quarta-feira, novembro 15, 2006

Pedido de resposta vindo de thomas_morus@purgatorio.org


Prezado Senhor Marco Santos,
Perdoai-me a petulância de pedir-vos direito de resposta em função de vosso comunicado referido ao meu estimadíssimo amigo Erasmo de Rotterdam. Era para ele mesmo vos dirigir a missiva, mas pediu-me que o fizesse, afinal, como vos é sabido, quero supor, ele me dedicou a obra “Elogio à Loucura” que comentastes.
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Peço-vos, não estranheis o endereço com que me dirijo a vós. Por méritos talvez imerecidos, fui acomodado no que vós ainda encarnados chamais de Mansão Celestial, Paraíso ou correlatos. Entretanto, no Céu a Microsoft não entra. Nosso sistema operacional é bem diverso do Windows e seria de todo impossível eu enviar esta mensagem de lá para o vosso computador. Se não conseguiu entrar no Céu, a Microsoft fez acordo com Belzebu e instalou em todos os computadores infernais o Windows 98. Quem é enviado para lá só tem esse sistema para pagar seus pecados. Mas falando com as pessoas certas, é possível acessar do Purgatório, por intermédio de um programa pirata (ou “genérico”, como vós atualmente chamais...), e nos comunicar com vós outros aí na Terra.
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Vosso texto nos chegou ao conhecimento e vos adianto que dividiu as opiniões. Meu amigo Erasmo se sentiu ofendido por ser chamado de “Tremendão”(I beg your pardon, sir, mas, com mil tubarões, o que vem a ser isso?) e em seguida, considerou vossa linha de raciocínio como um despautério. Houve que cerrasse fileiras ao lado de meu preclaro amigo. Todavia, Mr. W. Shakespeare apreciou vossos argumentos, embora vos fizesse senões quanto ao estilo. Mas, como vós também sois gente de Teatro como ele, temo que os elogios sejam puro corporativismo da classe. Vosso texto também calou fundo junto ao público feminino daqui, capitaneado por Mrs. Catherine of Aragon, Mrs. Anne Boleyn, Mrs. Jane Seymour, Mrs. Anne of Cleves, Mrs. Catherine Howard e Mrs. Catherine Parr. Não sei se vós já as conhecíeis, mas são, ou melhor, foram as seis esposas de Sua Majestade Henry VIII...
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Sem mais delongas, desejo cumprir a missão pedida.
Meu bom amigo Erasmo escreveu o “Elogio à Loucura” como sátira, como um passatempo em uma cansativa viagem que fez da Itália para a Inglaterra. Disse-me ele que pensava em mim e conversava mentalmente comigo. Daí ter imaginado um trocadilho com meu sobrenome e a Mória (loucura, caso vós não sabeis. Lembrai-vos que o nome original da obra é Encomium Moriae). Na verdade, este seu livro não passou de uma pilhéria.

Ele, em seu prefácio, já mo advertia quanto aos muitos detratores que esta obra possivelmente levantaria até acusando-o de “frivolidade indigna de um teólogo”. Sim, ele me preveniu que muitos cacarejariam contra sua tentativa de comédia. Ele apenas e tão somente deu-se ao prazer de proporcionar vezos à tagarelice, elogiar a loucura sem louco ser. Rir é e sempre foi o melhor remédio e ridendo castigat mores (se me permitis o jocoso trocadilho com a forma inglesa do meu nome...Quero supor que vós sabeis que a tradução da frase é “o riso castiga os costumes”, posso?)
Meu bom amigo Erasmo pede que eu vos lembre de uma frase que ele escreveu no prefácio a mim dirigido e que porventura ignorais:
“Se houver, pois, alguém que se sinta ofendido por isso, deverá procurar descobrir as suas próprias mazelas, porque, do contrário, se tornará suspeito ao mostrar receio de ser objeto da minha censura. Muito mais livre e acerbo nesse gênero literário foi São Jerônimo, que nem sequer perdoava os nomes das pessoas!”
Portanto, caro escriba, não leveis tão a sério as tagarelices pilhéricas de meu amigo. Ele tem estima pelo belo sexo, sim, embora não tenha se casado. Esqueceis por acaso da proteção que lhe foi dada pela mui nobre castelhana Ana de Brosselen, Marquesa de Nassau?

Eu, pessoalmente, nem me deixaria turbar o espírito por suas diatribes para fazer boa presença junto a vossa amada. Mas meu nobre amigo pediu-me que esclarecesse o que parecera obscuro e injusto de vossa parte.
Em tempo: quando escrevi minha obra “Utopia”, inspirado fôra pelos relatos de Américo Vespúcio acerca do Novo Mundo descoberto, aonde posteriormente veio a se chamar de Brasil. Localizei aí meu reino utópico. Triste ironia... Daqui das Mansões Celestiais, vendo no que vosso país se transformou, aceiteis meus arrependimentos sobre tal pensamento que um dia tive. O Brasil é tão utópico quanto um vulcão ativo é refrigerado.
Sem mais, despeço-me estimando que estejais são dentro do espírito da alegre Loucura descrita por meu nobre amigo Erasmo de Rotterdam.
Atenciosamente,
Thomas Morus (dispenso o título de “Santo” com que me mimoseou a Santa Igreja. Especialmente o de “santo protetor dos políticos”. Como Vossa Senhoria mesma costuma dizer, como xiste: “inclua-me fora disso!”)
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Heartstrings” com Secret Garden. (Imagino que no Céu se escutem jóias preciosas como esta...).

23 comentários:

marconi leal disse...

Li com extremo gozo, Marco. Hilário. Perfeito. E fico feliz em saber que o Thomas está no Paraíso. Espero que, por toda a eternidade, lá o Thomas more. Abração.

Claudinha disse...

Uma aula muitíssimo bem bolada e bem humorada de história Marco. Parabéns! Beijo.

Evandro C. Guimarães disse...

Resposta afiada do cara, hein? Como é mesmo o nome dele? hehehe!
Brincadeira muito bem bolada, Marco. Como sempre acontece aqui.
Já respondi ao teu comentário no Restinga e comentei o seu post anterior.
Um abraço!

Claire disse...

Ironia de primeira, Marco. e eu pensei que depois do anterior ia ser difícil sair outro tão bom... Felizmente me enganei.
Os detalhes - a microsoft q não entra no Céu, a menção a Shakespeare como seu defensor porque homem de teatro, as esposas de Henrique VIII... dez. Dez!

Lili disse...

Ótima estratégia literária Marco. E como você gosta de expressões e ditados, lembrei-deste: o diabo quando não vem manda o secretário... Um beijo, caro.

Fernanda disse...

Ahahaha! Adorei o texto!!!

Kisses

Márcia(clarinha) disse...

Simplesmente genial meu queridoamigopratodavida!
Caraca! dá orgulho ler você,rssss
Hoje tô meio distraída,não me pergunte porque,não sei.
Acho mesmo que nas escolas assim deveriam nos ensinar,brincando.
linda noite
beijossssssssssss

Karine disse...

Adorei esse texto! Sempre bem humorado, inteligente e dando as alfinetadas necessárias!
Também adorei o de baixo e o de baixo do de baixo, mas não tenho tempo agora pra comentar em cada um!!!
Concordo com sua opinião sobre a "loucura" das mulheres... aliás, concordo com sua opinião em muuuuuuuuuuuitas coisas!
Beijo, amigo! Cuide-se bem!

cilene disse...

Amigo vou deixar para comentar o texto depois..porque minha cabeca esta para estourar a 4 dias..e seus textos sao especiais e profundos...espero que vc nao fique zangado comigo...obrigada.

DO disse...

Adorei sua ironia,Marcão.
Sensacional eu diria,hehehe.
Que outras "aulas" como esta estejam por vir
Abração!!

Roby disse...

Olá querido amigo!
Tenho a leve impressão que perdi algo por aqui Markito, em seus posts anteriores..não entendi patavinas do seu texto..me enrolou ainda mais...quanto eu mais lia, eu mais me confundia..rs
*
Um upa carinhoso pra ti amigo.

Roby disse...

Não é do meu costume ( ler coments dos demais) Markito, mas pelo que vi pelas respostas, foram raros os que entenderam o "cerne" do seu texto, um pegou o elo da corrente do outro..rs
Bjinssss.

Ana Carla disse...

Sensacional! Eu me diverti com a carta ao Erasmo, mas a resposta superou as expectativas!! Vc é surpreendente, meu querido ídolo! beijos!

Vera Fróes disse...

Marco, quando me sinto ofendida eu mesma escrevo para o a pessoa que me ofendeu. Esse negócio de escrever pelo amigo, não sei...tá me parecendo...cala-te boca!...Rssss

Adorei o texto pelo humor, que é bem melhor do que a a loucura.

Bjos.

Meire disse...

Boa Noite, sou meire, a MJeiroca do amigo secreto virtual. Fiquei sabendo que voce se sentiu excluido da brincadeira? Poxa que chato, te peço desculpas, quem sabe no proimo nao é mesmo?
Um abraço
Meire

Sandrinha disse...

Adorei! Muito bom sempre aprendo muito passando por aqui. Um beijo

Mut disse...

HUehuehauehuaeaea... Poxa Marco , assim eu desisto de blogar e tentar fazer textos inteligentes.

O melhor foi chamar Erasmo de Roterdã de tremendão... :D

Abração!

Anônimo disse...

Fantástico! Forte abraço!

Anônimo disse...

Esse anônimo aí, ó, aí em cima, soy yo: Guillermo Salbiati,
(não sei pq não foi meu nome...)

Jéssica disse...

...rs...hilário ler vc, sabia?
Santa ironia...rs...
Linda sexta, beijo*.*

Roby disse...

Ahh sim Markito, agora entendi tudinho..li o post anterior e vi do que se tratava..
Esta teu humor-sábio com irreverência é invejável querido amigo!
*
Bjins e ótimo final de semana, se atualizares hoje me chama ok??

M.Eduarda disse...

Marco seus textos são demais, sabia? Windows 98 no inferno foi TUDO! hahahahaha
beijos

Marco Santos disse...

Grande Marconi: Seus elogios me deixam muito, mas muito feliz. Eu o considero um ótimo escritor e só em saber que você aprecia os meus posts me sinto extremamente honrado.

Minha doce Claudinha: Que bom que você gostou... Você sabe que a sua opinião conta muito pra mim, não é?

Grande Evandro: Valeu, amigão! Se você aprovou o post, fico feliz!

Puxa, Claire, que prazer me dá sabe que você gostou destes dois posts! Nossa... Fiquei feliz mesmo!...

Valeu, querida Lili! Obrigado pela força!

Que bom, querida Fernandinha!

Ô, Marcíssima, amigapratodavida... Já percebi que voc~e anda tristinha... O que este seu amigo pode fazer para te alegrar? Eu faço!

Querida Karine... O que eu faço sem os seus ótimos comentários? Nada! Você é que é DEZ, amiga!

Ô, querida Cilene... Claro que não vou ficar chateado contigo! Acho que vou te linkar! Posso?

Grande DO: Que bom que você aprecia! Valeu!

Querida Roby: E então você entendeu, né? E gostou? Fico feliz.

Querida Ana Carla: Encho-me de satisfação por saber que você gosta de meus posts. Que legal!

Querida Vera: É uma felicidade agradar aos meus queridos amigos blogueiros. Que ótimo você ter gostado.

Tudo bem, Meire. No próximo você me chamam.

E eu fico muito feliz com as suas visitas, querida Sandrinha.

Grande Mutante: Ah, deixa disso, vai... Você escreve bem pra caramba! Valeu!

Valeu, Gui!

Que bom que gostou, querida Jéssica!

Gostou, querida Eduardinha? Então tô legal!

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!