quarta-feira, junho 15, 2005

Pelas ondas do Rádio (quem sabe um dia?...)

Quem me conhece sabe que eu morro de amores pelos antigos tempos do Rádio. Atuei em uma peça chamada "Na Era do Rádio" e fui um dos pesquisadores que reuniram material para escrever o roteiro. Por conta disto, montei um banco de dados e virei "especialista" sobre a época de ouro daquela caixinha mágica. Há cerca de uns três anos, me convidaram para gravar, como ator, capítulos de radionovela em uma emissora comunitária. Fui, é claro. E com os olhos brilhando.
No início, fazíamos e gravávamos adaptações de contos de Arthur Azevedo. Depois, acabamos nós, alguns dos atores, criando estórias originais em forma de capítulos de novela. Eu mesmo escrevi dezenas deles.
Infelizmente, o projeto acabou. Eu lamentei muito o fim das gravações. Pelo menos, sei que as gravações estão lá, guardadas.
No outro dia, escarafunchando uns arquivos velhos do meu computador, achei os capítulos que escrevi. Eu os reli e acho que passaram pelo crivo do tempo (um dos melhores controles de qualidade de textos que existe). Quem sabe, um dia, eu não consiga regrava-los como radionovelas em outro lugar.
Resolvi colocar alguns aqui no blog. Experimentalmente, vou colocar dois. Se vocês que me visitam tiverem interesse, eu coloco outros. Combinado? É só clicar em "coments" e dizer se eu "vou para o trono" ou se mereço o "troféu abacaxi" como escritor de radionovelas.
ANJOS NO INFERNO
Um original de Marco Santos
Personagens: Maria da Consolação, Maria das Dôres e Narrador.
NARRADOR – As duas irmãs, Maria da Consolação e Maria das Dores chegaram juntas à casa do pai. Por sobre a cabeça de uma, o xale negro de viúva. No coração da outra, o veneno da infelicidade.
MARIA DA CONSOLAÇÃO (MC) – Pai, esta sua filha é só infelicidade. Morreu a luz da minha vida, aquele que dava o meu sustento e do meu filho. Ai de mim! Ai de mim!
MARIA DAS DÔRES (MD) – Paizinho, eu não agüento mais o Dalvan. Minha vida é uma chaga só. Os sete infernos não se comparam com a minha casa se é que se pode chamar aquilo de casa.
MC – Pai, como eu amava aquele homem, como ele era bom para mim. Era só eu suspirar de desejo por alguma coisa e ele atendia. Todo dia trazia da rua sonho quentinho, embrulhado com barbante fino e me dizia: "pro meu doce".
MD – Meus olhos estão secos de tanto chorar. Quando ele chega, vindo da roça ou vindo do bar, cisma que eu quero matar ele. Aí meu lombo é que sofre. Eu apanho sem nem saber porquê. Eu peço a ele de joelho que me poupe. Sabe o que ele diz? "Você é o meu encosto!"
MC – O que é que eu faço com os meus desejos de mulher, meu pai? O meu homem me deixava na porta do paraíso com aquele jeito manso de tocar no meu corpo. E ele nunca se cansava. Era todo o dia, todo o dia. Depois de me saciar ele me dizia baixinho: "tem agrado pra você". E sabe o que era? Corria para o bolso do paletó e encontrava lá jóia folheada, pacote de bala azedinha, tudo o que eu mais gostava.
MD – Ultimamente nem me procurar mais ele me procura. Diz que tem outra pra servir ele. Vira pro lado e dorme e eu que me vire pro outro sem gemido. Ele me acorda pela manhã com sopapão, me pegando pelos cabelos. "Sua porca, o que que você faz em casa que não limpa nem isso?" Pai, eu tenho que limpar o penico dele?
MC – Pai, me dê a sua bênça. Eu volto pro meu canto, pro meu lar onde o corvo da morte pousou. Não quero mais saber de homem. Nem do Seu Quinzinho da quitanda, que pega na minha mão e me olha com aquele olho de cachorro pidão. Ele diz que compreende o meu sofrimento, que quer me dar outra chance de ser feliz. Não quero nem saber...Nem olho quando ele encosta a minha mão nas coisas dele...E quando ele roça a barba no meu cangote e me chama de mulher cheirosa eu nem ouço. Ele quer ir lá em casa de noite, bem de noitinha...Eu digo que ele pode ir se quiser...Até deixo a porta da rua encostada. Mas não esqueço o meu falecido!
MD – Vou indo, meu pai. Me dê a sua bença. Está na hora daquele traste chegar. Meu feijão está no fogo e tenho que cuidar da casa. Tão exigente! Só quer comer o feijão se o alho for bem queimado antes. Vou me lavar com sabão cheiroso. Quem sabe ele hoje me quer...
(Fim)
AS PARALELAS SE ENCONTRAM NO INFINITO
Original de Marco Santos
Personagens: Homem, Mulher e Narrador
NARRADOR - Esta é uma história sobre um homem e uma mulher. Uma história que pode ter acontecido há algum tempo...ou poderá acontecer daqui a segundos, minutos ou anos.
HOMEM - Você vai embora, mesmo?
MULHER – Hum-hum...
H - E se eu...e se eu...
M - ...me pedir para ficar? É isso? Você ousaria tanto?
(Pequena pausa)
M - O medo é a mais fiel de suas qualidades.
H - Não é medo. Eu não tenho medo de nada.
M - Talvez só de você mesmo.
H - Eu quero que você fique.
M - Ora, viva! Até que enfim eu sei de alguma coisa que você quer!
H - Olha, por que é que você não vai pra...
M (INTERROMPENDO) - Mas eu já estou indo!
H - Não, não é isso...Eu não quis dizer...Ah, você me deixa nervoso!
M - Eu sei exatamente como você está se sentindo.
H - A ironia é como uma lâmina. Quem a usa demais acaba se cortando.
(Pequena pausa)
H - Você vai devolver o livro do Neruda que nunca leu e ficar com o disco do Pixinguinha, sim?
M - Foi assim que a gente começou. Nossas vidas não estão nas letras das músicas. (CANTANDO) "O nosso amor a gente inventa...", não é assim? Não, não é assim.
H - A sensação que eu tenho é que a minha escravidão começa onde termina a sua liberdade. Não se trata de saber quando ou por que eu te perdi. Mesmo porque a dor da perda não se agrava ou se atenua com explicações.
M - Não estou te fazendo um mal...Talvez até seja um bem, no fim das contas...
H - Não! Por favor...Não cometa o absurdo de se justificar nestes termos!
M - Eu não estou me justificando. Você também não precisa fazer esse drama todo.
H - Uma comédia de costumes ficaria melhor?
M - (PAUSA) Bem, eu já vou. Se eu esqueci alguma coisa, você guarda pra mim.
H - Agora começa a pior parte, não é? Sempre que me acontece alguma coisa assim eu espero o último minuto para acordar e respirar aliviado, sabendo que foi um sonho.
M - Então não acorde.
H - Eu só quis ser legal pra você.
M - Mais cedo ou mais tarde, as pessoas boas e honestas sempre recebem o justo castigo.
(PEQUENA PAUSA)
M - Você me ajuda a chamar um taxi?
H - (PAUSA) Claro.
NARRADOR: ...E no princípio era o Caos. De algum lugar, partiram dois pontos se deslocando no espaço...E em um segmento daquele universo, seus olhos se cruzaram e aquele olhar contava da vida de cada um...tudo o que tinham visto, ouvido, sentido naquela vastidão. E perceberam que se amavam... Mas como eram retas paralelas, estavam condenados a se encontrarem somente no infinito. (Fim)
(M.S.)

4 comentários:

Paulo disse...

O apresentador pergunta: "Vai para o trono ou não vai?" O jurado diz: "Sim!" E o auditório canta: "Ele merece! Ele merece! Ele merece!" Marco, à medida que lia estas suas histórias, ficava imaginando como seriam se ouvidas pelo rádio. Bravo! Por favor, publique outras! E espero que encontre a oportunidade de regravá-las. Grande abraço!

Helena, a doce. disse...

Dear and sweet Marco (como diriam os alemães...), I´m back, mas ainda enroladíssima com coisas das escolas e outras... então, ainda não li, com a atenção q vc merece, o último post, mas o farei, em breve. Fico feliz coma amizade "de infância" q está se formando via blogs. Quanto ao meu time, bem, só depois de quarta-feira, é q digo o q acho, mas ontem os meninos deram show... já a seleção brasileira, o fla, o vascocô e o bota...
E o fim de semana passado, foi bom sim, mas não passaram 4. Nem UM, pra ser exata, mas eu não me lamento. Sei q o q é meu está guardado. Beijinhos. Eu volto!

Helena, a doce. disse...

Buenas! Seus e-mails estão devidamente respondidos, ok? Bjs.

Helena disse...

Oi, agora vim ler com calma. Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, vc vai para o trono, continue postando aqui as suas "novelinhas". São ótimas. Essa frase "A ironia é como uma lâmina. Quem a usa demais acaba se cortando." me caiu como uma pedrada! Eu sou tão irônica às vezes! Preciso me lembrar disso. E "Na era do rádio", Luciana convidou-nos pra assistir. Alguns colegas de trabalho foram, achava até q o Paulo tinha ido, vou perguntar a ele. Eu, com certeza, não fui. Perdi essa chance, fica pra uma próxima.
beijos.