domingo, maio 23, 2010

Tanto tempo


Tem dias em que eu amanheço. Acordo o sol, me sinto menino serelepe, como se tivesse vindo ao mundo anteontem, cheio de disposição.
Tem outros, em que entardeço ou mesmo anoiteço. Isso ainda com o sol principiando seu expediente diário. Eu me sinto velho como os chinelos de Matusalém.
(este post é melhor apreciado se você clicar na setinha do you tube abaixo, e ouvir, enquanto lê, a seleção musical que a minha, a sua , a nossa Rádio Antigas Ternuras, a rádio que toca no seu coração, selecionou para você)

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Na verdade, nem sou tão velho assim, como também não sou um rapazote. Mas provavelmente já vivi a primeira metade de meus anos de vida. E, meu Deus, como está passando rápido! O Padre Antonio Vieira escreveu em um de seus sermões: “somos como folhas ao vento... Vem o vento e nos eleva... Um dia o vento cessa... Vento vida...”
É isso. A vida, o tempo... é como o vento. Passa no seu movimento inexorável, não dá para segurar.
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Já vi tanta coisa acontecendo, tanta novidade. Sou do tempo de muita coisa que virou peça de museu para as novas gerações. Vitrola, máquina de escrever, gravador de fita cassete, TV em preto e branco com seletor de canais no aparelho (aquele que fazia trec-trec, quando a gente mudava de canal e só ia do 2 ao 13), disco de vinil, câmeras fotográficas de filme, rádio de válvula, bonde elétrico, ferro a carvão, máquina de costura de pedalar...
Se eu sentar com meus sobrinhos e começar a contar para eles como era no meu tempo, talvez eles se assombrem, talvez eles acabem rindo à socapa, tentando imaginar como era possível viver no tempo da pedra lascada como eu e os pais deles vivemos...
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Por mais novidades que eu tenha visto, por mais mudanças que eu tenha presenciado, tem muita gente que desde muito olha as engrenagens do tempo passando e já viu muito mais coisas novas que eu. O arquiteto Oscar Niemeyer, por exemplo. Ele nasceu em 1907. Quando ele veio ao mundo, praticamente não existiam automóveis no Rio de Janeiro. Gradativamente, ele viu as ruas da cidade se encherem de bólidos e até chegando nos dias atuais, onde vê engarrafamentos colossais. Ao longo de sua vida, ele viu aviões se desenvolverem, duas guerras mundiais, ele é do tempo de Machado de Assis, Arthur Azevedo, Olavo Bilac, Ruy Barbosa, acompanhou a Revolução de 1930, a Revolução Constitucional de 1932, em São Paulo, viu surgir o comunismo na URSS, viu o fim do comunismo por lá, viu 29 presidentes do Brasil tomarem posse (fora interinos e a junta militar), acompanhou o futebol se transformando numa paixão nacional, viu a bomba atômica, o medo da bomba, o homem pisar na lua, acompanhou todas as Copas do Mundo...
Fico imaginando como ele vê cada dia dos tempos atuais, cada notícia que lê nos jornais...
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Antes dele, teve uma pessoa que também viveu muito e viu muitas e grandes novidades: Chiquinha Gonzaga.
Quando ela nasceu, em 1847, as únicas formas de transporte que havia eram o navio e o cavalo. Até morrer, em 1935, ela viu o trem, o automóvel, o avião. Quando era jovenzinha, ela escrevia cartas que eram entregues em mãos. Ela viu surgir o correio, o telégrafo, o telefone, o rádio e quase foi contemporânea da TV, cuja primeira transmissão no mundo aconteceu um mês depois dela ter falecido.
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Ah, o tempo... Corremos atrás dele ou será que é ele que nos empurra para a frente? Costuma-se dizer que há tempo para tudo nessa vida, que as coisas acontecem no seu tempo certo, que o tempo é o senhor da razão...
Eu vi tantas coisas acontecerem no meu relativamente curto tempo de vida. Outros viram bem mais do que eu. Mas, sei lá, me fica a impressão de que o que realmente importa não é o tempo em que fatos acontecem. Talvez seja mais prazeroso apreciar a força, o poder com que estas coisas nos afeta. As traquitanas eletro-eletrônicas que vi surgir (e desaparecer) tem valor para mim pelo tanto de emoção que cada um deles me trouxe e traz. Minha formação como pessoa, cidadão, ser do mundo foi afetada e constituída pelas músicas que ouvi, textos que comecei a escrever numa velha Olivetti Lettera 22 e posteriormente em Remingtons jurássicas, nas muitas fotos que bati na minha infância e juventude, que hoje trazem para diante de minhas retinas cansadas fragmentos do menino e rapazote que fui, assim como de pessoas e lugares que me foram muito queridos, dos antigos programas de TV que trouxeram para minha mente a tão necessária fantasia para temperar a rudeza do cotidiano... Enfim, marco minha presença neste mundo com o auxílio luxuoso de coisas de meu tempo. E com a ajuda do próprio tempo, este mestre tão querido.
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Os que viveram mais que eu talvez tenham opinião semelhante. Sempre gosto de ouvir os mais idosos, saber de suas reflexões e vivências. Seus momentos que não se esquece, as pessoas formidáveis que conheceram, os momentos mágicos de que foram testemunhas.
Tanto tempo... tantas vidas para a gente viver numa só. Que em cada dia a gente, como o apóstolo Paulo, combata o bom combate, para quando completarmos a carreira, guardarmos a certeza de que realmente vivemos e que isso valeu a pena.
M.S.
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No outro blog em que escrevo, o Playground dos Dinossauros, está postado um texto meu sobre os animais heróis da nossa televisão, do tempo em que “espetar a perereca” era apenas catalogar o pequeno batráquio.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve The Beatles, com “Strawberry Fields Forever”. Que maravilha, né não?

8 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Caro Marco,
Costuma-se dizer que a vida é curta. Para mim , é curta para quem morre jovem. Você que deve ter não muito mais do que a metade dos anos de Niemeyer, já viu tantas coisas, hem? E eu um pouco mais, já que sou mais velho. É isso, o tempo passa e quem não morre jovem, assiste à transformação das coisas. E embora o progresso seja indispensável, os coroas, como nõs, sentem saudades de tempos idos e vividos. Um abraço.

Tertúlias... disse...

Precioso momento... boa indagacao...

Dilberto L. Rosa disse...

Saudosista, hein?! Eu também estou nessa fase nos Morcegos... De tuas citações, só não vivi "rádio de válvula, bonde elétrico e ferro a carvão" (porque também era demais, ré, ré), mas o saudosismo e essas conversas de "Ah, como era melhor no meu tempo..."herdei de meu avô, sentado, batucando sambas antigos que hoje compõem a 'jukebox' de minha memória musical... Bons tempos que não voltam mais: que o diga Niemeyer, que não deve andar mais lendo muita coisa em sua idade avançada e desgastada pelo vento... Abração!

Julio Cesar Corrêa disse...

Taí uma coisa na qual não penso é na minha idade. Pra falar a verdade nem me sinto na idade que tenho. O passado quase sempre é um caixote que tenho no alto de uma estante, onde guardo fotos, cartas, livros, presentes e outras lembranças. Procuro não pensar muito nele, mas de vez em quando o passado salta lá de cima e vem me fazer recordar. A música, um filme, um lugar, um encontro. Aí, quando isso acontecesse, mergulho fundo nas recordações. Afinal, recordar também é viver.
abração

Tina disse...

Oi Marco!

Tem dias em que também amanheço assim... lindo post, parabéns.

Sempre gostei de ouvir os mais idosos, agora é minha vez de dar o troco. (rs)

beijos querido, boa semana.

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!
É... O tempo passa! Tenho lido sobre Cronos e de suas maldades...
Eu também m sinto assim às vezes. E assim tudo vira post no blog, minhas memórias de borboleta. Mas nossa vida pode ser curta , mesmo que vivamos 100 anos. É que eu penso que esta contagem deva ser feita pelas experiências que amealhamos, pelas lembranças que cultivamos, pela nossa memória olfativa, gustativa dentre outras... Eu sou assim.Sinto falta dos perfumes, das canções...
Você citou grandes nomes, quantas vidas não viveram em apenas uma! A intensidade com que se vive, esta sim deve ser a areia da ampulheta da nossa vida!
Um beijo!

Lino Resende disse...

É, Marco, também vi muitas das coisas que você relata. E o tempo, para todos nós, é inexorável, passando, nos modificando e fazendo com que vejamos muitas coisas em perspectiva.
Mas é este tempo, também, que nos dá o que temos e, nisso, nos traz satisfação e felicidade.

Lia Noronha disse...

Realmente a propaganda...sempre foi a alma do negócio.
abraços carinhosos