domingo, maio 09, 2010

Ônibus - uma viagem


Noutro dia, estive numa exposição de carros antigos. Ah! Que viagem! Os velhos veículos já renderam dois posts de histórias no Playground dos Dinossauros, o outro blog em que escrevo.
Na exposição, eu encontrei este ônibus da foto. Meninos, eu vi! E andei em um desses. E nos outros que aparecem nesta postagem. Mais um pouco e eu teria dito que trafeguei em uma diligência da Wells Fargo, sendo perseguido por ferozes apaches...

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Mas antes de prosseguir a leitura deste texto, que tal lê-lo acompanhado pela trilha sonora que a minha, a sua, a nossa Rádio Antigas Ternuras, a rádio que toca no seu coração, traz até você? É só clicar na setinha e prosseguir a sua leitura ouvindo esta ótima canção, que faz lembrar uma agradável viagem num ônibus do passado.

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Quando era menino, ônibus exerciam um fascínio sobre mim. Lembro que eu brincava com minha bicicleta, dizendo que ela era um ônibus. Eu pedalava fazendo com a boca o som do motor de um coletivo.
Eu tenho uma história envolvendo esses carrões que levam a gente para tudo que é lado. Uma só, não. Um monte delas. Mas uma está ligada à afetividade e tem no meio uma personagem que eu quero homenagear especialmente hoje.
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Quando eu tinha os meus quatro, cinco anos, minha mãe me levava num ônibus para cima e para baixo, visto que na época não tínhamos carro (nem nós, nem a imensidão de pessoas da vizinhança, uma vez que ter o seu meio de transporte particular não era para qualquer um...). Os ônibus do meu tempo eram numerados, iniciando por 1, 2, 3 e assim por diante. Quando eu entrava no ônibus com minha mãe, sempre perguntava a ela qual era o número que estava na plaquinha. Ela dizia, por exemplo, “4”. Eu olhava bem para o formato dele, procurava memorizar suas características. E fazia o mesmo com os outros números que ela me dizia, pois está claro que eu infernizava a paciência da boa senhora perguntando sobre qualquer número que eu não sabia. De tanto inquiri-la, de tanto observar os números dos ônibus, acabei sabendo ler números de 1 a vinte e tantos, exatamente o número de veículos que a empresa tinha. Quando eu fui para a escola, já sabia ler, pois meus pais me ensinaram pelos gibis e tirinhas de quadrinhos dos jornais. E já sabia contar e identificar números, aprendidos nos lotações de minha época, graças a paciência de minha doce mãezinha. Com isso, aproveito para homenagear todas as Mães que me dão o prazer e a honra de ler minhas mal tecladas linhas.
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Mas há outras histórias envolvendo ônibus e outros modelos também. Ao longo dos anos 60 e 70, andei em vários tipos e me lembro claramente de todos. Tinha o lotação, com motorzão na frente e uma porta só, aberta manualmente pelo motorista com uma alavanca. Tinha o ônibus elétrico, que a gente chamava de “ônibus com suspensório”. Este era diferente, pois praticamente não fazia barulho algum.
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Quando ia visitar meus tios, pegava um ônibus que tinha um lugar para um só, ali na frente, ao lado do motorista. Eu adorava viajar ali! Eu tinha a mesma visão que o motorista (só que do outro lado) e chegava ás vezes a fazer os movimentos que ele fazia com a alavanca do câmbio, com o volante, com os pedais...
Uma coisa legal que muitos vão lembrar. Não tinha roleta ou catraca naquela época. O cobrador cobrava as passagens andando, ou melhor, se equilibrando, no corredor do ônibus. Ele vinha com um monte de fichas nas mãos, como estas da imagem.
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E costumava fazer um barulho curioso, manipulando o monte de fichas, justamente para a gente saber que ele estava vindo cobrar a passagem. Dependendo do trajeto, o preço da passagem era diferenciado e cada um recebia uma ficha da cor referente ao seu trajeto. E ao sair, devia depositá-la na caixa que ficava ao lado do motorista.
Tempos depois, o cobrador, ou trocador, passou a ficar naquele balcãozinho que a gente conhece até hoje. Eles não gostavam muito de estudantes... A gente tocava uma zoeira no banco de trás e em muitas vezes saíamos sem colocar a ficha na caixinha e acabávamos dando prejuízo para motoristas e cobradores, que tinham que pagar pelas fichas não devolvidas. Posteriormente, as fichas foram substituídas por talões de papel. Não tinham a menor graça...
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Lembro que motoristas e cobradores chamavam os estudantes depreciativamente de “pardais”, porque andávamos em bando e fazíamos muito barulho, igualzinho àquelas aves. Hoje, as campainhas para avisar que alguém quer descer não fazem barulho, ou se fazem é mínimo. Na minha época, aquele barulho de cigarra ficava tocando enquanto se estivesse puxando a cordinha. E quando alguém se demorava ao acionar a cigarra, o trocador logo gritava: “Ei, não vai sair leite, não!”
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Ah, as histórias são tantas... este post viraria um livro se fosse contar todas. Hoje em dia quase não ando de ônibus. Ter carro hoje em dia é para qualquer um, e se não pego o meu batmóvel, dou preferência ao metrô. Mas quando opto pelo coletivo, não deixo de lembrar de meus tempos de moleque. Chego quase a ouvir as musiquinhas que o bando de estudantes cantavam lá do banco de trás... “Motorista, se eu fosse como tu... tirava o pé do freio e... corria pra chuchu!” Na verdade, o final dessa música era um pouco diferente. Nós mandávamos o motorista enfiar o pé numa rima pobre para “tu”...
Eita nós...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Tema de Cristina”, da novela Pigmalião 70, tocada pela Orquestra Briamonte.

12 comentários:

Dilberto L. Rosa disse...

Gostei muito do "lance" das fichinhas, desconhecia, bem interessante... Infelizmente, meu caro, ônibus são meios de transporte falidos... Abração!

Márcia(clarinha) disse...

Amigopratodavida,
caraca! que viagem fiz aqui, senti até o cheiro de óleo queimado saindo do lotação e quase vomitei, eca...eu vomitava muitoooooooo com a cabeça pra fora da janela, credo! ;-)
Somos da mesma época e as fichas coloridas faziam alegria do meu irmão que as colecionava, então o legal era ficar com elas como troféu, rsss.
Que sua mãe tenha tido um lindo e feliz dia, meu carinho pra ela.
beijos saudosos de feliz semana

Francisco Sobreira disse...

Caro Marco,
Na minha cidadezinha havia 2 ônibus, de empresas diferentes, que faziam a viagem para a capital. Certamente, você nunca viu esse tipo de ônibus. Eram abertos e constituído de bancadas enfileiradas. O número de ocupantes dessas bancadas variava de acordo com o peso de cada passageiro (risos). Estrada ruim, que se tornava quase intrafegável quando chovia muito. Só quando fui estudar em Fortaleza foi que conheci os veículos com dois bancos em cada lado. Me lembro das fichas de duas cores: uma para inteira, a outra para meia. Meu caro, como sempre acontece quando você escreve esses textos, eu me remeto à infância e à adolescência. E bate uma saudade danada. Um ab raço;

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!
Estive no mês passado numa exposição de carros antigos numa cidade aqui perto chamada Águas de Lindóia. É um ótimo lugar do circuito das águas vizinho ao nosso. Vi muitos exemplares de minha infância!
Ah, eu também tive meus ônibus na infância. Eram poucos na cidadezinha e os chamávamos de "lotação". As jardineiras eram aquelas narigudas, como eu as chamava e não eram do meu tempo. Quando chegaram na cidade os "peões" que vieram construir a Ferrovia do Aço, aí popularizou-se o termo "coletivo", por causa deles o utilizarem muito e o chamarem assim. Não tinha estas fichas coloridas no meu tempo, era dim dim mesmo. Mas eu andava mais à pé ou no carro do meu vovô "SôZé". Estou aqui imaginando o menino sentado na frente perto do morotista. Eu só vi isto de perto uma vez, numa de minhas idas ao Rio, na casa de minha tia.
Belas lembranças , meu caro!
Beijo!

Jacinta Dantas disse...

Nossa!
que delícia!
suas lembranças trazem à tona meus tempos de criança. Tempo em que, no bairro onde eu morava, ônibus era artigo de luxo. Um de manhã e outro à tarde. Quem precisasse sair noutro horário, tinha que andar 03 km para encontrar algum. Mas, com certeza, foi um tempo legal, diferente. E, aqui, em suas lembranças, fico imaginando quantos sonhos foram sonhados no interior de um ônibus.
Muito bom te ler.

Graça disse...

Marco, meu amigão, que saudade docê!

Sabe, na minha época era "jardineira"...rsrs...e sem poooorta!! (manja o R carregado mineiro?)
Mas nem me pergunte pq aquela jeringonça não possuía portas (dos dois lados) não saberia te responder, meu caro.

De qualquer forma, a saudade é a mesma, depois que eu tb fiz essa viagem aqui com vc, e te confesso que adoro as nostalgias dos ônibus: são histórias que não acabam mais.

No início de minha carreira como professora, lecionei em zona rural, e vi de TUDO! Desde mudança de famílias de ciganos (rsrs)com porco, panelas, filhos, galinhas, trouxas de roupas, varas de pescar, aff...até criança que perde o sapato e a mãe faz o motorista retornar uns quarenta metros... e desce todo mundo pra procurar o sapatinho do nenê e nada de achar o tal sapato. Como resultado, todo mundo atrasado para o início das aulas: nós professores achando divertido, rindo até doer, e nossos alunos resmungando pq teriam pouco tempo pra fazer as provas...rs
Amei sua postagem!!!

Que legal, Marco, suscitar essas lembranças em nós!

Essa das fichas coloridas para mim tb é novidade, queria ter conhecido.

E seus modelos de ônibus enriqueceram um pouco mais meus 'parcos conhecimentos' na área...

Ah, aproveitei e li todos os seus posts anteriores, viu? Ri à beça com aquela coisa lá de Racha da Zilda, parabenizei-te tb pelo evento no 5º Encontro da Lusofonia, (tu tá chique lá, hein?)e todos os demais.
Gostei muito, visse?

Grande abraço!
Na alma, garoto fera. E muito obrigada pela sempre amável visita...

Marliborges disse...

Gente! adorei esse blog!!! Vou estar muito por aqui. Bjsssssss

Tina disse...

Oi Marco!

Uma delícia voltar aqui e achar esse post: eu me lembro de "alguns" desses ônibus - um deles é do mesmo tipo do que me pegava e trazia do Colégio durante a minha Juventude no Rio... bons tempos ! (rs) Das fichas eu não me lembro, honestamente.

O melhor de tudo foi achar essa música - a ÚNICA vez que meu nome foi tema !!! Obrigada tá ?

beijos e tenha um ótimo dia.

Armando Maynard disse...

Caro Marco, aqui em minha cidade, Aracaju, na década de 60, lotação era chamada de “marinete”. Tempos depois surgiram os “gostosões”, que eram ônibus grandes da Mercedes Bens. Teve uma época que começaram a aparecer uns ônibus com lâmpadas fosforescentes, que serviam para iluminar o seu interior e por isso eram chamados de “trios elétricos”. Lembro das “marinetes” que viajavam para o interior do estado, em que o maleiro ficava no teto e era coberto por um encerado. Quando jovem, sempre gostava de andar de ônibus. Quando ia para o trabalho ‘pegava’, mesmo já estando na metade do caminho. Por já ser acostumado, ‘pungava’ sem que o mesmo precisasse parar, pois na maioria das vezes era fora do ponto. O tempo passou e já casado, tendo minha esposa ficado com meu carro, resolvi voltar para casa de ônibus. Logo que entrei no mesmo, comecei a encontrar dificuldade para passar pela catraca onde fica o cobrador, pois o ônibus rapidamente lotou. Ao passar pelo cobrador começou o contorcionismo para ir para frente do ônibus. Já apreensivo, vendo à hora de chegar o lugar de descer e não poder. Foi o que aconteceu, mesmo tocando a cigarra que avisa ao motorista que tem passageiro querendo descer no próximo ponto, o mesmo não parou e lá se foi eu para outro bairro. Ao consegui descer do ônibus, notei que minha caneta cross novinha já não estava mais no meu bolso. Resultado de minha aventura, além de terem roubado minha caneta, tive que voltar de taxi para casa. Quando da implantação do transporte integrado, chamado pela Prefeitura de “Transporte de Massa”, os ônibus andavam por vias exclusivas e em ruas com canaletas, as quais serviam para separar dos carros de passeio. Aos domingos, muitas mães juntamente com seus filhos entravam nos ônibus sem destino, e ficavam a passear por vários bairros da cidade, só pagando outra passagem quando o cobrador dizia que tinha chegado ao “fim de linha”. Dois ônibus que ainda chamam atenção por aqui, o articulado, conhecido “papa-fila” e a “jardineira”, hoje também chamado de “marinete do forró”, que circula por toda a cidade no mês de junho, quando das “Festas Juninas”, com um conjunto pé de serra tocando. Um problema que persiste até hoje, são os ônibus lotados na hora do rush, onde as pessoas se comparam a “sardinhas em latas”, além da falta de educação nos pontos de parada e terminais, quando as pessoas por não se organizarem em filas, na hora que o ônibus para, começa o empurra-empurra, com todos querendo entrar ao mesmo tempo. Hoje temos na cidade uma frota de ônibus novos e modernos, pelo menos os que rodam pelos bairros principais, mas na periferia ainda há muitas reclamações quanto à manutenção dos mesmos. Se este transporte tivesse qualidade, poderia desafogar um pouco o trânsito da cidade, fazendo com que muitos proprietários de carros deixassem os mesmos na garagem e fossem trabalhar de ônibus. Um abraço, Armando.

dade amorim disse...

Nossa, Marco, você me fez lembrar de tanta coisa que nem te conto. Os ônibus fizeram parte da história de vida de várias gerações, não só no Rio. Lembro desses circulares que aparecem logo no início de teu texto, e de outros, que me levavam à faculdade, às casas de amigas, ao centro da cidade. Os ônibus foram mesmo uma fonte de muitas histórias, até que entrou na mira dos assaltantes de nossa gentil cidade.

Beijo pra você.

Marcos Dhotta disse...

Como sempre resgatanto fatos e coisas de um tempo fantático para nós... Essas fichinhas eu não lembrava!! Mas esses onibus com cara de intermunicipais eu lembro sim. E como bem lembrou a Márcia... Eu também (quando criança), vomitava horrores pela janela. Ficava enjoado fácil , facil... Antigas Ternuras essas!

Fichas de Onibus disse...

galera quem quiser conhecer varias Fichas de onibus vistem nosso blog
la podemos trocar , negociar e manter nossas coloeções vivas
http://fichasdeonibus.blogspot.com/