sexta-feira, julho 16, 2010

Trevas e modernidade


Desde o simbólico ano de 2001, estamos em pleno Século 21, durante muito tempo previsto como representação da modernidade, dos tempos em que a tecnologia comandaria nossas vidas. O escritor Arthur C. Clarke imaginou que em 2001, primeiro ano do século e do milênio, viveríamos uma odisseia no espaço. Lembro que quando pequeno, via desenhos animados que mostravam que neste século, viveríamos em clima de Jetsons, com carros voadores, robots e o escambau.
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Está claro que dividir o tempo em anos, décadas, séculos e milênios é uma abstração. Em boa parte do mundo ocidental, tomou-se como ano 1 o do nascimento de Jesus Cristo, ou do presumível ano em que o Salvador nasceu. Mas para muitos, não estamos em 2010. Para os judeus, vivemos em 5770 (a partir do suposto ano da criação de Adão). Para os chineses, o ano é 4708. Já os budistas, contam o ano a partir da morte de Buda, em 483 a.C., o que significa que para seus seguidores estamos em 2554. O Islã assegura que vivemos em 1432 (o ano 1 foi a Hégira, a fuga de Maomé, em 622 d.C.).
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Como se vê, os calendários do mundo levam em conta as religiões. Queiram ou não os ateus e agnósticos, nossa vida é profundamente gerida pelas manifestações religiosas. O que, em alguns aspectos, pode ser extremamente complicado, para dizer o mínimo.
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Como estava dizendo, para boa parte da humanidade, vivemos ou deveríamos viver em tempos em que a ciência, a tecnologia, seria parte fundamental de nossas vidas. E efetivamente o é. Eu nunca me canso de me espantar com as maravilhas científicas que aparecem a cada momento, com o sentido de trazer modernidade contínua à vida das pessoas. E igualmente me espanto quando constato que, paralelamente ao mundo tecnológico de hoje, há um mundo medieval, uma Idade das Trevas atual, onde ciência e avanços da modernidade sequer arranham valores culturais arraigados desde o tempo em que Noé brincava com barquinhos de papel na chuva.
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Ontem fui assistir ao filme “Flor do deserto”, admirável produção alemã/austríaca/inglesa, que conta a trajetória da ex-top model somali Waris Dirie (magnificamente interpretada por Liya Kebede).

Para não casar com um velho babão que a tinha comprado adolescente ao pai, ela fugiu pelo deserto da Somália, até chegar na capital, Mogadisco, sendo de lá enviada pela avó para trabalhar na embaixada de seu país na Inglaterra. Era mantida na casa consular o tempo inteiro, não aprendeu o inglês. Quando estourou a revolução em seu país, para não ter que voltar para aquele inferno, fugiu da embaixada, se embrenhando pelas ruas de Londres, catando restos de comida no lixo e dormindo nas calçadas. Ela conheceu uma balconista que a indicou para trabalhar como faxineira numa lanchonete. Lá, foi descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson e seu rosto de linhas perfeitas acabou levando-a à vida de modelo e manequim.
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Até aí, é apenas um filme de superação entre tantos com histórias semelhantes. Mas o que o deu um nó na minha cabeça foi o depoimento dado, inicialmente a uma jornalista inglesa e depois, no plenário da Organização das Nações Unidas.

Ela contou sobre o hábito que o seu país muçulmano tem de fazer com que crianças de três anos sejam levadas para o meio do deserto onde uma mulher lhes corta o clitóris, os pequenos e grandes lábios da vagina com gilete enferrujada, e depois costura tudo usando espinhos de uma planta específica, deixando apenas um orifício mínimo para a urina e o sangue menstrual, além de uma horrível cicatriz. Se a menina não passa por este rito, é considerada por seu povo como impura, suja, prostituta. Muitas morrem de infecção após este ritual. As que sobrevivem, ao se casarem, o marido pega uma faca e rasga o órgão sexual da moça para então penetrá-la.
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(A atriz Liya e a Waris real)
No filme, enquanto a personagem narrava esta mutilação cruel, e havia cenas demonstrando como essa barbaridade era feita, eu me retorcia de horror na poltrona. Na fila abaixo da que eu estava, uma mulher acompanhada do marido, chorava convulsivamente. A plateia sequer respirava durante o relato.
O filme acabou, a gente ficou sabendo que a Waris real tornou-se embaixadora da ONU, que após o seu depoimento houve pressão para que todos os países onde se cometia esta barbárie abolissem as mutilações. Leis foram criadas proibindo que se fizesse essa coisa medonha. Desafortunadamente, em muitos países islâmicos, apesar da proibição, ainda se faz, hoje, 2010, mutilações em meninas como na pequena Waris, em 1968, e em mil e tantos anos antes.
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Em alguns países da Europa, como a Noruega, por exemplo, a expectativa de vida ao nascer de uma mulher é de 82,6 anos. Na Somália é de 51,1 anos. Neste pequeno país do oeste africano, não importa se estamos em 1432 muçulmano, 5570 judaico, 2554 budista ou Século 21 cristão. Lá, o tempo consegue a proeza de não passar. Entra ano e sai ano e eles estão na Idade das Trevas.
M.S.
(video com 1 minuto de duração)

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Na TV Antigas Ternuras, você vê crianças somalis cantando.

12 comentários:

Tertúlias... disse...

Amigo! Muito bom post - eu gosto tanto de todas as informacoes que voce nos passa com este teu jeito brando e calmo. Uma delícia!!!!!
Assisti também Flor do Deserto e fiquei muito tocado com o filme!

Ah! Jesiica Parker - sim, dublando (coloquei o porque lá nas tertúlias!)

Samara Angel disse...

meu querido Marco,brigaduuuuuuuu pelo carinho de me avisar q nao conseguiu comentar no blog da mãezinha Evanir,vou te explicar,riss,onde ta escrito postagen no meio do blog,tem uma janela rolante com barrinha,vc vai descendo a barrinha e acha onde comentar,te adoroooooo,ao deixe de ir no blog dela deixar seu carinho ela gostou muito de vc,eu tb falo de vc,,te adoro,quannto a fotinha é eu sim,riss,mas é um desfile que as vezes faço em Campos, mas vou colocar mais fotos,ris,acho q vc me conhece,lembra aquela foto na praia ,vc tb descobriu q era eu,kkkkkkk,vc nao existe,adorei saber das datas das religioes e costumes,nao sabia,deixo meu carinho e um belo fim de semana,bjusssss

blog da mãezinha

http://fonte-amor.zip.net/

Luma Rosa disse...

Tive grande decepção com o século XXI! Porque desde que me entendo como gente cresci morrendo de medo do mundo acabar e, cadê?

Marco, muito triste que esses costumes tribais ainda repercutem no mundo atual. Nós (?) estamos na modernidade, acompanhamos o caminhar da humanidade pelos livros de História, jornais, televisão, internet... mas e eles na África e outros confins? Eles são rudes e os líderes usam desta realidade para segregação de outras realidades. Vivemos em um mundo globalizado?

Tinha lido uma reportagem na Elle francesa sobre a história de vida dessa modelo e a França, por ser receptora de muitos imigrantes da África, de certa forma, se sente invadida por esses costumes e quando Sarkozy vem à público dizer que não é conivente com a opressão - no caso da Burca que fere a dignidade da mulher, visualizo uma disparidade de discurso e ação.

Mas não adianta todo o ocidente se indignar com os atos de países que por serem mais "velhos" na História mundial deveriam estar mais "modernos" na caminhada para o futuro.

Já pensou que esses países mais velhos são os que mais dependem dos mais modernos? E porque é viável manter esse domínio? Talvez se o cabresto econômico fosse cortado, esses países velhos estariam mais equilibrados na linha do tempo da humanidade. Mas daí Sarkozy não teria espaço para fazer a sua média e perderia a graça!

Bom fim de semana! Beijus

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Gostei do blog!

Conheça a minha revista digital
CINZAS E DIAMANTES.

Ela promove informação e divertimento
como também difunde arte de qualidade e formação cultural,
combinando criatividade e inovação.

O número 4, de julho, homenageia a arte e a história espanhola.
De Lorca ao Flamenco,
da ópera Carmen a Guerra Civil de 36,
da Movida Madrilena a Imigração Clandestina.


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Principe Encantado disse...

Marco gostei de sua matéria, vou visitá-lo outras vezes, parabéns pelo seu espaço.
Abraços forte

Francisco Sobreira disse...

Pois é, caro Marco. Com todo o progresso proporcionado pela ciência e a tecnologia, ainda persistem coisas chocantes, como essa, em alguns países. Problemas que não são apenas culturais, mas, vamos ser francos, têm causas religiosas. Já conhecia o caso dessa modelo, o qual você fez muito bem em divulgar, para não ser esquecido e conhecido por aqueles que o ignoravam. Um abraço e uma boa noite.

Julio Cesar Corrêa disse...

PQP! Em pleno século XXI ainda existem povos que se recusam a sair das trevas. E, pelo jeito, nunca sairão. É por isso, que eu digo e reptio: prefiro 10 psicopatas a um ignorante ou um imbecil. Pq pelo menos o psicopata fal o mal mais ou menos segue um certo padrão de raciocínio e pode sofrer os rigores da lei. Essa gente atrasada é bem vista pelos olhos da sociedade.
Que horror! Gostaria de ver esse filme, mas...PQP!
abração

evanir disse...

Querido amigo venho confirmar o endereço do meu blog.
http://fonte-amor.zip.net/
Fiquei muito feliz com as palavras carinhosas deixadas no blog da minha doce filha Samara,
Estou seguindo seu blog , convido a seguir o meu assim poderei estar sempre aqui contigo.
Um beijo carinhoso,Evanir

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!

Ah... Nem posso ver este filme... Vou ficar muito mal. Eu li esta história há algum tempo na "Seleções" e fiquei muito chocada. Ela conta em detalhes. Não sei como a cultura tem este poder, mas é realmente estar nas trevas. Que sorte eu ter nascido num país abençoado por Deus e num estado que prega a liberdade (ainda que tardia)...
Um beijo...

Samara angel disse...

oi Marco,por onde andas,riss,saudades de suas palavras gentis,vim deixar meu carinho,um abraço e mil bjus,te adoro

Cláudia disse...

Meu Deus!!!!


Saudaddddãooooooo de você

Reinaldo disse...

Cadê novos posts?????????