Você pensou em Brasília? Errou.
Washington? Errou também.
Estou falando de Roma. Não a atual, mas a do tempo de Júlio César, por volta do ano 50 a.C.
*
É como podemos verificar na minissérie “Roma”, que está indo ao ar pelo canal HBO (domingos, 22h, com reprise em alguma noite durante a semana).
Provavelmente é a série mais cara da história da televisão (até agora). Toda filmada em Cinecittá, mitológico estúdio italiano, com cenários monumentais e bastante reais. Nada daqueles ambientes assépticos que a gente se acostumou a ver nos antigos filmes sobre o império romano. É tudo sujo, encardido, com paredes pichadas. As cenas são cruas, atores e direção não aliviam em nada.
Além do destaque que tem os personagens famosos – Julio César, Marco Antonio, Átia, Servília (mãe de Brutus), Otávio, Pompeu, Porcius Cato etc, vemos outros personagens pouco conhecidos, mas que existiram e não tiveram suas histórias relatadas pela História. Falo dos centuriões Lucius Voreno e Titus Pulo (veja na foto). Mas não quero antecipar nada. Prefiro que vocês mesmos verifiquem e tirem suas conclusões. Uma curiosidade: reparem na personagem Níobe, representada pela atriz Indira Varma. Ela é uma sósia feminina do Rodrigo Santoro. Se alguém quiser ver mais sobre a série, clique aqui .
*
No mesmo tom da série “Roma”, em que vemos que as falhas da natureza humana não são nenhuma novidade, recomendo um filme que é um dos melhores deste ano e deste século. Pelo menos, até o momento atual presente que se conhece hoje em dia (copyright PRK-30). Estou falando de “Crash – No limite” (2005, USA/Alemanha, dir. Paul Haggis). Ele também poderia se chamar de “O declínio do império americano”, se já não existisse um outro (excelente) filme com este nome. Mas se na Roma de César, a República mostrava sua decadência, mesmo que o império só fosse se extinguir cinco séculos depois, em “Crash”, vemos que o poderio financeiro-militar dos Estados Unidos pode durar mais uma porção de anos, mas sua decadência moral faz a sua sociedade feder como carniça.
*
Finalmente, o filme que eu estava esperando há muito tempo, por conta de sua carpintaria dramatúrgica. Ele pode ter várias leituras, inclusive a partir do título – Crash – que remete a batida, colisão e realmente, carros e pessoas estão em constante colisão neste filme. Mas eu prefiro analisá-lo por outra ótica: pela sua história, onde a natureza humana é mostrada em toda a sua verdade, sem filigranas, sem tons edulcorantes. Está lá, o que somos: ora capazes de salvar alguém, ora capazes de desgraçar os outros. Ninguém é monodimensional – só “bonzinho” ou só “peste” - nem a vida é bimensional, tendo por únicas alternativas o “bem” e o “mal”. Não somos personagem de telenovela, nem das comédias açucaradas do cinema, muito menos levamos a vida como está nos desenhos animados da Disney. Viver machuca. Dói. Corrói.
*
Esta abordagem da nossa real natureza eu praticamente não tinha visto em cinema. Só vira em algumas histórias em quadrinhos. E em “Crash” é a grande atração.
O que pensamos quando um policial vem nos encher o saco, às vezes até sendo inconveniente? Que ele é um bom filho da puta ou que ele pode ser um filho extremado, que está alterado por conta do pai doente e não consegue uma internação porque o plano de saúde não permite?
E quando a nossa empregada doméstica pode ser muito mais amiga no sentido inteiro da palavra do que coleguinhas que nos acompanham no shopping? Até onde somos incorruptíveis? Até um valor em dinheiro ou até a vida de um irmão depender de nossa, digamos, flexibilidade de caráter?
*
Pegue conceitos como estes e adicione personagens tão díspares como dois ladrões, um promotor e sua esposa perua, um consertador de fechaduras e sua filha, um diretor de TV negro e sua esposa, um policial de comportamento indigno e seu parceiro que tem dignidade e não concorda com seus métodos, um chinês atropelado e arrastado quando estava entrando na sua van, uma família de iranianos (no filme, são chamados de persas), chefiada por uma pai que só quer ser tratado com dignidade, um policial correto e sua mãe preocupada com o outro filho que vivia em más companhias e você terá um filme inesquecível. Muito bem dirigido, com excelentes atuações, diálogos fantásticos, como o dos dois negros no bairro chique dos brancos.
*
No mais, o que se tem são doses maciças de humanidade. Vemos a natureza humana espremida e exposta como o carnegão de um furúnculo, com a dimensão real de um pedaço de calcáreo, que existe e pode ser usado para construir ou para agredir. Assim como o era na Roma dos Césares. Assim como o é na Los Angeles atual. Assim como é no nosso quarteirão.
M.S.

