quinta-feira, setembro 21, 2006

Um ator bem trapalhão


Na música “Vaca Profana”, o grande Caetano Veloso disse que “de perto, ninguém é normal”. Santa verdade! Nelson Rodrigues andou dizendo também que se a gente soubesse da vida uns dos outros, andaríamos na rua virando a cara pra todo mundo.
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Pois estas verdades se cristalizam ao ver o filme “Vida e morte de Peter Sellers” (Life and Death of Peter Sellers, USA/Inglaterra, 2004, dir. Stephen Hopkins), que não passou nas telas do Brasil, só na telinha (vai passar no HBO Plus durante vários dias de setembro e outubro), e chegou agora em DVD. Quem quiser ver o trailer, abertura, ficha técnica, basta clicar aqui.
O filme é baseado numa biografia do inesquecível detentor do papel do detetive Closeau da série “Pantera Cor de Rosa” (que ele detestava fazer, diga-se de passagem...).
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Pelo filme, se é que é verdade, Sellers (1925-1980) era mimado pela mãe, péssimo pai, péssimo marido, mau caráter, neurótico, mulherengo, viciado em drogas, egocêntrico... mas, e sempre existe um mas... um ator fantástico, o sonho de qualquer diretor que queira ter um artista excepcional para confiar um papel-chave.
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Na área do humor, eu sempre fui fã de carteirinha de dois caras: Woody Allen e Peter Sellers. Em todos os filmes que eu vi com Sellers, me esbodeguei de rir. Com “Um convidado bem trapalhão” (The Party, 1969, dir. Blake Edwards) eu passei vergonha no cinema. Ri tanto que caí no chão de joelhos. E não parava de rir! Aliás, esse filme é uma de minhas antigas ternuras.
Veja uma de suas cenas mais engraçadas, pela TV Antigas Ternuras


Na série Pink Panther, onde ele atuou, a graça não era diferente. E nos demais filmes estrelados por ele, como “O Rato que Ruge”, “Dr. Fantástico”, “Cassino Royale”... tantos que nem me darei ao trabalho de relacioná-los... Peter Sellers enchia os nossos olhos com seu talento incomum. Mesmo em papéis não necessariamente humorísticos, como no esplêndido “Muito além do jardim” (Being There, 1979), praticamente seu canto do cisne, ele dava um banho, um verdadeiro show!
Veja neste documentário em espanhol, pela TV Antigas Ternuras, algumas das mil faces de Sellers.



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Pois é. Cresci admirando Peter Sellers, me deixando impressionar com a sua capacidade em fazer tipos (meu sonho como ator é ser tão versátil como ele era; dizem que eu sou bom pra fazer tipos humorísticos, mas não chego nem aos pés da sombra dele...), nem imaginava a criatura atormentada e atormentadora que ele foi.

A mãe o preparou para ser uma estrela. Mesmo quando ele estava em início de carreira, somente trabalhando em Rádio (sim, ele participou de um programa humorístico na Inglaterra que foi um sucesso! Foi lá que ele desenvolveu seu talento especial para criar vozes engraçadas), parecendo sem perspectivas, casado, com filhos, era ela que lhe dava guarida e lhe incentivava com palavras que fariam Maquiavel corar de vergonha. O pai de Peter era um zero à esquerda. E a mãe não se cansava de dizer isso e agir como se o marido fosse uma espécie de velho abajur jogado num canto da casa. Peter via aquilo, mas não mexia um fio de cabelo em defesa do pai. Quando este esteve moribundo, a mãe sequer o avisou. Quando ele soube, o velho já estava batendo as botas. A mãe disse que não queria incomodá-lo...
Pois ele foi à forra e também não foi ao hospital para ficar com ela quando ela estava doente. Deixou a mãe morrer sozinha.
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Anne Sellers, sua primeira mulher, penou na mão dele. Quando Sofia Loren foi à Inglaterra filmar com Peter, ele se apaixonou por ela de tal forma que chegou a pedir divórcio. Só não contava que a bela peituda italiana fosse apaixonada por seu marido, Carlo Ponti, e mandasse o colega assanhado ir pastar nos gramados do Palácio de Buckingham...
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Pelo filme, vemos que a relação dele com Blake Edwards era de amor e ódio. Ambos se amavam e se odiavam. Com mais ódio que amor – este restrito aos números da bilheteria dos filmes em que trabalharam juntos.
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Com a segunda mulher, a sueca Britt Ekland (no filme, a cena em que ele a conheceu é hilária!), a paixão inicial, daquela de ficarem trancados dias num quarto de hotel, só fazendo saliência, fica ofuscada pela pancadaria e pelas cenas de humilhação em que ele a submeteu.
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Sobre o filme, a atuação de Geoffrey Rush como “Peter Sellers” é irrepreensível, mereceu os prêmios que ganhou. Rush sempre dá o showzinho dele quando atua.

Emma Watson como “Anne Sellers” também está muito bem, assim como Charlize Theron, na “Britt Ekland”. Na verdade, todo o elenco está impecável. E nota DEZ para os créditos do filme, no melhor estilo “Pantera Cor de Rosa”.
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É impressionante como, em muitos casos, pessoas que conquistam a admiração de tantos não são pessoas admiráveis. Nem sempre quem é visto como exemplo é alguém exemplar. Por trás de uma máscara pública brilhante, pode estar escondida uma face sombria e nem sequer nos damos conta disso. Nem teríamos com saber, afinal de contas, enquanto público, estamos distantes de nossos ídolos. Mas basta saber que definitivamente, “de perto, ninguém é normal”, para termos a real dimensão de que nossos ídolos são pessoas de carne e osso. Não deuses olímpicos.
M.S.

19 comentários:

Lili disse...

E que bom que nossos ídolos também tenham uma vida "normal", né? Beijos!

Claudinha disse...

Marco, eu li rapidamente pois tenho que trabalhar agora, mas adorei as informações, eu volto para comentar direito. Um beijo!

M.Eduarda disse...

Oi querido! Boa dica de filme! Minha mãe sempre adorou o Peter Sellers e o introduziu a mim através da saga da Pantera Cor de Rosa que adorava ver quando era criança. Agora compramos o box com todos os filmes em dvd! São maravilhosos, eu me esculhambo de rir!
beijos!

marconi leal disse...

Marco, resenha digna do resenhado. Parabéns!

Claudinha disse...

Oi Marco, eu voltei para ver os vídeos e comentar mais calmamente. Dos filmes que cita, eu só assisti dois e fiquei pasma em saber que ele não gostava de fazer Pantera, que eu adorei. Quanto à vida particular das celebridades, sabemos que sempre é diferente do que pintam nas telas, e cada um é do seu jeito. Mesmo assim não apaga o brilho dele como ator, comforme você nos mostrou. Imagino a vergonha de sua namorada ao acompanhá-lo nestes escândalos e loucuras risonhas (de perto você é normal?), mas se o filme valeu a pena,poxa, então tinha que rir mesmo... rsrsrs.
Um beijo grande!

Claire disse...

"Um convidado bem trapalhão" eu vi várias vezes; dos melhores!

Fernanda disse...

Parece ser bem legal! Vou ver se alugo!!!

Kisses

Ana Carla disse...

Bem... sou pisciana desligada, e não havia reparado na data, não. Estou gostando da TV Antigas Ternuras. Tem programação variada e de categoria!! rsrs... Beijão!!

DO disse...

Tbem gosto muito dele,MARCO.
É o tipo de humor que me agrada,hehehe
Abração e uma otima sexta.

Alê Barros disse...

Olá querido...
Você falou tão bem do filme e da tua experiência assistindo aos filmes de Peter Sellers que fiquei curiosa pra ver o filme também...
Obrigada pela dica, adoro filmes!
Tenha um lindo final de semana.
Beijos

Roby disse...

Hahahhaha...ai como amo filmes com Peter Sellers!!
E este, "Um convidado bem atrapalhão", assistimos, eu e Peter, num canal que passa somente filmes antigos ( Kabel 1)...
Rimos até dizer chega Markito!!
Este filme é o tchan..
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Queria te ver ajoelhado no cinema explodindo as gargalhada..rsr
Já fiz isso em praça pública, e não faz muito tempo..rs
Não consegui me controlar..rs
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Abraço meu querido, este seu post está supimpa.

Tem bolo procê.

Vendetta disse...

De perto ninguém QUER ser normal. Todo mundo quer ser ESPECIAL!
Beijos especiais, recheados de saudades...

Theo G. Alves disse...

opa... depois de um tempao longe, consigo um minuto de fuga pra vir me esconder aqu e dou de cara com um monte de coisa boa (Grande Pet Sounds), sobretudo com o belo LIfe and Death...
vi o filme no mes passado e fiquei emocionado. eu que gosto do Sellers achei o filme fabuloso e que linda a Teron...
um grande abraço, meu caro!!

Jéssica disse...

Muito bom seu post, parabéns! Gosto dele, vi vários filmes, mas os q mais marcaram foram: a pantera-cor-de-rosa e convidado bem trapalhão. Inesquecíveis!!!
Passei pra te desejar um final de semana tranquilo, beijo*.*

Fugu F. disse...

Queridíssimo! Não. Eles não tem nada de normais. Pra nossa sorte e azar de suas mulheres e filhos. De perto, nós também não somos normais. Mas, sejamos francos, nossa anormalidade é pouca ... rsrsr Não é para menos que você citou Woody Allen, outro favorito com o qual eu jamais casaria. Só não sei porque deixou o Chaplin de lado, só para ficar na ala cinematográfica. beijo você. Normalissimamente!

Saramar disse...

Querido marco, voltei, depois de mais de uma semana sem poder ler o meu blog preferido.

Nossa, o Sellers era normal até demais, não?
Mas, você, como é normalmente mágico, consegue nos deixar fãs dele, mesmo com todos esses fatos tristes.
Vou assistir o filme.
Beijos e um lindo final de semana para inaugurar a primavera.

Marco Santos disse...

Querida Lili: Huuummm... Mas você há de admitir que o Sellers era um tanto "normal" de mais...

Minha doce Claudinha: Pois é. Segundo o filme (que é baseado em uma biografia do Peter), ele até achou interessante fazer o primeiro da série Pink Panther. Adorou ter roubado o filme do David Niven. Os demais, ele detestou fazer. ele gostava de novos desafios e não via mais graça em fazer um francês trapalhão.
Não, de perto não sou nem um pouco normal. Minha namorada sabe disso (acho que é por isso que está comigo há tanto tempo). Quando gosto de um filme, rio de me espalhar. Dou vexame, inclusive.

Querida Eduardinha: A série é ótima. Os filmes do Peter são. Ele é que não era flor que se cheirasse...

Que bom que gostou, grande Marconi!

Também gosto muito deste filme, Claire.

O filme é interessante, Fernandinha.

Querida Ana Carla: Às vezes alterno a TV Ternuras com a Rádio Ternuras. Depende do post.

Grande DO: É ótimo ver o Sellers nos filmes.

Querida Alê: Vale a pena ver este filme.

Querida Roby: Pois é... Teve filmes em que ri de cair da cadeira. Esse que citei foi um. "Deu a Louca no mundo" foi outro. Os filmes do Monthy Pyton, Porky's e outros da linha me tiram do sério. Eu fico rindo por horas, dias...

Vendettinha querida: Quem é especial quer ser normal. Quem é normal faz força pra ser especial.

Graaaande Theo!!! Mas que prazer revê-lo por aqui! Vou já te visitar!

Querida Jéssica: Todos os filmes do Peter Sellers que eu vi me agradaram bastante. Eu me esculacho de rir!

Querida Fugu F.: Você está certíssima. Nossos ídolos tem uma anormalidade bem maior que a nossa. Não citei o Chaplin por ser um tipo de humor diferente. Nessa linha de malucos-beleza, gosto do Allen e do Sellers.

Querida Saramar: Embiora eu tenha levado um susto com a personalidade nem um pouco "normal" do Sellers, não deixo de gostar de seus filmes. Que bom que gosta de meus textos. Pois eu também adoro os seus.

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

Giulia disse...

Oba! Antigas Ternuras também é cultura... quanta coisa que desconhecia... gostei de saber. Beijocas

Zeca disse...

Aos gênios e aos mitos tudo é permitido. Eles nos compensam com talentos inigualáveis.

Abraços.