quinta-feira, outubro 27, 2005

Memória bandida


Nesta semana assisti no canal History a um documentário sobre o assaltante norte-americano Jesse James (1847-1882). É impressionante o fascínio que a América tem por bandidos! Eles cultuam, celebram, rendem homenagens, investem uma grana verde na preservação da memória de seus fascínoras... Eu conheço a fama de Jesse James desde que eu era menino. Como conheço também a do Billy the Kid. Lembro até que nas nossas brincadeiras de bangue-bangue, tinha gente que queria ser um ou outro.
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Pelo documentário, fiquei sabendo que o Jesse morreu com um tiro dado pelas costas, quando estava no alto de uma cadeira, ajeitando um quadro de sua casa, no Missouri (E isso lá é maneira de um bandoleiro morrer?). O seu matador – Robert Ford - era um dos membros de seu bando, a quem ele tinha dado abrigo e que o traiu pela recompensa oferecida pelo governador do estado. Jesse James tinha a cabeça a prêmio por assalto a trocentos bancos.

Ele alugara uma casinha no alto de uma colina, em Kearney, onde estava morando com sua esposa, seus filhos, seu irmão Frank e sua cunhada. Um dia, apareceu por lá dois irmãos, remanescentes de sua quadrilha, ambos precisando de ajuda e abrigo. James, com aquele seu coração mole, abriu-lhes as portas. O grupo viveu em harmonia por longo tempo, até que ele subiu naquela cadeira para ajeitar o quadro do tipo "Home Sweet Home" (sádica ironia...).

Seu matador foi perdoado pelo governador e passou o resto de sua vida enchendo os cornos de uísque nos saloons, contando e recontando sua história. Ah, sim: ele ganhava a vida vendendo a arma que usou para estourar a cabeça de Jesse James. Vendeu várias... Como se vê, além de covarde era um tremendo 171. Acabou se suicidando, em 1892. (Veja a foto dele segurando a tal arma)
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Morto James, começou o seu culto. A casa virou museu. A sala onde ele morreu foi preservada do mesmo jeito em que estava. O tal quadro ainda está lá, assim como o buraco na parede que a bala fez, a própria bala, o revólver (ou um deles, vai saber...), a marca no chão onde ele caiu morto...

O velho Jesse foi enterrado no quintal da casa, mas em 1995 foi exumado e parte dos restos mortais foram para o cemitério de Kearney. Alguns ossos estão na casa-museu. (Veja a foto da tumba original)
Só que tem gente que contesta esta história. Muita gente acredita que ele forjou a própria morte, para não ser mais perseguido pela justiça. E aí passaram a criar mil teorias, que nem vou citar aqui.
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O que quero deixar claro é que o americano cultua seus bandidos como o faz com seus heróis. O mesmo fascínio que eles tem por Búfalo Bill, Wyatt Earp, Elliot Ness, Patton etc. eles também o devotam a Jesse James, Billy the Kid, Bonnie e Clyde, Dillinger, Al Capone e tantos outros. Aliás, eu até acho que eles cultuam mais os bandidos que os mocinhos.
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Aqui no Brasil, não temos esta mesma prática. No máximo, lembramos de Lampião, Maria Bonita e o cangaço em geral, mas outros bandidos caem no esquecimento e poucos se recordam deles. Quando eu era moleque, existiam bandidos famosos aqui no Rio: Mineirinho (virou até filme!), Micuçu, Cara de Cavalo, a Fera da Penha, Van e Lou... Mas tenho certeza que poucos ou nenhum de vocês que me lêem sabem de quem estou falando. Aqui não se cultua bandido. Talvez por serem tantos, que não dá nem pra fixar um.
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Está certo que americano aproveita qualquer oportunidade para ganhar dinheiro. Eles investem pesado nisso. E esses museus onde estão os acervos dos facínoras (além do referente ao Jesse, tem outros que cultuam os demais aqui citados) cobram entrada, direitos de imagem, vendem toda aquela tranqueira que turista adora – livro, poster, postal, caneca, chaveiro, lencinho, bibelô com a inscrição "estive na Casa de Jesse James e lembrei de você", e vai por aí a fora. Mas se investem é porque tem público para isso. E, pelo visto, eles não tem tido razões para se queixar...
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Não estou defendendo que se cultue aqui os nossos bandidos. Mesmo porque, se fizer uma casa-museu para cada bandido, vai faltar moradia para o povo. Só acho que aqui não se cultua nada. A memória virou artigo pra lá de supérfluo. A gente tem uma enorme tendência para o esquecimento. E lembrar pode ser bastante salutar. Como bem disse (o grande) Mario Lago: "De vez em quando é bom ir buscar as coisas que ficaram amassadas lá no fundo, assim como o bagaço de laranja chupada que se atira pela janela do carro e que pode despertar lembranças amargas como da sede que se saciou".
M.S.

11 comentários:

claudia disse...

olá...
bom, preciso comentar isso aí em cima.
Para mim, bandido é sempre bandido.
Não cultuaria não.
Imagine um culto a Fernandinho beira mar, ninguém merece.
E depois acho Americano, um povo medíocre, mas tem que se respeitar...
Potência é sempre potência.
E como diz o velho ditado...
Manda quem pode e obedece quem tem juízo.
Mas ainda assim. na minha opinião, não deveria se cultuar nunca um bandido.
E vc. tem toda razão do mundo, quando diz...
Que nós além de não cultuarmos bandido, não cultuamos nada.
Nem escritores, nem nada...
Quie pena né?
Isso me entristece.
Um beijo

afe(rs) exagerei no comentário...rsrs

Torta de Limão disse...

Oi, Marco. Mais uma vez, obrigada pela ligação de hoje, e pela surpresa do Marcelo. Valeu! Parabéns pelo contador, estarei sempre entre seus "visitors", ok? Quanto ao Mário Lago, era sábio mesmo: era tricolor!!! Hehehe... brincadeirinha. Sábio por diversas razões. Ótimo ator, compositor, etc... Beijos. Em breve respondo seus e-mails.

Marco Santos disse...

Ora, ora...Duas doces amigas que eu tanto prezo!
Claudinha: Não temos que cultuar bandido mesmo. Nem os americanos deveriam. Embora Jesse James, Billy the Kid etc. eram ladrões, digamos, "românticos" perto do que se vê hoje em dia. Naquele tempo, eles assaltavam os bancos e roubavam, sei lá, 10 mil dólares. Hoje os bancos nos assaltam em taxas de juros de fazer Al Capone corar. E as negociatas de políticos e dos fundos de pensão roubam bilhões de reais do erário público. Jesse James perto de um Maluf é batedor de carteira, daqueles que atacam nos vagões de trem!
Heleninha: Eu sempre conto com suas visitas. Independente de qualquer contador. Como conto com sua amizade incondicional e espero que você também conte com a minha. Foi um grande prazer conhecer o grande Marcelo. Espero que a gente possa se rever outras vezes. Como espero em breve te conhecer também (e ao meu personal teacher).

argh, lemòn. disse...

...o meu favorito é o Dillinger. Mas filme de alma sebosa bom é" O bandido da luz vermelha". Esse sim, UM CRÁSSICO.

lúcio disse...

Leonardo Pareja e a peregrinação de adolescentes ao presídio de Aparecida de Goiânia ...

carla disse...

Concordo com a CLaudia. Horrível isso.
Abração pra vc.

Belisa disse...

Billy the Kid... isso me lembra uma aula de redação do semestre passado, na qual tivemos de escrever um texto baseado num conto de Borges sobre "o homem do terror e da glória".

Se não me engano, o livro do autor argentino chama-se "História Universal da Infâmia". Vale a pena conferir!

Marco Santos disse...

Sugestão anotada, cara Belisa. Vou verificar. Ler Borges é sempre um baita prazer. Aliás, você já leu as resenhas sobre o novo do aramago, "As intermitências da morte"? Estou doido para ler este livro...

Belisa disse...

Não li, não. Aliás, Saramago é uma lacuna na minha formação. Não li nenhum livro inteiro dele... Preciso me redimir...

Marcelo disse...

Certa vez eu baixei um ao-vivo do Episode Six (a banda que o Gillan e o Glover tinham antes do Deep Purple) na BBC, em que eles cantavam uma musiquinha singela chamada "Jesse James". Que era esta aqui:


Jesse James was a man who killed many a man
He robbed the Glendale train;
And the people they did say for many miles away
It was robbed by Frank and Jesse James

Chorus:
Jesse had a wife to mourn for his life,
Three children, they were brave;
But that dirty little coward who shot Mr. Howard
Has laid poor Jesse in his grave.

It was on a Wednesday night, the moon was shining bright
They robbed the Glendale train
And the people they did say for many miles away
It was robbed by Frank and Jesse James

It was on a Saturday night when Jesse was at home
Talking with his family brave
Robert Ford came along like a thief in the night
And laid poor Jesse in his grave

Chorus:

Jesse had a wife…

Robert Ford, that dirty little coward
I wonder how he feels
For he ate of Jesse’s bread and he slept in Jesse’s bed
And he laid poor Jesse in his grave

Chorus:
Jesse had a wife…

Marco Santos disse...

Super legal, Marcelo. Pô, os caras são do balacobaco, mesmo. A letra da música traduz direitinho a escrotidão do Ford. A vida deve ser muito dura com os covardes e traidores. Aliás, eu li na revista Nossa História deste mês o triste fim do Joaquim Silvério dos Reis. Como reconhecimento pela delação, a Coroa portuguesa lhe deu a Ordem de Cristo e uma pensão anual vitalícia de 200 mil réis. O cara teve que ir para o Maranhão, com medo de represálias pela traição da Conjuração Mineira. Morreu lá, em 1819 (acho), amarguradíssimo, tendo vivido aquele tempo todo com medo, achando que seria reconhecido e assassinado por alguém que soubesse do passado dele. Obrigado pela música.