
Entre as seções fixas deste blog, uma das que mais gosto de fazer é a “Origem de expressões que costumamos usar mas não sabemos de onde vem”. Como já disse aqui, sempre tive a maior curiosidade em investigar isso. É uma de minhas antigas ternuras, mesmo!
Escolhi desta vez contar as origens de:
Onde Judas perdeu as botas.
O significado, para quem não sabe, é lugar longínquo, distante, láááá longe. Tem uma outra expressão com o mesmo sentido, que fala de uma certa parte remota da anotomia do Judas, onde o sol não alcança. Mas vamos falar somente de suas peças do vestuário.
Li sobre essa num dos livros do Câmara Cascudo. Mas... não sei, não... A explicação que ele deu é meio duvidosa.
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Segundo ele, depois que Judas traiu Jesus, ficou mortificado de remorsos e acabou se enforcando em uma árvore (a própria Bíblia tem dúvida: em Mateus, ele se enforcou; em Atos, ele se jogou de um precipício). Diz o nobre Cascudo que ele se matou sem as botas e que não acharam com ele os famosos 30 dinheiros (na verdade, siclos de prata). Daí, soldados romanos e alguns aventureiros partiram em busca das botas do Judas, onde ele presumivelmente teria escondido o saco com as moedas de prata. Dizem que foram longe atrás do calçado. Não se sabe se acharam ou não. De qualquer forma, a expressão passou adiante como um lugar inacessível, muito distante.
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Bem, esta explicação tem dois problemas muito complicados. O primeiro é que dificilmente Judas teria aceitado as moedas. Ele não entregou Jesus por dinheiro, mesmo porque ele não precisava. Há indicativos de que ele era rico, o mais endinheirado dos apóstolos, junto com Mateus, ex-coletor de impostos. Li em algum lugar que Judas tinha sido designado por Jesus como tesoureiro do grupo, justamente por ser o cheio da grana da rapaziada, graças à sua família de ricos comerciantes na aldeia de Queriote (seu nome vinha de ish Qeryoth, “filho da cidade de Queriote”).
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“Mas por que ele entregou Jesus?” Perguntariam vocês. Bem, Judas era ligado a um grupo subversivo que planejava atos de terrorismo contra os dominadores romanos. Ele era um judeu conhecedor do Torá e acreditava piamente que o “Messias” viria para libertar a Judéia do jugo romano. E ele sabia que esse Messias era Jesus. Só que nas Escrituras estava escrito que o enviado de Deus viria com a espada vingadora e que lideraria um baita exército contra os opressores. E Jesus ficava naquele discurso de paz e amor, parará...pereré... Ele imaginou que se provocasse Cristo, Ele se insurgiria contra os soldados de Roma e a porrada iria comer.
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Judas foi dar a informação ao Sinédrio na esperança de ver o circo pegar fogo. Como era praxe, quem desse informações aos soldados do Templo fazia jus ao prêmio de 30 moedas de prata (não era um grande valor, na verdade). Muito provavelmente, Judas nem tocou nessa grana (veja no quadro ao lado). Ele queria ver sangue. E, de qualquer forma, viu.
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A outra coisa difícil de engolir nesta história das botas era o fato de que ninguém naquela época, na Judéia, usava botas. Mesmo porque, com aquele calor boçal de lá, botas iriam assar os pés de quem as usasse, provocando um chulé monumental de fazer ressuscitar o mar Morto para vê-lo morrer de novo com a inhaca. Se os habitantes da Judéia usassem botas e sem meias ainda por cima, o primeiro milagre de Jesus não seria transformar água em vinho e sim, água em Polvilho Antisséptico Granado e vinho em Tênys Pé Baruel!
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E se Judas escondesse as moedas nas botas, o dinheiro estaria para sempre contaminado pelo chulé, não servindo mais para o comércio. Lembrem-se que judeus são conhecidos por seus enormes narizes. No que a catinga do parmezón chegasse naquelas largas fossas nasais, ia ter judeu chamando Jesus de “Genésio”. E mais: Pôncius Pilatos não iria lavar só as mãos: aproveitaria e lavaria o corpo todo para ver se conseguiria se livrar do fedor monstruoso que pairaria na Galiléia.
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Já imaginaram Jesus na cerimônia do “lava-pés”, com seus apóstolos descalçando botas? A profecia não se cumpriria! Em vez de morrer na cruz, ele faleceria envenenado pela carniça chulezenta! E que imagem teriam as igrejas hoje? O Mestre Jesus caído no chão, com a língua de fora, olhos revirados, segurando uma bota fedorenta! Olha a situação!
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Mas, se Judas não usava botas, de onde veio a expressão?
Bem... Tem uma outra hipótese que andei vendo. É tão fantasiosa quanto, mas...
Diz uma lenda que houve um judeu, de nome Ahsverus (ou Ahsuerus), habitante de Jerusalém; sapateiro por profissão. Sua oficina ficava no trajeto de Jesus, rumo ao Calvário. E quando o Divino Mestre passou diante de seu estabelecimento, Ahsverus o teria insultado e debochado de seu infortúnio. A lenda diz que Jesus o amaldiçoou (imagina...) a zanzar pelo mundo, sem morrer, até o Dia do Juízo Final.
Nasceu aí a lenda do “Judeu Errante”. E essa história correu chão. Um bispo da Armênia jurou, no Século 4, que conhecera uma testemunha da paixão de Cristo. No Século 7, viram o andarilho em Damasco. Séculos depois, o tal highlander estava na Espanha e depois na Itália. No Século 16, na Alemanha. Até no Brasil disseram que o viram em Pernambuco, durante o domínio holandês, lá no Século17. Disseram que de lá, ele foi para Minas Gerais, tendo sido visto chorando sangue numa Sexta-Feira da Paixão.
Bem, eu não queria falar nada, não, mas... Eu vi na TV um cara com as características do Judeu Errante, um sujeito amaldiçoado, na torcida do vasco, uniformizado e com um cartaz escrito "Filma eu Galvão!".
A expressão das botas se referiria a este personagem por sua profissão de sapateiro e por ser andarilho. E lembre-se que o radical “Judá”, presente em “Judas” e em “judeu” torna as coisas bem parecidas. Um judeu amaldiçoado se confunde com o chamado “grande traidor”. Isso faz sentido.
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De qualquer forma, quando você se referir a um lugar distante como “aquele onde Judas perdeu as botas”, tente mudar para “onde Judas coçou o calo”, ou “onde Judas machucou o joanete”, ou quiçá, “onde Judas arrumou uma unha encravada”.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Theme from Exodus”, com 101 Strings.
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