terça-feira, maio 29, 2007

Rituais


Dia desses, eu acordei na hora habitual, sentei-me na beira da cama, com a cara cheia de sono, e disse baixinho, para mim mesmo: “lá vamos nós para mais um dia...”. E fui cumprir meus rituais matinais – tomar banho, escovar os dentes, escolher a roupa para ir pro trabalho, preparar e comer o meu desjejum lendo o jornal que eu pego na porta do apartamento, pegar a chave do carro, a pasta, ir para o trabalho, estacionar no mesmo lugar, passar o crachá na catraca, maldizendo aquela bosta, entrar na sala, ligar o computador e meter a cara nas minhas tarefas cotidianas.
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Pois é. Já tive tantos rituais na minha vida... Qual seria o mais antigo que eu me lembre? Talvez acordar, escovar dos dentes com creme dental Kolynos, tomar uma xícara de Toddy com pão e margarina Claybon e ir para a escolinha da professora Hilda, onde estudei o pré-primário e o primeiro ano.
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No que parei para pensar, descobri que tive vários outros. Até para brincar eu tinha meus processos ritualísticos: para selecionar as bolinhas de gude que eu iria apostar no jogo à vera, para preparar o cerol e a pipa para soltar, para subir nas árvores do quintal e pular de um galho para o outro, que nem eu tinha visto o Tarzan fazer...
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Mas os rituais que eu mais gosto de lembrar são os que eu tinha ao tempo em que morava com minha tia, no bairro carioca da Piedade. Ela era bem velhinha. A filha dela, minha prima, tinha a idade de minha mãe. Muita gente pensava que ela era minha avó. Até mesmo os seus cuidados para comigo eram de avó para neto. Sintam só o drama:
Ela me acordava com uma xícara com Melhoral infantil diluído em água morna, com um tiquinho de mel de abelha. Era para não me “constipar”, como dizia. (Se eu tivesse mesmo gripado, ou melhor, “constipado”, ganhava também uma colherada de Rhum Creosotado). Depois, ela me dava uma xícara de café bem quente, com manteiga derretida. Para “expectorar”, como dizia. Mas antes de tudo, eu precisava lhe pedir a bênção, assim como ao meu tio. No café da manhã, tinha café, leite, pão, manteiga, queijo, frutas, bolo, torrada... Eu tinha que comer de tudo. Era para “deixar de ser tão magrinho”, como dizia. Se eu não quisesse comer, entrava em ação a ameaça do “Velho do Saco”, que pegava crianças que não comiam direito. Eu me borrava todo de medo do “Velho do Saco” e tratava de devorar tudo o que me ofereciam.
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Às seis horas da tarde, eu tinha que estar em casa para a “hora da Ave Maria”. Aí, ela acendia todas as luzes da casa, dizendo: “louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Eu tinha que pedir a bênção aos mais velhos. Minha tia defumava a casa toda, ao som da voz de Júlio Louzada (nessa eu peguei pesado, heim? Quem é que lembra aí do Júlio Louzada no Rádio e a Hora da Ave Maria? Podem confessar! Ou só eu que sou velho aqui nessa joça?), com um copo d’água ao lado do Rádio. Nessa hora, nada de brincar, nada de ficar estirado na cama do meu tio, lendo o “Tesouro da Juventude” ou gibis do “Batman”. Era momento sagrado.
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Meus ritos. Minhas velhas liturgias cotidianas.
Hoje, acordo sozinho, sem Melhoral infantil, nem café com manteiga. Às seis horas são uma parte do dia como outra qualquer. Almoço com gosto, tendo que ficar regulando o que como para não engordar. Chego a raspar o prato. (O Velho do Saco ficaria orgulhoso de mim...).
Meus tios, Júlio Louzada e a Hora da Ave Maria já não existem mais, a não ser na memória do menino grande que olha para as árvores com vontade de voltar a brincar de Tarzan.
Acordo cedo e murmuro baixinho: “lá vamos nós para mais um dia”. E sigo construindo outros rituais cotidianos. Fazeres que um dia serão minhas antigas ternuras, partes integrantes de mim.
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Cotidiano”, do grande Chico Buarque.
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Na semana passada, eu já tinha postado texto novo quando descobri que o nobre Mario do Apoio Fraterno tinha me indicado para o selo “Blogs que fazem pensar”. Eu tinha lido lá que, pelas regras, eu deveria indicar cinco outros blogs que me fazem pensar. Como o meu texto já estava grande, resolvi que iria divulgar no seguinte a minha relação de blogs que me mexem com a minha cabeça. (Mas só cinco??? Vou escolher seis: três mocinhas e três mocinhos. Mas entrava mais gente na minha lista, podem acreditar...)

Abrindo as Janelas, da Saramar
Quase histórias de amor, da Lili
Transmimentos de pensação, da Claudinha
Lino Resende
Na ponta do lápis, do Rubo
Ramsés do Século XXI, do grande Do

Agora é com vocês, moçada. Copiem o selo para os seus respectivos blogs e indiquem os que lhes fazem pensar (e verão como é dureza escolher poucos entre muitos merecedores...)

30 comentários:

Claudinha disse...

Ei Marco! Rituais é comigo mesmo, sou metódica e gosto deles. Gosto no dia a dia e gosto também daqueles que são celebrações como sentir a força da natureza e como ela mexe com a gente. Viajei com seu post, lembrando meus tempinhos de menina sapeca. Não me lembro do Júlio, mas ouvi falar. Lembro que eu roubava Melhoral (é melhor e não faz mal...)e comia. Uma vez, dormi até!
Quanto à sua indicação, eu agradeço muito. E o seu blog também me faz pensar. Estar sendo citada entre estas pessoas que admiro e que são meus contatos também, me deixa muito feliz. Obrigada amigo!
Beijo! ótima semana!

Janaina Staciarini disse...

Nunca ouvi falar de Júlio Louzada. A hora da Ave-Maria tem até hoje, pelo menos por aqui... e em versão televisionada.
Melhoral infantil eu tomava escondida da minha mãe. Amava aquilo! Hehehehe.
Agora uma bronca: cerol na pipa é feio, viu seu Marco!
Beijão!!

Fugu disse...

São esses pequenos rituais que dão o sentido de sagrado ao cotidiano. Nossas singelas homenagens à vida.
beijo você

Jéssica disse...

Que viagem no tempo, né, Marco. Como é bom recordar. E quem não tem lá seus rituais de todos os dias?
'fais parti'...rs...
Adorei 'pintando o sete'

Beijossssssss

DO disse...

Mas a nossa vida não é assim mesmo,MARCO? Cheia de rotinas?
Aposto que vc tem saudades das antigas,assim como terá das atuais no futuro. É um ciclo. Um agradável ciclo que nos traz o passado de volta. Como uma canção que marca.
Vc me fez ter muitas lembranças agora,hehehe.

Fiquei muito honrado em estar na sua lista de indicados. Muito mesmo.

Grande abraço e uma otima quarta rotineira à vc,heheheh.

Lili disse...

Nossa, Marco! Deixa passar a emoção de estar na lista dos blogs que fazem pensar. Afff! Obrigada! Vou ter que esperar meu filho para colar o selinho porque não sei fazer isso, infelizmente. Nem preciso dizer que você seria um dos que eu escolheria para minha lista; agora, será difícil lhe substituir a altura.
Quanto aos rituais, tenho alguns, aqueles obrigatórios de higiene, alimentação, trabalho e sono, mas estou sempre pronta para o improviso, a quebra da rotina - e aí está o bom da vida!
Um beijo, querido, e, mais uma vez, obrigada pela indicação!

Erika disse...

Nossa, eu tbm tenho um monte de rituais, até mesmo prá mexer no computador.
Mas lendo seu post nem foram os rituais que me chamaram a atenção, mas o tanto de coisa da minha infância que vc me fez lembrar ao citar os nomes dos produtos.
Que delícia que foi viajar nos seus rituais, relembrando velhos hábitos.

Beijos

Lino disse...

Marco:
Para mim a indicação é uma Nova Ternura. Fiquei lisonjeado com ela e, sobretudo, por ter sido feita por você.
Só posso colocar tudo isso na conta das gentilezas e de mais uma ternura.

_Maga disse...

Olá Marco, querido, como estás??

Olha só... quando acordares assim, com cara de "mais um dia que #$@¨%$¨&%&" lembra disso... (eu sempre acordei de bom humor, mas isso dá um toque realmente especial ao dia):

Sabedoria quase chinesa

se alguém não te alimenta
inventa
uma manhã de sol
fruta fresca
chá de hortelã
pra despertar a alma
com calma
porque o dia apenas começa
e amor não combina com
pressa

Célia Musilli

Beijos

Fernanda disse...

Eu sempre tive os meus rituais! Xícara de leite com Toddy aqui é todo dia... hehehe...

Quando ficava gripada, a minha mãe me dava Dimetap. Lembra disso? Era tão gostoso que dava vontade de ficar tomando o vidro todo! Hehehe...

Kisses

olga disse...

Adorei ler este post. Apesar de não conhecer esses produtos e personagens, prendo-me com paixão inabalável! É como ler um livro e imaginar cenários, rostos, expressões...
Obrigada por estes momentos de pura ternura!

Beijos!*.*

Moura ao Luar disse...

Ter a mamã a acordar-me, chegar à mesa e ter tudo para o pequeno almoço na mesa, nunca sair de casa sem dar um beijinho... trazes-me tantas recordações que me fazem sorrir

Dora disse...

Marco! Agora posso ler e dizer minhas palavrinhas aqui...
Rituais...Pensando bem, que seria da vida se não tivéssemos nossos rituais? São eles que fazem a vida de gente "ser da gente", são eles que particularizam a gente...E, como vc diz bem, são eles que forram a existência e formam "as antigas ternuras", para serem lembradas...depois...
Seus textos são uma delícia. Assim como o café da manhã da casa da sua tia...
Abraço bem grande.
Dora

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Marco,
Não dá para falar de Antigas Ternuras sem esse retorno aos nossos Rituais, quase todos, senão todos, nascidos lá longe, no começo de tudo.
Mais um texto que me fez pensar, que nos faz pensar.
Forte abraço, meu caro amigo.

Francisco Sobreira disse...

Marco,
Desde a infância seguimos esses rituais diários, rotineiros. Quando chegamos à maturidade, lembramos daqueles da infância e o tempo faz com que eles nos venham à lembrança mais suavizados. Você falou na pasta Kolynos. Parece que no meu tempo, no nosso tempo (você deve ser bem mais novo do que eu) aquele dentifrício era usado por dez entre dez famílias brasileiras. Nunca assisti ao programa do Louzada, mas ouvia falar nele. Um abraço.

Nena disse...

Ternurinha, eu era uma pessoa cheia de rituais!

hoje em dia me esforço para quebrar todos, todinhos!

(mas o ritual de vir aqui te beijar, esse vou perpetrar...)

Mário disse...

Marco, desse radialista não lembro não...rs Criado na capital bandeirante, em casa não havia ritmo de interior. Mas lembro do Wilton Franco que, ao final de um programa frenético na TV, recitava a Ave Maria e, nesse instante, todos parávamos por aqueles minutos. Sinceridade, queria ter tido essa chance que vc teve... de pedir bênção aos adultos da minha infância. Rituais todos temos os nossos, velhos hábitos que enraizaram e sem os quais deixamos de ser nós mesmos. Magnífico este seu post, meu caro. Aliás, como sempre são.
Aproveito para agradecer o link de referência.
Bom Fim de Semana!
Abraços,
Mário.

olga disse...

VAI AO MEU BLOG! Tenho uma "surpresa".

Até dia 19!

Beijos!*.*

Moacy Cirne disse...

Seus ritos, nossos rituais. Quando eu era criança, só dormia depois de beber garapa e ouvir uma história de trancoso contada por Tananã, uma senhora que trabalhava lá em casa. Como sempre, um ótimo texto. Abração.

Lara disse...

Oi querido! Eu também sou cheia dos rituais.. acho que todos nós somos né? Engraçado que outro dia minha sogra estava contando essa história de que ela tinha que comer tudo do prato ou era ameaçada pela mãe hehehe! Graças a Deus eu não peguei essa fase.
beijosss

tibeu disse...

História linda, comoé bom recordar, Já diz o velho ditado, recordar é viver. abraço

anne disse...

Uma viagem esse teu texto e eu adorei porque é para mim, é uma interpretação de épocas, algumas vividas, outras em plena efervescência, e ainda as que hei de percorrer. É assim a vida, cheia de rituais. O ontem está tão próximo que ainda o apalpo. O calendário pode sumir na correnteza do rio, mas a memória não falha e pelo que lí, a tua está acordada nos mínimos detalhes. Como é saudável retirar da lembrança os pedaços de tempo e arrumá-los um a um. Foi bom passar de novo. Um beijinho.

Renata disse...

Oi Marco!
Os rituais são muito importantes,são presentes em todas as culturas e sempe nos preparam para algo. (ou nos protegem de algo)Entretanto, o excesso deles pode trazer grandes problemas. Muito gostoso ler seu post (aliás vir aqui lê-lo já um dos meus rituais..rs.r.s.)!
bjo!

Saramar disse...

Marco, eu não me lembro do Louzada porque aqui, na minha terra, o locutor era o Moraes Césr, de linda voz, mas os rituais da sua infância são idênticos os meus, até as árvores de brincar.
Você tem um jeito tão lindo de contar essas coisas, eu fico sempre emocionada aqui.

Olha, você é um anjo. Eu agradeço demais esse presente. E confesso que fiquei muito, muito vaidosa, vindo de quem veio. Obrigada, querido amigo.

beijos e bom domingo para você.

luma disse...

Os rituais trazem segurança e comodidade. Os imprevistos geralmente são aborrecimentos.
O único ritual que preservo da minha infância é tomar café com leite e depois um espresso antes de sair de casa. No mais tudo mudou. Cada dia sigo uma rotina, porque vivo em função de terceiros. Mas como e durmo como todo mundo! (rs*)
Marco, você não viu a brincadeira sua que adotei no luz
http://luzdeluma.blogspot.com/2007/05/rapidinhas.html
Talvez fosse bom acompanhar o Antigas Ternuras pelo technorati
http://www.technorati.com/search/http://antigasternuras.blogspot.com
Bom Domingo! Beijus

Kanoff disse...

The year's at the spring,
And day's at the morn;
Morning's at seven;
The hill-side's dew-pearl'd;
The lark's on the wing;
The snail's on the thorn;
God's in His heaven-
All's right with the world!

Vera Fróes disse...

Marco, desculpa o sumiço, mas não é só com vc, é geral! Ando numa fase enjoada, espero que passe logo.
Nunca fui muito de rituais, a não ser quando eu passo em frente de uma Igreja, faço o sinal da cruz. Mas dos que vc falou, adorava quando ficava muito gripada ser paparicada pela minha, que fazia todos os chás que sabia(uma delícia) além da canja de galinha.
A hora da Ave Maria, cheguei a pegar tbm, era sagrado!

Bjos.

Anônimo disse...

eu não tenho rituais... aliás, não gsoto de rotina, nem de nada que me prenda a velhos hábitos. Mas lembrei-me da minha mãe com a velha Emulsão Scott misturada ao biotônico Fontoura para "abrir o apetite", rsss

essas coisas de infância, que delícia!

ps. depois passa lá no meu outro blog, o marmotaeletrica.blogspot.com para conhecer.

te beijo

Taís

Marconi Leal disse...

Tá, agora vou ali chorar de lirismo e nostalgia... Muito bom.

casrol disse...

Teu blog é óooootimo!


:D