quarta-feira, maio 28, 2008

Memórias...


Dia desses, assisti a um filme memorável. Talvez o melhor que eu tenha visto neste ano, até agora. Chama-se Longe dela. Para me adequar mais ao tema deste blog, não faço mais resenhas completas dos filmes que assisto, portanto, não quero comentar ficha técnica, qualidade da obra etc. Mas trago este filme aqui neste blog temático para falar de um dos assuntos que ele trata: memória.
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O filme conta a história de Fiona Andersson, casada com Grant Andersson, e que é acometida de Mal de Alzheimer. Quando começa a perceber que a doença está avançando, ela pede para ser internada num asilo, apesar dos protestos de seu marido. Mas realmente, já estava ficando complicado. Ela saía de casa e não sabia mais voltar, ligava o gás e ia fazer outra coisa, enfim, aquelas coisas trágicas que costumam ocorrer com quem padece deste mal. Eu tive contato mais próximo com esta doença por intermédio da Dona Vanda Brandão, a última filha viva do Popularíssimo, que me ajudou tremendamente na elaboração do meu livro. Pouco depois de eu ter colocado ponto final na minha obra, ela começou a ter os primeiros sintomas. Logo depois, estava em estágio mais avançado, a ponto de seu filho ter que interná-la, pois, segundo me disse, “essa é uma doença que afeta toda a família”. E o filme mostra isso.
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Além de eu ter apreciado muitíssimo a obra cinematográfica em questão, o seu efeito catártico em mim foi instantâneo. Admito que ter este mal é um de meus maiores temores. Não tenho nenhum caso na família, mas não significa que eu esteja imune à doença. Ninguém está.

Vejam as características do Mal de Alzheimer:
Caracteriza-se clinicamente pela perda progressiva da memória. O cérebro de um paciente com a doença de Alzheimer, quando visto em necrópsia,, apresenta uma atrofia generalizada, com perda neuronal específica em certas áreas do hipocampo, mas também em regiões parieto-occipitais e frontais.
A perda de memória causa a estes pacientes um grande desconforto em sua fase inicial e intermediária, já na fase adiantada não apresentam mais condições de perceber-se doentes, por falha da auto-crítica. Não se trata de uma simples falha na memória, mas sim de uma progressiva incapacidade para o trabalho e convívio social, devido a dificuldades para reconhecer pessoas próximas e objetos. Mudanças de domicílio são mal recebidas, pois tornam os sintomas mais agudos. Um paciente com doença de Alzheimer pergunta a mesma coisa centenas de vezes, mostrando sua incapacidade de fixar algo novo. Palavras são esquecidas, frases são truncadas, muitas permanecendo sem finalização. (Fonte: Wikipédia)

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Saí do cinema refletindo sobre o que tinha assistido. Uma das coisa que me é tão prazerosa é puxar pela memória e lembrar de fatos do meu passado. Fatos agradáveis ou não, pois todos foram importantes na minha vida. Tenho tido muito prazer em dividir minhas recordações com vocês, aqui neste blog. É como se eu colocasse em palavras o fruto de minhas sinapses, traduzir em letras funções cerebrais relativas à memória. Certa vez, Umberto Eco disse que “a memória é a nossa identidade, nossa alma”. No filme, tem uma metáfora preciosa para o entendimento do que é este mal. A doutora explica que é parecido com disjuntores de uma casa que vão se desarmando e apagando a luz dos cômodos. Até que fica tudo escuro. Um paciente de Alzheimer pode chegar até a esquecer de andar, de comer e beber por conta própria. Vira uma espécie de planta, com funções vitais. Mas uma planta. Tudo o mais é apagado.
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Quando eu saí do cinema e estava caminhando, vi uma banca de camelô, que estava vendendo antigas traquitanas. Entre elas, estava um pequeno e velhíssimo gravador de fita de rolo. Fiquei a mirá-lo. Pensei em quantas vozes, quantos sons aquele aparelho registrou. Gente rindo, cantando, fazendo festa, fazendo confissões... Vai saber o que aquela fita já tinha registrado... O gravador já deve ter sido de extrema utilidade de quem o possuía. Agora estava ali, cercado por outras bugigangas obsoletas, talvez até sem funcionar. Exatamente como a personagem do filme. Ela teve uma vida intensa. Amou, foi amada, riu, chorou, vivenciou tantas coisas. E tudo foi apagado.
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Li recentemente numa revista “National Geographic” uma matéria sobre a Memória. Ali, falava de uma mulher de 41 anos, que se lembra de quase todos os dias de sua vida, a partir dos seus 11 anos. Na literatura médica, ela é conhecida como “AJ”. Diz essa mulher: “Minha memória passa como um filme: ininterrupta e incontrolável”. Se você pergunta a ela o que ela fazia às 12h34min, do dia 3 de agosto de 1986, ela responde de pronto: “era um domingo e um rapaz de quem eu gostava ligou para mim”. Cientistas a testaram e constataram que ela não erra uma.
Uma memória assim é uma bênção e uma maldição. Recordar prazerosamente os bons momentos que vivemos é uma delícia! Mas lembrar com detalhes do que nos foi desagradável é uma condenação tão grave como a do mitológico Prometeu, acorrentado no Cáucaso, com abutres vindo diariamente lhe comer o fígado, que se reconstituía sempre.
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A matéria também fala de um certo “EP”, um senhor de 85 anos, que só lembra de algo que tenha acontecido segundos antes. Segundo a matéria, um vírus da herpes devorou-lhe a parte do cérebro onde se localiza a memória. De acordo com a revista, ele é uma espécie de câmera de VHS, cuja cabeça de fita não funciona. “Ele vê, mas não grava”.
Ele não é um idiota, que vegeta em vida. A matéria diz que regularmente, um médico vai à sua casa e lhe aplica testes. Faz perguntas como: “em que continente fica o Brasil, quantas semanas têm o ano”. E ele sempre acerta. Vai sempre o mesmo médico e ele o recebe como se o visse pela primeira vez na vida. No seu pulso, há um bracelete de alerta médico escrito “perda de memória”. E ele nem lembra que tem este problema. A cada vez que ele olha para a pulseira, toma conhecimento de que sua memória é fraca.
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Ele gosta de ler jornais, mas pergunta a todo momento coisas como: “O que está acontecendo no Iraque?”, “quem é Bush?”. Tudo bem, esta última eu também gostaria de não lembrar... Mas ele começa lendo uma notícia, e na segunda linha já esqueceu da primeira.
Sua filha diz que ele é feliz o tempo todo. “Acho que é porque não sofre nenhuma tensão na vida”.
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Será que eu também seria feliz por não me lembrar do meu passado? Visto pelo que sou hoje, diria que não. Eu gosto de minhas recordações. Elas são minha identidade, minha alma, como disse o Eco. Mas é evidente que para quem teve os disjuntores apagados, não há sofrimento algum.
Minhas memórias não são vitais para o funcionamento do meu corpo. Mas são essenciais para que eu justifique a minha existência nesta vida. Eu sou minha carne, meus ossos, meus cabelos (que estão se apagando feito os tais disjuntores...), minhas unhas... Mas sou também o que fiz na vida, o que disse, o que eu escrevi, o que vivi... Amputar estas partes do meu ser me tornará alguém deficiente. Se eu chegar a este estágio, seria bom que o nosso Pai desligasse o último disjuntor.
Eu volto a falar sobre este assunto brevemente.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Memories”, com Richard Clayderman.

22 comentários:

Claudinha disse...

Olá Marco!
Este é um dos meus maiores medos. E eu que sou cabeça literalmente aberta, que já não tenho um pedacinho, sou uma vítima mais provável. Por isto procuro exercitar minha mente o tempo todo com minhas recordações. Não seríamos nada sem as lembranças. Concordo com você, imagine esquecer das pessoas que amamos, até quem somos. Eu vejo isto em alguns conhecidos e é muito, muito triste!
O filme deve ser emocionante!
Beijo procê.

Francisco Sobreira disse...

Marco,
Faço coro com a nossa querida amiga Claudinha sobre o medo de perder a memória. Imagino como deve ser doloroso para a pessoa não se lembrar mais de nada. E, pior, desconhecer os seus familiares e amigos, que sofrem também. Concordo também com você que a memória tem um lado negativo, o de fazer aflorar situações ruins pelas quais a pessoa passou. Ultimamente tenho adotado o método de, tão logo me lembrar de algo ruim que me aconteceu, ou de alguém que sacaneou comigo, mudar, imediatamente, de "lembrança" Boa, claro. Um abraço.

DO disse...

Gostei da sua abordagem,MARCO. A fala do Humebrto Eco,aliás,é perfeita sobre o asunto.
Tbem não sei se me sentiria bem sem as lembranças do que fiz,do que sou.
Infelizmnete,aqui em casa,meu pai já começa a dar sinais de perda de memória. À todo momento mostra isto. O pior é que vai ser muito dificil nos acostumarmos com isto.

Abração.

Ah,missão cumprida por lá hj.

guiga disse...

Julgo que tens uma gralha no teu post! De início falas em Parkinson e depois em Alzheimer. Penso que te queres referir apenas à doença Alzheimer. A Parkinson é completamente diferentes, causa tremores no corpo...
Peço desculpa se entendi mal, caso não seja uma falha.
Estás muito cinéfilo! lool
Beijos *.*

Anônimo disse...

Adorei seu post!

Pessoal, essa eu tenho que recomendar, dois sites interessantíssimos: www.meus3desejos.com.br e www.videoflix.com.br.

Abs.

Zeca disse...

Marco,

este assunto me aflige de perto. Não tenho histórico na família, mas me pelo de medo de desenvolver essa doença. E o meu padrasto, infelizmente, está começando sua caminhada rumo ao esquecimento. É dificílimo conviver com isso.

Aproveito para avisar que já postei meus oito desejos.

Abração.

Mimi disse...

Você é o que é e é MA-RA-VI-LHO-SO1
tem de tudo nesse post: antigas ternuras, um pouco mais sobre você, mitologia, e cinema. (tudibom, né?)
Sobre o filme: parece Diário de uma Paixão, filme que amei por causa de tudo e por causa da atriz novinha, linda como gostaria que a filha-se-é-que-terei minha fosse.

Sobre um de seus comments no blog meu: se ele entender inglês, vai compreender!
(até agora, estou sem resposta)

beijo, beijos, e beeeeijos, querido Marco

Lulu on the Sky® disse...

Eu prefiro q Deus me leve logo do q me deixe morrendo aos poucos.
Big Beijos

Maryam disse...

Olá,Marco!
Te vi no blog em outro blog eme chamou a atenção!
Então,resolvi te conhecer!
Vi no seu perfil filmes que gosta e outras coisas e fiquei curiosa,gostei muito do blog!
Só não concordei com algo que li, o idoso perde a memória recente e lembra do passado distante , lembra da infância como se fosse ontem!
Qdo puder conheça meu blog ,que é uma Narrativa de uma Vida,chamado "Vidas da Vida" !
Beijos,
Maryam.

Dilberto disse...

Rapaz, que post comovente... Parabéns! Também já tive esse medo, não só para mim como por minha cara metade, especialmente depois de ter visto outro filme (esse não tão bom, mas bonito pela mensagem final...), "Diários de uma paixão"!

PArece que temos mais alguma coisa me comum: os fios desaparecendo... Que coisa chata!!!

Sobre o filme do Rob Reiner (eu leio sempre teus posts, pena que Às vezes o PC trava na hora de comentar...), ainda não tive o prazer de ver, pois por aqui já saiu de cartaz! Espero em vídeo!

Abração, meu velho (parece que teus disjuntores falharam no comment ao meu último post: desejaste-me feliz aniversário pela segunda vez, rs)!

Giu disse...

Muito bom esse texto, amigo Marco... memórias realmente são importantíssimas, tanto no aspecto individual como no coletivo (memórias históricas, por exemplo). Se tiver que avançar em anos, espero que a memória me acompanhe, assim como aconteceu com o meu querido velho mineiro - meu pai - falecido recentemente: aos 97 anos era capaz de relembrar fatos de sua vida toda, desde a infância, com detalhes impressionantes, de nomes, datas, endereços.
Ótimo final de semana procê!
Carinhos e beijos da Giulia.

Lila Rose disse...

Quando resolvi fazer pós-graduação em geriatria não fazia idéia do quão doloroso é cuidar de alguém com este Mal. Na verdade, a família toda adoece, é muito estressante lidar com um familiar com Alzheimer.

Mas, apesar de ainda não termos cura, muitos avanços já foram conquistados - a combinação de medicação e terapia neuropsicológica permitem que o avanço da doença seja lento.

Adorei o post e vou ver o filme.

Bisous.

BABI SOLER disse...

Realmente é uma doença que exige muito da pessoa e da família.
Conheço uma pessoa que está em estado intermediário e a situação é bem delicada.
Boa Semana.

maith disse...

Realmente é um fim de vida muito triste principalmente para aqueles que o amam, que convivem com ele e que sofrem, impotentes para fazer qualquer coisa para reverter a situação.
No meu blog estou publicando uma série a que dei o nome de O Fantástico Mundo da Mariquinha onde conto de maneira bem humorada as trapalhadas da velhinha.
Não tive a intenção de melindrar ninguém e gostaria da sua opinião a respeito. Se puder, passe por lá. Será um prazer!
Boa noite, bons sonhos e muitas lembranças boas.

benechaves disse...

Oi, Marco: este tal Mal é terrível. As pessoas(sic)se lembram de fatos mais antigos, mas os atuais fogem de suas mentes. E acho que o filme deve mostrar o detalhe, não sei... Temos de exercitar nossa memória constantemente senão a mesma atrofia. E aí já viu, né?

Um abraço...

Saramar disse...

Olá Marco.
Eu li esta matéria a que você se refere.
Acredito que a memória é nossa própria alma. O que fazer se aperdemos?
Temo essas soenças que nos privam da vida sem nos matar...

beijos, boa semana para você.

david santos disse...

Olá, Marco!
Grande post. Post que todos devíamos ler e reflectir sobre ele.
Pelo menos as pessoas que têm olhos saudáveis, mas não vêem...
Parabéns

Mimi disse...

Vim deixar-te um beijo compriiiiidoooooooooooo. De SP até o Rio!

Samara Angel disse...

oie meu querido Marco,ler o que vc escreve agora que te conheço é muitoooooooooo bommmmmmmm sabe chego a ouvir tua vóiz linda e charmosa,como é bom conhecer as pessoas que convivemos na net,a gente se sente mais pertinho parece que estamos numa sala conversando e vc fazendo a gente rir sem parar ,pq vc faz humor até onde nao existe,quando vi suas entrevistas,nossa ria junto parecia que vc estava ali na minha frente,vc é muito especial,te adoro,deixo meu carinho e uma linda semana iluminada ,bjssssssss

itiro disse...

Excelente abordagem do tema. Eu nunca tive uma boa memória, mas o medo de ver o pouco que consigo lembrar ir desaparecendo me assusta...
Vou ver o filme. Obrigado pela dica!
Um grande abraço!

Dora disse...

Marco. Estamos sabendo sobre esses males que atacam mais a velhice, porque a média da vida humana aumentou. Como as pessoas estão chegando (com mais freqüência que antes...)aos 80, 90 anos, essas doenças estão em evidência.
E todos, que ainda não envelhecemos, estamos convivendo com nossos "velhos". Minha mãe está velhinha e, apesar de não ter Alzheimer, ela se esquece em 10 minutos do que leu, do que comeu, do que assistiu na TV...
Eu fiquei com vontade de ver esse filme, mas, acho que vou sofrer muito, pensando em minha mãe...
E já sofri, ao ler o seu post...
Beijos.
Dora

Dominique disse...

Oi, Marco, eu disse que comentaria aos poucos, não? Mas fiz um comentário tão grande no outro que agora estou sem graça de escrever neste também. Mas o assunto é tão sério que acho válido dizer o que penso sobre.
Bom, eu trabalho com a memória o tempo todo. Nasci sem a menor condição de memorizar datas específicas e assim corro o risco sempre nas provas de meu curso de perder pontos (faço História na faculdade). Mas percebo que o ser humano naturalmente seleciona o que deseja lembrar e o que acha válido esquecer. Assim, quando temos este arbítrio sobre o que nos identifica como Marco, Dominique, Cris e etc. nos sentimos seguros e confortáveis em sermos como somos. Mas ao perdermos gradualmente isso, como você mesmo falou, perdemos nossa razão de sermos únicos.
Por isso, quando você fala sobre a memória não é apenas a memória com qual lido nos meus estudos e pesquisas históricos, é também o que nos individualiza, o que nos faz sermos indispensáveis, únicos, diamantes sem iguais. Sem esta possibilidade, perdesse também o sentido de ser algo destacado, diferenciado. E passamos a ser como uma planta realmente.
Por isso, o que aconselho a qualquer pessoa é muito cuidado com a saúde, em qualquer idade e não apenas ao atingir uma época em que esta doença possa nos afetar e, mais ainda, cuidado redobrado com nossas lembranças. São elas nosso carro-chefe, nosso RG nesse mundo.

Abração pra ti!