sábado, setembro 23, 2006

Que pecado! (1) - Inveja


Nas reuniões da família Monteiro, os primos Calainho e Abel sempre atraíam as atenções. O primeiro tinha um pequeno comércio de vinhos e Abel era padeiro. Não havia uma só ocasião em que eles não discutissem. Cada um gostava de falar de seu negócio.
– O vinho é a seiva da terra – dizia Calainho. É algo de mágico!
– Mágica por mágica – retrucava Abel - acredito mais na contida neste pedaço de pão.
Os membros da família se deliciavam com aquela disputa. Ninguém ousava tomar partido.
Um certo dia apareceu, ninguém lembra de onde, uma prima distante. Seu nome era Lilibeth, mas com voz cálida ela dizia:
– Pode me chamar de Lilith...
Assim seria: Lilith. Era uma mulher magnífica. Seus bastos cabelos morenos desciam-lhe pelas costas com a fúria de uma cachoeira negra. Miríades de estrelas foram fazer morada em seus olhos. Só isso explicaria aquele brilho especial. A boca rubra, permanentemente úmida, volta e meia descortinava um sorriso de pérolas perfeitas. Todos da família se encantaram com a prima Lilith. Especialmente Calainho e Abel...
– Prima, prove este vinho – insistiu Calainho - É especial. Safra como essa não vai existir...
– Prima Lilith – acorreu Abel - separei para você este croissant fresquinho...Derrete na boca...
As discussões entre os dois mudaram de tom. Já não mais debatiam sobre a excelência do vinho ou sobre a superioridade do pão sobre os demais alimentos. Só a prima interessava.
– Obrigada, primo Calainho...Que gentileza, primo Abel...Vocês são tão carinhosos comigo...Vão acabar me estragando.
Um dia, Calainho decidiu visitá-la. Preparou uma enorme cesta com belíssimos cachos de uva e algumas garrafas de finos vinhos. Curiosamente, no mesmo dia, Abel resolveu conhecer a casa de Lilith. Queria lhe ofertar uma generosa cesta com pães, tortas, biscoitos da melhor qualidade. Chegaram juntos na casa da prima.
– Abel...Primo Calainho! Que surpresa! Por favor, entrem! E não reparem, heim! É casa de pobre...
O apreciador de vinhos se adiantou:
– Para você, Lilith. Estas uvas e estes vinhos encantariam a própria Afrodite, de quem você é gêmea.
O outro pretendente não quis ficar para trás:
– Isso é para você. Eu mesmo os cozi. Foram aquecidos com o meu carinho...
– Obrigada aos dois. Nossa! Abel, você fez o meu biscoito favorito!
Abel sorriu. Calainho, não. Na primeira oportunidade, declarou ter um compromisso inadiável e que teria de se ausentar. O primo Abel disse que ficaria mais um pouco...
– Depois a gente se fala, Calainho...
– Claro...claro...Até logo.
Na reunião de família na manhã do dia seguinte, todos sentiram falta de Abel. Alguém bateu na porta. Era a polícia, para comunicar a morte do rapaz causada por extrema violência. Não parecia ter sido assalto. Foi uma consternação geral. Lilith chorou muito. Parecia desconsolada.
Aquelas reuniões familiares jamais seriam como antes. Lilith não mais apareceu. Mudou-se e não disse para onde. Quanto a Calainho, nunca mais conseguiu tomar vinho sem sentir um gosto de vinagre. Ou seria de sangue?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Stan Getz tocando “Lonely Lady”.

24 comentários:

Claudinha disse...

Oi Marco!!!
Fiquei pensativa com o conto, minino como você leva a gente com o enredo! Os moços se envenenaram pela inveja e o mais fraco sucumbiu. A moça deve ter se tornado a pessoa mais infeliz do mundo,quem sabe não morreu de tristeza, e o outro rapaz jamais sentiria o gosto da vida novamente... Triste, muito triste... Parabéns pelo texto!
Beijo grande!

Lili disse...

Nossa! Espero que a Lilith conheça o dono de uma delicatessen, assim terá pão, vinho y otras cositas más... Bom, pelo menos a Lili aqui iria adorar. Brincadeira à parte, não é à toa que se diz que inveja mata. E você, caro, não precisa invejar ninguém com seu texto maravilhoso! Beijos e ótimo fim de semana!

Karine disse...

Que saudade dos seus escritos!!! Não posso me ausentar por tanto tempo assim mais da net... faz falta ler coisas boas!
Beijo!

Paulo Assumpção disse...

Grande, Marco! Pão, vinho, Lilith... Este texto me deixou salivando pelos demais contos da série dos pecados capitais! É uma série, não? Espero não estar enganado! Sobre o post anterior, assisti ao filme na HBO e só não fiquei chocado em conhecer o Peter Sellers por trás das câmeras pois já sabia de algumas de suas neuras. Que sujeito mais emocionalmente imaturo ele era! Ainda assim, continuo a admirar o seu talento como ator. Para fechar, finalmente me "etiquetei". Quando puder, dê uma conferida! Abração!

Evandro C. Guimarães disse...

Rapaz, que história mais sinistra, como diriam meus alunos. Faço coro com o Paulo, aguardo os próximos números dessa série sobre os pecados capitais.
Nota: Sacudi a poeira e retirei as teias de aranha do Restinga Musical para responder ao seu desafio do "etiquetar".

Mutatis Mutante disse...

Alguém aqui andou lendo a Bíblia ou é só impressão de um paranóico para acabar a crisma?

Quanto ao Peter Sellers , no post de baixo , eu vi esse filme uma vez e achei muito melancólico. Não sei porque , mas todos os humoristas - Sellers , Chaplin - tem vidas dramáticas e tristes. Mas vale a pena pela história e pela Charlize Theron , diga-se.

Abração!

Ana Carla disse...

Masrco, querido... inveje-me: passei um dia magnífico ao lado de uma de minhas ídolas!! rsrs... A Clarinha ilumina, de verdade!! Agora fica faltando você... outro ídolo... Beijão!!

DO disse...

Nossa,MARCO.

Hoje as ternuras foram pro epaço e eu fiquei aqui pensativo...

Parabens!!

Giulia disse...

Ótima narrativa, Marco, onde os sentimentos de mesclam... destaque para um dos vícios capitais - a inveja - que existem deste que o mundo é mundo. Feliz domingo procê, querido amigo! Beijos

rubo medina disse...

Hum!!! Por analogia com a Bíblia... hum! Interessante narrativa, onde a disputa impera, dosada com ciúmes e um final trágico. Salvou-se o nome da prima. Simplesmente adorável Lilith... só não o comparo com o vinho pq nao bebo, mas com o croissant, delícia.
Abraços, Marco.

rubo medina disse...

Marco, deixei um esclarecimento no Dulcinéia sobre as gíris que vc disse que estavam indefinidas. Pode servir pra outras pessoas também. Espero ter contribuído... rs.
Abraços

nina disse...

Gostei do Calainho, no meu tempo era Caim. hehehehee...
Querido, interesantíssimo seu texto, a inveja é mesmo uma grande e lastimável violência.
Assusta-nos, às vezes, saber que ela anda sempre tão perto de nós, silenciosa e à espreita. Bem fez Lilith em mudar-se para longe e sei dizer pra onde.

Um beijo de domingo!

nina disse...

... e sem dizer pra onde.

(como diria Cid Moreira, 'desculpem a nossa falha')

_Maga disse...

Bah... que historia triste hein?

São tão delicadas as relações humanas...

ainda mais quando a gente coloca todas as espectativas em uma unica cesta...

Andei sumida pois estava em um congresso por esses dias... mas agora estou de volta...

Um grande abraço pra ti

Ana Carla disse...

O que será que vc vai escrever sobre a gula e a luxúria?

Anne disse...

O nome Lilith não tem algo a ver com o demônio? Provavelmente não por acaso... Dizem que "a inveja mata", mas normalmente não mata o invejoso e sim o invejado, ainda sim, acho que quem sente a inveja é quem mais sofre no fim das contas. É um sentimento muito triste.

Bjão!!

Roby disse...

Ahh Markito..
Que triste isso tudo...
Será que a inveja do rapaz foi tanta, que ele suicidou-se?
Não duvido disso:
Minha mãe sempre diz:
"Se não estamos protegidos com orações e bons pensamentos, a inveja toma conta...e se cai os olhos invejosos em cima da gente, morremos secos".
*
Gostaría que tivesse continuidade esta história Markito!
Ahh conta mais vai??
*
Upaaaaaaa grande pra ti.

Alê Barros disse...

Oi querido...

Pois é, a inveja é um dos sete pecados capitais...
A inveja é um dos piores sentimentos que um ser humano pode carregar dentro de si!
Adorei a fábula"!
Beijose linda semana.

M.Eduarda disse...

Adorei a história! Super interessante e bem escrita, como sempre né?
beijão!

Marco Santos disse...

Minha doce Claudinha: Você disse tudo. A inveja envenena. Que bom que gostou do texto. Me deixa muito, muito feliz.

Querida Lili: É... Mas eu tenho uma "inveja" da sua forma concisa de escrever seus contos...

Ah, queridíssima Karine! Que bom tê-la por aqui de novo!

Grande Paulo, meu personal teacher de template: Sim, é uma série. Não posso dar maiores detalhes por enquanto. Tenho lá minhas surpresinhas.

Grande Evandro: Pois é, rapaz... Sinistra, mesmo. Aguarde a série que vem mais coisas por aí.

Grande Bruno Mutante: Você está certo. Não é impressão, o rapaz aqui gosta de ler a Bíblia. Esta história é uma adaptação inspirada em Caim e Abel.

Querida Ana Carla: Já sei que você encontrou com a Marcíssima. Imagino que tenha sido muuuuito legal esse encontro, né não?
De dar inveja mesmo...
Luxúria e gula? São seus pecados preferidos?

Grande DO: Pois tem várias ternuras neste e nos demais contos da série. Ótimo saber que você gostou.

Puxa, querida Giulia! Se você gostou do meu modesto conto, fico mais que feliz!

Ô grande Rubo... Sua análise é minuciosa e acurada, feita por quem sabe das coisas. Valeu, parceiro! Elogios de quem escreve tão bem me deixa envaidecido.

Querida Nina: Pois é... A inspiração veio de Caim e abel. Mas eu quis dar uma modificada. A inveja é um pecado que pode conduzir a crimes tenebrosos.

Bom tê-la por aqui, querida Maga. Relações entre seres humanos sempre têm um dado de complexidade a mais.

Querida Anne: Diz a lenda que Lilith foi a primeira mulher criada por Deus, antes de Eva. E que se rebelou por ser considerada como inferior ao homem. Não tem nada a ver com demônio. Embora ela seja considerada como "perdição" para os homens.

Querida Roby: Huum... Creio que o Abel foi "suicidado"...
A inveja ronda a todos nós. Você está certa por se revestir da oração como defesa.

Querida Alê: Não é exatamente uma fábula´, que são histórias curtas com final moral, é apenas um conto despretensioso. Você está certa: a inveja é uma das piores coisas a se carregar no coração.

Que bom que gostou, querida Eduardinha.

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

rubo medina disse...

Marco, agora ficou mais claro pra mim também. É meio difícil dizer de qual estado é determinada gíria, pois estamos num mundo globalizado. E vc mesmo disse que pila se usa em outros lugares. Pela história que conheço, realmente a palavra nasceu no RS. Quando à definição da locação da minissérie, prefiro ficar sem definir. Só há uma coisa que defino na história, Balneário Camboriú onde Andie morava, Blumenau onde ela nasceu, Budapest, o ninho de toda trama dos roubos que vai se desenrolar... etc. No mais, até me lembro certa vez que alguém me perguntou se o colégio era do Estado ou particular. Eu respondi a ela: pense bem na minha descrição (econômica) do colégio e conclua por vc mesmo. Agora, definir a cidade onde as ações transcorrem, prefiro nao, pra nao correr o risco de pecar (BH nao seria uma boa locação... rs) e assim vou levando.
Desculpe se pareceu grosseria de minha parte. Não foi de jeito nenhum!
Amanhã leio o 2 do pecado.
Abraços.

Alvanir Lima disse...

Fala Marco!!!
Só duas observações. Quando queremos assistir aos clipes deixados em sua página, fica difícil acompanhar com a música sobreposta da sua 'rádio ternura' (Wanderléa talvez)... o outro 'comment' é à respeito da foto do olho... acho que ficou de cabeça para baixo meu compadre... foi proposital ou a minha cerva já começou a fazer efeito? he he he
Abraços vascaínos de sempre do amigo Alvanir

Saramar disse...

Marco, bom dia!
Que coisa mais triste. Foi uma morte total provocada pela inveja. Todos morreram, inclusive a beleza da amizade e o amor nascente.
Apesar disso, o texto é um primor (aliás, quando não é?).

beijos

Zeca disse...

Lilith, pão e vinho. Lilith, a Lua negra, também conhecida como mulher misteriosa e sedutora, que teria se transformado na serpente que tentou Eva no paraíso...
Teria sido mesmo Calainho quem matou Abel? Ou seria Lilith, a Aranha (Viúva) Negra que mata o macho após a cópula? E, saciada, parte em busca de nova vítima (ops! novo macho!)...

Abração.