terça-feira, janeiro 13, 2009

Terra Santa?


Quem vem aqui me dar o prazer de me ler sabe o quanto eu gosto de História. Esta disciplina sempre me fascinou desde o tempo de criança, o tempo das antigas ternuras. Estudando História, eu descobri a explicação de muita coisa do tempo atual. Como eu costumo dizer, quem despreza o seu passado, se perde no presente e não constrói o seu futuro.
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Desde o final do ano passado, a gente abre os jornais e vê cenas pavorosas, envolvendo a questão palestina. Muita gente não consegue entender a razão de tanta matança, de tanta crueldade. Bem, existe uma razão de cunho filosófico que eu defendo, a de que o Homem é o vírus de si mesmo. Mas não é disso que eu quero falar. Gostaria de explicar, historicamente, o que acontece na chamada Terra Santa.
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Esta faixa de terra tem cerca de 22 mil quilômetros quadrados (pouco maior que o estado de Sergipe). Está limitada entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão e o Mar Morto, apresentando clima desértico, com vegetação nem um pouco exuberante. Em alguns lugares faz um calor boçal, com baixos índices pluviométricos, relevo acidentado, solo pobre, em comparação com outra áreas do globo. E ainda é chamada de “Terra Prometida”. Lá, estão 5 milhões de judeus e 4,5 milhões de árabes palestinos. E do jeito que as pesquisas estatísticas tem revelado os altos índices de fertilidade dos palestinos, não vai demorar muito e o número das duas etnias vai estar empatado. Tanto judeus quanto palestinos garantem que aquela terra lhes pertence de direito.
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Por que os judeus dizem que a terra é deles?

Porque por mais de mil anos (do Século 12 a.C. até o século II d.C.) eles viveram lá, indicados para habitar ali, como povo escolhido, conforme diz a Bíblia, pelo próprio Deus, que teria instruído Moisés a libertar hebreus da escravidão no Egito e conduzi-los até a terra prometida. Chegaram lá e não encontraram o lugar desocupado. Tiveram que expulsar algumas tribos na base da porrada até conseguirem se estabelecer naquela área. Ao longo dos anos, foram invadidos e subjugados trocentas vezes e sempre conseguiam se libertar e manter suas terras.

Até que no ano 135 d.C., os romanos, que já dominavam a região desde o ano de 63 a.C., decidiram botar pra quebrar de vez com os judeus. Por ordem do imperador Adriano, Jerusalém e o templo foram arrasados e o povo hebreu expulso e espalhado pelo mundo conhecido, no evento posteriormente conhecido como Diáspora. Mesmo longe da terra prometida, os judeus sempre sonhavam em retornar para lá. Em toda a Páscoa, eles diziam: “a próxima será em Jerusalém”. Todavia, só puderam celebrar verdadeiramente a Páscoa no seu país de origem a partir de 1948, quando a ONU recriou seu país, agora denominado de Israel.
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Por que os árabes palestinos dizem que a terra é deles?
Por volta de meados do Século VII d.C., com a expansão dos árabes maometanos, tropas de seguidores do Islã chegaram à antiga terra prometida dos judeus que já não estavam por ali desde muito e lá se estabeleceram. Em Jerusalém, construíram a famosa Mesquita de Omar exatamente em cima das ruínas do Templo de Salomão. E pior: aquele lugar passou a ser o terceiro lugar mais sagrado para o Islã (só perdendo para Meca e Medina).

Durante as Cruzadas, eles perderam o controle de parte daquela região, mas acabaram retomando mais tarde. O domínio árabe islamita perdurou até 1948, embora desde o final do Século XIX, judeus estivessem comprando terras por ali. De qualquer forma, gerações e mais gerações de palestinos nasceram, viveram e morreram ali, por mais de mil anos. Exatamente como os judeus.
Depois da II Guerra Mundial, depois do programa de extermínio a que os judeus foram submetidos no evento conhecido como Holocausto, a ONU resolveu dar uma pátria para eles. E deveria ser onde viviam antes da Diáspora. Que se criasse um Estado judeu naquela terra, assim como um Estado palestino. Estes últimos não toparam (com apoio dos países árabes do Oriente Médio) e partiram para a guerra (da Independência). Perderam. Mas nunca aceitaram. Nem reconheceram Israel como país.
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Bem diante destes fatos, quem tem razão? A terra prometida é de quem, afinal? De judeus, que lá estiveram por mais de mil anos? Ou dos árabes palestinos, que também estiveram lá por tempo semelhante?
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Para resolver este angu de caroço, existem duas soluções, descartando o extermínio de árabes pelos judeus e de judeus pelos árabes (embora muita gente prefira uma dessas duas): ou criam um estado binacional ou dividem as terras em dois países, com fronteiras claras, mais ou menos como a ONU determinou, com a Palestina ficando com a atual Cisjordânia e a faixa de Gaza e Israel com a outra parte. Seria simples, não é? Infelizmente não é nem um pouco simples.
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Um Estado binacional não daria certo porque há muito ódio, muita tensão no ar. Além disso, as duas etnias querem seu próprio espaço e querem ter direito à auto-determinação, além de desejar dançar na cova um do outro. Sobra, então, a opção 2. E isso foi decidido no Acordo de Oslo, em 1993, com a mediação de Bill Clinton, então presidente dos EUA. Israel teria o seu país e os palestinos a sua pátria. Mas... Sempre existe um “mas”...
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Correntes palestinas e boa parte dos países árabes continuam a se recusar a reconhecer Israel como país. Eles só chamam os judeus de “os invasores”. Vocês sabiam que existem muitos palestinos que guardam a chave da casa de onde foram expulsos, em 1948, com a criação de Israel? E que eles sonham em voltar para estas mesmas casas? Pois é. E ainda tem a questão de Jerusalém. Os judeus não abrem mão dela. Nem os palestinos. E outra coisa, que pouca gente sabe: há uma profecia entre os judeus que diz que o Messias, o Esperado, só virá quando toda Terra Santa original for de novo judaica. E isso inclui as Colinas de Golã (da Síria), a Faixa de Gaza, a Península do Sinai (do Egito) e a Cisjordânia.

Não é à-toa que quando Israel tomou estas áreas na Guerra dos Seis Dias (em 1967) e na Guerra do Yom Kippur (em 1973), a primeira coisa que fez foi instalar colônias e assentamentos. E só depois de muito papo, muita negociação eles toparam sair da Faixa de Gaza, da Península do Sinai e de parte da Cisjordânia. O resto eles não querem devolver, mas nem que a camela tussa.
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Diante deste nó político de fortes raízes históricas, qual a chance da Paz naquela região?
Atualmente, não dá para a gente, que não tem parte envolvida, tomar partido por um ou outro lado. O Hamas, organização política que venceu as eleições na Palestina é uma seita sanguinária e genocida de seu próprio povo. Agridem o governo de Tel Aviv do meio de civis. E a cada criança morta, a cada civil morto, fazem o maior escarcèu, procurando (e conseguindo) jogar o mundo contra os judeus. Tentam passar por inocentes e são responsáveis em grande parte pela morte dos civis. Aí eles dizem que os mortos são "mártires da causa". E garantem que os homens terão cem virgens no paraíso só por isso. O atual governo israelense não se comove em bombardear crianças, velhos e mulheres inocentes, num genocídio que pode ser considerado como crime contra a humanidade, assim como o foi o Holocausto. O governo judaico, com a proximidade das eleições, e com o crescimento de correntes conservadoras que não querem saber de papo com palestinos, não procuram uma solução política e mandam bombas e balas, nem querendo saber em quem vai pegar. Não se importam em ter o mundo contra os judeus, desde que o aliado norte-americano continue a apoiá-los.
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Eles brigam por uma terra que chamam de santa. Lá talvez seja o chão mais encharcado de sangue em todo o globo, e isto desde tempos primórdios.
O que é que a outra parte da humanidade faz diante de um conflito como este? Olhamos pela televisão seres humanos serem massacrados e devolverem mais ódio ainda... Só podemos rezar aos Céus, pedindo piedade, misericórdia para nós, a praga, o vírus do planeta Terra.
M.S.
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Vocês gostam dos Beatles? Eu também. E no outro site onde eu escrevo, o Playground dos Dinossauros, eu conto como me tornei beatlemaníaco desde os tempos das antigas ternuras. Quem quiser me dar a honra de ler, é só dar uma passadinha por lá.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve The Beatles em “The Long and Winding Road”, porque o caminho para a Paz pode ser uma estrada longa e sinuosa, como diz o título...

19 comentários:

Moacy Cirne disse...

Muito bom e esclarecedor o seu texto, meu caro. Claro, como você mesmo reconhece, a situação política da luta dos dois povos, historicamente falando, é mais complexa do que imaginamos. O que nos resta? Lamentar. E lamentar. E lamentar. Um abraço.

Fernanda disse...

Muito boa a sua explicação, Marco! Tinha muitas dúvidas a respeito disso. É um conflito complicado que só eles mesmos se entendem e não dá para o Ocidente se envolver!

Bjs

Armando Maynard disse...

É um caldo cultural que tansborda pelas bordas, resultado de uma receita totalmente indigesta, pois mistura um passado de raizes profundas e históricas + política + religião + convicções ideológicas radicais de muita crença/ódio/mágoas/disputa/separação/rescentimentos/inconformismo/determinação/idéia fixa. Tudo isso só podia terminar em uma forte indigestão, juntamente com uma bruta infecção que levam a morte. O remédio é o diálogo e o entendendimento, fazendo com que consigam experimentar um estado de saúde, que resulta no bem estar do desenvolvimento,progresso,justiça social, fazendo com que VIVAM em harmonia, paz e felicidade... Um abraço, Armando

Francisco Sobreira disse...

Sem querer ser pessimista, caro Marco, creio que esse conflito nunca vai ter um paradeiro. Vai continuar a perda de vidas humanas, inclusive de crianças, a destas a que mais nos choca e revolta. Um abraço.

DO disse...

Infelizmente acho que nem rezar adianta mais,MARCO. Como vc bem disse: é tanto sangue derramado ali que a paz é algo inimaginável a meu ver.
Infelizmente!

Abração!!

Márcia(clarinha) disse...

Enquanto disputam a terra seu solo vai ficando mais encharcado de dor...

Sinto que não terá fim essa guerra pois os homens não são santos.

lindo dia amigopratodavida, obrigada pelo brilhante texto.
beijos

Claudinha ੴ disse...

Oi Marco!
É... Apesar do seu post ótimo e esclarecedor, a gente não fica feliz. É muita gente inocente pagando pela terra, regando-a com seu sangue. Dói ver o noticiário e agradeço por estar longe e conhecer outro tipo de vida. Que karma o deste povo...

Mas você, como sempre, é brilhante!
Beijos!
Depois vou ler os dinossauros.

Joias da Família disse...

Marco,
Eu já sabia "marromenos" a explicação sobre esse barraco milenar...
Mas esse seu post resume e esclarece de vez o que a gente achava que sabia mas não conseguia repetir nem explicar a mais ninguém.

luluonthesky disse...

Odeio guerras.
Big Beijos

Coisas de Meninas disse...

Oiii..visitinha de verao pra desejar um dia lindo e ensolarado e uma noite maaaaraaa!!! bjuuu

ps: maravilhoso txt

guiga disse...

Conhecia a história. Por isso mesmo não tomo partido e tenho plena consciência que isto nunca terá solução. Seria necessário que surgisse entre israelitas e palestinos dois seres muito eliminados que soubessem sentar, falar e resolver.
E é como dizes, o Homem é o vírus de si mesmo e sempre será!

E sim, concordo. Terra Santa manchada de sangue?!?! Enfim...

E concordo também, há muita passividade pela parte da ONU, do poder internacional...É um horror o que se passa lá!
É mais uma mancha na história da Humanidade!
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Zeca disse...

Amigo Marco!

Excelente e esclarecedor esse texto!

Pra começo de conversa, não confio nem um pouco nas "boas" intenções da ONU... enfim, não creio também numa solução pacífica para esse conflito que se eterniza como o sangue que faz parte da composição do solo daquele pedaço de terra.

Será sempre uma chaga aberta e exposta no seio dos países árabes, para tristeza do resto da humanidade.

Chego a duvidar até do poder das orações para essa guerra...

Grande abraço.

Bruxinhachellot disse...

Oi, oi. Se essa terra é santa, então seus fiéis são impuros, pois séculos de sangue manchando cada centímetro daquele solo não fará deles os merecedores de tal santidade.
Eles não são unidos. Muitos já disseram que se o mundo árabe se tornasse unido a guerra santa iria terminar. Será? Duvido muito.
Só há alguém que pode resolver esse assunto, mas Ele virá? Segundo um senhor de barbas brancas e vestes cumpridas que dirige pela minha cidade, Ele voltará. Não deveria ter voltado há mais tempo? O que esperam de nós?
Creio que há muitas controvérsias a respeito da terra santa e de seus verdadeiros habitantes. Fora o fato que o homem não sabe viver em paz, pois só viveu no meio da guerra e é só isso que conhece.
Somos pessoas mal informadas, cremos em milagres e na existência de seres (santos, profetas e deuses)que são nossa salvação. Não somos donos da verdade. A verdade para mim pode não ser a verdade para você e isso é igual para todo o mundo. Desculpa, mas não creio mais que milagres possam trazer paz ao mundo. E se a única forma de acabar com tudo isso for acabar com o mundo, como já estamos fazendo, então talvez seja a única alternativa.
Creio que me excedi.

Beijos doces de sol e de lua.

Janaina disse...

É triste. É muito triste. E parece não ter fim.
Beijos, Marco.

luzdeluma disse...

Marco, parece complicado somente por que uma das partes não cede. Para que haja paz, em qualquer das hipóteses, um dos dois lados têm de ceder em questões tidas como inegociáveis, Egito tem que parar de abastecer com armas aquela região e isso imposto pela ONU. Este apelo às armas tem de ser abandonado e respeitada a criação de um Estado Palestino ao lado de Israel, que tem o direito de existir e isto, claramente não deve ser questionado. Árabes e israelenses não se amarão jamais, mas viverão lado a lado. Tudo começou com a promessa dessa terra, se essa promessa não tivesse existido, não existiria a guerra? Existiria porque aquele povo ama a guerra, não vive sem ela. Boa semana! Beijus

Julio Cesar Corrêa disse...

Sabe o que eu acho? Se não fosse por esse pedaço de terra seria por causa de outra coisa. Eles se odeiam. São tão religiosos e vivem movidos a rancor. Desisti de entendê-los.
Beatles? Assim que tiver um tempinho, vou lá.
abração

isabella saes disse...

Marco, eu sempre tive muita dificuldade em entender essa questão. O seu texto esclareceu várias coisas. Adorei! Beijos e continue com seus textos maravilhosos sempre! Já estou pensando em algo para postar sobre a China, só porque vc pediu, hein!! Beijos.

Roby disse...

Marco meu caro amigo!
Vim aqui apenas para dizer-te que não te esqueci...
Ou melhor, lembrei-me em ti dia destes, quando assisti o filme "Em algum lugar do passado"..
Caramba!!
Me veio na memória sua postagem sobre este filme..
E claro,bateu saudades deste meu amigo querido.
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Acredito que vc nem lembre mais de mim..rs
Eu tinha o Blog Vale das Borboletas, onde ue fazia postagens sobre a Suiça.
Caso queira, ou possa, tente contactar-me pelo meu email ou orkut:

Roberta.boehm@hotmail.de

Abraço terno querido amigo.

Ps: Seu blog continua estupendo!

Mimi disse...

Ainda não entendo isso...

que tristeza...