terça-feira, fevereiro 13, 2007

Hey, Hey We're The Monkees!


Here we come,
walkin' down the street…
*
Dia: 12 de setembro de 1966
Canal: NBC (USA)
Milhões de pessoas ligaram seus aparelhos de TV e ficaram...como dizer... surpresas? divertidas?... com aquele programa absolutamente enlouquecido que passava diante de seus olhos. Quatro jovens - que talvez lembrassem outros quatro jovens de Liverpool que tinham assumido o controle do mundo como os 4 Cavaleiros do Após-Calipso - faziam diabruras, cantavam, dançavam, tudo numa linguagem moderna. Nem tanto original no sentido lato do termo. A série “Batman”, na ABC, já apresentava aquela festa de cores, enquadramentos inclinados e mais onomatopéias de gibi, algo extremamente novo para a TV de então. Mas o novo programa musical tinha um quê de novidade.
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We get the funniest looks from
Ev'ry one we meet.
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O que era exatamente aquilo? Era uma banda? Um grupo de debilóides?
*
Hey, hey, we're the Monkees
And people say we monkey around.
But we're too busy singing
To put anybody down.
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Vídeo com 49 seg. Para a música de fundo não atrapalhar, cliquem no “X” da barra de ferramentas lá no alto.


Sabem como aquilo começou? Em 1960, Bob Rafelson teve a idéia de criar uma banda para a TV. Mas não levou adiante. Logo, o mundo conheceu uma explosão chamada The Beatles. Cinco anos mais tarde, Rafelson juntou-se a Bert Schneider e desenvolveram o projeto de um programa com um conjunto à la Beatles, com a loucura dos Beatles. Muitos dizem que eles queriam dar uma resposta à Inglaterra com um conjunto americano para empolgar que nem os ingleses faziam nos próprios EUA. Tolice. Os Beatles já tinham uma resposta norte-americana e ela se chamava Beach Boys, onde Brian Wilson tentava e às vezes conseguia emparelhar com a dupla Lennon&McCartney.
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Os produtores não queriam uma banda de verdade. Queriam gente nova. Botaram um anúncio no jornal especializado Variety, dizendo assim: "Loucura!! Músicos, cantores para atuarem em uma nova série de TV". Apareceram 437 candidatos.
Os produtores já tinham definido o perfil dos quatro que queriam: um cantor no gênero country, um jovem inglês (por influência de Ward Sylvester, que era um dos Produtores Associados e, também, empresário de Davy Jones), um cara engraçado e o quarto, um adolescente tímido e desajeitado. Feitas as audições, escolheram, respectivamente, estes loucos, quer dizer, atores: Mike Nesmith, Davy Jones, Micky Dolenz e Pete Tork.
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Embora os produtores tivessem pedido “músicos”, nem todos os quatro selecionados sabiam tocar um instrumento e saber bem mesmo, só o Nesmith. Tinha o Tork, que era o “homem de mil instrumentos”, mas não chegava a ser um virtuose. Dolenz foi pra bateria e nem tinha idéia de como deveria tocá-la.
Na verdade, os produtores queriam bons atores comediantes, que soubessem cantar. Na hora de gravar, poriam músicos de estúdio para tocar.
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E The Monkees explodiu nas TV do mundo todo!
Vocês pensaram que os Beatles ficaram chateados com aquela tentativa de imitação do clima do filme “A Hard Day’s Night”? Rá! Eles a-do-ra-vam a série! Lennon, então, mais que todos. Ele foi o primeiro a ver naquele humor louco algo de Irmãos Marx, de Três Patetas... Eles quase eram precursores do Monty Python!
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Embora tivessem textos escritos para cada episódio, os caras eram encorajados a improvisar em cena e o faziam muito bem! Eu, particularmente, adorava a série. Ria muito com aquelas loucuras. Lembro de um episódio em que Davy estava a fim de dar uma festa para conquistar uma filha de um militar, só que os rapazes precisam de alguém mais velho para ficar de responsável pela festança. Daí, fantasiaram Micky de mulher. (Chego a imaginar que a peça “A Gaiola das Loucas” foi inspirada neste episódio...).
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Depois de 58 episódios, The Monkees chegaram ao fim. Os produtores estavam receosos de deixarem eles tocarem nos discos, os caras não estavam mais agüentando aquela vida. Além disso, depois de duas temporadas, a novidade já não era tão nova assim... Seus discos, de primeiro lugar nas paradas, caíram para 48o. Eles não faziam turnês porque não os deixavam tocar (no auge do sucesso eles ainda não estariam prontos, mesmo. Dolentz levou um ano aprendendo a tocar bateria...), daí, os maliciosos de plantão começaram a espalhar que eles eram uma farsa... Uma espécie de “Milli Vanilli” avant la lettre... (o que era um exagero, diga-se de passagem)
Sem contar que eles desejavam fazer outras coisas. Micky Dolentz era o mais inquieto. Inclusive, ele chegou a dirigir o último episódio da série, com os quatro atuando.
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O primeiro a sair foi Pete. Aí, Nesmith foi em seguida. Davy e Dolentz ainda tentaram fazer alguma coisa, mas não deu. O mais curioso é que tempos depois até tentaram se reunir. No aniversário de 20 anos da estréia da série, eles se reuniram, tocaram e gravaram. No de 30 anos também. E eventualmente, eles ainda aparecem juntos em algum programa.
Pete Tork esteve no Brasil, em 2002, cantou e tocou em São Paulo. Micky Dolentz virou ator de Teatro e também diretor e produtor de TV. Davy Jones e Mike Nesmith estão por aí. Nesmith grava discos e faz shows-solo, assim como Davy.
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Numa recente entrevista, Dolenz revelou que os Monkees são como uma espécie de família, mesmo que eventualmente tenham discussões, ainda se amam o suficiente para se manter unidos.
Vocês poderiam perguntar: eles ainda vão se juntar outras vezes?
Bem, como diz no final da música-tema deles...
Hey, hey, we're the Monkees, (ei, ei, somos os Monkees)
You never know where we'll be found (voces nunca sabem onde nós seremos encontrados).
so you'd better get ready, (então é melhor ficarem atentos)
We may be comin' to your town. (Nós poderemos voltar para a sua cidade)
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Last train to Clarksville”, grande sucesso dos Monkees, que gerou uma versão aqui, nos tempos da Jovem Guarda.
Na TV Antigas Ternuras, você vê a louca abertura do programa.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Teatro da fé


A situação é a seguinte:
Uma pessoa está em local de culto. Cada cidade tem o seu padroeiro, aquele que do céu a protege. Logo na entrada, a pessoa se persigna, faz sinais que significam pedido de proteção. Vai até o altar, se ajoelha, olha para a imagem e faz sua oração. Às vezes, faz um pedido especial, embutindo uma promessa, caso consiga alcançar a graça que pediu. Sai do templo, faz mais persignações e ganha a rua, acreditando que vai ser atendida.
Pergunto: de que religião estou falando neste pequeno texto?
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Aposto que você respondeu: “cristã católica, ora essa!”
Sim, pode ser. Mas também pode ser a religião pagã que era professada na Antiga Grécia e na Antiga Roma. As coisas aconteciam exatamente assim.
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Cada cidade era dedicada a um deus. Como as cidades cristãs de hoje são aos santos. Todas tinham um templo devotado a ele numa área central e importante. Exatamente como as igrejas atuais. No templo, tinha um altar com uma imagem do deus. Igualzinho aos santos das igrejas. Os fiéis faziam sinais antes de entrar e diante do deus. Bem parecido com o “sinal da cruz” de hoje em dia. Gregos e romanos faziam pedidos. Os católicos também. Ambos faziam ou fazem promessas do tipo “toma lá, dá cá”. Ambos fazem invocações à sua divindade favorita em exclamações de alegria, de espanto ou de temor.
Como se vê, a religião pagã e o catolicismo têm muito em comum.
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Mas por que essa semelhança? Bem, quando o cristianismo se tornou religião oficial do Estado, havia toda uma classe social que vivia de venda de imagens, sacrifícios e promessas. Além disso, o povo era acostumado a fazer seus cultos daquela maneira. Qualquer mudança muito drástica causaria conflitos sociais. Daí, tivemos estas aproximações. Claro, não foi tudo da noite pro dia. Foi devagar, lento. Para ser bem assimilado.
O culto aos santos começou em 370 d.C.. A oração pelos mortos em 400. A idéia de um Purgatório, em 500. O culto da Virgem Maria e a invocação dos santos, em 609. Culto às relíquias em 787. A canonização dos santos em 880. E por aí foi...
Com a conversão cada vez maior de pessoas à nova religião, cada vez mais fiéis passaram a ter seu oratório em casa, com a figura de um santo protetor. Exatamente como seus pais e avós tinham um altarzinho doméstico com a figura de Zeus, Apolo, Atena...
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Toda essa longa introdução é para dizer que eu fui na exposição “Aleijadinho e sua obra”, que está no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui no Rio. Pois eu estava lá, vendo aquelas imagens, aqueles belíssimos oratórios, e pensando o quanto herdamos do paganismo.
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Antonio Francisco Lisboa nasceu em 1730, em Vila Rica, principal cidade de uma região que foi a maior produtora de ouro do mundo naquele meado do Século 18. Foi por volta de 1695 que começaram a achar o metal precioso por ali. E na Vila Rica, encontraram um ouro de cor amarelo mais escuro, que chamaram de “ouro preto”. E esse produto operou milagres na região.

Se no final do Século 17, era um matagal, onde viviam os índios botocudos, menos de 80 anos depois era um centro cultural de fazer inveja a Lisboa. Na verdade, a antiga Vila Rica possuía mais músicos e orquestras que na capital do país-matriz. E tinha um gênio popular, chamado de Antonio Francisco Lisboa, cuja doença (talvez sífilis), degenerava seus ossos e articulações, a ponto de chegar um tempo em que tinha de ser carregado por escravos e ter instrumentos (martelo e cinzel) amarrados em seus pulsos. Ali, na velha capital das Minas Gerais, começou o auge do barroco mineiro.
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A atual Ouro Preto e Congonhas são as cidades onde estão as principais obras do grande artista. E estes lugares significam antigas ternuras para mim. De ir passear por lá, quando era mais novinho, vendo, maravilhado, toda aquela riqueza. Pisava naquelas pedras históricas, centenárias, com cuidado e respeito. Eu, que sempre amei a História, estava ali, desfilando em lugar onde tanta coisa tinha acontecido.
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Vi as ruas enfeitadas onde passaria a procissão. Um verdadeiro Teatro de fé, com personagens, cenários, iluminação e atuações concentradas, contritas. A procissão do Senhor morto, aquela imagem esculpida com esmero, com cabelos humanos de verdade, com suor de sangue que parecia legítimo, impressionava um menino que vivia tão distante.
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Olhava as imagens dos profetas, nascidas de dentro de blocos de pedra-sabão. Elas foram dispostas no adro da Igreja de Bom Jesus, de forma que a gente anda por entre elas, olhando de perto seus detalhes, seus entalhes... Curiosamente, não me despertavam a fé. Mas me faziam pensar em quantos olhos as admiraram. Olhos que a terra comeu, que desapareceram, viraram pó. Mas ali estão as imagens de pedra. Sentinelas por tanto tempo. Testemunhas da capacidade e engenho do ser humano.
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Vendo as imagens de pedra e madeira de Aleijadinho na exposição, pensava que aquelas peças tinham atravessado tantos anos, maravilhado tantas gentes, e tantas ainda por maravilhar. Que um dia eu partirei desta vida. Será a minha vez de virar pó. E elas estarão por aqui. Será que alguém as mirará como aquele menino que fui?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Canção do Novo Mundo”, por Milton Nascimento. A própria essência de quem é do mundo, é Minas Gerais. Este post é dedicado aos mineiros que passaram por meus olhos e meu coração.

sábado, fevereiro 03, 2007

Muito saliente


Noutro dia, estava eu num ônibus e duas mulheres conversando atrás de mim, contando uma história de um sujeito que seduziu duas irmãs (sim, eu fiquei ouvindo; como disse o grande autor que eu tanto admiro, Dalton Trevisan, todo escritor é uma espécie de “vampiro de almas”, sempre à espreita por uma história, uma tema, um mote). Na verdade, não há exatamente novidade hoje em dia em saber que um cara passou o rodo em duas irmãs. Vivemos tempos complicados, moralmente falando... Mas a história me fez lembrar de um texto para radionovela que escrevi em 2002, no tempo em que eu e outros atores gravávamos novelas para uma rádio comunitária daqui do Rio. Quem me acompanha há mais tempo sabe que coisas do Rádio são minhas antigas ternuras.
Acho que eu já postei este texto aqui há tempos atrás, mas não tenho certeza e estou com preguiça de verificar. De qualquer forma, ele está aí para quem não o leu.

O SEDUTOR
Um original de Marco Santos

Personagens: Zé Manduca, Mirinha, Fina, Santinha, Compadre Gervásio, Sô Candelário e Narrador

NARRADOR – Zé Manduca tinha dois grandes prazeres na vida. O prazer da cama e o prazer da mesa. Exatamente nessa ordem. Era o maior sedutor do vilarejo de Espinhaço. Tinha chegado há um mês e já cobiçava e era cobiçado pelas mocinhas donzelas do lugar. Especialmente pelas filhas de Sô Candelário. Ele só deixava de pensar em mulher quando se entregava ao pecado da gula. E se lhe perguntavam qual o prato preferido ele tinha a resposta na ponta da língua:
ZÉ MANDUCA – Prato grande, de preferência, fundo.

NARRADOR – Mas naquele momento, seu interesse era Ramira, a Mirinha, filha mais velha de Sô Candelário. Moça bem feita de corpo embora de rosto anguloso e imperfeito. Para dizer a verdade, ela era feia que nem o cão chupando manga de aparelho nos dentes. E Zé Manduca se importava com isso? Cercava a moça na saída da missa.
ZÉ MANDUCA – Como vai a senhorita?
MIRINHA – Ri, ri, ri...Como Deus quer, Seu Zé Manduca...Ri, ri, ri...
ZÉ MANDUCA – Seu, não, nosso, Mirinha...
MIRINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E com essa conversa de cerca-lourenço, Zé Manduca faturava mais uma...A próxima vítima, quer dizer, conquista, seria a segunda filha de Sô Candelário – Josefina, a Fina. O apelido lhe fazia justiça. Além de ser um diminutivo do seu nome, esclarecia sobre as dimensões de seu corpo. Era magra como se doente fosse. Uma verdadeira tábua de passar roupa, embora tivesse um rosto agradável. Embora parecesse uma vara de virar tripas, era viciada em doces. Zé Manduca foi cercá-la na vendinha do Bebelo.
ZÉ MANDUCA – Um pirolito pelos seus pensamentos...
FINA – Ri, ri, ri...Eu já tenho o meu confeito...E não estou pensando em nada...
ZÉ MANDUCA – Nem em mim, ingrata?
FINA – Ri, ri, ri...

NARRADOR – Mais uma marca na coronha do revólver, quer dizer... ah, vocês me entendem! A mira do artilheiro agora estava voltada para Horácia, a Santinha, a filha caçula de Sô Candelário. Muito carola, os bebuns da bodega do Bebelo duvidavam que ele conseguisse conquistar mais essa virgem. A moça era um tanto gordota, vivia de negro e de véu, sempre com terço e livro de orações na mão. Mas Zé Manduca confiava no próprio taco. Dentro da igreja, durante uma novena, o sedutor rezava contrito: olho no santo, olho na beata. Na primeira oportunidade, escorreu para perto de Santinha.
ZÉ MANDUCA – Acabei de fazer um pedido à São José. Que o meu santo amolecesse o seu coração, que não tem piedade de quem lhe vota amor e respeito.
SANTINHA – O senhor pediu a São José? Amolecer o meu coração?
ZÉ MANDUCA – Quero vê-lo molinho, como broinha de fubá mimoso...
SANTINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E o Paraíso perdeu mais uma virgem para aquele demônio de boa lábia. Em pouco tempo, Sô Candelário descobriu que a desgraça tinha feito a perdição de suas filhas. Estava ele se lamentando para o seu compadre Gervásio, quando este lhe fez a pergunta de chofre:
GERVÁSIO – Ô compadre! O diabo desse homem vem e faz mal às suas filhas. Na sua família não tem homem não?
SÔ CANDELÁRIO – Tem, compadre Gervásio, mas ele não quer. Ele só quer as mulheres!
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo o grande Lua, Luiz Gonzaga, com Fagner, num pot-purri de forrós. Oi... Coisa boa!

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Isso dava o maior bode!


E lá vamos nós para mais uma explicação para expressões que costumamos usar, mas não sabíamos sobre sua origem. Esta é mais uma seção fixa do nosso Antigas Ternuras.
Hoje, apresentaremos a origem da expressão

Bode expiatório

Tem gente que faz alguma confusão com este tipo de caprino. Um contínuo que trabalhava no meu local de trabalho disse certa vez, quando aconteceu uma merda lá no setor: “Eu é que não vou ser o bode respiratório!”
Esse bode é outro, bem diferente do que eu pretendo explicar. Passemos, então, às devidas explicações.
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O seu sentido atual é que alguém vai "pagar o pato" (expressão que já expliquei aqui), uma determinada pessoa vai se dar mal, vai pagar por erros cometidos por todos.
Existe mais de uma explicação para esta expressão. As mais difundidas são as do ponto de vista hebraico e do grego. Acho a versão dos helênicos mais bonita e opto por contá-la.
Voltemos, então, ao tempo da antiga Grécia. Ao tempo em que os gregos cultuavam deuses que tinham características muito humanas. Depois, veio o domínio de Roma que adotou as mesmas divindades, só trocando os nomes. Pois é. Cada um daqueles deuses, tinha um (às vezes mais de um) animal que lhe era devotado. A Zeus (Júpiter, em Roma), dedicavam a águia; a Atena (Minerva), a coruja; a Hera (Juno), o cuco; a Posídon (Netuno), o touro; a Apolo (Febo), o lobo; a Dioniso (Baco)... o bode.
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Apolo (o da esquerda) e Dioniso eram filhos de Zeus, logo, eram irmãos. Mas tinham características bem diferentes para os gregos. O primeiro era o deus da polis, da cidade civilizada e culta, o deus da organização lógica.

O segundo (o da direita) era deus do vinho, da folia, era cultuado fora do limite da polis, da cidade, pois representava a loucura, o delírio, características opostas à organização. Mas, veja bem, esta desorganização era fundamental para a organização. Era a válvula de escape, o parâmetro do caos necessário para a existência da ordem. Apolo e Dioniso eram deuses opostos, mas complementares e fundamentais na polis. Basta dizer que a Música era considerada como uma dádiva de Apolo; e o Teatro era dedicado a Dioniso.
Este, diziam os gregos, se manifestava nas pessoas pelo transe. Se alguém caía em estertores assim,do nada, garantiam que era Dioniso pintando na área. Os epilépticos eram considerados como protegidos pelo deus, visto que nos seus ataques, estavam, na verdade, segundo eles, incorporando aquela divindade. Por isso, todos os epilépticos eram bem tratados, ninguém os fazia mal, nem os deixavam passar necessidade.
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Um certo dia do ano era dedicado a Dioniso, o Baco dos romanos. Eles escolhiam um dos epilépticos da cidade como rei naquele dia. Vestiam-no com uma pele de bode, entronizavam-no no poder e tudo o que ele pedisse era prontamente atendido Neste dia, faziam vários festejos dedicados a Dioniso, sempre fora da cidade. Era quando entravam em ação as suas sacerdotisas, as bacantes. E a bacanal corria solta! E tome saliência! Naquela festa, enchiam os cornos de vinho, penduravam a toga no cabide e caíam dentro sem culpa.
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E sabem porquê? Porque alguém iria assumir a culpa de todas as transgressões que cometessem naquele dia de orgia, em que ninguém era de ninguém. Mas quem seria a criatura, meu Zeus, que expiaria por todos?
Ora, o rei-bode.

Não era ele a personificação do deus? Tudo não era feito em seu culto e louvor? Então, ele seria o expiatório da culpas, da quebra na organização lógica da cidade. As pessoas precisavam voltar para os seus afazeres limpas de toda culpa, podendo olhar na cara da mulher do vizinho sem constrangimentos, depois de ter praticado com ela todo o kama-sutra, desde o “canguru perneta” até o “churrasquinho grego”.
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Então, no fim do dia, corriam ao rei-bode. Colocavam-no em uma liteira, enfeitada de uvas e flores. Faziam uma grande passeata, entoando canções em honra a Dioniso, e seguiam na direção de um penhasco. Lá, arremessavam no abismo o rei-bode, o bode que expiava por seus erros, o bode expiatório.
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Feito isso, retornavam a polis, reassumiam suas vidas sem culpas. De nada poderiam ser acusados. Estavam todos tomados pelo deus.
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Vocês já devem ter percebido que há uma forte semelhança entre partes desta história com o que acontece no Carnaval, em seu aspecto de festividade sem culpa, cuja absolvição é obtida na Quarta-Feira de Cinzas, não é? E também com um outro personagem muito importante na História, que é considerado como aquele que nos salvou de toda culpa, assumindo nossos pecados em seu sacrifício, certo?
Bem, como dizia meu querido mestre, Junito Brandão, com quem aprendi esta história: “os arquétipos são sempre os mesmos. Ainda que em épocas e lugares diferentes”.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras você está ouvindo os Tribalistas cantando “Já sei namorar”. Uma boa música para os seguidores de Dioniso cantar...
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Se você quiser saber a origem desta expressão pelo ponto de vista hebraico, clique aqui
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No post anterior, muita gente ficou perguntando o que afinal era espinhela caída. Eu confesso que não sabia. Fui pesquisar na internet. Quem quiser saber com exatidão, clique aqui.

sábado, janeiro 27, 2007

Espinhela caída


Noutro dia, eu estava assistindo à ótima minissérie “Amazônia”, quando ouvi a personagem da Betty Goffman dizer que precisava “rezar espinhela caída”.
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É impressionante como algumas palavrinhas têm o poder de nos arremessar numa espécie de “Túnel do Tempo” e a gente volta ao passado, recordando cenas inteiras, como se tivesse passando um filme diante dos olhos.
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Eu iria escrever a minha história com “espinhela caída”, mas aí lembrei que já tinha escrito e até publicado aqui, nos primórdios do blog. Resolvi rever o texto, dar uma mexidinha, inserir imagens e música e republicá-lo. Posso dizer, sem susto, que espinhela caída é uma de minhas antigas ternuras. Quem já padeceu desse “mal”, haverá de se lembrar...
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Há alguns dias, li nO Globo, na coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, uma crônica sobre “espinhela caída”. Talvez você que esteja me lendo não saiba o que diabos vem a ser isso. O Joaquim lembrou bem que esta era uma “doença de suburbano”. Eu vou mais além: De morador da periferia, também. Mas atenção, muita calma nesta hora: não há nenhum tipo de preconceito no comentário Joaquim (que confessou ser nascido e criado na Vila da Penha, com muita honra) ou no meu. Espinhela caída dava (acho que não dá mais...) na criançada do subúrbio (onde morei por uns tempos) e do Grande Rio (onde me criei) por fazer parte daquela cultura. Como jogar bola de gude, soltar pipa, rodar pião, comer goiaba no pé, jogar futebol em campinho de várzea, brincar de pique-bandeira, carniça, garrafão, pular corda...Vocês entenderam, não é? Eu não consigo imaginar um morador de Ipanema, Copacabana, Flamengo e arredores indo numa rezadeira para rezar espinhela caída. Essa é uma cena que nunca vou ver no Leblon de “Páginas da Vida”.
Também não imagino ver nenhuma criança de lá jogando búrica em quintal de terra.
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Esclarecimento feito, passemos à espinhela. O que será, com mil tubarões, espinhela caída? Segundo minha mãe e minha tia, eu tinha isso. Na época, não sabia exatamente o que vinha a ser esse troço. Suspeitava que tinha a ver com o estado de magreza absoluta que as agitadas crianças do meu tempo viviam. A gente não tinha videogame, via pouco televisão, daí, estávamos sempre correndo, brincando, agitando. Acho que por isso o pastel e o cachorro-quente da cantina da escola não viravam gordura no nosso corpo. Queimávamos aquilo tudo em uma hora de pique-tá ou subindo e descendo a ladeira com carrinho de rolimã.
Mas, espinhela caída... Talvez tivesse a ver com o meu osso esterno que é um pouco profundo.
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Sei que, de tempos em tempos, a minha mãe ou a minha tia Avelina, que morava em Piedade e com quem eu cheguei a passar uns tempos, me olhavam com olhos críticos e diagnosticavam: “espinhela caída!” Daí, a minha tia falava:
- Marquinho, vai chamar a Dona Maria!

Era a rezadeira da vila em que morávamos, na Rua Padre Nóbrega, 494. A casa da minha tia era a 4, ou “IV”, já que os números eram escritos em romanos. A da D. Maria era a I. Eu adorava ser acometido pela tal espinhela caída. Justamente para ser rezado pela Dona Maria e ter que ir na casa dela para chama-la. Lá, morava a sua neta, Ângela, um de meus amores infantis. Eu tinha uns 7 anos. A Ângela, uns 13. Já tinha até peitinho. (Imagino a matrona em que ela deve ter se transformado...)
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Pois bem. Eu ia lá, chamava a D. Maria, via a minha paixonite, e voltava para casa. Logo em seguida, chegava aquela velha senhora, com um galhinho de arruda nas mãos. Eu ficava em pé, diante dela, ela começava a me rezar. Murmurava palavras que eu não conseguia distinguir, sempre me cruzando com a arruda.
- Vira de costas.
Eu obedecia. Ela fazia a mesma coisa que tinha feito antes, com um detalhe: ela sempre começava a bocejar durante o processo de reza. Acredite se quiser: eu sentia um formigamento de leve pelo corpo, durante aquele ritual. Uma sensação gostoooosa...
Depois de rezado, e, imagino, curado do ataque de espinhela caída, minha tia dava um dinheirinho para D. Maria, que se ia com passos rápidos, cuidar de seus afazeres na casa I, na casa da minha amada Ângela.
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Certamente a ciência diria que a reza da D. Maria servia tanto como a colherada de Rum Chreosotado que minha tia me dava toda noite, antes de dormir (“para não ficar constipado”, ela dizia). Mas é inegável que tanto uma, quanto outra faziam da minha infância um imensa cristaleira de lembranças que eu, muito tempo depois, teria muito gosto em abrir. Nem que fosse apenas para espanar o pó.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Bola de meia, bola de gude”, com o sempre fantástico 14-Bis.

terça-feira, janeiro 23, 2007

A História tem cada história!


Quando ministro minhas palestras por aí, sempre digo que a disciplina História não é inútil ou que ela leva as pessoas a decorebas sem sentido. Aliás, nenhum professor de História atualmente bota seus alunos para decorar nada.
A função da História é explicar fenômenos de nossa realidade e proporcionar reflexões sobre eventos que ocorrem nas sociedades, pois, como eu costumo dizer, quem despreza o seu passado, se perde no presente e não constrói o seu futuro. Ela não é absolutamente estática, muito pelo contrário. Se na Matemática 2+2 será sempre igual a 4, na História, nada é definitivo.
Certa vez, eu estava fazendo uma palestra em um Teatro e perguntei à platéia: “Na frase: Pedro Álvares Cabral foi quem descobriu o Brasil, tem quantos erros?”
Um ou outro arriscou alguma coisa. Aí eu expliquei quantos erros efetivamente havia na sentença.
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Eu não sou historiador. Infelizmente, pois adoraria sê-lo. Sou jornalista e ator, mas sempre fui apaixonado pelo estudo da História. Desde que aprendi a ler e ficava fuçando no Tesouro da Juventude de meu tio e no Lello Universal de meu pai (herdei as duas enciclopédias), buscando sempre conhecer fatos históricos. Ainda novinho, lia a Bíblia não por conta de razões religiosas, mas para tomar conhecimento daqueles fatos incríveis narrados ali.
Portanto, estudar História é minha paixão, minha antiga e eterna ternura. Atualmente, como já disse aqui, trabalho em um projeto ligado à pesquisa histórica. E para mostrar a vocês que o estudo desta disciplina não é uma coisa chata, começo aqui mais uma seção fixa do Antigas Ternuras: “A História tem cada história!”, onde vou contar fatos históricos pitorescos, unindo conhecimento e entretenimento, com as habituais doses de humor.
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E começo, justamente, explicando quantos e quais são os erros da frase lá de cima, sobre o descobrimento do Brasil.
Tem, no mínimo, três.
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Tecnicamente, o Brasil não foi descoberto. Uma terra só pode ser descoberta se não for habitada. E aqui (e na América como um todo) existiam trocentas nações indígenas, em diversos graus de cultura e desenvolvimento. O certo é dizer que o Brasil foi achado, encontrado (e invadido, ocupado) pelos europeus.
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O segundo erro dá conta de que o nosso querido Pedro não foi o primeiro a pisar nessa terra brasilis. Na verdade, nem o segundo, nem o terceiro.
Comprovadamente, o primeiro europeu a pisar em solo que seria futuramente chamado de Brasil, foi o português Duarte Pacheco Pereira (esse aí na foto, a direita), que aportou em algum ponto entre o Pará e o Maranhão, em 1498 (esse fato, só foi revelado recentemente pelos portugueses). E, meses antes de Pedro Álvares chegar aqui, o espanhol Vicente Pinzón esteve no que hoje é o Ceará, em janeiro de 1500 (dizem que também esteve no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, mas historiadores acham improvável). E, neste mesmo ano, outro espanhol, Diogo de Lepe, esteve na foz do Amazonas. Tudo isto está plenamente documentado, não são lendas. Mas, por tradição, ninguém vai tomar de Pedro Álvares a chancela de ser o primeiro a achar as novas terras a oeste d´África, mesmo se sabendo que o nosso velho Pedrão, no máximo, é o responsável pelo achamento da Bahia... Mas, certamente, ele não tem culpa nenhuma da axé music, nunca mandou ninguém “sair do chão”, nem “jogar as mãozinhas pro alto”.
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E o terceiro erro da frase está no próprio nome do gajo. Quem esteve no Brasil foi o fidalgo português Pedro Álvares de Gouveia (o barbudo aí da foto à esquerda). Ele só teria “Cabral” no nome a partir de 1515. Eu explico.
Naquele tempo, só o filho primogênito tinha direito ao sobrenome do pai. A razão disto era evitar brigas e o enfraquecimento do poder familiar. No caso do clã Cabral, caberia ao primogênito o sobrenome, o título de senhor de Belmonte e as propriedades da família. O filho mais velho era João Fernandes Cabral e só com a sua morte, em 1515, o nome, o título e as terras passaram para o filho homem seguinte, Pedro Álvares.
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Vocês poderiam perguntar: “Mas por que a gente não aprendeu isso na escola?”, e eu candidamente responderia: “Não tenho a menor idéia”. Como não entendo o motivo destes fatos ainda permanecerem ocultos das aulas de História do Brasil (se algum professor que me lê explica isso atualmente pros alunos, me perdoe).
Numa visão eurocêntrica, ou seja, centrada na Europa, na civilização branca, que deteve por muito tempo a cunha de “História oficial”, era preferível dizer que se estava “descobrindo” novas terras para serem colonizadas e cristianizadas (ô... Eles tiveram uma atitude muito cristã...).
Os três navegantes europeus que aqui estiveram antes da famosa chegada de 22 de abril de 1500 não puderam divulgar suas descobertas por conta do Tratado de Tordesilhas, já que o português Duarte encontrou terras na parte espanhola da América do Sul e os espanhóis Pinzón e Lepe acreditaram terem avistado terras na banda portuguesa. E ninguém ali iria botar azeitona no bacalhau ou na paella de ninguém...
Na famosa Carta de Caminha, em nenhum momento ele cita o nome do Pedro. Só o chama de “o Capitão-Mor”. Quando retornou a Lisboa, depois do achamento das terras, Pedro Álvares se desentendeu com o rei D. Manuel I e caiu em desgraça no reino. Quando ele foi reabilitado (muito tempo depois), já tinha o nome de Cabral, e ficou assim conhecido pela História.
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Pois aí está o primeiro texto desta nova seção. O que vocês acharam?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Minuete”, com o ótimo conjunto português Madredeus.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Chocolate com Pimenta


O que você estava fazendo no dia 19 de janeiro de 1982?
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Eu estava de cama, me restabelecendo de um problema de saúde. Eis que entra minha mãe no quarto e me dá a notícia: “Marco, deu na televisão que a Elis Regina morreu”.
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Lembro de ter ficado pasmo. “Mas morreu de quê? Foi acidente?”. Naquele momento, minha mãe não soube responder. Depois, eu saberia a causa mortis e ficaria mais pasmo ainda.
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Há 25 anos, emudecia a voz de Elis Regina Carvalho Costa, gaúcha de Porto Alegre, 36 anos, uma das maiores intérpretes de todos os tempos. É curioso saber que há hoje em dia toda uma geração que sequer era nascida quando ela cantava e encantava multidões.

Tem muita gente da comunidade blogueira que só sabe quem foi Elis pela TV e pelos discos. E sabendo disso, eu, que a vi nos tempos em que ela sacudia os braços, cantando “Arrastão”, me sinto mais velho ainda.
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São 25 anos sem Elis. Tenho vários discos dela. Mas nunca a vi em show e não me perdôo por isso. Ela ficou no Canecão por séculos, no fantástico show “Saudades do Brasil” e eu não fui. Pouco antes de morrer, ela esteve no Teatro João Caetano, que ficava a metros da minha casa, com o show “Trem azul” e eu não fui. Raios! Raios duplos! Raios triplos! Como eu pude deixar de ir ver os shows da Elis?
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Vídeo com 3min e 38seg - Importante: para interromper a execução da música de fundo e assistir ao vídeo, clique na imagem de um papel com “X” no alto, na sua barra de ferramentas, debaixo de “Exibir”.


Para mim, ela sempre foi uma Cantora maiúscula. Sua interpretação de “Atrás da Porta” é uma das coisas mais lindas, mais pungentes que eu já ouvi. Gosto tanto dessa música, dessa interpretação de Elis, que eu, certa vez, ganhei um papel numa peça cantando essa música no teste. Naquela hora, eu só precisei lembrar da emoção que ela me passava quando cantava esta canção. Daí, não foi difícil.
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Tudo o que ela cantava ficava maravilhoso. Até o que nem era grande coisa, como por exemplo “Alô, alô, marciano”, música que não me diz nada na voz da Rita Lee, mas que vira um croissant delicioso na voz da Pimentinha.
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Dizer qual disco dela eu prefiro? Também é difícil. Além do citado “Saudade do Brasil”, tenho especial prazer no “Elis”, de 1972, em que ela gravou “Casa no Campo”, e também o “Essa mulher”, com aquela beleza de interpretação para “As aparências enganam”, e o “Falso Brilhante”, e o... Ah. Não tem disco dela que eu não prefira.
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Eu a idolatrava, quando estava viva. Sabia que o seu apelido de “Pimentinha” era por seu gênio, humm... digamos, forte. Para mim, a voz dela era doce como chocolate. Eu me surpreendi quando descobri histórias cabeludas sobre ela. Numa entrevista, perguntaram o que ela achava de algumas pessoas a considerarem de antipática. Resposta de Elis, literalmente: “Ah, o que é que há? Eu canto pra caralho e ainda querem que eu seja simpática?”
Eu queria, sim, Elis. O fato de termos recebido dons não é para nos considerarmos como se estivéssemos acima da humanidade. Um artista é um operário de seu ofício, como um médico, um engenheiro, um mecânico, um operador de fotocopiadora também o são. Imagina se todos os que fossem especialmente talentosos se arvorassem no direito de escoicear a humanidade?
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Um amigo meu me contou que foi, certa vez, na casa da Elis, quando ela estava casada com Cesar Camargo Mariano. Ele foi acompanhando a Beth Carvalho, a pedido desta, que estava se borrando de medo de encarar a Elis. É que a Beth soube que a Elis tinha ouvido “Folhas Secas”, música que o Nelson Cavaquinho tinha dado para ela, e que resolveu também gravá-la. Elis ouviu a música no estúdio do Cesar, que estava fazendo os arranjos do disco da Beth. A sambista sabia que o impacto de sua gravação não seria nem de longe igual ao da Pimentinha. A idéia de ambos era tentar demovê-la de sua intenção, afinal, o Nelson tinha dado a música para ela, Beth. Ribamar, esse meu amigo que a acompanhou, me disse que a Elis tratou os dois como uma leoa faminta trata um filhote de gazela. Os dois saíram de lá apavorados, a Elis gravou a música, e, obviamente, fez mais sucesso que a gravação da Beth.
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Todas as histórias escabrosas que ouvi sobre a Elis não arranharam a minha admiração pela grande artista que ela era. Até hoje eu continuo a sentir o mesmo prazer em ouvi-la cantar. Nunca outra cantora aliou voz, técnica e emoção como ela fez.
Sinto saudades de suas interpretações. Sinto saudades do tempo em que aguardava sair o disco da Elis. Parafraseando Drummond, hoje a minha saudade é apenas um som tocando na vitrola. Mas como dói.
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A nossa amiga Vera Fróes pediu que eu participasse da blogagem coletiva sobre a Elis. Embora eu não participe mais de blogagens coletivas, resolvi fazer esse carinho para a Elis, minha antiga e eterna ternura, e para a própria Vera.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Elis cantando “Nada será como antes”.
Na TV Antigas Ternuras, você vê um vídeo com Elis cantando, de forma emocionada e emocionante, “Atrás da porta”.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Uma pergunta que não vai calar


Pense nesta pergunta e depois me responda:

A natureza humana é boa ou má?

Veja bem: eu não estou perguntando sobre a sua natureza. Pergunto sobre a raça humana, sobre a humanidade como um todo.
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No ano passado, vi dois filmes que me deixaram pensando muito. Um foi “Senhor das Armas”, baseado na história de um cara que existe mesmo e que enriqueceu traficando armas para governos e milícias africanas, indiscriminadamente. Ele diz que não torce pra ninguém morrer. Ele prefere que os soldados errem os tiros, para poderem comprar mais balas na mão dele.

O outro foi “O Jardineiro Fiel”. Ficção (será?) sobre um laboratório que vai pra África testar seus medicamentos. Se as cobaias morrem ou têm efeitos colaterais, aí fazem ajustes, antes de produzir em massa pro mundo todo. Os caras do laboratório dizem que os remédios vão curar e salvar a vida de milhões. E que uns poucos negros que morrem ou ficam com seqüelas são o justo preço pelo avanço da ciência.
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Recentemente, eu fui ver “Diamante de Sangue”. Filme excelente. A história? É ficção, mas baseada em fatos históricos que realmente aconteceram. Em Serra Leoa, país africano, rebeldes lutavam contra o governo até recentemente, compondo uma milícia que matava crianças, mulheres, homens, velhos, quem passasse na frente deles. Isso, gritando que os estavam libertando da opressão do governo.

Quando não matavam, decepavam mãos e braços de quem pegavam. Ou capturavam os mais fortes para trabalharem como escravos, nas minas de diamante. Com as gemas ali garimpadas, os rebeldes podiam comprar armas melhores que as do governo, que, por sua vez, também contrabandeava diamantes para comprar outras armas e combater as milícias. No filme, fiquei sabendo que cerca de 15% dos diamantes do mundo são os chamados “diamantes de sangue”, ou seja, são obtidos por trabalho escravo e contrabandeados para serem misturados com outras pedras de procedência legal e aí ninguém saber de onde exatamente vieram. Naquele país, efetivamente se matava por prazer, por perversidade. Mutilava-se pessoas por diversão.
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Mas, diriam alguns, isso é cinema, é entretenimento, é ficção.
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No final do ano passado, eu recebi uma tarefa. Escrever resumos históricos de todos os países filiados à ONU. Isso para um site que vai ser posto no ar em breve. Um trabalho fascinante. São 192 países e, com a pesquisa que fiz, fiquei conhecendo suas histórias. Descobri, por exemplo, que mil anos antes de Cristo, os chineses já dividiam o ano em 365 dias, os meses em 30 dias, os anos em 12 meses. Isso bem antes do calendário Juliano, que nos rege até hoje.

Ah, sim. Li também que espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses exterminaram a população indígena das Américas. Muitas tribos foram extintas por esses colonizadores, todos cristãos. Na África, além de traficarem escravos, que eram capturados e vendidos pelos próprios negros de tribos rivais, a matança também foi generalizada. A França, por exemplo, assassinou dois terços da população nativa da Costa do Marfim. Se somarem os que foram trucidados pelos países imperialistas, dá uns dez Holocaustos no barato.E genocídios assim aconteceram em todos os continentes do mundo, em todas as épocas.
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Mas isso é História, diriam alguns. Tem muito tempo. Hoje em dia, é outra história.
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Li, durante a minha pesquisa, que até os anos 50 e 60 do século passado, Portugal escravizava negros nas lavouras de cacau de São Tomé e Príncipe, a ponto de haver um boicote internacional ao produto, se viesse das mãos negras escravas da África. Êpa! Anos 60? Eu já tinha nascido!

E mais: Até a quinzena passada (ou seja, dezembro de 2006), a Somália era um país sem governo. Anarquia total. Milícias islâmicas assumiram o poder vago, mas a matança desenfreada não parava de acontecer. Finalmente no final de dezembro, tropas do “governo” indicado pela ONU e da Etiópia invadiram aquilo lá e assumiram o poder.
Estima-se que atualmente na África morra, de forma brutal, cerca de 50 mil pessoas por dia.
Isso não dá nos jornais porque não é considerado notícia. Não tem novidade. Um atentado na Europa, em que venham a morrer umas cinco pessoas, é manchete em todo o mundo. Agora, 50 mil exterminados na África não dá nota de rodapé em página par.
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Em 11 de setembro de 2001, primeiro ano do Século 21, cerca de 1600 pessoas, americanos na maior parte, morreram por conta da explosão do World Trade Center. Uma infâmia! Começou-se uma guerra para vingar os mortos ou punir os culpados. Se somarmos os soldados americanos mortos no Afeganistão e no Iraque, dá uns três 11 de setembro. E a história não acabou.
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O mundo viu, eu vi aqui no computador da minha casa, o genocida Sadam Houssein pendurado numa corda, condenado por suas atrocidades. Outros genocidas, como Tony Blair, George W. Bush, Osama bin Laden continuam soltos por aí.
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Mas tudo isso acontece longe do Brasil, diriam alguns. Aqui essa guerra não chega.
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Deu no site da BBC: média de mortos no Iraque, país em guerra, é de 53,5 assassinatos por cem mil habitantes. Caramba! Número alto, não é? Mesmo para um país em beligerância aberta...
Bem, aqui no Brasil, terra do samba e pandeiro, do coqueiro que dá coco, do mulato inzoneiro, do homem cordial, tivemos os seguintes números: em Pernambuco, 50,7 homicídios por 100 mil; 49,4 no Espírito Santo; 49,2 no Rio de Janeiro.

Na semana entre Natal e Ano Novo, traficantes entraram em um ônibus, jogaram gasolina e tocaram fogo, queimando velhinhos que não conseguiram sair em tempo.
Crianças assaltam e matam. Chefes do crime do presídio mandam atacar a população por bilhetes ou por telefone, sempre dizendo no fim da comunicação: “fé em deus”. (coloco esse deus em minúscula por provavelmente ser uma divindade pagã, que exige sacrifícios humanos. Certamente eles não crêem no mesmo Deus que eu...).
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Sobre este quesito religião, observo que a teologia judaico-cristã e até mesmo a islâmica proíbem seres humanos de matarem outros seres humanos, sob pena de castigos terríveis. Esta é ou era a principal função social da religião: ordenar a sociedade, incutir medo para não haver transgressões, criar o temor a Deus como forma de contenção dos excessos humanos. Durante um certo tempo isso funcionou “mais ou menos” no espaço urbano. Hoje, a impressão que tenho, é que não existe o menor temor de que fazer algo errado perante Deus vai acarretar em castigo. É como se Deus nem existisse, a vida, pois, acaba aqui. Então, que se viva, rápido e intensamente, porque morreu, acabou. Este é o pensamento dominante.
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Volto à pergunta inicial, à pergunta que não vai calar:

A natureza humana é boa ou má?

Veja bem: eu não estou perguntando sobre a sua natureza. Pergunto sobre a raça humana, sobre a humanidade como um todo.
O que você me diz?
M.S.
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Se nhoras e senhores...A Rádio Antigas Ternuras tem a honra de apresentar... Mr. Ray Charles. O que essa música, que fala de um certo lugar além do arco-íris, tem a ver com este meu texto? Nada. Tudo. Fica apenas como um toque, lembrando que embora humanidade jogue para o Universo coisas terríveis como as que descrevi, também é capaz de fazer obras belíssimas como esta.