhos de barbante com um centímetro mais ou menos, preparados e embalados em papel roxo. Bastava acender um que tudo em volta ficava com cheiro de pum e enxofre como se o próprio belzebu-capeta tivesse uma diarréia no ambiente. Quando a gente soltava um deles em sala de aula, se a professora ou professor descobrisse, dava três dias de suspensão pro engraçadinho. (vou confessar: uma vez acendi um na aula de matemática... ri, ri, ri... Não fui descoberto, e era um dos mais indignados, falando bem alto: "pô! Quem foi o porco que soltou isso! Assim não é possível! Que coisa horrível!"... ri,ri,ri...)
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Eu sempre tive vontade de ter a minha própria barraquinha. Mas a minha mãe me conhecia muito bem e sabia que aquele desejo era "fogo de palha"... Que logo eu me cansaria de ficar até sei lá que horas, sentado na frente de casa esperando aparecer fregueses para a minha birosca. E era a pura verdade... Meus amigos brincando de pique, garrafão, pular-carniça e o escambau, imagina se eu iria ter saco de ficar preso, ali, vendendo estalinho e bombinha...
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E por falar em bombinha, nos idos de junho, ela era uma verdadeira praga. Todo mundo comprava uma caixa ou mesmo algumas no varejo, e saía soltando por aí, atazanando Deus e o mundo. Quem viu o filme "Amarcord" sabe do que eu estou falando.
Lembro que uma vez, na saída do colégio, eu e meus comparsas tínhamos comprado um monte de bombinhas e ficávamos acendendo e jogando uns nos outros. Uma vez, o meu amiguirmão Luiz (que lê assiduamente este blog...) acendeu uma e jogou dentro do fichário do Mira...

Em vez do cara abrir logo o fichário e tirar a bombinha... não, ficou segurando o fichário e sacudindo ele de leve... aí: PÓU!... Parecia cena de desenho animado. O mané com o fichário todo estourado na mão, a cara de bunda... E a gente rolando e se mijando de rir. Pois na primeira oportunidade, o Mira foi à forra: acendeu uma bombinha e botou dentro do bolso de trás da calça do Luiz. Este, se não a retirasse rápido, teria ficado sem uma banda da bunda...
- Pô, Mira... sacanagem! Chegou a queimar a cueca!... – queixou-se o Luiz. E nós lá, rindo de doer a barriga. Aliás, a gente vivia rindo mesmo... Sacanear uns aos outros era a nossa especialidade.
*
Naquele tempo, a minha rua ficava cheia de vendedores de fogos, com suas barraquinhas forradas de papel colorido. À noite, acendiam a vela dentro da lanterna multicor, pendurada na frente da barraquinha e chegávamos a ver de longe um caminho de luzes em cor, quebrando o negrume noturno.
*

Hoje não tem mais barraquinha com lanterna colorida. Mas nestes dias de junho, olho para o alto, nas noites estreladas, e é como se os antigos vendedores estivessem no céu da minha memória. E quando um fugidio balão vai subindo, tremeluzindo no escurão, vem caindo a garoa, faço de conta que ele é uma estrela cadente. Secretamente penso num pedido. E se o frio da noite vem cutucar meus ossos, canto baixinho:
"São João... São João... acende a fogueira no meu coração..."
M.S.
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A partir deste sábado, 23, tem mais um texto do PteroMarco (o escrevedor que vos tecla) no Playground dos Dinossauros. Quem me der a honra de lê-lo, vai descobrir o que aconteceu no dia em que eu dediquei uma música, num parquinho de diversões, a uma moça por quem meu coração batia mais forte...
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve uma seleção de músicas de festas juninas. Anarriê, pessoá! Olha a cobra!

segunda-feira, junho 18, 2007

O milagre do pão


Não sei vocês, mas eu gosto de pilotar o fogão de vez em quando. Faço coisas sem receita, mas se tiver alguma me guiando, fica melhor e mais fácil. Noutro dia, vi numa revista a receita de um pão com azeitona, ervas finas e tomate seco e fiquei salivando que nem um cão hidrófobo. Comprei os ingredientes e, literalmente, meti a mão na massa.
*
Meu querido pai, que desde meus sete anos ficou encantado e foi morar nas mansões celestiais, era um cozinheiro de mão cheia. Lembro dele fazendo uma fornada de suspiros, para celebrarmos uma vitória da Seleção Brasileira e só de pensar nisso, sinto aquela iguaria apetitosa derretendo na minha boca. Quando ele fazia feijoada para nossos parentes, nossa!, era de comer rezando e, depois de encher o bucho, tinha gente chamando Jesus de “Genésio”. Mas pedindo repeteco.
Não posso dizer que herdei seus dotes culinários. Entretanto, por ser solteiro e morar sozinho há 20 anos, tive que aprender a me virar numa cozinha.
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E desta vez, escolhi aquele pão, cuja foto me atraía feito o canto de uma sereia do Mar Egeu...
Comprei os ingredientes com todo esmero, juntei tudo ao meu redor e comecei os trabalhos. Dá um certo nervoso olhar pra mão da gente toda melada naquela massa. Porém, gradativamente, com a ajuda de mais farinha, ela vai soltando e fica aquela bola maleável, que aceita o nosso toque e se abre toda generosa. E eu lá, sovando a massa, tornando-a uniforme, fazendo desaparecer a individualidade de cada ingrediente. Agora, ela era um todo. Um coletivo.
*

Separei as bolinhas e guardei uma boa porção para um pão maior. Coloquei nas formas, levei ao forno. Esperei.
Em não muito tempo, o aroma da massa cozida preencheu toda a cozinha e até a sala. Fui ver como estava a minha criação.
UAU!
Ficou lindo!
Rapidamente, retirei a primeira fornada e coloquei a forma com a bola maior. E fiquei lambendo a cria... Que coisa maravilhosa é fazer pão! Abençoado o lavrador que plantou e colheu as douradas espigas de trigo! Ao “recolher cada bago do trigo”, ele nem imaginaria que aquele gesto impessoal dele geraria um produto absolutamente pessoal: o meu pão!
*

Lembrei de uma coisa que li há tempos. Depois que o filho Sean nasceu, Yoko Ono virou para o John Lennon e disse: “a minha parte eu fiz. Agora, você vai cuidar dele, enquanto vou trabalhar”. John achou ótima a idéia. Pendurou a guitarra e ficou em casa cuidando do bebê. Um dia, ele cismou de fazer pão. Ficou tão maravilhado com o que fez, que tirou foto, telefonou para God e o mundo, só para avisar que tinha feito um pão. O autor de diamantes como “Imagine”, “Help”, “A day in the life”, “Norwegian Wood” se deixava maravilhar com um modesto pão.
*
Eu sei exatamente a sensação que ele teve.
Mas, já era hora de deixar aquela admiração visual e passar para a fase seguinte: provar. Afinal de contas, ele podia ser muito bonito, mas ter gosto horrível, o que seria uma lástima. Parti uma daquelas bolinhas douradas. A massa interna, de tom levemente rosado, se deixou abrir, fumegante. Provei.
Huuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!!!!!!!!!
Meu Deus! Como era bom!!!!!!!!!!!
*

Continuei comendo, achando que iria ficar estufado de tanto pão. Nada! É levíssimo! Tomando um cálice de vinho, então, você nem sente!
Levei um pouco para a minha mãe. Afinal de contas, a opinião de outra pessoa seria importantíssima! Deixei com ela e voltei para casa. Ao chegar no meu modesto chatô, a luzinha da secretária eletrônica tremeluzindo. Era ela. Dizendo que tinha comido o pão mais gostoso da vida dela, que pretendia comer só um pedacinho, mas não resistiu e emburacou por dentro do pão. Iria guardar um pouco para o meu irmão.
Fiquei muito feliz.
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E aí? Querem experimentar esse manjar do Olimpo? Aí vai a receita.
Eu não sou a minha amiga Fugu, do Fruit de la passion, que arrebenta nas comidinhas, mas o Antigas Ternuras abre aqui a sua seção culinária.
Bom apetite!

Pão Rústico com Azeitonas, Tomate Seco e Ervas Finas
Ingredientes
2 tabletes de fermento biológico (30g)
1 xícara de chá de azeitonas picadas
1 xícara de leite morno
5 xícaras de farinha de trigo
1/3 de xícara de azeite extra-virgem
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de ervas finas (eu usei manjerona, manjericão e orégano)
1 colher de sopa de alecrim fresco
1 xícara de chá de polpa de tomate
1/2 xícara de tomate seco picado

Modo de Preparo
Dissolver o fermento no leite morno e misturar uma xícara de farinha de trigo. Deixe descansar por 30 minutos, cobrindo com um pano. Colocar o azeite, o sal, as ervas finas, o alecrim, a polpa de tomate, o tomate seco e as azeitonas nesta mistura e misturar bem. Acrescentar aos poucos o restante da farinha de trigo e sovar. Além das 5 xícaras, vai precisar de mais farinha para ir jogando na massa, para ela soltar das mãos e da pedra da pia. Quando a massa estiver sem grudar, separar porções em forma de pequenas bolas (ou, se preferir como eu, separar uma porção maior para fazer um pão tipo italiano) e já colocar em assadeiras untadas e enfarinhadas. Polvilhe um pouco de farinha sobre os pães. Cobrir com um pano molhado e deixar repousar, até que dobre de volume. Assar em forno pré-aquecido a 200 graus, por cerca de 30 minutos (mas vai acompanhando com o nariz e com os olhos).
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Para comer, abra um vinho especial e acompanhe ou não com queijos e pastas de sua preferência.
Nham! Nham! Nham!
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Cio da Terra”, com o Quarteto em Cy e MPB-4.
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E os prêmios continuam chegando!
Que barato quando nossos amigos lembram de nós! Bem, o grande Lino, depois de me indicar como um blog que faz pensar, percebeu que esta modesta página também tenta fazer rir. E daí, me indicou com o selo: “Este Blog faz rir”. Valeu, Lino! Muito obrigado!
E meu outro grande amigo, o DO, me indicou para o “Blog com Tomates”, prêmio que surgiu em Portugal, cruzou o Atlântico e já está em terra brasilis. Logo em seguida, a Claudinha me indicou também. Obrigadaço, amigos!
Seguindo a corrente, tenho que indicar cinco blogs para receberem estes prêmios e os passarem adiante. Esta é a parte mais difícil... Especialmente por que procurei escolher os que ainda não tinham recebido estes prêmios. Mas vamulá:

Blogs que fazem rir:
Marconi Leal
Playground dos dinossauros
Eu não sei trigonometria, da Yumi
Transmimentos de Pensações, da Claudinha
Quase História de Amor, da Lili

Blogs dos Tomates:
Nãnaninanena, da Nena
Brincando com palavras, da Marcia
Labirinto do Sol e da Lua, da Claudia
Taís Morais
Loving me for me, da Fernanda
Agora, é com vocês, amigos! Colem os selos nos seus blogs e passem adiante!

segunda-feira, junho 11, 2007

O que a canção nos traz


Quando preciso acordar cedo, uso o rádio digital para me despertar. Os antigos despertadores, quando tocavam aquele “triiiiiiimmmmm” neurotizante, me faziam pular e grudar no teto, que nem gato de desenho animado. Quando inventaram um rádio que podemos programar para tocar quando a gente quiser, ah... achei a oitava maravilha do mundo! Aquela história de levar sustos logo pela manhã tinha chegado ao fim. Hoje, sintonizo o aparelhinho na Rádio MEC e costumo acordar ao som de um quarteto de cordas tocando Mozart, que tal? Ou então, para variar, coloco na Rádio MPB, que só toca a boa música brasileira (sertanojo, pagode e hip hop nem pensar!), e, com sorte, desperto ao som de um Djavan, um Tom Jobim, uma Zizi Possi (ah! A Zizi cantando!...).
*
Hoje, eu acordei ao som de Selma Reis, espargindo pelo ar a canção “O que é o amor”, de Danilo Caymmi. Que beleza de música e de voz! Comecei muito bem o dia. É claro, fiquei com ela na cabeça e a estou cantando direto.

Percebo sua letra memorável. “O que é o amor... Onde vai dar... Parece não ter fim...”
Não tenho resposta para estas perguntas. Não sei definir o amor, mas sei todos os seus sintomas. Tenho convivido com ele desde tanto tempo... O que ele é? Para onde nos leva? Saber, quem haveria de?
Uma sensação agradável? Nem tanto? Seria, no dizer de Camões: “É um fogo que arde sem se ver, É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer”?
*
Penso no meu amor. Como nos conhecemos. Na festa e na alegria que é cada reencontro. O meu amor mora em mim, mas não mora perto de mim. Não vivemos na mesma cidade, sequer no mesmo estado. O que não me impede de amá-la e ser amado com intensidade e força que, se fosse transformada em energia, daria para iluminar um município inteiro. Às vezes, nossa relação tem nuvens pesadas; às vezes, como agora, brilha sobre nós um céu de brigadeiro.
*

Ouço a canção, penso em quem amo e reflito sobre este sentimento louco de que nenhum ser humano é isento. No amor cabem todas as palavras do dicionário, todas as conjugações de verbos. Mas cabem também silêncios, cumplicidades sem que nenhuma letra sequer seja pronunciada. Ter quem amamos nos braços é sensação que não se consegue descrever no limitado reino das palavras ditas ou escritas. Da mesma forma, sofrer por amor, não cabe em poemas, por mais lindos, por mais profundos que sejam. Nenhum mal de amor está contido inteiramente nas palavras. É como tentar colocar a Via Láctea num copo de geléia. E mesmo assim, tentamos expressar nosso amor, ou falta dele, alinhando letras, uma depois da outra, como pedras de dominó.
*

Pois que sentimento é esse que nos faz acreditar em algo de mágico acontecendo quando temos o nosso ser amado num terno abraço? E ao nos separarmos, sentimos que deixamos nele o nosso coração, trazendo em nosso peito o dele... E que uma canção ouvida num despertar matinal põe nossos olhos naquele espaço vago da cama, desejando que ele não estivesse vazio naquele instante...
M.S.
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Feliz Dia dos Namorados, amorzinho.
Feliz Dia dos Namorados para todos.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “O que é o amor”, cantada magistralmente por Selma Reis.

terça-feira, junho 05, 2007

$onhar é o bicho!


Dia desses, sonhei com um porquinho da Índia que falava comigo. (Não reparem, mas os meus sonhos costumam ser muito doidos, mesmo...). Ah, se fosse em meus tempos de moleque, já ia eu direto pro bicheiro jogar uns caraminguás no coelho – afinal de contas, também é mamífero roedor e bastante parecido com o famoso preá, ou porquinho da Índia...
No bairro onde me criei e mesmo em Piedade, onde também morei por uns tempos, jogar no bicho era atividade cotidiana, embora meus pais nunca jogassem, muito menos meus tios carolas. Mas eu vivia solto nas ruas e me dava muito com gente que fazia regularmente a sua fezinha. Eles me ensinaram os meandros do jogo do bicho e lembro que eu costumava deixar adultos espantados com o meu conhecimento sobre o assunto.
Aliás, até hoje em dia, gente que me vê como um intelectual (Rá! Tolinhos...) se admira de eu saber cercar um milhar pelos sete lados, por exemplo...
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Não sei se vocês sabem, mas o jogo do bicho é invenção estritamente brasileira, e carioca, mais precisamente. Começou como uma idéia do Barão de Drummond para poder manter o Jardim Zoológico que ele tinha criado e que lhe dava muita despesa. Querem saber como foi? Péraí. Vou apertar o rewind da fita e voltar até os idos de 1873. Fica este post como mais um da séria série "A História tem cada história..."
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João Baptista Vianna Drummond (1825-1897), a partir de 1888, Barão de Drummond, foi um grande empreendedor. Tinha um enorme tino comercial. Por volta de 1873, ele comprou da Princesa Isabel, com a intermediação do pai da moça, um certo Pedro II, de quem Drummond era amigo, uma enorme porção de terra, chamada Fazenda dos Macacos. Pagou 120 contos de réis, uma soma respeitável, que ele pretendia ver de volta e com dividendos. João Baptista se associou à Companhia Arquitetônica e juntos, pretendiam transformar aquelas terras no primeiro bairro residencial planejado do Rio de Janeiro. Para começar, ele foi pedir a concessão de uma linha de bonde puxado por animais (cavalos, burros, mulas...).

O núcleo central da cidade ficava distante dali e sem meio de transporte, nem com ordem do Papa alguém se dignaria a ir para aquelas lonjuras. Pois bem. Linha de bonde instalada, traçaram o plano urbano do bairro, todo feito em ruas paralelas, cortando um boulevard (avenida larga e arborizada) que se chamaria 28 de setembro, data em que foi assinada a primeira Lei Aúrea, que depois ficaria conhecida como Lei do Ventre Livre (a de 13 de maio de 1888 é a segunda Lei Áurea, embora tenha ficado definitivamente conhecida assim). Drummond era um abolicionista convicto. O bairro se chamaria "Vila Isabel" (a de Noel e de Martinho da Vila), para dar aquela puxada de saco básica na Princesa, de quem tinha comprado as terras.
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Até aí, tudo bem. Só que os vendedores montaram suas barraquinhas e nada dos compradores aparecerem. Drummond viu que precisava de alguma coisa muito interessante para atrair as pessoas. Teve a idéia do Jardim Zoológico. Comprou um punhado de animais e os dispôs em jaulas para serem observados. Pronto! Foi na mosca! O povaréu começou a chegar. Vinham para ver os bichos e acabavam se interessando por um lote naquele empreendimento.
Um sucesso! Mas, como eu escrevi lá em cima, manter o zôo custava caro. O leão comia como um leão. O jacaré passava o dia de boca aberta só esperando o rango. O camelo nem fazia questão de beber, mas estava seco por comer. Alimentar a tropa estava fazendo o caro Drummond gastar uma nota branca (não digo "preta", pois, como eu disse, o cara era abolicionista...).
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Primeiro, ele pensou em meter a faca no Imperador. Metaforicamente, é claro... E durante um bom tempo, o Pedrão patrocinou a alimentação da bicharada. Aí veio a República e o muquirana do Deodoro falou que não daria um centavo para amigo da monarquia. Foi quando Drummond teve uma brilhante idéia! Criou uma loteria onde cada número representava um bicho e cada ingresso daria direito a um bilhete numerado para o participante concorrer no sorteio que era feito no fim do expediente, onde era apontado o "bicho do dia". O prêmio era ingressos grátis para o Zôo.

O negócio fez tanto sucesso, o carioca sempre foi tão chegado a uma jogatina, que a proposta do jogo do barão foi desvirtuada. Já corria dinheiro nas apostas do bicho. Posteriormente, o jogo do bicho foi proibido, embora alguns governantes (especialmente alguns chefes de polícia) o tolerassem.
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Mesmo proibido, o jogo fez um baita sucesso, ganhou as ruas do Rio e de outros estados. Apareceram pessoas que bancavam as apostas, correndo os riscos (que nem eram tantos assim...). O sistema foi organizado, com prêmios estipulados (que permanecem até hoje...), desta forma: quem acertasse no milhar, receberia quatro mil vezes o dinheiro apostado, ou seja: para cada real apostado em um milhar, em caso de acerto o vencedor levaria quatro mil réis. No caso da centena, 200 réis, da dezena, 70, e assim por diante.
*
O brasileiro, esse povo tão criativo, quando o assunto é sacanagem ou possibilidade de ganhar algum, criou um sistema de palpites pelos sonhos. Sonhar com rei, joga-se no leão; com muitas crianças, bota-se fé no coelho; com a sogra, vai-se com tudo na cobra; com algum tipo de saliência, o macaco será o preferido... E vai por aí afora.
O grupo 24 – o do veado - virou sinônimo do rapaz homossexual, mas essa forma pejorativa de se referir a quem pratica o sexo "que não ousa dizer o nome", como se falava antigamente, não veio daí. Um dia eu conto essa história...
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E nesta terra onde o jogo é proibido – embora o governo seja o maior banqueiro da parada – sonhar com um bicho pode ser o passaporte para a fortuna fácil. Não deixa de ser uma ironia: sonhar para realizar os sonhos... E sonhar, como vocês sabem, não custa nada...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o grande Altamiro Carrilho em "Eu sonhei que tu estavas tão linda"...Maravilha, né não?