quarta-feira, julho 25, 2007

Que nos resta?


Noutro dia, vendo um programa do National Geographic, assisti a uma orca atacando um bando de focas. Ela abocanhou uma delas e a arremessou para o ar, na direção do mar alto. E durante bom tempo, ficou nisso: pegava a foquinha e jogava de um lado pro outro. A alguns olhos, poderia parecer um ato de crueldade. A outros, inclusive aos meus, nem tanto. Não vi nenhuma diferença naquele gesto e na maneira como crianças brincam com a comida (eu fiz tanto isso no tempo das antigas ternuras...), fazendo desenhos com ela no prato, deixando o bife para comer por último e saboreando cada pedacinho...
*
Não vejo crueldade nos animais. Nem entre espécies, nem interespécies. Eles atacam para se defender, para se alimentar ou para demarcar território. Se em muitos casos esse jogo da vida parece cruel, peço que atentem a relatividade dos casos. Se a gente vê uma criancinha mordiscar com gosto um pedaço de filé de tubarão, achamos uma gracinha. Se vemos um tubarão abocanhar uma criança, sentimos indizível horror.
*

Recentemente, fui assistir ao filme “A vida secreta das palavras” (Espanha, 2005, dir. Isabel Coiet). É baseado em história real. Trata de uma imigrante surda refugiada da antiga Iugoslávia, que trabalha como operária em uma indústria. Ela é praticamente obrigada a tirar férias pelo chefe. Resolve trabalhar como enfermeira de um homem que sofreu queimaduras em um acidente numa plataforma de extração de petróleo. Com Sarah Polley, Tim Robins, Javier Cámara, Julie Christie.
*
Este filme é absolutamente perturbador. É de estarrecer a descrição que a protagonista faz dos terrores acontecidos quando a Iugoslávia se desintegrou e começou a guerra civil! Ela e uma amiga foram abordadas por compatriotas, levadas presas sem mais nem menos e estupradas por dias e noites pelo batalhão. Estupradas, espancadas (acabou surda de tanto apanhar na cara), humilhadas. Para se divertir, os soldados faziam cortes com punhal na pele das mulheres, colocavam sal e cosiam com agulha e linha de costura. Isso, às gargalhadas. E se as mulheres gritassem, mais eles as atormentavam. Por puro prazer.
Quando as mulheres foram libertadas, estavam destroçadas mentalmente. E nessa eu descobri que existe uma organização humanitária, destinada a socorrer e dar tratamento a estes refugiados. No fim do filme, aparecem prateleiras repletas de fitas com o histórico dessas pessoas que ainda tentam se socializar, depois de tudo o que sofreram.
*
Saí do cinema me perguntando: o que leva pessoas a causarem mal às outras, assim, de graça? Por que se divertir com o sofrimento alheio? Claro que isso não é novidade. Historicamente, sempre o Homem causou sofrimento ao seu semelhante.

Pinçando aleatoriamente na História, do início da Era Cristã até hoje, vejam alguns dos piores momentos da Humanidade: o massacre de cristãos pelos romanos, que os perseguiam e os submetiam às mais horrendas torturas; o Cristianismo vencendo, e passando a submeter pessoas a suplícios sem fim, em nome de Deus (o que cristãos fizeram com os maometanos nas Cruzadas deve ter entristecido muito ao Senhor Pai); Gengis Khan e seu flagelo de Deus, matando com requintes de crueldade; as torturas que a Inquisição católica fazia com judeus e quem achavam ser herege; a expansão do catolicismo e do poder europeu pelas grandes navegações (na Índia, Vasco da Gama mandou amarrar nobres ligados ao samorim de Calicut na boca dos canhões e ordenou que disparassem. De alguém com um nome como esse só podemos esperar coisas ruins...); na Revolução Francesa, a turba ensandecida cobriu de sangue as ruas de França; na Revolução Industrial inglesa, crianças eram submetidas a toda sorte de maus tratos; na expansão colonialista européia, populações inteiras foram dizimadas nas Américas, na África, na Ásia e Oceania (destaque para os massacres de incas, astecas, maias, índios norte, centro e sulamericanos, por monstros como Cortés, bandeirantes brasileiros, aventureiros ianques e tantos mais);

uso de armas químicas de destruição de massa na I Guerra Mundial; as atrocidades nazistas nos anos 30 e 40 (vi recentemente “O pianista” e quem quer exemplo de algumas das perversidades que um ser humano pode proporcionar a outro, veja este filme baseado em fatos reais); os crimes contra a humanidade cometidos pelos USA no Vietnam;

o massacre de milhares no Cambodja; as torturas, sevícias e assassinatos praticados pelos comunistas de Mao na China; as lutas fratricidas na África, onde irmãos negros matam e mutilam, e usam crianças para toda sorte de atrocidades; as lutas na Sérvia, Montenegro e antigas repúblicas iugoslavas; a carnificina comandada por Saddam Houssein no Iraque; as barbaridades que americanos fizeram e fazem no Iraque e na base de Guantánamo...
*
E nós, aqui no Brasil, na guerra urbana em que vivemos, também estamos cercados pela iniquidade. Traficantes chacinam pessoas ao seu bel prazer; a polícia espanca e mata moradores e trabalhadores por pura maldade (vide o caso do trabalhador esbofeteado por nada por soldados da PM e assassinado quando reagiu), rapazes de classe média botam fogo em um índio, uma criança é arrastada pelas ruas, uma mulher é espancada por diversão... E vai por aí.
*
Seria, então, o gênero humano a verdadeira praga sobre a Terra? Nossa natureza é veramente falha, cruel, perversa? Recentemente, cientistas alemães fizeram estudo em que concluíram ser a maldade um sentimento exclusivamente humano (está nO Globo de 18 de julho!).

Bem, o que salva é saber que nem todos os seres humanos são psicopatas assassinos. Se a humanidade produziu um Hitler, também fez um Chico Xavier. Um odiava generalizadamente; o outro amava os semelhantes, chorava com eles, se doava ao máximo em prol dos irmãozinhos. Se hoje existem genocidas como George W. Bush, Osama bin Laden e os traficantes de drogas e de armas... também há uma multidão de anônimos que se dedicam a minorar o sofrimento de muitos. Gente simples que é invisível para a grande mídia, para a imensa maioria que desconhece seus atos de benemerência. Pessoas que fazem caridade por amor ao próximo, seguindo à risca os ensinamentos do Mestre Jesus.
*

Esses salvam o gênero humano da barbárie. Esses, diante de Deus, redimem a humanidade. E nos servem de ânimo e conforto, quando sabemos das tantas perversidades que há no mundo.

E como há maldade! Nem sabemos mais de onde vem e de onde não vem. Chamamos os animais de irracionais e como podemos chamar um comportamento como o nosso?
Lembro de uma frase do poeta espanhol Ramón de Campoamor: “En este mundo traidor, nada es verdad ni mentira. Todo es según el color del cristal com que se mira”. Uma grande verdade! Não se pode ter certezas neste mundo. A dureza da vida nos torna pragmáticos e, por isso, menos felizes. É a forma que encontramos de nos defender. Como disse o apóstolo Pedro, “o inimigo está rondando à nossa volta”.
*
E o que nos resta? Talvez viver. Como podemos. É. Viver. Enquanto refletimos sobre isso, que tal ouvir Sacha Distel?
M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Que rest-il de nous amour”, do grande Charles Trenet, aqui cantado pelo não menos memorável Sacha Distel.
***********************************************
Amigos, nesta semana tem texto do PteroMarco (ou seja, muá) no Playground dos Dinossauros. Quem quiser saber a história de dois amigos que resolveram atravessar a rua pelados e aí... Bem, é só ir até lá e ver o que aconteceu.

23 comentários:

Márcia(clarinha) disse...

Não podemos permitir que a prática da tortura gratuita e de tanta crueldade contra seu semelhante seja banalizada, hoje em dia pouco nos horroriza, quase nada nos atinge e nem a morte está sendo impactante como deveria ser...o ser humano está embrutecido e corajosamente covarde:(
feliz noite,amigopratodavida
beijos

maristela bairros disse...

VOU SER EXAGERADA E ATÉ ESCREVER EM CAIXA ALTA; QUE DEUS TE ABENÇOE. BEBI O TEXTO GOLE A GOLE E ME ARREPIEI INTEIRA COM O FINAL, INCLUINDO A CITAÇÃO DE CHICO (ESSA, FAZ FALTA PRA CARAMBA) E TEU CONVITE Á REFLEXÃO.
MOMENTO INSPIRADO, ESTE TEU. SIM. AINDA SOMOS ESPÍRITOS MUITO BRUTOS, MAS NÃO VAMOS PERDER A FÉ NA NOSSA POSSIBILIDADE DE EVOLUIR. ACHO QUE JÁ FOMOS PIORES ATÉ O QUE VEMOS É UM FINAL DE PROCESSO DE DEPURAMENTO.
TOMARA.
BJ GRANDE
maristela

Claudinha disse...

Marco, não podemos deixar de acreditar. Ainda bem que você terminou com estes anjos do bem,pois eu já estava querendo chorar. Você sabe dosar o texto, enfim, é um escritor. Acho que nos resta fazer nossa parte, viver, amar, cuidar do que é nosso, nossas escolhas e caminhos. Não abrir espaço para a violência. Amando atrairemos mais amor.
Excelente post, como sempre. Beijo!

Erika disse...

Bom dia Marco,

Infelizmente a gente tem chegado à conclusão de quem o bicho-homem é o único animal irracional, não é?
Que mata por puro prazer, que destrói por ganância, que engana e dissimula e desrespeita, até mesmo quem lhe é importante.

É triste constatar tudo isso, mas, ao mesmo tempo, é uma alegria imensa ver que existem sim pessoas ainda que fazem valer a pena, sempre.

Obrigada pelo elogio lá no Oncotô.. rsrs..
Claudinha é um doce de gente, além da voz, viu.

Beijo e ótimo dia procê.

guiga disse...

Também me faço essa pergunta vezes e vezes sem conta.
Vi o filme Pianista, chorei. É um filme verdadeiramente fantástico e emotivo. Já viste o Shooting Dogs? É sobre a guerra étnica entre hutu e tutsis...
Recomendo.
Não perco a fé, pois acredito que pessoas como a Madre Teresa - que tanto admiro - existem no mundo, mesmo incógnitas como tu dizes.
E esses são os que mais importam!!!
Ajudar o semelhante, sem olhar a diferenças étnicas, religiosas, culturais...
Aí está o verdadeiro objectivo de um ser humano, amar e amar-se!

Parabéns por mais um post magnífico!

Beijos! *.*

DO disse...

Por enquanto VIVER ainda é uma otima alternativa,MARCO. Mas estou cada vez mais preocupado com o futuro. Não o das próximas gerações,mas o nosso mesmo.
A coisa anda tão rapidamente ruim que já nos pegou em cheio.
E não vejo saida.

Grande abraço!!

Lara disse...

Marco esse um tema que já tirou meu sono algumas vezes. Quando ouço sobre a guerra no Iraque, ou o problema entre judeus e palestinos fico me perguntando de onde vem tanto ódio, tanta maldade. Porque simplesmente não podemos viver em paz com nossos semelhantes? Não encontro resposta pra isso...
beijos

Jéssica disse...

Lindamente triste, caberia tb tristemente lindo. Fui da emoção ao choro lendo esse teu texto. Ando sensível d+ por conta de problema particular e daí com tanta coisa ruim acontecendo em volta, não tem como não sofrer e se preocupar com o futuro. E concordo com o Do, o nosso futuro, pois td q é de ruim tem vendo a galope. Bela música. Um beijo*.*

Moacy Cirne disse...

Em poucas palavras, desde o primeiro tópico (orca/focas), você consegue dizer muitas verdades. Também não vejo crueldade nos animais. Ao contrário, se pensarmos num Hitler, num Stalin, num Pinochet, num Bush, naqueles que fizeram a "Santa" Inquisição, a coisa muda de figura. Todos eles representam, para mim, o Mal Absoluto. Em tempo: não vi "A vida secreta das palavras". Um abraço.

Márcia(clarinha) disse...

Lindo dia, amigopratodavida
beijos

Renata disse...

Marco,fiquei emocionada só de ler a sua descrição do filme, não sei se terei coragem de ver...mas eu adoro filmes que nos fazem pensar, então talvez em um dia mais corajoso..
E respondendo à sua questão eu acho sim, que os Homens são a verdadeira praga na terra..infelizmente.
Todo ser humano tem sim um lado sádico, uma pulsão de morte e um id que fica nos azucrinando com desejos irrealizáveis, MAS temos também o outro lado...qual deles vai ser mais forte? Aquele que alimentarmos mais (como na parábola dos lobos). Então meu amigo, vamos alimentar nossa compaixão, cooperação, amor ao próximo, ...
Bjos e ótimo fds!

Sandrinha disse...

perfeita da descricao do filme, fiquei emocionada.

Cristiane disse...

Caro amigo,
Já faz um tempinho que estive aqui, e por falta de tempo, nunca voltava, hoje voltei e que bom! Seu post está fantástico...Sempre fui apaixonada por História, meu irmão faz História e eu mesma pretendo voltar a faculdade para fazer História, mas leio muito e sempre converso sobre esses assuntos, as atrocidades, barbáries dos homens aos seus semelhnates em nome de coisas absurdas como as que você citou...e não param por aí, desde os primórdios dessa humanidade...Sinceramente, certas coisas ainda me assustam, mas refletindo nós vemos que: Só mudam as épocas, as datas, os séculos...no resto, tudo continua 100% igual, infelizmente...

Bela reflexão...Obrigada!
Um bom fim de semana, Cris

Bosco Sobreira disse...

Muito rica essa sua nova postagem, meu caro Marco. Na verdade, mais uma vez, vc. usa seu talento para nos fazer refletir sobre um tema que nos persegue desde os primórdios da humanidade. Sartre tinha razão: estamos muito longe de sermos homo sapiens...
Forte abraço.

Fernanda disse...

Nossa, Marco, chocante o seu post de hoje! Mas gostei da forma que terminou com vc citando Chico Xavier e o nosso Mestre Jesus! Se há pessoas que se divertem com a desgraça dos outros, há também aquelas que dedicam suas vidas inteiras em prol do próximo!

Mas ainda estamos em evolução! Espero que esta humanidade possa um dia ser digna de orgulho!!!

Um grande beijo

Mélica disse...

Que variedade de assuntos e ótima escrita... gostei muito de lê-lo!

Um ótimo fim de semana.. beijos!

Nena disse...

muitas vezes dá vergonha do homem...
Por isso eu sempre prefiro os bichinhos.Sempre.

Muito forte esse texto, Ternurovski meu amigo querido.

Um beijo muito saudoso e carinhoso

_Maga disse...

Chegou a um ponto que eu simplesmente não consegui mais ler Marco... o texto está muito impactante, forte. Nisso estão as suas qualidades. Nisso está o por que eu não consegui termina-lo.

bah... nem sei o que dizer...

beijos

Francisco Sobreira disse...

Olha eu aqui, Marco. Estou me recuperando bem da cirurgia e se acontecer o mesmo com a outra, na próxima segunda, creio que estarei atualizando o meu "Luzes" no próximo sábado. Aproveito para agradecer as suas palavras de "força", de ânimo. Qto ao seu texto de hoje, é, pelo menos desde que venho aqui, na forma, um Marco sem aquela marca de humor e de uma certa irreverência a que você nos acostumou,para desabafar toda a sua revolta e indignação contra a maldade e crueldade da raça humana, com a ressalva da parte boa. E concordo inteiramente com o que você diz. Um abraço e um feliz fim de semana.

Bruxinhachellot disse...

Marcos, venho pensando muito nessa questão, pois todo dia há um fato novo de brutalidade humana. Fico pensando: se fosse eu a criadora do mundo, estaria decepcionada e tentaria consertar minhas falhas. Minhas falhas? Sim, pois o homem é criatura de seu criador. Se você cria uma máquina e ela acusa defeitos, você não procura consertá-la? São milhões de anos perdidos. Será que precisamos de mais tempo para nos reinventarmos? Ouvia relatos de professores na faculdade que diziam ser amigos de mulheres que foram torturadas na ditadura e fiquei abismada com os meus "irmãos" humanos. Até onde a humanidade vai chegar com toda essa barbárie? Não há mais senso de respeito, de humildade, de amor, de esperança, de caridade, a não ser por parte de uma mísera parcela da humanidade. E então vamos vivendo aguardando a próxima bala, a próxima bomba, a próxima guerra mundial, o fim de tudo.

Beijos lendários.

Lila Rose disse...

Marco, acho que a única opção é viver mesmo. Mas como você bem colocou, cada um deveria refletir sobre o que tem feito para tornar o mundo melhor.

Eu não sou ativista, não grito, nem vou ao Planalto lutar, mas tenho a certeza absoluta de que faço diferença neste mundo: através do cuidado que ofereço as pessoas.

E não digo isso só porque sou enfermeira, como diz Leonardo Boff:
"não temos cuidado - NÓS SOMOS CUIDADO. Como se o cuidado fosse uma constituição ontológica subjacente a tudo que o ser humano empreende, projeta e faz, ou seja, o cuidado faz parte do ser humano, define o ser humano e estrutura a nossa prática".

Bisous e uma ótima semana.

Lili disse...

Também sempre me pergunto o que leva alguém a maltratar um pessoa gratuitamente, fisica ou psicologicamente. Como você diz, felizmente há os que fazem o bem.

Um beijão e ótima semana!

Sandra Leite disse...

preciso urgentemente assistir "A vida secreta das palavras"...Pareceu-me apetitoso

bjs