terça-feira, agosto 28, 2007

Pausa para o cafezinho


A sala onde eu trabalho fica perto da copa. Logo pela manhã, o corredor fica tomado pelo cheiro de café fresco, que sai do coador de pano em busca de todas as narinas que puder encontrar pela frente. E nesse caminho, encontra as minhas cavidades nasais...
Podem falar: tem coisa mais gostosa que cheiro de café fresquinho, passado logo pela manhã?
O mais curioso nisso tudo é que eu quase nunca tomo café. O meu desjejum matinal é feito com sucos e chás, nunca com café. Não me agrada o gosto. Só o cheiro. Vai entender uma coisa dessas...
*

Eventualmente, se vou na casa de alguém e me trazem uma xícara, não cometo a indelicadeza de recusar. Mas não o tomo com prazer. A não ser na roça, quando passam o café em coador de pano e adoçam com rapadura. Aí eu beberico uma “xicrinha” com muito gosto. Também toparia tomar uma xícara, num daqueles Cafés de Paris, olhando a Torre Eiffel e ouvindo Edith Piaf...
De qualquer forma, o cheiro de café passado de fresco me traz à lembrança coisas que li sobre a história do café. Se vocês não se incomodam, peguem uma xícara, tomem assento e vamos embarcar em mais uma viagem da séria série: “A História tem cada história...”
*

A planta bonita, que dá flores e frutos vistosos, tem o nome oficial de coffea arabica, e foi dado pelo sueco Carl Linné (tem livros que aportuguesam o nome dele para ‘Carlos Lineu’). A primeira parte do nome da planta vem de uma região da Abissínia (norte da atual Etiópia, na África), de nome Kaffa, onde este vegetal surgiu em tempos imemoriais. Curiosamente, os habitantes do lugar não acharam a menor graça naquele arbusto de frutos vermelhos. Mas comerciantes árabes que ali estiveram, levaram mudas e os frutos para a península arábica e lá o consumo se disseminou. O que explica a segunda parte do nome oficial do cafeeiro. Conta-se que até Maomé era chegado num cafezinho...
*

Há uma lenda sobre um pastor chamado Kaldi. Ele observou que as cabras que pastoreava ficavam assanhadinhas (no bom sentido...) sempre que comiam as folhas e os frutos do cafeeiro. Tomado pela curiosidade, ele próprio experimentou as frutinhas vermelhas e se sentiu mais vivaz e disposto. Na região tinha um monge que, ao saber da descoberta de Kaldi, mandou pegar algumas frutinhas e fez com elas uma beberragem que passou a usar para resistir ao sono, nas orações noturnas.
*

Lenda ou não, o certo é que o hábito de tomar a infusão se espalhou mais que pereba em menino. No Século 16 a beberragem era o grande sucesso em boa parte do Oriente, com as frutinhas tendo sido torradas na Pérsia, estabelecendo o hábito de vez. No Século 17, ingleses e holandeses viram no produto uma boa oportunidade de grandes lucros. E tinha que ser eles mesmos, povos não católicos, logo, não regidos pelo Vaticano que proibira aquela bebida de islâmicos. Entretanto, quando o papa Clemente VIII provou uma xicrinha gostou tanto que liberou geral.
No começo do Século 18, a Cia. das Índias Ocidentais, empresa de Holanda, levou mudas do café para o Suriname (Guiana Holandesa). Mas não foi lá que o produto deu lucro aos flamencos. Nas possessões do Pacífico, especialmente em Java, o café pegou que foi uma coisa! E dali se espalhou pela região.
*
café 10
E no Brasil? Como começou esta história?
Começou via França, que introduziu o café na Martinica e dali para suas outras colônias. Incluindo a Guiana Francesa...
Até o princípio do Século 18, não havia nenhuma muda de café no Brasil. Os países produtores – França e Holanda – faziam o maior jogo duro com mudas e sementes. Era terminantemente proibido contrabandear café, visto ser uma grande fonte de divisas e eles não queriam perder o monopólio do comércio.
*

Em 1727, o governador do Maranhão, João da Maia da Gama, incumbiu o sargento-mór Francisco de Melo Palheta (o rapaz aí do lado) de ir até Caiena para duas coisas: resolver questões de fronteira e conseguir sementes de cafeeiro, contrabandeando-as para o Brasil. Chegando lá, Chico Palheta se fez amigo de Madame d’Orvilliers, esposa do governador da Guiana Francesa. O sargento era um sedutor incorrigível. Um dia foi visitá-la, ela lhe serviu uma xícara de café, ele molhou o biscoito, pronto!, Madame gamou. O cara devia ser muito bom de cama, pois a mulher do governador, tomada de paixão pela palheta do Chico, deu-lhe sementes de café, depois dele ter provado o capuccino dela. Como se vê, tem sacanagem no meio de tudo o que envolve o Brasil. Essa, pelo menos, foi no bom sentido. No sentido de fora para dentro...
*
O café foi plantado no Pará e depois no Nordeste, onde o solo não era exatamente propício. Mas quando foi cultivado no Sudeste, especialmente no interior do Estado do Rio, de São Paulo e sul de Minas, ah, o bicho se entendeu com aquele chão e virou o maior produto brasileiro de exportação até hoje.
*

Palheta e d’Orvilliers viraram marcas de café. A partir de agora, quando você tomar uma xícara de café, não deixe de pensar que este seu prazer começou na saliência dos dois. E se o cafezinho estiver mesmo muito bom, faça como Madame d’Orvilliers e diga bem alto:
“Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!...Ahhhhhhhhhh.... Huuuuummm...Que coisa boa!!!!!!!”
Santa palheta do Palheta...
M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Edith Piaf, cantando “Sous le ciel de Paris”. U-lá-lá!

sexta-feira, agosto 24, 2007

Cheiros e coxas


Como é do agrado de tantos, lá vamos nós para mais exemplos da série “Origem de expressões que utilizamos, mas não sabemos da origem”. Hoje, trataremos de duas que tem sido muuuuuuito ditas por aí. Qualquer pessoa decente, que se digne em abrir os jornais para ver a quantas anda o noticiário político ou a situação dos aeroportos, diz, invariavelmente, uma ou outra. Passemos a elas, pois.
*
A primeira é:

Não me cheira bem.

*

Dizemos isso quando desconfiamos de algo ou de alguém. Assim como... huuummm... escolhendo um exemplo qualquer, bem aleatório... imaginem um político alagoano que tenha ligações com um lobbista da área da construção civil de Maceió, muito interessado nas obras do porto da capital alagoana. Vamos que ele diga que o tal lobbista é só amigo, mas que não pagou as contas dele, só levou o dinheiro para a amante que teve uma filha com ele fora do casamento. E esse dinheiro não foi contabilizado, não foi declarado no Imposto de Renda, nada. Surgiu de uma venda de bois por um preço muitíssimo acima do mercado. Venda para empresas-fantasmas ainda por cima.
*

E aí? Você acha que essa história “cheira bem”?
Sabem de onde veio essa expressão? Do tempo da igreja primitiva, aquela do início do cristianismo. Naquele tempo, diziam que os santos tinham um odor especialmente agradável. Quem era virtuoso, exalava um bom cheiro, um cheiro de santidade. Já os desonestos, os corruptos, os ladrões, os exploradores, estes fediam. Tinham inhaca. Futum. Morrinha. E as situações inconvenientes e desonestas em que se envolviam tinham o mesmo odor. Fosse no que fosse que estivessem enredados, o aroma não era agradável. Qualquer pessoa honesta diria, diante deles: “Huummm... Isso não me cheira bem!”
*

A outra expressão que trago aqui é:

Trabalhinho feito nas coxas.

*

Essa vem dos tempos do Brasil Colônia. As olarias instaladas aqui usavam escravos para produzir telhas. Como não existia um molde único, a solução encontrada era modelar a massa de barro nas coxas dos negros. Como ninguém tem as coxas iguais uns aos outros, as telhas em forma de calha ficavam desiguais. No que se montava o telhado, percebia-se que estava irregular, parecendo um serviço mal-feito. Daí que um serviço feito “nas coxas” passou a significar coisa imperfeita, mal ajambrada.
*
Antes de descobrir esta explicação, eu achava que o nas coxas aí era por conta de uma gravidez em que não tivesse havido penetração. Os dois salientes ficavam naquela sacanagem e, talvez para a mulher não perder a virgindade, o cara ficava só no roça-roça, com o bigorrilho entre as coxas da moça. Uma gestação acidental advinda daí poderia ser considerada como “imperfeita” (taí um bom xingamento: “sai pra lá ô seu filho de um roça-roça!”).
Mas não. O que ia nas coxas era só barro, mesmo. E para fazer telha!
*

Algum de vocês conhece algum trabalho feito nas coxas? Quando eu abro o jornal e leio que a pista do aeroporto de Congonhas foi “recuperada”, “reformada”, o escambau e aí acontece acidentes como o do avião da TAM, fico pensando: “Em que coxa moldaram aquela bosta., heim?”
*
Moro em apartamento novo. Não tem nem cinco anos desde que a construtora entregou as unidades para nós, os proprietários. E em várias unidades (inclusive a minha), tem ladrilho se soltando, rachaduras aparecendo nas paredes, pisos que desgrudam no chão...
Mas haja coxa, né não?
*
Será que este país está sendo feito nas coxas? E aí eu me pergunto se a explicação para isso está mais para a que eu acreditava (os filhos de um roça-roça), ou se o problema é de perna, mesmo. Já começo a crer que somos cidadãos feitos de uma fornicação mal executada...
A começar por nossos “governantes”. Olhem só para a cara deles: não parecem TODOS feitos nas coxas? (escolham que explicação vocês preferem para eles, a da telha ou do roça-roça...)
M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Teresa Cristina e o Grupo Semente cantando “Quantas Lágrimas”. Ê coisa boa!
***********************************************
Mas coisa melhor ainda é voltar ao convívio de vocês!
Pessoal: muito, mas muito obrigado MESMO pelas manifestações de carinho durante a minha ausência forçada. O computador foi consertado, não faleceu, graças a Deus!
Devagarinho vou visitando todos vocês e tocando a vida.
O blog é de antigas ternuras, mas vocês são meus ETERNOS CARINHOS.
Outra coisa: Estou com um texto lá no Playground dos dinossauros. Quem quiser dar uma espiadinha, basta clicar aqui.

terça-feira, agosto 14, 2007

Aos meus amigos

Estou sem computador há mais de uma semana. O PC caiu doente e temo que ele venha a falecer. Problemas de placa-mãe costumam ser complicados.
Por isto não tenho atualizado, nem visitado vocês.
Por favor, me desculpem. Tão logo a situação se resolva, eu voltarei a postar e visitar vocês.
M.S.
***********************************
Enquanto isso, a Rádio Antigas Ternuras toca pra vocês "Flor Amorosa", com o grande Altamiro Carrilho.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Uma série genial!


Depois que a gente lê o conto “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, uma das histórias de Scherazade no belíssimo livro “1001 Noites”, não tem como não ficar pensando no que pediríamos se achássemos um gênio pronto para nos atender a qualquer desejo.
*
Pois é. No antigo seriado “Jeannie é um gênio” (“I Dream of Jeannie”), um astronauta norte-americano cai numa ilha deserta e acha uma garrafa com um gênio, ou melhor, uma gênia dentro. E mais: a gênia é linda e gostosíssima! Essa história nem a Scherazade imaginaria...
Só que o cara não pedia nada àquele pitéu de nome Jeannie! Quando eu era guri e via a série na antiga TV Tupi (tudo bem, moçada, eu admito: sou do tempo da Tupi. Pronto. Falei), ficava berrando pro “Major Nelson”:
- Pô, cara! Você é burro! Tanta coisa para pedir! Ah se fosse eu...
*
video com clip de 2min e 47seg


É. Naquele tempo, se eu tivesse um gênio 24 horas a minha disposição, muito provavelmente eu pediria um Autorama e uma viagem à Disney. Eram os meus sonhos de infância.
E hoje? O que eu pediria?
A gente sabe que não adianta pedir a gênios coisas inatingíveis como a paz para o mundo, a cura de todas as doenças, o fim da pobreza, a extinção da música sertanojo...
Tem que ser coisas materiais, tangíveis. Se bem que a gente sempre fica tentado a pedir honestidade para os políticos brasileiros, competência para nossos governantes... Mas se a gente pedisse isso, o gênio baixaria humildemente a cabeça e diria:
- Lamento, amo. Talvez dê para conseguir a paz para o mundo e a cura de todas as doenças, mas esses outros pedidos...
*

A série “Jeannie é um gênio” é uma de minhas antigas ternuras. Ainda a assisto, à noite, no canal a cabo Nickelodeon, junto com outras séries queridas como “A Feiticeira”, “A Família Addams” e “Os Monstros”.
Lembram de como começava? Com o locutor dizendo: "Diferente, divertido, surpreendente. Um programa verdadeiramente genial. A garota desse programa é um sonho, é um espetáculo, é muito viva. Jeannie é um gênio".
*

O programa foi criado por Sidney Sheldon. Aquele mesmo que depois se tornaria escritor de best-sellers como o “Outro Lado da Meia-Noite”. A Screen-Gems encomendou a Sheldon que bolasse uma série para competir com o mega-sucesso “A Feiticeira”. Foi aí que ele teve a idéia de uma gênia, com um corpo genial, bem diferente dos gênios da tela, normalmente homens gordos, imensos, com cara de mal (menos o “Shazan”, mas isso foi depois e é outra história...). Ele achou que o conceito estava muito parecido com a bruxinha Samantha e foi até pedir opinião aos criadores da Feiticeira. Os caras não se importaram, ele foi em frente.
*
Quem quase embaçou tudo foi a Liga pela Decência (já falei aqui dessa Liga... É aquela que implicava com o volume do bilau na fantasia do Robin Burt Ward na série famosa...). Eles acharam muito estranho uma mulher, em trajes provocantes, morando na mesma casa que um homem solteiro e gritando: “amo! amo!...
Na série, ficava claro que o Major Nelson dormia no quarto e a Jeannie na garrafa. Mas aquele povo tarado da Liga pela Decência imaginava as maiores saliências entre um astronauta e uma gênia nascida na Babilônia...

Primeiro, implicaram com a barriguinha exposta da moça. Queriam que tapassem o umbigo dela e tiveram que fazer modificações no figurino (reparem na foto, sem o umbigo aparecendo). Aí sim, a moral e os bons costumes estariam a salvo naquele país de tantas virtudes chamado Estados Unidos da América!
*
Há um aspecto muito interessante neste seriado. Ele desmente e confirma aquela velha história de que um ator que se destaca num papel fica marcado e não consegue arranjar mais outro emprego ou ter o mesmo sucesso. Larry Hagman desmentiu. Barbara Eden confirmou. Justamente os protagonistas! O primeiro fez muito sucesso como o Major Nelson, mas alcançou sucesso ainda maior como o “J.R.” de “Dallas”. Barbara nunca conseguiu se livrar do estigma de Jeannie, não obtendo o mesmo êxito que teve na famosa série. Fez algumas participações, atuou em outra série mas nada que chegasse perto do seriado que lhe trouxe a glória. Inclusive, em períodos de vacas magras, teve que fazer shows em night clubs, vestida de Jeannie.
*
Existem muitas histórias curiosas envolvendo a série. Uma das mais divertidas é sobre a escolha do ator que faria o capitão, depois major, Nelson. O produtor Sidney Sheldon estava procurando alguém que tivesse comicidade e credibilidade para o papel. Larry Hagman estava desempregado, roendo beira de penico, passando dificuldades, topando fazer qualquer parada. Ele tentava todos os testes que pintassem. Na semana em que fez o teste para “Jeannie” participou de outras quatro audições. A pindaíba do cara era tanta, que ele a família acamparam numa praia de Los Angeles, por não terem dinheiro para alugar uma casa. Quando lhe comunicaram que tinha ganho papel, estava só com 20 dólares no bolso. Comemorou pedindo uma pizza. Só com muzzarela.
*
video com 2 min e 12 seg


No elenco principal, além de Barbara e Larry, tinha o comediante Bill Daily, que fazia o hilário “Major Healey”. Esse era o meu personagem favorito. Sempre dava muitas risadas com ele. E tinha também outro excelente personagem, o “Coronel Bellows”, feito pelo ator Hayden Rourke. Ele eqüivalia à “Sra. Kravitz”, da “Feiticeira”. Via os efeitos das mágicas, mas não conseguia provar nada e ainda ficava com fama de maluco (lembram dele dizendo: “Depressa, general Peterson, está nevando na sala do major Nelson”?). Outros personagens mais ou menos fixos no programa eram a “Amanda Bellows”, o “General Peterson” e a irmã malvada da Jeannie, a gênia morena “Jeannie 2a.”. Aliás, essa foi uma cópia descarada da prima de Samantha, a Serena. Diz-se que William Asher, produtor de “A Feiticeira” (e marido de Elizabeth Montgomery) teria ficado irritado com esse plágio descarado.
*

A série estreou, na TV americana, no dia 18 de setembro (dia do meu aniversário!) de 1965 e o último dos 139 episódios inéditos foi ao ar em 26 de maio de 1970. Teve dois longas após isso: “Jeannie é um gênio: 15 anos depois” (1985) e “Jeannie é mesmo um gênio” (1991), ambos sem Larry Hagman.
*
Do elenco principal, três ainda estão vivos. E bem vivos, como pude verificar recentemente num David Letterman Show, quando Hagman, Eden e Daily foram entrevistados e se esbaldaram, contando casos e piadas (especialmente Daily que não leva nada a sério). Farei um rápido perfil de cada um:

Barbara Eden – Seu nome original é Barbara Jean Moorehead, com mesmo sobrenome da atriz que fazia a Endora, na Feiticeira, mas não eram parentes. Nasceu em 23/8/1934, em Tucson, Arizona. Começou a carreira como cantora. Atuou na série “Como agarrar um milionário”, de onde foi convidada por Sheldon para viver a Jeannie. Seu filho, Matthew, do primeiro casamento com o ator Michael Ansara, morreu em 25/6/2002, de overdose. Atualmente tem uma produtora de filmes em Hollywood.

Larry Hagman – Nasceu em 21/9/1931, em Forth Worth, Texas. Sua mãe era a atriz Mary Martin e ele resolveu seguir-lhe os passos, mas não encontrou moleza. Depois de “Jeannie”, entrou para a série “Dallas”, onde fez tanto ou mais sucesso ainda. Teve problemas com alcoolismo. Ele disse certa vez que desde o tempo de Jeannie ele enchia a caveira logo pela manhã e atuava sob efeitos do álcool. Se não tivesse feito um transplante de fígado, nem um gênio o livraria de ir para o Céu dos atores de seriados. Curioso: A Jeannie morava numa garrafa, mas quem bebia todas era o Major Nelson... Hagman casou-se somente uma vez, desposando a sueca Maj Axelsson, que lhe deu dois filhos. É conhecido no meio artístico como “um cara legal”.

Bill Daily – É natural de Des Moines, Iowa, onde nasceu em 30/8/1928. Começou sua carreira se apresentando como comediante em bares até ser convidado para fazer esquetes no programa Steve Allen Show, quando foi chamado para viver o Major Healey. Com o fim da série, fez aparições em outros programas. Atualmente está aposentado e mora em Albuquerque, no Texas. É tremendo gozador, daquele que perde o amigo ms não perde a piada.

Hayden Rourke (o da ponta direita) – Nasceu em 23/10/1910, no Brooklyn, New York. Foi ator de Teatro nos anos 30, até se engajar no serviço militar, onde organizava peças para os soldados que lutavam a II Guerra. Com o fim do conflito mundial, retomou a carreira como ator de Teatro na Broadway. Viveu na série o célebre Cel. Bellows, que lhe deu muita fama. Faleceu em 19/8/1987, vítima de câncer.
Emmaline Henry – Nasceu em 1/11/1931, na Philadelfia. Era a personagem “Amanda Bellows”. Atuou em outras séries, como convidada. Faleceu em 8/10/1979.

Barton MacLane – O “Gen. Peterson” nasceu em 25/12/1902, na Carolina do Sul. Além de Jeannie, atuou em várias outras séries, como ator convidado. Faleceu durante a quarta temporada da série, em 1/11/1969.
Video com 1min e 6 seg, com a participação especial de Groucho Marx

*

A célebre garrafa da Jeannie (na verdade, fizeram três e, com o fim da série, foram dadas uma para cada ator. Bill Daily já passou a dele nos cobres...) é um ícone desejado por muitos. Quem não gostaria de encontrar uma de verdade, com uma gênia dentro? Novamente, eu me pergunto: o que eu pediria a um gênio se encontrasse uma? Huuumm... O primeiro pedido que me ocorre é fazer do Mengão campeão brasileiro e que os bacalhosos sebentos vascaínos caiam para a segunda divisão. Ou talvez, pegar todos os responsáveis por este apagão aéreo e suas conseqüências fatais, colocá-los numa catapulta cheia de dinamite, acender e mandá-los para a catapulta que os pariu.
E você? O que pediria?

(para ver a abertura do seriado e ouvir o tema, clique aqui)

bill daily hoje e um fã
M.S.
***********************************************
Na TV Antigas Ternuras, você assiste a três cenas de Jeannie é um gênio.

segunda-feira, julho 30, 2007

Quando Napoleão (quase) veio ao Brasil


O mês de julho é festivo para os franceses. Foi num 14 de julho de 1798 que o povaréu derrubou a monarquia absolutista, culminando com o carrasco falando para a rainha Maria Antonieta: “Olha, vai ser só a cabecinha...”
Para celebrar este mês que finda, vou contar alguns “causos” interessantes (que até já narrei aqui faz tempos...), que certamente interessarão aos francófilos. E a quem sabe que...”A História tem cada história”..., título de uma das seções que mais gosto de fazer aqui no nosso Antigas Ternuras.
*
Pois bem. Vocês sabiam que Napoleão esteve perto de vir ao Brasil? Na verdade, ele morou pertinho daqui.
Não, eu não estou maluco das idéias. Estou falando sério.
*
A ilha de Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte foi aprisionado pelos ingleses, depois de ter perdido a guerra em Waterloo (nada a ver com aquela frase que todo engraçadinho diz quando encontra uma moça na posição cabeça para baixo e bunda para cima...), em 1815, fica no Atlântico Sul. A localização mais aproximada seria, entre o Brasil e a África, um pouco mais perto da costa da Namíbia que do litoral brasileiro, na altura do sul da Bahia, mais ou menos em linha reta para dentro do mar, a partir da cidade de Ilhéus.

E pensar que o corso baixinho, padroeiro dos doidos varridos de piada de hospício, viveu seus últimos anos logo ali, quase em frente da terra do Nacib e da Gabriela!

E olha que nem ficava tão longe assim. Quando o Amir Klynk atravessou o Atlântico Sul em barco a remo, saindo da África para o Brasil, ele passou pela ilha de Santa Helena. Quer dizer, se Napoleão conseguisse fugir da ilha, não seria difícil vir para o Brasil (taí um bom tema para um romance: “o dia em que Napoleão fugiu para o Brasil”). O problema é que a Família Real portuguesa, que escapara dele, ainda estava por essas bandas.
*
Mas eu falei que quase Napoleão esteve por aqui. E, de certa forma, foi por pouco mesmo que o corpinho do velho corso não veio dar (no bom sentido...) nessas terras.
Se não, vejamos.
*
Em 1938, o príncipe de Joinville, François-Ferdinand-Philippe, filho do rei de França, Louis Phelippe de Orleáns, esteve no Rio de Janeiro, como membro da tripulação da corveta “Hercule”. Na ocasião, ele conheceu a princesa Francisca Carolina (veja a foto), irmã de Pedro II, então com 14 aninhos.

*
O François caiu de amores pela princesa brasileira... Vendo o retrato da moça, a gente até acha que ela tinha os seus encantos, visto que, de forma geral, a descendência de D. João VI e de D. Carlota Joaquina estava mais para “cão chupando manga e de aparelho nos dentes” do que para “apolos e afrodites”... E a tendência era piorar, visto que os casamentos eram feitos por procuração e arranjados entre representantes das famílias nobres. Não importava sentimentos ou beleza e sim a descendência de sangue azul. Para casar com um brasileiro e viver no meio do mato, só um tribufu topava, já que não conseguiria um bom casamento na Europa. Para despertar o interesse dos príncipes, enviava-se um retrato da noiva. Acontece que os pintores daquele tempo utilizavam um sistema que, podemos dizer, era o “tataravô do Photoshop”. Eles melhoravam e muito a aparência das barangas, digo, das princesas e o noivo caía feito um patinho. Numa dessas, Pedro I teve de aceitar D. Leopoldina e Pedro II acabou engolindo D. Teresa Cristina, duas princesas muito simpáticas e agradáveis, mas feias feito o Capeta chupando mariola.
*
Mas, voltando ao François-Ferdinand. Ele se encantou pela Francisca, deixou a cidade, mas é de se supor que tenha firmado algum compromisso. Afinal de contas, princesas bonitas e dando sopa só são comuns em desenhos da Disney.
Em 1840, seu pai, o Rei de França, Luis Felipe de Orleáns, deu-lhe a missão de viajar até a ilha de Santa Helena para trasladar os restos mortais de Napoleão, que lá tinha morrido e sido enterrado.

Como se sabe, o corso baixinho que chacoalhou com a Europa em fins do século 18 e início do 19, foi aprisionado naquele rochedo administrado pelos ingleses.
Na viagem, antes de chegar a ilha, François-Ferdinand, que era excelente navegador, embicou o seu navio “La Belle-Poulle” na direção de Salvador, onde fez uma curta escala. Com certeza, isso é fato: o navio que ia pegar os restos mortais de Napoleão fez um pit-stop na Bahia. Pena que não parou depois de pegar o Bonaparte. Já pensou a festa que a baianada iria fazer? No mínimo, iriam levar o corpo do corso até a igreja do Senhor do Bonfim, ao terreiro do Gantois, ao som do grupo “Bisavós de Gandhi”! E todo mundo, Napoleão inclusive, seguindo atrás do trio a óleo de baleia (não tinha eletricidade), pedindo muito axé a todos os santos.
*
Depois que François-Ferdinand chegou à Santa Helena, iniciaram as cerimônias fúnebres. E pelo que li no site francês Le retour des cendres, foram muito bonitas. A chegada do caixão com o corpo de Napoleão na França foi uma apoteose quase tão grande como a que os baianos fariam.

Os festejos duraram meses (que nem o Carnaval em Salvador). Soube que os franceses tomaram até banho, pra vocês verem como eles estavam empolgados.
Quem tiver a chance de ir à França, poderá ver no memorial da igreja de Saint-Louis des Invalides, o túmulo monumental de Bonaparte

*
Depois da festa, começaram as negociações envolvendo o casamento do príncipe de Joinville com a princesa Francisca Carolina. Nesta fase, estiveram envolvidos, o Imperador do Brasil, o Rei da França, o Conselho de Estado francês, o Papa, Deus, o mundo e a torcida do Flamengo O barão de Langsdorff e emissários franceses chegaram ao Rio de Janeiro para tratarem do dote da princesa, de como seria a cerimônia, enfim, essas coisas românticas que envolvem casamentos de nobres.
*
Depois de todos acertos feitos, o Chico francês e a Chica brasileira casaram-se no Palácio da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, em 1 de maio de 1843. Decerto que a festa foi belíssima. Depois do casório, os noivos seguiram para Paris.
Óbvio. O amor do príncipe era grande, mas não a ponto de trocar a mais civilizada cidade do mundo pelo balneário onde porcos e vacas andavam diante do Paço Imperial...
*
Um dado interessante: parte do dote da princesa foi terras na província de Santa Catarina. Embora residissem na corte de Louis Philippe, ainda assim eram proprietários de vasta propriedade no sul do Império brasileiro.
Com a célebre rebelião acontecida em 1848, vários nobres preferiram fugir de Paris. A guilhotina de 1789 ainda estava presente na memória. Os príncipes de Joinville optaram por sair do país para morarem em Londres. Na capital inglesa, tiveram alguns problemas financeiros e resolveram passar nos cobres o dote da princesa. Venderam as terras brasileiras, onde nunca estiveram, para uma empresa colonizadora alemã. Esta enviou levas de colonos para fundar lá, em 1851, a Colônia Dona Francisca, posteriormente transformada na cidade de Joinville, em Santa Catarina.
*
Viram? Napoleão quase esteve aqui. Era só ter acontecido algum probleminha com o barco que transportava seus despojos que o capitão do navio não teria outra alternativa a não ser vir para Salvador, ou para o Rio de Janeiro, quem sabe...
E, olha... Se o corpo do Napoleão tivesse vindo para o Rio, ele não iria querer saber de sair daqui. Já estou até vendo a cena: uma roda de pagodeiros num boteco no Morro da Mangueira, muita cerveja, o caixão do cara numa das cabeceiras da mesa, e a galera levando no gogó: “Ô coisinha tão bonitinha do pai... Ô coisinha tão bonitinha do pai”... Fala Napô!
M.S.
********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras vocês ouvem Edith Piaf cantando a “Marselhesa”, hino da França, considerado o mais bonito do mundo, depois do “Hino do Flamengo”, é claro...

quarta-feira, julho 25, 2007

Que nos resta?


Noutro dia, vendo um programa do National Geographic, assisti a uma orca atacando um bando de focas. Ela abocanhou uma delas e a arremessou para o ar, na direção do mar alto. E durante bom tempo, ficou nisso: pegava a foquinha e jogava de um lado pro outro. A alguns olhos, poderia parecer um ato de crueldade. A outros, inclusive aos meus, nem tanto. Não vi nenhuma diferença naquele gesto e na maneira como crianças brincam com a comida (eu fiz tanto isso no tempo das antigas ternuras...), fazendo desenhos com ela no prato, deixando o bife para comer por último e saboreando cada pedacinho...
*
Não vejo crueldade nos animais. Nem entre espécies, nem interespécies. Eles atacam para se defender, para se alimentar ou para demarcar território. Se em muitos casos esse jogo da vida parece cruel, peço que atentem a relatividade dos casos. Se a gente vê uma criancinha mordiscar com gosto um pedaço de filé de tubarão, achamos uma gracinha. Se vemos um tubarão abocanhar uma criança, sentimos indizível horror.
*

Recentemente, fui assistir ao filme “A vida secreta das palavras” (Espanha, 2005, dir. Isabel Coiet). É baseado em história real. Trata de uma imigrante surda refugiada da antiga Iugoslávia, que trabalha como operária em uma indústria. Ela é praticamente obrigada a tirar férias pelo chefe. Resolve trabalhar como enfermeira de um homem que sofreu queimaduras em um acidente numa plataforma de extração de petróleo. Com Sarah Polley, Tim Robins, Javier Cámara, Julie Christie.
*
Este filme é absolutamente perturbador. É de estarrecer a descrição que a protagonista faz dos terrores acontecidos quando a Iugoslávia se desintegrou e começou a guerra civil! Ela e uma amiga foram abordadas por compatriotas, levadas presas sem mais nem menos e estupradas por dias e noites pelo batalhão. Estupradas, espancadas (acabou surda de tanto apanhar na cara), humilhadas. Para se divertir, os soldados faziam cortes com punhal na pele das mulheres, colocavam sal e cosiam com agulha e linha de costura. Isso, às gargalhadas. E se as mulheres gritassem, mais eles as atormentavam. Por puro prazer.
Quando as mulheres foram libertadas, estavam destroçadas mentalmente. E nessa eu descobri que existe uma organização humanitária, destinada a socorrer e dar tratamento a estes refugiados. No fim do filme, aparecem prateleiras repletas de fitas com o histórico dessas pessoas que ainda tentam se socializar, depois de tudo o que sofreram.
*
Saí do cinema me perguntando: o que leva pessoas a causarem mal às outras, assim, de graça? Por que se divertir com o sofrimento alheio? Claro que isso não é novidade. Historicamente, sempre o Homem causou sofrimento ao seu semelhante.

Pinçando aleatoriamente na História, do início da Era Cristã até hoje, vejam alguns dos piores momentos da Humanidade: o massacre de cristãos pelos romanos, que os perseguiam e os submetiam às mais horrendas torturas; o Cristianismo vencendo, e passando a submeter pessoas a suplícios sem fim, em nome de Deus (o que cristãos fizeram com os maometanos nas Cruzadas deve ter entristecido muito ao Senhor Pai); Gengis Khan e seu flagelo de Deus, matando com requintes de crueldade; as torturas que a Inquisição católica fazia com judeus e quem achavam ser herege; a expansão do catolicismo e do poder europeu pelas grandes navegações (na Índia, Vasco da Gama mandou amarrar nobres ligados ao samorim de Calicut na boca dos canhões e ordenou que disparassem. De alguém com um nome como esse só podemos esperar coisas ruins...); na Revolução Francesa, a turba ensandecida cobriu de sangue as ruas de França; na Revolução Industrial inglesa, crianças eram submetidas a toda sorte de maus tratos; na expansão colonialista européia, populações inteiras foram dizimadas nas Américas, na África, na Ásia e Oceania (destaque para os massacres de incas, astecas, maias, índios norte, centro e sulamericanos, por monstros como Cortés, bandeirantes brasileiros, aventureiros ianques e tantos mais);

uso de armas químicas de destruição de massa na I Guerra Mundial; as atrocidades nazistas nos anos 30 e 40 (vi recentemente “O pianista” e quem quer exemplo de algumas das perversidades que um ser humano pode proporcionar a outro, veja este filme baseado em fatos reais); os crimes contra a humanidade cometidos pelos USA no Vietnam;

o massacre de milhares no Cambodja; as torturas, sevícias e assassinatos praticados pelos comunistas de Mao na China; as lutas fratricidas na África, onde irmãos negros matam e mutilam, e usam crianças para toda sorte de atrocidades; as lutas na Sérvia, Montenegro e antigas repúblicas iugoslavas; a carnificina comandada por Saddam Houssein no Iraque; as barbaridades que americanos fizeram e fazem no Iraque e na base de Guantánamo...
*
E nós, aqui no Brasil, na guerra urbana em que vivemos, também estamos cercados pela iniquidade. Traficantes chacinam pessoas ao seu bel prazer; a polícia espanca e mata moradores e trabalhadores por pura maldade (vide o caso do trabalhador esbofeteado por nada por soldados da PM e assassinado quando reagiu), rapazes de classe média botam fogo em um índio, uma criança é arrastada pelas ruas, uma mulher é espancada por diversão... E vai por aí.
*
Seria, então, o gênero humano a verdadeira praga sobre a Terra? Nossa natureza é veramente falha, cruel, perversa? Recentemente, cientistas alemães fizeram estudo em que concluíram ser a maldade um sentimento exclusivamente humano (está nO Globo de 18 de julho!).

Bem, o que salva é saber que nem todos os seres humanos são psicopatas assassinos. Se a humanidade produziu um Hitler, também fez um Chico Xavier. Um odiava generalizadamente; o outro amava os semelhantes, chorava com eles, se doava ao máximo em prol dos irmãozinhos. Se hoje existem genocidas como George W. Bush, Osama bin Laden e os traficantes de drogas e de armas... também há uma multidão de anônimos que se dedicam a minorar o sofrimento de muitos. Gente simples que é invisível para a grande mídia, para a imensa maioria que desconhece seus atos de benemerência. Pessoas que fazem caridade por amor ao próximo, seguindo à risca os ensinamentos do Mestre Jesus.
*

Esses salvam o gênero humano da barbárie. Esses, diante de Deus, redimem a humanidade. E nos servem de ânimo e conforto, quando sabemos das tantas perversidades que há no mundo.

E como há maldade! Nem sabemos mais de onde vem e de onde não vem. Chamamos os animais de irracionais e como podemos chamar um comportamento como o nosso?
Lembro de uma frase do poeta espanhol Ramón de Campoamor: “En este mundo traidor, nada es verdad ni mentira. Todo es según el color del cristal com que se mira”. Uma grande verdade! Não se pode ter certezas neste mundo. A dureza da vida nos torna pragmáticos e, por isso, menos felizes. É a forma que encontramos de nos defender. Como disse o apóstolo Pedro, “o inimigo está rondando à nossa volta”.
*
E o que nos resta? Talvez viver. Como podemos. É. Viver. Enquanto refletimos sobre isso, que tal ouvir Sacha Distel?
M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Que rest-il de nous amour”, do grande Charles Trenet, aqui cantado pelo não menos memorável Sacha Distel.
***********************************************
Amigos, nesta semana tem texto do PteroMarco (ou seja, muá) no Playground dos Dinossauros. Quem quiser saber a história de dois amigos que resolveram atravessar a rua pelados e aí... Bem, é só ir até lá e ver o que aconteceu.

sexta-feira, julho 20, 2007

Estas botas foram feitas para caminhar


Entre as seções fixas deste blog, uma das que mais gosto de fazer é a “Origem de expressões que costumamos usar mas não sabemos de onde vem”. Como já disse aqui, sempre tive a maior curiosidade em investigar isso. É uma de minhas antigas ternuras, mesmo!
Escolhi desta vez contar as origens de:

Onde Judas perdeu as botas.

O significado, para quem não sabe, é lugar longínquo, distante, láááá longe. Tem uma outra expressão com o mesmo sentido, que fala de uma certa parte remota da anotomia do Judas, onde o sol não alcança. Mas vamos falar somente de suas peças do vestuário.
Li sobre essa num dos livros do Câmara Cascudo. Mas... não sei, não... A explicação que ele deu é meio duvidosa.
*

Segundo ele, depois que Judas traiu Jesus, ficou mortificado de remorsos e acabou se enforcando em uma árvore (a própria Bíblia tem dúvida: em Mateus, ele se enforcou; em Atos, ele se jogou de um precipício). Diz o nobre Cascudo que ele se matou sem as botas e que não acharam com ele os famosos 30 dinheiros (na verdade, siclos de prata). Daí, soldados romanos e alguns aventureiros partiram em busca das botas do Judas, onde ele presumivelmente teria escondido o saco com as moedas de prata. Dizem que foram longe atrás do calçado. Não se sabe se acharam ou não. De qualquer forma, a expressão passou adiante como um lugar inacessível, muito distante.
*
Bem, esta explicação tem dois problemas muito complicados. O primeiro é que dificilmente Judas teria aceitado as moedas. Ele não entregou Jesus por dinheiro, mesmo porque ele não precisava. Há indicativos de que ele era rico, o mais endinheirado dos apóstolos, junto com Mateus, ex-coletor de impostos. Li em algum lugar que Judas tinha sido designado por Jesus como tesoureiro do grupo, justamente por ser o cheio da grana da rapaziada, graças à sua família de ricos comerciantes na aldeia de Queriote (seu nome vinha de ish Qeryoth, “filho da cidade de Queriote”).
*

“Mas por que ele entregou Jesus?” Perguntariam vocês. Bem, Judas era ligado a um grupo subversivo que planejava atos de terrorismo contra os dominadores romanos. Ele era um judeu conhecedor do Torá e acreditava piamente que o “Messias” viria para libertar a Judéia do jugo romano. E ele sabia que esse Messias era Jesus. Só que nas Escrituras estava escrito que o enviado de Deus viria com a espada vingadora e que lideraria um baita exército contra os opressores. E Jesus ficava naquele discurso de paz e amor, parará...pereré... Ele imaginou que se provocasse Cristo, Ele se insurgiria contra os soldados de Roma e a porrada iria comer.
*

Judas foi dar a informação ao Sinédrio na esperança de ver o circo pegar fogo. Como era praxe, quem desse informações aos soldados do Templo fazia jus ao prêmio de 30 moedas de prata (não era um grande valor, na verdade). Muito provavelmente, Judas nem tocou nessa grana (veja no quadro ao lado). Ele queria ver sangue. E, de qualquer forma, viu.
*

A outra coisa difícil de engolir nesta história das botas era o fato de que ninguém naquela época, na Judéia, usava botas. Mesmo porque, com aquele calor boçal de lá, botas iriam assar os pés de quem as usasse, provocando um chulé monumental de fazer ressuscitar o mar Morto para vê-lo morrer de novo com a inhaca. Se os habitantes da Judéia usassem botas e sem meias ainda por cima, o primeiro milagre de Jesus não seria transformar água em vinho e sim, água em Polvilho Antisséptico Granado e vinho em Tênys Pé Baruel!
*

E se Judas escondesse as moedas nas botas, o dinheiro estaria para sempre contaminado pelo chulé, não servindo mais para o comércio. Lembrem-se que judeus são conhecidos por seus enormes narizes. No que a catinga do parmezón chegasse naquelas largas fossas nasais, ia ter judeu chamando Jesus de “Genésio”. E mais: Pôncius Pilatos não iria lavar só as mãos: aproveitaria e lavaria o corpo todo para ver se conseguiria se livrar do fedor monstruoso que pairaria na Galiléia.
*

Já imaginaram Jesus na cerimônia do “lava-pés”, com seus apóstolos descalçando botas? A profecia não se cumpriria! Em vez de morrer na cruz, ele faleceria envenenado pela carniça chulezenta! E que imagem teriam as igrejas hoje? O Mestre Jesus caído no chão, com a língua de fora, olhos revirados, segurando uma bota fedorenta! Olha a situação!
*
Mas, se Judas não usava botas, de onde veio a expressão?
Bem... Tem uma outra hipótese que andei vendo. É tão fantasiosa quanto, mas...
Diz uma lenda que houve um judeu, de nome Ahsverus (ou Ahsuerus), habitante de Jerusalém; sapateiro por profissão. Sua oficina ficava no trajeto de Jesus, rumo ao Calvário. E quando o Divino Mestre passou diante de seu estabelecimento, Ahsverus o teria insultado e debochado de seu infortúnio. A lenda diz que Jesus o amaldiçoou (imagina...) a zanzar pelo mundo, sem morrer, até o Dia do Juízo Final.

Nasceu aí a lenda do “Judeu Errante”. E essa história correu chão. Um bispo da Armênia jurou, no Século 4, que conhecera uma testemunha da paixão de Cristo. No Século 7, viram o andarilho em Damasco. Séculos depois, o tal highlander estava na Espanha e depois na Itália. No Século 16, na Alemanha. Até no Brasil disseram que o viram em Pernambuco, durante o domínio holandês, lá no Século17. Disseram que de lá, ele foi para Minas Gerais, tendo sido visto chorando sangue numa Sexta-Feira da Paixão.
Bem, eu não queria falar nada, não, mas... Eu vi na TV um cara com as características do Judeu Errante, um sujeito amaldiçoado, na torcida do vasco, uniformizado e com um cartaz escrito "Filma eu Galvão!".
A expressão das botas se referiria a este personagem por sua profissão de sapateiro e por ser andarilho. E lembre-se que o radical “Judá”, presente em “Judas” e em “judeu” torna as coisas bem parecidas. Um judeu amaldiçoado se confunde com o chamado “grande traidor”. Isso faz sentido.
*
De qualquer forma, quando você se referir a um lugar distante como “aquele onde Judas perdeu as botas”, tente mudar para “onde Judas coçou o calo”, ou “onde Judas machucou o joanete”, ou quiçá, “onde Judas arrumou uma unha encravada”.

M.S.
***********************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Theme from Exodus”, com 101 Strings.
***********************************************
Em tempo: Quem gosta de um bom texto, de belos poemas, não pode deixar de ler o livro da minha amigapratodavida Marcia (Clarinha) do Brincando com as Palavras. Aliás, este é o nome do belo livro. Se eu fosse vocês, iriam no blog dela e o comprariam rapidinho. Eu já comprei o meu exemplar. Recomendo!

segunda-feira, julho 16, 2007

Em Algum Lugar no Futuro



Rio de Janeiro, ano de 2057. Anotação de diário n. 382. Tema: Vida em 2007.

“Estava investigando sucata de antigos computadores. Vi um disco rígido jurássico que ainda estava em bom estado. Levei para um amigo que mantém uma relíquia, coisa incrível, um computador que precisa teclar as palavras e não transformar os eletro-impulsos mentais em frases como hoje em dia.
No hard disk tem uma série de textos numa pasta nomeada: “Pro blog Antigas Ternuras”. O dono do blog, que assina os textos como “M.S.”, escreveu sobre como era a vida em seu tempo e, pelo que pude entender, sobre sua infância e adolescência, que ele chama de “tempo das antigas ternuras”.São histórias do século passado, algumas engraçadas, outras nem tanto. Achei tudo muito curioso.
*
“Interessante. Houve um tempo em que crianças tinham largos espaços vazios para brincar, moravam em casas com terrenos cheios de árvores e até subiam nelas, comiam frutas direto dos galhos. Hoje, só vemos árvores pela TV e nos museus, em hologramas. Claro, tem algumas reservas naturais, mas, como se sabe, não se pode entrar lá normalmente. Só cientistas e pessoas ricas têm acesso.
*

“Vi que houve um tempo em que crianças brincavam com segurança na rua até à noite (!!). Os que tinham melhor condição financeira se misturavam livremente com os que tinham poucos ou quase nenhum créditos monetários. Não eram inimigos, não tinham animosidade, chegavam inclusive a serem amigos (!!!). Bem diferente de hoje, em que nós, que temos créditos para consumir bens, vivemos em separado dos que não possuem. Estes, como se sabe, vivem na zona sem lei, onde se mata gente como exterminamos formigas. Deus nos livre de um habitante da Zona de Guerra entrar nos nossos condomínios!! Eles não têm civilidade e vão destruir nossas propriedades e, pior, atentarem à nossa segurança, querendo beber a nossa água limpa e nos passarem suas doenças.
*

“Nos textos do tal blog antigo fala-se de animais que não chegamos a conhecer como borboletas e pássaros. Sei como eles são por ver imagens na enciclopédia virtual holográfica. Eram bonitinhos, mas não sei exatamente para que serviam. Não entendi bem o que é “polinizar flores”, já que as que temos são cultivadas em estufas.
*
“Foi interessante saber que naquele tempo as pessoas tomavam vários banhos por dia. Meu Deus! Que desperdício de água! Qualquer um sabe que hoje o nosso sistema de limpeza de germes e impurezas por jato de ar quente é muito mais funcional! Água é para se beber! Temos poucas fontes de águas totalmente limpas e é preciso ter muitos créditos para acessar a elas. Para quem não tem, só resta a água reciclada que tem gosto horrível de pó químico (eu já experimentei uma vez e detestei).
*

“Mas o que me fez mesmo nadar em curiosidade foi saber que eles tinham pleno acesso a livros impressos em papel (!!). Os nossos livros digitais e os em lâminas degradáveis são muito melhores! E nem consomem árvores (na verdade, nem há muitas disponíveis para virarem celulose...) É certo que nem lemos muito hoje em dia. Também, com toda informação podendo chegar a nós até pela escova de dentes, não é preciso ficar lendo...
*
“Os textos falam de automóveis. Não sabemos mais o que é isso desde o Engarrafamento Total, ocorrido há vinte anos. Tem carro preso lá até hoje. Nossos Veículos Coletivos de Trânsito Inter-condomínios são bem mais práticos. E por serem elétricos, não poluem mais ainda o nosso ar já complicado.
*
“Uma coisa curiosa: naquele tempo parece que eles riam muito. Viam graça em tudo e pareciam se divertir com qualquer coisa. Que estranho... Eu não vejo tanto motivo para rir. Pelo menos, não tenho muitos hoje. Temos que estar concentrados no trabalho. Qualquer distração e não atingimos nossos objetivos funcionais. Já pensou se eu perco o meu emprego? Tem muita gente que está de olho na minha vaga. Se eu falhar, me substituem e eu fico sem uma fonte de créditos. Eu não posso nem quero me mudar para a Zona de Guerra, fora dos seguros condomínios. Acho que nem sobreviveria lá.
*

“Nosso Conselho Governante precisava ver como eles faziam política naquele tempo! Não sei como o gênero humano conseguiu chegar até os dias de hoje. Eles se matavam por qualquer motivo e não por ar purificado e comida proteinada como hoje. Aliás, li nos textos que eles cozinhavam em aparelhos estranhos chamados “fogões”. O nome fogão vem de fogo, alimentado por hidrocarboneto fóssil em estado gasoso. Há muito tempo não temos mais isso. Acho que prefiro a nossa comida baseada em complexo concentrado de proteínas. Dá menos trabalho para desembrulhar e comer. Embora eu tenha visto lá a foto de um pão caseiro que me deixou com vontade de experimentar.
*
“Bem, por hoje é só. Computador, fim do registro”. Clic.

(vídeo com 6min41seg)

Esta menina no vídeo é a canadense Severn Suzuki. Ela esteve no Rio de Janeiro, na ECO-92, onde fez este discurso, que mais parece um alerta sobre o futuro. Você acha que, de lá pra cá, as coisas mudaram?
M.S.
**************************************************
Na Rádio Antigas Ternuras você ouve “Gymnopedie n. 1”, de Eric Satie.
Na TV Antigas Ternuras, você vê o discurso de Severn Suzuki na Eco-92, Rio de Janeiro.