sexta-feira, maio 14, 2010

Ah, essa cana...


Dia desses eu vi, na feira, um rapazote vendendo roletes de cana fincados em varetas de bambu. Pois bem, aconteceu de novo: aquela velha sensação de ser tragado por um torvelinho que me arremessa no passado para reviver antigas sensações, antigas ternuras. (Aqui entra a dica para você clicar na setinha e ouvir a canção que a Rádio Antigas Ternuras, a rádio que toca no seu coração, selecionou para este post)

Eu me vi, ainda menino, sem o que fazer de útil para a sociedade em determinado momento do dia, olhando para o quintal, procurando me decidir entre subir no pé de cajá, no de goiaba, no de manga ou pegar o facão amolado e cortar e descascar cana, acabando por optar por esta última atividade.
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Aquilo era quase um ritual litúrgico! Abrir a gaveta da mesa da varanda, desembainhar a peixeira do tempo de meu pai e selecionar naquela touceira o melhor caule da planta do gênero Saccharum, tão estreitamente vinculada com a História do Brasil. Com um golpe só, decepava a bicha no talo. Os pés de cana do nosso quintal eram grossos feito bambus. Diziam que não eram tão doces quanto a cana caiana, aquela que quando madura ficava amarelinha e era fina feito as canelas de minha irmã. Digo isso me referindo às canelas dela naquele tempo. Hoje, não lembram mais cana. Estão mais para tronco de peroba-do-campo ( se ela ler isso, me arranca o couro...).
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Independente da grossura do caule da nossa cana, ela era tão docinha...
Uma vez cortada, eu me dedicava a limpar, cortar os olhinhos, seccionar a parte das folhas afiadas feito navalha. Uma vez limpinha, eu cuidava de cortá-la em pedaços menores para facilitar o descasque. Os anos de prática me davam extrema habilidade nesse processo. Era fazer um pequeno talho na parte alta do nó e, com um movimento da faca, um pedaço da casca grossa levantava, daí era só deslizar a lâmina e ele voava longe. Criteriosamente, eu removia todo aquele invólucro cor de vinho tinto e a carne da cana, em tom entre o amarelo claro e o verde lavado se me oferecia com languidez. O passo seguinte era cortar o nó, e isto eu fazia segurando o pedaço da cana com a mão esquerda e, com a outra mão decepando a parte indesejada com um movimento em círculo feito com a peixeira. Cortava o nó de cima, cortava o nó de baixo. Eis que eu tinha um rolete de uns dez centímetros implorando pelos meus dentes.
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Calma, ainda faltava um bocadito para o meu prazer. Apoiava a lâmina da faca em transversal no alto do rolete e batia com a mão na parte sem corte para que a faca deslizasse rompendo aquele pequeno cilindro que se dividia em duas metades. Juntava estas partes e fazia a mesma coisa, cortando em cruz. Logo, eu tinha quatro pequenos talos umedecidos pelo corte do facão. Era como uma mulher amada, molhada de desejo, pronta para ser sorvida pelo amante hábil e carinhoso. Introduzia na boca aquele pedaço de prazer, mordendo com molares e pré-molares num canto da bochecha, recebendo na língua o gozo da cana, sumo generoso, mel de prazer que me enchia a boca, excitando-me as papilas gustativas, misturando-se às minhas secreções. Eu praticamente fazia amor com aquele pedaço de vegetal.
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Para me tirar daquele enlevo, só a voz de meu irmão, quebrando o momento mágico, pedindo:
- Me dá um pedaço?
Eu cortava mais um rolete e entregava ao pidão, dizendo: “desinfeta, pirralho!” e o via realmente sumir, mordiscando o naco adocicado, cuspindo o bagaço no chão do terreiro.
Naquele momento, eu não imaginava que estava revivendo um gesto histórico, que tantos outros fizeram. Imagino quantos negros escravos, em raros momentos de descanso, também se dedicavam a sorver o caldo da cana abocanhada entre os dentes, para depois lançar longe o bagaço exangue.
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Tudo isso passou pela minha mente, num átimo, na velocidade do pensamento, quando vi os roletes de cana que o rapaz vendia na feira de uma rua de um Rio de Janeiro urbano, esquecido desses pequenos prazeres. O torvelinho da feira me engoliu e diluiu meus pensamentos, como que me chamando para a realidade. Mas eu sabia muito bem que dentro de mim o menino ainda chupava aquela cana e assoviava um chamamento para que eu me juntasse a ele...
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Alceu Valença e a sua “Morena tropicana”... Melhor que isso só caldo de cana caiana...

12 comentários:

Márcia(clarinha) disse...

Lembranças tem cheiro e sabor...as minhas são de doce de leite em quadradinhos que papai trazia na volta do trabalho e a cocada quentinha da feira de domingo...
Nunca gostei de cana, mas adoro suas ternuras ;)
lindo dia amigopratodavida, saudades
beijos

Érica disse...

aaaaaaaaaaaaaaaah....
Eu não acredito. Que deliciaaaa...
Olha, uma breve história: eu passei minha infância e adolescência indo freqüentemente para a fazenda da minha tia em Paudalho (interior daqui do Recife) e na casa de praia do meu cunhado em Maracaípe (município de Ipojuca, litoral) e você não tem noção do que era esses roletes na minha vida. Era parada ceeeerta no meio da estrada, era pegando caules inteiros, vários e vários pelas vastas plantações.. Chupando aquele suco dociinho até a boca colar de tanto ranço. Nossa!!! Fantástico.

Adorei essa recordação, fiquei até desejando. huuummm
rsrsrs

Beijos

Lianara **Lia** disse...

Olá!

Vi um comentário teu, no blog da Marli! Vim espiar e achei muito interessante! Até virei sua seguidora!

Abraços

Lia

Blog Reticências...
http://liaks25.blogspot.com/

Luma Rosa disse...

Marco, hoje em dia as máquinas de guarapa substituiram o ato de chupar cana! A sociedade anda gorda por causa da 'praticidade' e acho que 'prisão de ventre' é o mal do século! Ultimamente tenho visto muita propaganda na tv de remédios ou estimulantes dos movimentos peristálticos do intestino, mas o que as pessoas se esquecem é que a digestão ou melhor, TUDO começa pela nossa boca! O ato de mastigar, estimula muitas regiões do cérebro que não somente a da saciedade alimentar. Bem... poderia fazer um post sobre isto! O prazer de comer, aliado ao ambiente criado no momento, estimula até mesmo, a nossa caixa de pandora! Vê como tem guardado um momento tão rico!! Bom fim de semana! Beijus,

Marcos Dhotta disse...

... Acabei de passear pelos posts anteriores. Mas esse aqui, MEU AMIGO! Mexeu no cerne do menino brejeiro que fui... Estou até agora com agua na boca. Nossa!Faz um tempão que não encontro esses "roletes de cana" por aqui. Nas cidades do interior sempre degusto essa maravilha! Mas aqui é difícil... Já os encontrei em supermercados, é verdade. Mas não são a mesma coisa. Depois de embalados para consumo, passam a ter gosto da própria embalagem: Isopor e papel filme.

Grande Marco, mais uma vez você nos contempla com esses achados que ficam encostadinhos, ali, nos recantos de nós mesmos. Sou suspeito para falar, bem sabes... Quero te dizer muito obrigado por continuares a ser fonte de inspiração para mim.
Abraço afetuoso meu amigo!

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!
Certamente esta é uma das minhas ternuras também. Meu pai ou meu avô se encarregavam de cortar a cana. Lembro da comemoração da copa de 70, nós na Kombi de um tio meu recém falecido, chupando cana toda cortadinha nas mãozinhas sujas. Acho que os adultos também estavam com a cana, mas esta era líquida!
Mas algo como aquele quintal de infância, aqueles momentos em que éramos inocentes e vivíamos para curtir o melhor da vida, merecem um post deste nível! Parabéns! Tenho certeza de que despertou lembranças em todos! E até no título você caprichou!
Beijo!

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!
Certamente esta é uma das minhas ternuras também. Meu pai ou meu avô se encarregavam de cortar a cana. Lembro da comemoração da copa de 70, nós na Kombi de um tio meu recém falecido, chupando cana toda cortadinha nas mãozinhas sujas. Acho que os adultos também estavam com a cana, mas esta era líquida!
Mas algo como aquele quintal de infância, aqueles momentos em que éramos inocentes e vivíamos para curtir o melhor da vida, merecem um post deste nível! Parabéns! Tenho certeza de que despertou lembranças em todos! E até no título você caprichou!
Beijo!

Francisco Sobreira disse...

Caro Marco,
Você viu algo em extinção. Bote tempo que não me deparo com um vendedor de rolete de cana. Creio que em Natal eles não existem mais, talvez numa cidadezinha do interior. Mas lhe confesso que não era muito chegado a rolete de cana, pois ele me fazia doer os dentes. O que eu apreciava mais era o caldo de cana, acompanhado de pão doce, a merenda indefectível na hora do recreio no Liceu do Ceará. Um abraço.

itiro disse...

Eu apanhava cana nas estradinhas perto de Duartina e cortava como vc relatou, em casa. Depois mais crescido (mas nem tanto, mesmo hoje...) substituí por garapa e depois passei a incluir a nossa boa cachaça rsrsss
Parabéns pelo livro! Interessantíssimo o seu texto sobre Brasília! Vou para SP no mês que vem para coincidir com o lançamento de uma antologia de que faço parte. Vai ser no dia 25 de junho na Casa das Rosas. Apareça se puder, vai ser uma honra para mim.
Abraços!!!

Tertúlias... disse...

Mais uma viagem... mais um passeio por lembrancas, lidado por voce! Sim voce é o "guia turístico" da nossa memória... sem voce nao viríamos tantas coisas com tanta sensibilidade! Perfeito! Amo tuas postagens! Ricardo

Janaina disse...

Ain... quando eu era criança adoraaaava chupar cana na fazenda do meu avô. Tanto tempo que não faço isso, nem tomo garapa, nem tanta coisa gostosa... Adoro vir aqui. Beijos, Marco!

Dilberto L. Rosa disse...

Infelizmente não tenho as doces recordações da Érica, mas a menina que trabalhava lá em casa trazia do interior os roletes para que eu me deliciasse... Garapa, mesmo, só naquelas máquinas fétidas e sujas de alguns bares ainda em pé... Belas e poéticas recordações doces de um tempo que nãovolta mais, nãon é mesmo?! Abração!