sexta-feira, julho 20, 2007

Estas botas foram feitas para caminhar


Entre as seções fixas deste blog, uma das que mais gosto de fazer é a “Origem de expressões que costumamos usar mas não sabemos de onde vem”. Como já disse aqui, sempre tive a maior curiosidade em investigar isso. É uma de minhas antigas ternuras, mesmo!
Escolhi desta vez contar as origens de:

Onde Judas perdeu as botas.

O significado, para quem não sabe, é lugar longínquo, distante, láááá longe. Tem uma outra expressão com o mesmo sentido, que fala de uma certa parte remota da anotomia do Judas, onde o sol não alcança. Mas vamos falar somente de suas peças do vestuário.
Li sobre essa num dos livros do Câmara Cascudo. Mas... não sei, não... A explicação que ele deu é meio duvidosa.
*

Segundo ele, depois que Judas traiu Jesus, ficou mortificado de remorsos e acabou se enforcando em uma árvore (a própria Bíblia tem dúvida: em Mateus, ele se enforcou; em Atos, ele se jogou de um precipício). Diz o nobre Cascudo que ele se matou sem as botas e que não acharam com ele os famosos 30 dinheiros (na verdade, siclos de prata). Daí, soldados romanos e alguns aventureiros partiram em busca das botas do Judas, onde ele presumivelmente teria escondido o saco com as moedas de prata. Dizem que foram longe atrás do calçado. Não se sabe se acharam ou não. De qualquer forma, a expressão passou adiante como um lugar inacessível, muito distante.
*
Bem, esta explicação tem dois problemas muito complicados. O primeiro é que dificilmente Judas teria aceitado as moedas. Ele não entregou Jesus por dinheiro, mesmo porque ele não precisava. Há indicativos de que ele era rico, o mais endinheirado dos apóstolos, junto com Mateus, ex-coletor de impostos. Li em algum lugar que Judas tinha sido designado por Jesus como tesoureiro do grupo, justamente por ser o cheio da grana da rapaziada, graças à sua família de ricos comerciantes na aldeia de Queriote (seu nome vinha de ish Qeryoth, “filho da cidade de Queriote”).
*

“Mas por que ele entregou Jesus?” Perguntariam vocês. Bem, Judas era ligado a um grupo subversivo que planejava atos de terrorismo contra os dominadores romanos. Ele era um judeu conhecedor do Torá e acreditava piamente que o “Messias” viria para libertar a Judéia do jugo romano. E ele sabia que esse Messias era Jesus. Só que nas Escrituras estava escrito que o enviado de Deus viria com a espada vingadora e que lideraria um baita exército contra os opressores. E Jesus ficava naquele discurso de paz e amor, parará...pereré... Ele imaginou que se provocasse Cristo, Ele se insurgiria contra os soldados de Roma e a porrada iria comer.
*

Judas foi dar a informação ao Sinédrio na esperança de ver o circo pegar fogo. Como era praxe, quem desse informações aos soldados do Templo fazia jus ao prêmio de 30 moedas de prata (não era um grande valor, na verdade). Muito provavelmente, Judas nem tocou nessa grana (veja no quadro ao lado). Ele queria ver sangue. E, de qualquer forma, viu.
*

A outra coisa difícil de engolir nesta história das botas era o fato de que ninguém naquela época, na Judéia, usava botas. Mesmo porque, com aquele calor boçal de lá, botas iriam assar os pés de quem as usasse, provocando um chulé monumental de fazer ressuscitar o mar Morto para vê-lo morrer de novo com a inhaca. Se os habitantes da Judéia usassem botas e sem meias ainda por cima, o primeiro milagre de Jesus não seria transformar água em vinho e sim, água em Polvilho Antisséptico Granado e vinho em Tênys Pé Baruel!
*

E se Judas escondesse as moedas nas botas, o dinheiro estaria para sempre contaminado pelo chulé, não servindo mais para o comércio. Lembrem-se que judeus são conhecidos por seus enormes narizes. No que a catinga do parmezón chegasse naquelas largas fossas nasais, ia ter judeu chamando Jesus de “Genésio”. E mais: Pôncius Pilatos não iria lavar só as mãos: aproveitaria e lavaria o corpo todo para ver se conseguiria se livrar do fedor monstruoso que pairaria na Galiléia.
*

Já imaginaram Jesus na cerimônia do “lava-pés”, com seus apóstolos descalçando botas? A profecia não se cumpriria! Em vez de morrer na cruz, ele faleceria envenenado pela carniça chulezenta! E que imagem teriam as igrejas hoje? O Mestre Jesus caído no chão, com a língua de fora, olhos revirados, segurando uma bota fedorenta! Olha a situação!
*
Mas, se Judas não usava botas, de onde veio a expressão?
Bem... Tem uma outra hipótese que andei vendo. É tão fantasiosa quanto, mas...
Diz uma lenda que houve um judeu, de nome Ahsverus (ou Ahsuerus), habitante de Jerusalém; sapateiro por profissão. Sua oficina ficava no trajeto de Jesus, rumo ao Calvário. E quando o Divino Mestre passou diante de seu estabelecimento, Ahsverus o teria insultado e debochado de seu infortúnio. A lenda diz que Jesus o amaldiçoou (imagina...) a zanzar pelo mundo, sem morrer, até o Dia do Juízo Final.

Nasceu aí a lenda do “Judeu Errante”. E essa história correu chão. Um bispo da Armênia jurou, no Século 4, que conhecera uma testemunha da paixão de Cristo. No Século 7, viram o andarilho em Damasco. Séculos depois, o tal highlander estava na Espanha e depois na Itália. No Século 16, na Alemanha. Até no Brasil disseram que o viram em Pernambuco, durante o domínio holandês, lá no Século17. Disseram que de lá, ele foi para Minas Gerais, tendo sido visto chorando sangue numa Sexta-Feira da Paixão.
Bem, eu não queria falar nada, não, mas... Eu vi na TV um cara com as características do Judeu Errante, um sujeito amaldiçoado, na torcida do vasco, uniformizado e com um cartaz escrito "Filma eu Galvão!".
A expressão das botas se referiria a este personagem por sua profissão de sapateiro e por ser andarilho. E lembre-se que o radical “Judá”, presente em “Judas” e em “judeu” torna as coisas bem parecidas. Um judeu amaldiçoado se confunde com o chamado “grande traidor”. Isso faz sentido.
*
De qualquer forma, quando você se referir a um lugar distante como “aquele onde Judas perdeu as botas”, tente mudar para “onde Judas coçou o calo”, ou “onde Judas machucou o joanete”, ou quiçá, “onde Judas arrumou uma unha encravada”.

M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Theme from Exodus”, com 101 Strings.
***********************************************
Em tempo: Quem gosta de um bom texto, de belos poemas, não pode deixar de ler o livro da minha amigapratodavida Marcia (Clarinha) do Brincando com as Palavras. Aliás, este é o nome do belo livro. Se eu fosse vocês, iriam no blog dela e o comprariam rapidinho. Eu já comprei o meu exemplar. Recomendo!

28 comentários:

Bruxinhachellot disse...

Marco essa do chulé foi demais. Obrigada por nos mostrar o significado dessas expressões que usamos no quotidiano, mas nem ao menos buscamos sua origem.

Beijos de amigo.

Claudinha disse...

Oi Marco!
Nossa, aprendi bastante sobre Judas hoje. Não sabia destes detalhes, agora quanto a esta do chulé, hahahaha. Não adiantaria pó granado nem Tenis pé, teria que ser Lysoform puro para agüentar a inhaca... Ótimo post (como sempre).
Um feliz dia do amigo, pra você e todos os amigos aqui do blog!
Beijo!

Lili disse...

Muito interessante! Nunca tinha parado pra pensar e aprendi bastante, mas fiquei satisfeita mesmo foi em saber que não se sabe ao certo como foi que ele... bateu as botas!

Feliz Dia do Amigo para você também, querido.

Beijos e ótimo fim de semana!

Márcia(clarinha) disse...

Amigopratodavida, puf,puf,puf[leia eu cansada correndo,rsss] ainda é hoje e se ainda é hoje feliz dia do amigo!!!!
Gostei dessa de onde Judas coçou o calo, rsss, mas calo se coça ou se arranca? hummmm
lindo findi
beijos

Renata disse...

Marco, adoro essa "coluna", pois nunca sei de onde vem essas expressões tão comuns no nosso dia a dia! Quanto ao chulé...kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk !!!!!

bjos e ótimo fds!

Sahmany disse...

Fantástico!
Nunca parei pra pensar nesta história das botas.
Bacana sua casa.
Fica com Deus.

Janaina Staciarini disse...

Eu tô só imaginando os calos e joanetes do Judas...
Hehehe.
Beijão, Marco!

benechaves disse...

Marco: outra excelente postagem com a sua irreverência de sempre aliando uma mistura entre antigos e modernos termos. Também existe a expressão 'lá nos cafundós-do-judas', para designar um lugar ermo e afastado,longe pra burro.

Um abraço...

Armando disse...

Só uma "figura" com vc para imaginar tanta coisa numa simples bota...rsrsrs. Valeu, Marco!

Saramar disse...

rsssssssssss...
Marco eu sempre choro quando venho aqui, de emoção ou de tanto rir.
Essa sua explicação foi sensacional...Coitado de Jesus.


beijos

Francisco Sobreira disse...

Grande Marco,
Já lhe disse, mas não custa repetir: sem desmerecer os outros temas do seu blogue, o que mais me fascina é o que trata da origem de certas expressões populares. E (também já lhe disse e mais de uma vez) além do tema me fascinar, me agrada demais a maneira engraçada, às vezes irreverente, de relatá-lo. Agora, você veja a coincidência. O assunto que está no meu blogue, postado ontem, versa sobre expressões populares. Um grande abraço e uma bela semana.

Tina disse...

Oi Marco!

Fico na minha: não opino e nem discuto sobre política e/ou religião. E mantenho a velha máxima: não concordo, mas respeito.

Agora , quanto a Marcia-Clarinha com certeza opino e assino embaixo: the best! Já adquiri meu exemplar, com certeza.

beijos querido e boa semana,

Bosco Sobreira disse...

Caro Marco,
Só para agradecer tuas visitas e dizer que, felizmente, posso retornar ao hábito de ler tuas crônicas deliciosas.
Forte abraço e uma boa semana.

Lila Rose disse...

Marco, meu querido!!!

Saudades do teu cantinho, viu?

Ahahaha...adorei o humor com que tratou do assunto. Eu costumo dizer "lá onde Judas perdeu as meias"...quando quero enfatizar que é longe messssmo...rsrsrsrs

Se ele usava meias eu não sei, mas que ajudaria com a questão do chulé, isso é fato.

Bisous!

guiga (olga) disse...

Ai meu Deus, como eu adoro o teu blog!
Este post está magnífico!
Quando à explicação... Não sei... Pode ser que judas se tenha enforcado sem o calçado. Porém, o que pode não estar correcto é o termo botas! podiam ser sandálias mesmo! loool
Enfim, há coisas para as quais não é fácil encontrar explicação. Mas, isso também faz com que as coisas tenham mais fascínio, não é?

Uma óptima semana para ti!
*.*

Taís Morais disse...

hahahahaha, obrigada por mais essa.
No entanto, como não seide nada, utilizo sempre a expressão:
"onde Judas perdeu as sandálias", acho que fica "mais melhor".

beijos e beijos

boa semana

Taís

DO disse...

Nem em meus devaneios eu poderia imaginar que a origem desta expressão fosse isto,MARCO.
Confesso que adoro qdo vc coloca esta sessão.

Abração e uma otima semana.

Lino disse...

Marco:
Judas não podia perder as botas, pois elas não existiam na época. Se fosse sandálias, seria mais aceitável.
Achco que o Cascudo está por fora. E qualquer das duas hipóteses são, isso mesmo, hipóteses, pois nunca vamos saber.

Fernanda disse...

Lá vem o Marco mais uma vez com um dos seus posts brilhantes!!! Sobre Judas, eu li o livro "O Segredo do Anel" que fala sobre o evangelho de Maria Madalena. Ela conta no evangelho que o próprio Jesus escolheu Judas para que o traísse, pois ele (Jesus) estava designado por Deus para passar por isso. Judas relutou em aceitar. Na Santa Ceia, Jesus diz a Judas: "Faça o que tem que ser feito!". Para mim, Judas não foi um traidor, mas sim, um dos mais fiéis apóstolos de Jesus, pois, mesmo relutando, obedeceu às ordens de seu Mestre!

Recebi o seu e-mail e respondi faz uma hora mais ou menos!

Kisses

Erika disse...

Ufa, demorei, mas cheguei. é que eu vim lá dos confins do Judas.. rsrs

Eu já tinha ouvido tbm que a expressão correta, ao invés de "onde o Judas perdeu as botas" era "Onde o Judas bateu as botas" porque diz a "história" que Judas foi se enforcar num lugar muiiiiiiiiiiiiito longe, devido a sua vergonha, etc e tal.

Mas eu o máximo as explicações que vc acha prás coisas por aqui.. rsrs

Uma vez teve um programa na Globo Minas sobre essas expressões.. e vários professores explicando um monte delas. Foi bem legal.

Beijo

Lara disse...

Marco, mesmo fazendo menção ao meu Vascão não consegui deixar de dar boas risadas com o chulé de judas! hahahaha
beijos

Moacy Cirne disse...

Oi, estive aqui antes; pretendia deixar algum comentário, não o fiz na hora, e o tempo foi passando. Só queria dizer que o Mestre Cascudo às vezes exagerava, ou até mesmo inventava, mas não encontrei nada nele que fosse de encontro ao que você tão bem colocou. Um abraço.

adelaide amorim disse...

Acho uma delícia ler o que você escreve aqui. Gosto em especial do jeito como examina um assunto como esse como quem descasca uma fruta e chega até a semente... E o toque de irreverência torna tudo tão bom de ler! Abraço grande, Marco.

Mélica disse...

Que ótimo o teu post..
Obrigada pela visita e pelo carinho do comentário, vou te 'linkar' para ficar mais fácil de eu voltar sempre, ok? Gostei da variedade de temas daqui do blog. Ótima leitura! Beijos e que tenhas um ótimo dia!

guiga disse...

Andas muito desaparecido!
Espero que esteja tudo bem!

Beijos!*.*

Luciana Farias disse...

Amei a história do chulé do Judas, rsrsrsrs...

Beijão!!!

Anônimo disse...

QUANTA TOLICE! Lembrem-se que a água era escassa e caríssima .Valia mais do que o ouro e do que
o incenso e só Mirra tinha maior valor. Um pobre sapateiro mal tinha água pra lhe mitigar a sede,porisso a negou ao Nazareno que
ser crucificado .O nazareno indignou-se e me condenou à vida eterna até a sua volta .
Essa lenda é falsa EU vou indo muito bem há mais de dois mil anos e agora ando de sala em sala do BATE PAPO SEM GASTAR SAPATOS , correndo mundo ,como foi previsto pelo Messias ,confortavelmente sentado , numa poltrona e sem gastar sola de sapatos . Com uma geladeira cheia de água geladinha pra quando ele voltar . Mas se preferir também tenho umas cervejotas estlando de geladas

Anônimo disse...

QUANTA TOLICE! Lembrem-se que a água era escassa e caríssima .Valia mais do que o ouro e do que
o incenso e só Mirra tinha maior valor. Um pobre sapateiro mal tinha água pra lhe mitigar a sede,porisso a negou ao Nazareno que
ser crucificado .O nazareno indignou-se e me condenou à vida eterna até a sua volta .
Essa lenda é falsa EU vou indo muito bem há mais de dois mil anos e agora ando de sala em sala do BATE PAPO SEM GASTAR SAPATOS , correndo mundo ,como foi previsto pelo Messias ,confortavelmente sentado , numa poltrona e sem gastar sola de sapatos . Com uma geladeira cheia de água geladinha pra quando ele voltar . Mas se preferir também tenho umas cervejotas estlando de geladas