sexta-feira, julho 23, 2010

Ô de casa!


Eu já contei neste blog o ritual que envolvia a ida da minha família para a casa de algum parente para uma visita. Caso alguém aí tenha a curiosidade de ler ou de reler, basta clicar aqui.
Sei lá o porquê, me deu vontade de contar o que acontecia quando nós recebíamos a visita. Também envolvia muitos rituais.
Mas antes, que tal ouvir o que a minha, a sua, a nossa Rádio Antigas Ternuras – a Rádio que toca no seu coração - reservou para ilustrar musicalmente este post? Basta clicar na setinha e continuar a ler.

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Mas... Onde seu estava? Ah, sim. Recebendo a visita dos parentes. Quando meu pai era vivo, a minha casa era muito visitada pelos tios. Ele gostava de fazer feijoada para receber irmãos/irmãs e cunhados/cunhadas. Lembro dele preparando desde a véspera. Vinha tanta gente que ele usava latas de 20 quilos. Cozinhava no fogão de lenha. Ele era um exímio cozinheiro. Minha mãe diz que eu herdei isso dele, mas tenho a consciência de que pilotando fogão não chego nem na unha do pé dele...
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Comida pronta, ele armava uma mesa enorme feita com tábuas e cavaletes, para caber todo mundo. E aí era só receber o povo. “Ô de casa!”. Minhas tias chegavam trazendo mais comida. Na maior parte das vezes, a sobremesa. Tinha o ritual do “pede a bênção para sua tia, seu tio, sua madrinha...”. Hoje, quando meus sobrinhos, que também são meus afilhados, são instigados por minha irmã a me pedir a bênção, faço uma rápida viagem no tempo e me vejo guri, beijando, com um sorriso maroto, as mãos dos mais velhos. Ah, sim. E ouvia as frases-padrão de sempre: “nossa! Como o Marquinho está crescido!”, “Mas continua tão magrinho... Esse menino tem espinhela caída, tem que mandar rezar!”, “Você está indo bem na escola? Olha que estudar é importante! O estudo não ocupa lugar!” e vai por aí a fora.
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Depois dos beijos, dos cumprimentos, todo mundo ia trocar de roupa, vestir algo mais confortável. E calçar também, é claro. Era a sacrossanta hora de liberar os calos e joanetes, comprimidos durante a longa viagem de ônibus.
Meu pai, mais que solícito, ia de irmão/irmã para cunhado/cunhada a ver se estavam à vontade, se queriam beliscar alguma coisinha (sempre queriam! Minha mãe dizia que eles viviam para comer, não comiam para viver...), “Ruth, cadê a linguicinha?”, para meus tios que gostavam de um goró (nem todos eram chegados), tinha sempre uma caipirinha, uma cerveja Portuguesa casco escuro, ou uma cerveja preta “barriguda” Black Princess.
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Eu acompanhava aquela movimentação com alegria e entusiasmo que só as crianças tem. Adorava ver aquele frege todo, e, como sempre, ganhava presentes dos tios; era a hora de curtir o agrado recebido: de meu tio Jair, livros e gibis; da minha madrinha Irene, uma roupinha; dos outros tios, brinquedos ou uma lembrancinha qualquer que sempre me deixava com os olhinhos brilhando.
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“Vamos sentar, minha gente! Não repara, não... É comidinha simples...”. Meu pai sempre dizia isso na hora de chamar o povo para se aboletar na mesa. E eles vinham já comendo com os olhos as travessas de arroz, a couve mineira, os torresminhos... Não tinha salada, que aquela turma não era chegada em folhas. O pessoal gostava de pegar “no pesado”, mesmo. Saladinha não dava sangue. Começava a dança dos pratos, do “bota mais um pouquinho, que isso está com uma cara ótima...”, do “cadê a pimentinha?”... Dentro em pouco tempo, já tinha um bando de gente atracada com um pé de porco, uma costelinha...
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Depois de encherem o bandulho (como meus parentes chamavam a pança), de tomarem engradados de cerveja, de Guaraná Antárctica e refresco de Groselha, ninguém arredava da mesa. Vinha a sobremesa e o momento que eu mais gostava: lembrar as histórias de família! Ah, eu não tinha olhos e orelhas a medir para acompanhar tudo! Quando tinha algum toque mais picante num causo, sempre aparecia um chato para lembrar: “olha, que tem criança e senhoras presentes!”. Ah, que bosta. Eu queria ouvir tudo! Incluindo as sacanagens da família!
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Cinco, seis horas depois de sentarem-se à mesa para almoçar, todo mundo ainda estava por ali. “Será que ainda sobrou um pouquinho de feijão para comer com pão?” Ô, se não tinha sobrado!... Meu pai mandava descer pão em profusão e café para toda a manada. Minha mãe não se conformava com aquilo. “Mas, meu Deus... Ferreira, você acabou de almoçar e ainda quer tomar café com pão?” Sim, queria. E ainda botava um prato de jiló cozido na água e sal para ele comer com azeite! Meus parentes eram guerreiros...
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Tinha a hora da cantoria, com eles lembrando de músicas do tempo em que carnaval se chamava “entrudo”. Algumas tias se afastavam um pouquinho para “descansar” (leia-se: “dormir de babar no travesseiro e roncar feito o leão da Metro”). Queriam que eu fosse dormir também, mas eu era besta de perder aquele forrobodó de histórias e causos?
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Lá pelas oito, nove da noite, era hora de “picar a mula”, como meu tio Jair sempre dizia. Recolocavam a roupa de sair, reparavam que alguns botões não se deixavam fechar (por que será, heim?), enfiavam gemendo os pés nos martirizantes sapatos, não sem gemidos e protestos!, e começavam os rituais de despedida. É claro, eu tinha que pedir a bênção a todo mundo novamente, ouvir conselhos e admoestações para comer direitinho, pois estava muito magrinho...
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Levávamos todos à porta, mais despedidas, e ali ficávamos vendo todos partirem, até chegarem na esquina, de onde acenavam mais uma vez, desaparecendo de nossas vistas. Fim de domingo. Para mim, significava banho, pijama e cama. Para meu pai, banho, pijama e televisão, enquanto minha mãe ajudava a organizar o caos da cozinha.
No travesseiro, eu remoía as histórias ouvidas, comparava com as contadas da outra vez, lembrava da risada engraçada de minha tia Avelina, e dormia sorrindo por que era feliz e sabia.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve o saudoso Paulo Moura, que recentemente foi tocar no céu, e Heraldo do Monte tocando “Naquele tempo”.

4 comentários:

Tertúlias... disse...

Adoreo este relato... e fiquei com vontade de comer a tal linguicinha que foi oferecida para seus tio... hi hi!!!!

dade amorim disse...

Aqui em casa temos almoços em família quase toda semana. Mas prefiro maneirar no cardápio, pra não incentivar os colesteróis da parentada.
Parece que no tempo de nossa infância havia menos preocupação com isso.
Sempre uma boa prosa, Marco.
Ando meio em recesso, o tempo estava tão curto que não conseguia mais fazer o que me parece mais gostoso e aproveitar a vida (que é curta e tem que ser o mais bem vivida possível, concorda?).

Beijo beijo pra você.

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!
É... Nada como estas reuniões de família para dar aquela saudade na gente. Lembro bem das minhas lá nas minhas montanhas de ametistas, com a "Pererada" toda reunida... Faz tempo que a gente não se encontra mais.
E esta feijoada devia ser boaaaa. Adoro feijoada!
Acho que hoje as reuniões não tem mais estas peculiaridades. Acho que todos que te lerem vão lembrar daquele tio ou tia, dos pais e de coisas que aconteceram nestas reuniões...
Adorei duas fotos, que me pareceram ser de "Amarcord", estou certa?
Um beijo e obrigada por me fazer voltar no tempo. Tem coisas e momentos que queremos reviver sempre!

www.sualista.com.br disse...

www.sualista.com.br