Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

Eu te desejo uma estrela...



Mais um Natal, mais um Ano Novo...
Esta frase pode ser dita com entusiasmo ou com desânimo. O meu desejo é que você a diga com todo ardor e júbilo possíveis. Sim, graças a Deus estamos comemorando mais um Natal; sim, dou graças por estar vivo e com saúde, com meus familiares igualmente saudáveis e todos juntos, celebrarmos o Aniversariante, recebermos mais um ano de vida. É isto o que desejo para todos.
E ouso desejar mais. Desejo fortemente que você não guarde mágoas e tristezas. Desejo que você tenha um sorriso feliz para dar a todos os seus amigos e especialmente desejo que você tenha muitos amigos fiéis para receber este presente. Desejo que você tenha sempre alimentos em sua mesa, mas também desejo que você não esqueça que muitos não tem o que comer, que é uma dádiva termos o nosso pão, e um gesto de amor reparti-lo com nosso próximo.
Desejo que você olhe para as flores, que ouça os sons da Natureza, que prove os sabores que são bons, que toque no rosto de uma criança, que sinta o perfume de quem você ama.

Desejo que você tenha dinheiro para te satisfazer as necessidades, especialmente desejo que você ganhe dinheiro com o fruto de seu trabalho, para que você o valorize.
O meu desejo é que você tenha um amor para chamá-lo de “meu amor”. Mas se você ainda não o tem, que não se entristeça. Em algum lugar do Universo há alguém pronto para se apaixonar por você.
Estes são os meus desejos... São tantos, mas são especiais.
Se me fosse concedido apenas um único desejo, eu desejaria que o meu desejo de te desejar toda felicidade possível neste Natal e por todo 2010 chegasse até você assim, distraidamente, como quem olha para o céu e vislumbra uma estrela bonita. E que você em seguida desejasse o mesmo para todos os que lhe querem bem.
Na noite da passagem de ano, acima dos fogos e cascatas, cada estrela que você olhar no céu, será um desejo de uma pessoa amiga que pensou em você.

Boas Festas. Feliz Ano Novo. Um brinde à nossa amizade.

Marco Santos


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Na TV Antigas Ternuras, você vê Karen Carpenter, uma estrelinha lá do céu, te desejar tudo de bom...com a canção natalina “Have yourself a merry little Christmas (uma de minhas favoritas)
Fotos: um novo personagem apareceu no presépio da cidade de Criciúma...

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

EM EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA: HEXACAMPEÃO


Bem, amigos do Antigas Ternuras...
Não resisti. O plano era ficar afastado da blogosfera por um tempo para poder me concentrar em meus trabalhos.
Mas eu e a imensa torcida do Flamengo nos tornamos HEXACAMPEÕES!

Quem me conhece, sabe que o Flamengo é a impessoalidade que mais amo nessa vida.
E lá estava eu, no Maraca, assistindo ao vivo e em cores o sexto campeonato brasileiro do meu amado Mengão.
Depois de entrar no estádio espremido feito limão, de tomar jato de gás de pimenta na cara, de escapar das porradas de cassetete que a polícia militar distribuía, generosamente, a velhos, mulheres, crianças e pessoas de bem, como eu, que estavam lá apenas ver o time campeão. O Grêmio não entregou o jogo, como diziam. O jogo foi duríssimo, dramático! Em certos momentos, partes remotas de minha anatomia ficaram trancadas, que não passava nem mosquito ensebado.

Mas com o Flamengo é assim: só conquistamos as coisas depois de muita luta. Não é à toa que o antígo símbolo do clube era o Popeye, porque este personagem sempre dá a volta por cima depois da adversidade.

Conquistamos o sexto campeonato brasileiro. Desde ontem, cerca de 33 milhões de brasileiros, uma Nação dentro de uma Nação, estão em estado de graça.
Agradeço muito a Deus por ter posto o Flamengo na minha vida. Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo.
Conte comigo, Mengão. Acima de tudo, rubro-negro!
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve um cântico da maior e melhor torcida do mundo.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Estou pedindo: tempo!


Aos caros amigos, clientes e fornecedores devo avisar que, por força das circunstâncias, serei obrigado a antecipar e estender o meu recesso de fim de ano. Estou com textos encomendados, trabalhos por fazer, uma série de coisas que me exigem concentração total. Tenho que entrar em modo “escritor”, o que me faz ter que dirigir minhas atenções somente para as tarefas em questão. Espero que vocês compreendam. Normalmente, eu faço recesso depois do Natal e só volto a postar na primeira semana de janeiro. Vou interromper minhas postagens e visitas agora, volto no fim de ano para o tradicional post de Natal/Ano Novo e depois só em meados de janeiro. Até lá espero ter minhas coisas bem adiantadas.
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Já que estou com essa conversa de “Cerca Lourenço”, aproveito para explicar de onde vem esta expressão, atendendo ao pedido do amigo blogueiro Julio do Bala Perdida (eu já tinha dito que atendo a pedidos, não tinha?). Daí, aproveito para bater dois pregos com a mesma martelada.
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“Conversa de Cerca Lourenço” significa que alguém está enrolando, embromando, passando a lábia, falando de modo pouco objetivo e/ou cheio de dedos. O origem da expressão é bem difusa, não há exatamente um consenso. Mas a versão mais sensata e que mais corre por aí entre pesquisadores dá conta de um beato chamado José Lourenço (1872-1946), que era muito devoto do padre Cícero Romão Batista (1844-1934) – Padim Ciço de Juazeiro do Norte/CE. O beato Lourenço (esse aí da foto) fundou uma comunidade messiânica denominada Caldeirão de Santa Cruz do Deserto (mais detalhes cliquem aqui). Isso em fins da segunda década do Século 20, lá no Crato/Ceará. Os devotos viviam da agricultura numa fazenda que foi arrendada pelo próprio Padre Cícero e toda produção era distribuída irmamente entre os que lá trabalhavam. O excedente era vendido para comprar querosene e remédios. Ficaram assim por muitos anos e até conseguiram alguma prosperidade.
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Os fazendeiros da região se incomodaram com aquela situação e começaram a espalhar que aquilo era o comunismo, que os devotos adoravam o “boi Mansinho” (só para trazer o clero local para o lado deles) e coisa e tal e tal e coisa. Por pressão da igreja, o padre Cícero dissolveu a comunidade, em 1926, transferindo-a para outra fazenda, para lá viverem nos mesmos moldes de antes. Novamente o empreendimento deu muito certo, chegando a atrair cada vez mais devotos para aquele estilo de vida, digamos, socialista cristão. O tempo passou, os fazendeiros reiniciaram as fofocas e, com a morte do padre Cícero, os membros daquela comuna ficaram sem a sua proteção.
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As queixas dos coronéis chegaram aos ouvidos do governo federal que mandou tropas para lá, em 1937. A soldadesca cercou Lourenço e seus adeptos. Conversa de lá, conversa de cá, até que resolveram invadir a comunidade, chacinando quem viam pela frente. Usaram até aviões da Força Aérea Brasileira para metralhar os camponeses, deixando mais de mil mortos. Praticamente uma reedição de Canudos, só que sem um Euclides da Cunha para relatar tudo com arte e engenho.
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Depois disso, começou a correr a expressão “cerca Lourenço” como sinônimo de , “ficar rodeando um assunto sem defini-lo com clareza”.
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É isso, moçada. Volto a postar no Natal e depois só em 2010.
M.S.

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A partir de domingo, 15/11, estará no ar, no outro blog em que escrevo, o Playground dos Dinossauros, um texto meu sobre o Calendário do Sagrado Coração de Jesus. Quem é do tempo em que Cleópatra tinha medo de cobra deve lembrar dele.
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E por falar em coisa antiga, eu sou do tempo dessa música, ó:
(vídeo com 3min e 3seg)


e desse antigo comercial que a TV Antigas Ternuras gentilmente traz até você.
(vídeo com 16 seg.)

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Saudades se aprende na escola


Eu já devo ter escrito aqui que entre a minha casa e o meu trabalho eu passo por sete colégios. Em período escolar, eu gosto de ver a movimentação dos alunos nos arredores. Às vezes eu estou com o carro parado num sinal e fico observando a moçada colegial em seus uniformes, com as brincadeiras típicas de adolescente, as meninas com seus saiotes curtos, exibindo coxas e pernas de diferentes circunferências, desde o padrão vedete do teatro de revista até a chamada dublê da Olívia Palito. E elas não estão nem aí.
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Eu sempre me lembro dos meus tempos de colégio. Era um tempo bom... Ô se não era...
Estudei num mesmo colégio do terceiro ano primário até o segundo científico, passando por admissão e ginásio. Que orgulho e saudade me trazem o meu mui querido Colégio Duque de Caxias...
É este aí da foto. Claro, no meu tempo ele não era exatamente assim. Atualmente, ele até mudou de nome, virou “Escola Duque de Caxias”.
Eu tirei essa fotografia há uns dez talvez quinze anos atrás, quando me bateu uma saudade, eu me encontrava por perto e fui até lá, ver como ele estava. Era um domingo e não pude entrar para olhar por dentro, rever salas de aula onde esquentei bancos escolares, quem sabe até rever uma antiga meleca que grudei embaixo de alguma carteira (ei, não faz essa cara de nojo, não, que toda criança já grudou meleca em carteira! Vai dizer que quando pequeno você nunca colou disfarçadamente um tarugo verde debaixo do banco, na escola? Ah, tá! Sei!...).
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Tenho tantas histórias neste velho estabelecimento de ensino!... Algumas já até contei aqui, como a da vez que eu joguei uma pera na cara da menina mais sebosa da turma, me fazendo pegar suspensão e tendo que levar a mãe, e que quando eu matei aula, fui caguetado por um espírito (de porco) de uma macumba onde a avó de meu amigo de bagunças frequentava. Falei do Português que implicava com os meninos que não tomavam banho depois da aula de Educação Física por terem vergonha de mostrar o bigorrilho adolescente. O Gordo, então, com sua diminuta tripinha de porco que mais parecia uma verruga necrosada, padeceu no dia que o Portuga trancou a porta do vestiário e decretou que ninguém sairia dali sem tomar banho.
Além destas, tenho tantas outras histórias... Algumas são difíceis de descrever em palavras escritas por precisarem de gestos para que sejam entendidas.
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Lembro de uma menina que me interessou e que estudava numa sala perto do bebedouro. Para vê-la e dar aquela paquerada básica, eu ficava horas bebendo água, que nem um camelo depois de atravessar o deserto. Se me espetassem, eu esguicharia longe, que nem desenho animado do Xerife Coelho Ricochete. Ela gostava e me retribuía aqueles olhares, aquelas caras e bocas. Mas não saía disso. Um dia, me aparece no colégio o Roberto Dinamite. Ele ainda não era famoso, mas começava a se destacar no time bacalhoso sebento. Pronto! A minha musa foi ficar de papo com ele, para meu duplo desgosto: por ela falar, toda sestrosa, com outro e por esse outro ser jogador do asqueroso time rival do meu amado Mengão. Mas era só uma visita ao seu antigo colégio (o Dinamite estudou lá). Depois, a menina voltou a me dirigir seus olhares 43, mas aí eu é que não queria.
Eu era besta...
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E por falar em Roberto Dinamite, no meu tempo, o "ídolo das multidões" lá no Duque era o irmão dele, de nome Marcos, mas conhecido como Quinha. O cara era fera no futebol de salão, no handebol... Um troço impressionante! Nos Jogos da Primavera, a seleção de handebol do Duque disputava a final contra o Cruzeiro do Sul, colégio arqui-rival. O Quinha estava com o braço machucado, na tipóia, logo, não poderia jogar. Estava no banco, só fazendo número. No jogo, o Duque estava perdendo por uns três gols de diferença. O ginásio inteiro gritando o nome do Quinha. O técnico o colocou em quadra na base do desespero. Na primeira bola que ele recebeu no braço fora da tipóia, mandou um balaço que o goleiro deles está procurando por onde ela passou até hoje. Com cinco minutos de jogo, viramos e ganhamos a partida. O cara saiu nos braços da galera.
No futebol de salão, ele matava a pau na linha e no gol. Mais de uma vez eu o vi arrebentando ora como centro-avante, ora como goleiro.
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Ele não me conhecia, era bem mais velho que eu, estudava no científico enquanto eu ainda estava no início do ginasial. Mas eis que o Destino, with a little help from my friends, como diriam os Beatles, me aprontou uma boa. Vou encontrar meus amigos num almoço em comemoração ao meu aniversário naquela de “talvez, quem sabe o inesperado faça uma surpresa”, como diria aquela música do Johnny Alf, e ele fez.
Walter, um dos meus camaradas, me bota no celular para falar com o Quinha. Eu fiquei ali falando com um dos meus ídolos de adolescência, relembrando histórias que ficaram marcadas em mim e já estavam adormecidas na lembrança dele.
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Fui membro da Banda Marcial do Colégio Duque de Caxias. Tocava tarol. Miseravelmente não há uma fotozinha sequer de mim na banda. Acho que um dia vou lá no Duque para fuçar no acervo de imagens do colégio. Eu tenho que aparecer, nem que de longe, em alguma foto. Noutro dia, estava procurando sei lá o quê e achei a minha primeira camisa da banda. Essa aí da foto.
Ah... Era tão bom! Viajávamos muito com a banda, chegamos a ir a Porto Alegre participar de um desfile do Lions Club, representando o Rio de Janeiro. Quando a gente viajava, normalmente íamos de ônibus. A direção sempre fretava dois: um para os rapazes, outro para as moças e os menorzinhos. Eu inclusive. Com treze, catorze anos, eu era um guri. Podia ir junto com as moças, visto que às vezes a porrada comia no ônibus dos rapazes. Eu achava ótimo estar no meio da mulherada. Ia sempre ao lado da baliza da banda. Aliás, pra variar, me apaixonei por ela. Seu nome era Amália Rangel. Gostaria de saber como ela está hoje. Na época, era um mulherão, um corpo de Certinha do Lalau. Ela dizia que eu era uma gracinha, que se fosse um pouquinho mais velho, me namoraria. Ai, ai... (suspiro)
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Eu gostava de ir para o colégio. Tive professores maravilhosos. Lembro de cada um deles... Professoras Damiana, Nêudima, Consuelo, Gerusa... depois os professores do ginásio, do científico... alguns são inesquecíveis: Abelard Brayner, de Geografia e História.

Quando ele descobriu que eu lia a Bíblia e sabia contar as histórias contidas neste livro, me chamava à frente da turma e pedia para eu narrar a saga dos patriarcas: Abraão, Isaac, Jacó, José... E os meus colegas prestavam a maior atenção! Devia ser o ator dentro de mim se manifestando, sem eu perceber. Uma outra professora que não esqueço era a Marília, de Português. Aprendi muitíssimo com ela. E era maravilhoso também ir para a escada de acesso à sala dos professores para vê-la subindo e olhar de relance as calcinhas dela. A moçada ia ao delírio! Aliás, por falar em calcinha, tinha uma professora de inglês que ia com uma minissaia tão pequena e se sentava tão sem-modos que a gente nas primeiras filas percebia quando ela estava com uma pequena inflamação nas amígdalas...
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Tantos ótimos professores... Joel, de Biologia; Rozendo, de Matemática; João, de Física; Gianne, de Latim e OSPB...

Mas além do corpo docente, era maravilhoso conviver com meus amigos. Hoje em dia, leio nos jornais sobre perversidades que crianças e jovens fazem uns com os outros. Por puro sadismo, por sentir prazer, espancam os mais indefesos, a ponto de tirar sangue ou mesmo deixar marcas profundas no corpo e na alma. Ir à escola para alguns é um verdadeiro suplício. Para mim, para os meus amigos, era um prazer. Não estou dizendo que éramos santinhos. Não. Eu adorava botar apelido em todo mundo, e todo mundo me botava apelido. Faziámos por gozação, não para humilhar. E ninguém daquela época virou criminoso ou teve de recorrer a psicólogo para sanar neuroses e traumas.
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Tanto é que trinta e tantos anos depois, amigos que estudaram no velho Duque, hoje são pessoas de bem, de ótima formação moral, e cultivam a verdadeira amizade. Aqueles moleques que jogavam futebol totó, futebol de botões, ou mesmo futebol no velho time Apolo Futebol Clube que criamos, ainda hoje riem e se divertem como meninos, nem levando em conta a neve do tempo que orvalhou seus cabelos. Aqueles sacanas que se apelidavam de Princesa, Boi, Filé de Borboleta, Siri, Gastão, Ossada de Dana de Teffé quando se reúnem parecem ter saído da fonte da juventude, despertando uma deliciosa inveja em quantos os vêem brincar de viver.
Um brinde a todos vocês, meus amigos, meus queridos irmãos...
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Bee Gees, cantando “I Started a Joke”. Essa música tem uma história comigo. Um colega meu da Banda Marcial, o Luís, tocava violão maravilhosamente. Num Festival de Música no Duque ele e um outro rapaz tocaram esta música e as meninas foram à loucura. Eu vi aquilo e o chamei para ser meu professor de violão, pois acreditava que se soubesse tocar, a mulherada estaria aos meus pés. Nem aprendi a tocar suficientemente bem, nem as moças se dignaram a me olhar... Talvez eu fosse a “piada” de que fala a letra da canção.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

De conversa em conversa


Foi lançado recentemente o livro “Conversando é que a gente se entende”, do meu caríssimo amigo Nelson Cunha Mello, grande professor, grande ator, com quem tive a honra de contracenar muitas vezes. Aliás, durante a última peça em que atuamos juntos ele já me falava de um livro que estava aprontando sobre expressões coloquiais brasileiras. Eu estava terminando o meu livro “Popularíssimo – O ator Brandão e seu tempo” e ele o dele. Nós conversávamos sobre estas expressões e eu dizia que também era um aficionado, gostava de pesquisar e coletar as origens destas frases deliciosas que falamos tão habitualmente quase como um bordão e, em muitas vezes, nem sabemos o que significam. Por ser um estudioso de mitologia grega, acabei descobrindo muitas origens destes ditos. Ao ler autores como Câmara Cascudo, Deonísio da Silva entre outros, acabei arrebanhando um vasto repertório de explicações das expressões. Quem me lê aqui há mais tempo sabe que minhas explicações para estas expressões constituem seção fixa deste blog. Já fui até pauta de um jornal de Vitória, Espírito Santo, que fez uma matéria comigo sobre estes ditos e minhas histórias.
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Mas quero falar sobre o livro do meu amigo Nelson, que compilou mais de dez mil destas expressões, fazendo um dicionário fundamental, importantíssimo, que haverá de elucidar a quantos se interessem por saber o significado e o sentido de frases como “não vale o que o gato enterra”, “mais feliz que pinto no lixo” e “quando o cara está com azar, cai de bunda e quebra o pau”, por exemplo.
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Há uma parte do livro em que o Nelson esclarece sobre a origem de várias expressões, assim como faço aqui e esta parte é deveras interessante. Você acha de tudo lá. Desde bordões de televisão, passando por frases célebres do Teatro e da Música Popular Brasileira até frases antigas usadas há bastante tempo.
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E eu aprendi muito no livro! Tenho certeza de que quem lê-lo vai aprender também. Querem um exemplo? Sabem de onde vem a palavra “ce-cê”, como sinônimo de inhaca debaixo do suvaco? Das iniciais de “cheiro do corpo”. Diz o livro que esta palavra foi popularizada no início dos anos 40 do século passado, por intermédio da propaganda de um sabonete desodorante. Eu não sabia dessa...
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Outra ótima: “por um triz”. Olhem só que fantástico. A palavra “triz” vem do grego trikhós, que significa “cabelo”. Logo, perder (ou salvar) algo por um triz é o mesmo que perder (ou salvar) algo por um fio de cabelo, por alguma coisa mínima, muito pequena.
Mais uma: “emprenhar pelos ouvidos”. Essa é hilária. Provém da teoria de que a Virgem Maria foi fecundada pelo Espírito Santo, por intermédio de um raio luminoso que lhe passou pela orelha esquerda. E como era difícil para as pessoas acreditarem nesta história, ficou como sinônimo de “deixar-se levar por intrigas, fofocas, por informações orais sem comprovação”.
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Quem entre vocês não disse alguma vez: “ih, fulano foi para as cucuias”, significando que o tal fulano”bateu as botas”, “dançou”, “cantou para subir”, “esticou o pernil”, “bateu a caçuleta”, “foi comer capim pela raiz”? Várias vezes, não é? Sabe a razão dessas cucuias como sinônimo de morte? Do bairro chamado Cacuia, na ilha do Governador, cidade do Rio de Janeiro, onde está um cemitério, exatamente o Cemitério da Cacuia. Com o uso corrente, acabou virando a corruptela “cucuia” ou “cucuias”
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Aliás, sobre corruptelas o Nelson dá um show de bola e esclarece sobre o montão de expressões modificadas ao longo dos tempos, em muitos casos virando algo sem sentido, mas que as pessoas aceitam e passam adiante. Querem exemplos? “Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão”. O correto é “batatinha quando nasce espalha rama pelo chão”. “Cuspido e escarrado” vem de “esculpido em Carrara”, província italiana da região da Toscana, grande produtora de mármores e onde se trabalha esta pedra de forma magnífica. “Enfiar o pé na jaca” provém de “enfiar o pé no jacá”, uma espécie de cesto feito de cipó. “Estar com bicho-carpinteiro” tem duas explicações. A mais conhecida, e que é registrada no livro do Nelson, é pela corruptela de “estar com bicho pelo corpo inteiro”, ou seja, estar inquieto. Mas há versões que garantem que esta expressão vem de um dos nomes pelo qual o escaravelho é conhecido, exatamente como “bicho-carpinteiro” (inclusive está dicionarizado), pois ele está sempre roendo madeira. Por esta vertente, “estar com bicho-carpinteiro” seria o mesmo que parecer estar sendo roído por dentro, por escaravelhos, por bichos-carpinteiros.
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No livro do amigo Nelson estão várias expressões criadas por mim, que eu usava numa peça de Teatro que encenamos juntos há alguns anos. Era uma cena em que eu falava para uma atriz “volta pra mim, vamos fazer nheco-nheco!” E ela perguntava: “O que é nheco-nheco?” e, no original, eu dizia algo como “fazer aquilo”. Num dia de ensaio, eu mandei um “gratinar o canelone”, que é como eu falo às vezes me referindo a fazer amor, fazer sexo. O diretor gostou e me incentivou a falar mais destas bobagens. E aí eu despejei meu repertório inteiro de gírias para nheco-nheco. Empolgado, eu inventei várias, a cada dia eu chegava com uma diferente no espetáculo. Olhem só as que eu criei: levar a tora pra serrar, afogar a cobra caolha, pingar iogurte no mexilhão, gratinar o canelone, fazer um cachorro quente sem pão, botar o siri na toca, temperar o chouriço, lixar a linguiça, envernizar o cabeçudo, rechear o pastel de pelo, martelar o bife. E além destas, eu dizia outras que ouvi em minhas viagens, escutando gírias salientes aqui e ali, como por exemplo: descabelar o palhaço, escovar uma tripa, dar um tapa na coelha, botar o Jabaquara em campo, repartir a peruca no meio, amassar o capô do fusca, destroncar o pescoço da girafa, botar a baratinha no espeto, botar a perereca para tomar leite de canudinho e vai por aí a fora.
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O Nelson adorava ouvir estas bobagens que eu dizia e, para meu orgulho e alegria, acabou dicionarizando tudo isso em seu maravilhoso livro. Fico imaginando alguém, daqui a não sei quantas gerações futuras, pegando o livro do meu amigo e chamando a namorada para “botar o siri na toca”... De onde quer que eu esteja, estarei rindo à socapa, com a minha melhor cara de pau.
Amigos, não deixem de ler “Conversando é que a gente se entende”, de Nelson Cunha Mello, Editora Leya, por R$ 48,86 no site da Livraria da Travessa. É sopa no mel, vai que é mole.

M.S.
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Na TV Antigas Ternuras, você vê o Nelson Cunha Mello sendo entrevistado no Programa do Jô, falando sobre as expressões de seu livro.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Maria Solteirona


Numa noite dessas, tive um sonho enlouquecido. Bem, até aí nada de novo. Meus sonhos são sempre enlouquecidos. Eu nunca usei droga nenhuma e costumo dizer que nem preciso. Com os sonhos que tenho, parece que eu misturo LSD com Nescau e tomo um copo cheio na hora de dormir.
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No sonho, eu estava em alguma antiga cidade. Eu andava pelas ruas e ao cruzar com algumas pessoas elas me disseram: “Moço, cuidado com o fantasma da Maria Solteirona”. Eu achei aquilo muito curioso e perguntei que raio de fantasma era aquele e me explicaram que naquele lugar, houve uma mulher de nome Maria que morrera sem ter se casado. E como ela tinha cantado para subir virgem, sem ter colocado a baratinha no espeto, vagava à noite, com uma arma na mão, atrás de homens desacompanhados e quando os encontrava, os ameaçava com a garrucha. Disseram eles que teve muito homem que viu a Maria Solteirona, mas poucos sobreviveram para contar a história.
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Eu avisei a vocês que meus sonhos são coisa de maluco...
Bem, eu ouvi a história que me contaram e disse que não acreditava nisso, que estava com vontade de perambular pela rua porque queria chupar manga. E continuei a caminhada.
Daí que eu fiquei sozinho no lugar, ouvindo aquele zunido de vento nas árvores. Foi quando eu vi uma mulher vestida de noiva, com grinalda e tudo, com uma baita espingarda na mão. Ela era branquíssima, parecia que tinha talco no rosto. Nisso, o vento parou. Com o susto, cheguei a cair para trás. A aparição me apontou a arma e disse, com uma voz de filme do Vincent Price: “Você não acredita em mim, não? Pois vai ter que casar comigo ou vai morrer...”
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Eu me lembro da nítida sensação de aperto no peito e na garganta. Eu queria falar, tinha na mente a frase: “Espera... Calma... Vamos conversar...” Mas não saía nada! E aquela mulher branca, toda de branco se aproximando, dizendo que eu ia morrer.
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Foi quando minha namorada me acordou, perguntando porque eu estava gemendo e me debatendo. Meu pijama estava empapuçadão, meu coração batia no ritmo da seção de tamborins do Salgueiro. Caraco... Que mal estar!
Contei para ela o sonho que tive, rimos juntos e voltamos a dormir. Ela, bem mais rápido. Eu fiquei com receio de voltar para aquele pesadelo.
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A sensação de que eu estava vivenciando aquela história foi tão grande que depois procurei saber o que significa sonhar com fantasma. Há quem diga que são más notícias e há quem assegure que é sorte durante três dias.

Fiquei sabendo que noiva fantasma é coisa antiga, que existem muitas histórias, muitas lendas sobre isso, cada cidade tem a sua. Talvez pelo fato de vestirem branco com tecido transparente, talvez pela consequência social de uma mulher ser largada no altar... Aí já comecei a refletir sobre o assunto. Imaginei a pressão de uma sociedade machista e patriarcalista sobre a mulher para que ela exercesse sua função reprodutora que garantisse a perpetuação da família. E se ela era abandonada perto de deixar o celibato - uma anomalia que rotula a mulher como “solteirona” e antigamente a deixava estigmatizada por toda a vida, tendo que zelar pelo seu bom nome e sua virtude - aquele fato se transformaria numa carga excessivamente pesada que só poderia ser aliviada pela morte. E ela seria obrigatoriamente enterrada com o vestido de noiva (hábito que vem desde o Século XVII), acabando por se transformar um assombração.
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O assunto já estava ficando para lá de interessante. Resolvi pesquisar para saber se existiu mesmo alguma “Maria Solteirona”. Entrei na internet e... achei um monte de história de fantasmas de noivas e solteiras.
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Encontrei a lenda de “Ale Coelhinha”, uma mulher loura, solteira, razoavelmente bonita, embora dentuça, e que gostava de cair na noite, passando o rodo na rapaziada. Parecia que ela tinha calor na bacurinha e dava mais que chuchu na cerca. O comportamento liberal da moça provocou a inveja de uma vizinha solteirona que se incomodava com o fato da Coelhinha sair todas as noites caçando algum homem que quisesse afogar a cobra caolha nela. A rancorosa escreveu uma carta anônima, como se fosse de um dos rapazes que passaram pela cama da Ale, dizendo que tinha transmitido AIDS para ela. Desesperada, a moça foi fazer o exame. Quando saiu o resultado, ela nem quis abrir para ver. Acreditando que estava mesmo com a doença, foi para casa, colocou o envelope debaixo do travesseiro, tomou veneno e se matou. A invejosa, quando soube, deu boas gargalhadas. Mas quando foi dormir, sonhou que a loura lhe aparecia, fazendo acusações e prometendo que continuaria em espírito frequentando os mesmos lugares onde pegava os rapazes.
E muita gente viu suas aparições nas boates...
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Na Paraíba, em João Pessoa, no bairro de Engenho Velho, tem uma lenda que fala de Branca Dias, uma bela moça, noiva de um bom rapaz, que recebeu propostas indecorosas de um padre taradão, que queria botar a tora para serrar com ela. Como ela se recusasse, ele a denunciou à Inquisição e ela virou picanha assada nas fogueiras do Vaticano Grill. A partir daquele momento, muita gente passou a ver o fantasma da moça vagando pelas ruas do lugar.
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Em Minas Gerais, terra mater de todas as lendas urbanas que envolvem fantasmas, tem a da noiva de Congonhas que foi abandonada pelo noivo que resolveu virar padre. Em total desespero, ela se matou, cortando os pulsos, no próprio seminário (onde hoje está a Escola Municipal Fortunata de Freitas Junqueira) e a partir de então, ela vive assombrando os alunos, ora nos corredores, ora no banheiro feminino (ainda bem. Já pensou um moleque com o passarinho de fora, urinando, e dá de cara com a noiva fantasma? Na hora o pinto dele murcha e vira uma verruga!).
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Em Faxinal, no Paraná, certa vez uma família estava andando pela estrada a noite quando a criança que estava com eles viu uma moça de branco, sentada numa pedra, fazendo crochê. Ela disse para a mãe: “Olha que moça bonita!” A mãe olhou na direção que ela apontara e não viu nada. A mulher ficou intrigada e foi pesquisar para saber se havia alguma história esquisita acontecida por ali. Soube, então, que um noivo matou a noiva, pouco antes de se casar, e jogou o corpo exatamente naquele lugar.
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A história mais próxima da minha “Maria Solteirona” é a da “Noivinha fantasma do Cemitério da Água Verde”, em Curitiba. Diz-se por lá que uma noiva foi abandonada pelo noivo e acabou morrendo de desgosto. Então passou a vagar como alma penada pelo lugar, abordando homens desacompanhados que passam por ali, procurando um outro noivo. Ai que mêda!
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Vejam só que coisa... Eu tenho um pesadelo com noiva fantasma (que não sei como se instalou no meu subconsciente) e acabo descobrindo um assunto interessantíssimo para post.
E você, já viu alguma noiva fantasma?
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o tango “Por una cabeza”, orquestrado por Astor Piazzola para o filme “Perfume de Mulher”.

Quarta-feira, Outubro 14, 2009

"Sob a luz bruxuleante de uma vela..."


Na Hora H, na hora da verdade, a gente corre por fora, abraçando causas, a ferro e fogo, acenando com possibilidades. Isso em grande estilo. Juro de pés juntos, sem meias-verdades, a olhos vistos. Não quero deixar dúvidas no ar, mas sob a luz bruxuleante de uma vela, fazendo um exame de consciência, digo que essa confusão é página virada. É hora de renovar as esperanças, de mostrar o nosso poder de fogo, de entrar para rachar. Sem dormir no ponto.
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Este texto enlouquecido aí de cima é um largo exemplo de chavões, clichês, lugares-comuns, frases feitas. A maioria dos bons escritores foge dos clichês como o diabo foge da cruz. Aliás, esta expressão é um baita dum chavão.
Diz o dicionário que clichê ou chavão são expressões desgastadas pelo uso constante, modismos que empobrecem o discurso falado ou escrito. E o pior é que essa praga se infiltra no vocabulário nosso de cada dia e é quase impossível não proferir um ou outro clichê. Especialmente quando estamos naquela conversinha besta, sem compromisso. Quem aí não entrou num elevador com o vizinho e para quebrar o silêncio não disse: “Está um calor de matar!”, “vem chuva aí”, “dia abafado, não é?”
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Porém o chavão cotidiano é um pouco mais palatável que o escrito, ou o dito nos meios de comunicação. Estatisticamente, dizem os estudiosos que o vocabulário médio das pessoas está oscilando pelas 150 palavras, e que entre os mais jovens, não passa de cem. Talvez seja verdade. Nunca se ofereceu tanta informação, tantos meios de comunicação e mesmo assim vivemos tempos em que se lê muito pouco, vai entender.
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E como não há o hábito de expandir o conhecimento pela leitura variada (jornais, livros, revistas de informação), muita gente apela para os velhos clichês na hora de falar e/ou escrever. As pessoas tem preguiça de ler. Tem preguiça de procurar um estilo elegante de escrever e-Mails, MSN, Orkut, twitter...
O tempo das pessoas está cada vez mais exíguo. Faz-se muitas coisas ao mesmo tempo, a comunicação tem que ser rápida, evitam palavras com mais de duas sílabas. A tendência é reduzir tudo para um dissílabo, no máximo, estourando, um trissílabo. Pois é. No nosso patropi, as pessoas querem ficar sussas, com tudo belê, então o negócio é no pá-pum. Falar, escrever “país tropical”, “sossegadas” ou “beleza”, toma tempo, e tempo ninguém tem de sobra.
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Atualmente, para a minha tristeza, a minha classe profissional, a dos jornalistas, é a que mais usa clichês, chavões. Eu leio os artigos nos jornais, ouço os telejornais e me pergunto para onde teriam ido a elegância vocabular dos bambas do passado, como Nelson Rodrigues, Castelinho, Rubem Braga, Joel Silveira, Drummond, João Saldanha...
Aliás, o jornalismo esportivo é o principal repetidor de chavões. Chega a dar raiva ver tanta pobreza vocabular nos coleguinhas. Antigamente, locutores diziam que um time estava atacando, avançando, subindo ao ataque, penetrando, agredindo, arremetendo, invadindo o campo adversário... Hoje só dizem: “chegando”. E só. É “chegar” para tudo, qualquer coisa que um jogador faça é “chegar”. E as palavras “vencer” e “vitória” que estão entrando em extinção? Hoje, um time não quer vencer, ganhar, alcançar a vitória. Só querem o “resultado”. Mas, com mil tubarões, o que vem a ser “resultado”?
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Às vezes tenho a impressão de que ninguém quer ser original em nada, que o mundo caminha para a padronização total e global de tudo, de roupas, de penteados, hábitos, modos de falar... Noutro dia, eu estava num shopping, esperando a sessão de cinema começar, comecei a prestar atenção nas pessoas que passavam por mim. A maioria se vestia igual, com penteados muito parecidos, todas tatuadas, quase todas com percings e rigorosamente todas falando do mesmo jeito.
Aquilo me lembrou uma linha de produção!
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Sei que estou malhando em ferro frio, fazendo tempestade em copo d’água, usando mão-de-ferro, buscando uma tábua de salvação, querendo sacudir a poeira da língua falada e escrita. Bem, trocando em miúdos, sem golpe baixo, é o que eu queria dizer. Será que vem chumbo grosso por aí?
M.S.

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Na TV Antigas Ternuras, você vê um vídeo de 56 segundos que poderíamos intitular, usando uma frase feita, como: “a necessidade faz o sapo pular”.