terça-feira, março 13, 2007

Anjos no inferno


Uma radionovela original de Marco Santos
Personagens: Maria da Consolação, Maria das Dôres e Narrador.

NARRADOR – As duas irmãs, Maria da Consolação e Maria das Dores chegaram juntas à casa do pai. Por sobre a cabeça de uma, o xale negro de viúva. No coração da outra, o veneno da infelicidade.
MARIA DA CONSOLAÇÃO (MC) – Pai, esta sua filha é só tristeza. Morreu a luz da minha vida, aquele que dava o meu sustento e do meu filho. Ai de mim! Ai de mim!
MARIA DAS DÔRES (MD) – Paizinho, eu não agüento mais o Dalvan. Minha vida é uma chaga só. Os sete infernos não se comparam com a minha casa se é que se pode chamar aquilo de casa.
MC – Pai, como eu amava aquele homem, como ele era bom para mim. Era só eu suspirar de desejo por alguma coisa e ele atendia. Todo dia trazia da rua sonho quentinho, embrulhado com barbante fino e me dizia: “pro meu doce”.
MD – Meus olhos estão secos de tanto chorar. Quando ele chega, vindo da roça ou vindo do bar, cisma que eu quero matar ele. Aí meu lombo é que sofre. Eu apanho sem nem saber porquê. Eu peço a ele de joelho que me poupe. Sabe o que ele diz? “Você é o meu encosto!”

MC – O que é que eu faço com os meus desejos de mulher, meu pai? O meu homem me deixava na porta do paraíso com aquele jeito manso de tocar no meu corpo. E ele nunca se cansava. Era todo o dia, todo o dia. Depois de me saciar ele me dizia baixinho: “tem agrado pra você”. E sabe o que era? Corria para o bolso do paletó e encontrava lá jóia folheada, pacote de bala azedinha, tudo o que eu mais gostava.
MD – Ultimamente nem me procurar mais ele me procura. Diz que tem outra pra servir ele. Vira pro lado e dorme e eu que me vire pro outro sem gemido. Ele me acorda pela manhã com sopapão, me pegando pelos cabelos. “Sua porca, o que que você faz em casa que não limpa nem isso?” Pai, eu tenho que limpar o penico dele?
MC – Pai, me dê a sua bênça. Eu volto pro meu canto, pro meu lar onde o corvo da morte pousou. Não quero mais saber de homem. Nem do Seu Quinzinho da quitanda, que pega na minha mão e me olha com aquele olho de cachorro pidão. Ele diz que compreende o meu sofrimento, que quer me dar outra chance de ser feliz. Não quero nem saber...Nem olho quando ele encosta a minha mão nas coisas dele...E quando ele roça a barba no meu cangote e me chama de mulher cheirosa eu nem ouço. Ele quer ir lá em casa de noite, bem de noitinha...Eu digo que ele pode ir se quiser...Até deixo a porta da rua encostada. Mas não esqueço o meu falecido!
MD – Vou indo, meu pai. Me dê a sua bença. Está na hora daquele traste chegar. Meu feijão está no fogo e tenho que cuidar da casa. Tão exigente! Só quer comer o feijão se o alho for bem queimado antes. Vou me lavar com sabão cheiroso. Quem sabe ele hoje me quer...
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo Maria Bethânia e o “Coração Ateu”.

14 comentários:

DO disse...

Desconhecia esta sua outra capacidade,MARCO. Muito legal mesmo.
Aos poucos vamos conhecendo mais e melhor os amigos blogueiros.
Abração!

Saramar disse...

Marco, é emocionante ver como descreveu o amor e a falta dele nestas duas mulheres.
A vipuva, mesmo viúva, jamais perderá a felicidade porque o amor está dentro dela, enquanto a outra, coitada, nada sabe dele.
Muito bonito, muito mesmo.

beijos

Renata disse...

Yem horas que mulher é um bichinho chato mesmo, né...quando cisma de se fazer de vítima entao...ai ai!!!
bjos

Filipe Vasconcelos disse...

Muito bonito esse escrito.. fico feliz de ter encontrado este espaço poético.. parabéns..
Grande abraço

Taís Morais disse...

ninguém está satisfeito com o que tem, não é?
a simplicidade marcante, o desejo de mudança.
belo texto.

beso

Taís Morais

Alê Barros disse...

Oi querido,

Ah, eu adoro quando tem por aqui seus contos, porque eles são inteligentes e sempre escritos de uma forma que acaba nos remetendo para a estória...agora, tadinha dessas irmãs hein? Uma tinha tanto e a outra absolutamente nada...retratos da vida real mesmo.
Beijão!

Julio Cesar Corrêa disse...

Coração Ateu da Bethânia foi de uma novela, não me lembro qual. Foi em 1974, não?
gd ab

Claudinha disse...

Olá Marco!
Mais uma de suas radionovelas que eu adorei. Não conhecia. Esta música me lembra minha infância e quando eu ficava encantada vendo novelas. Onde você arranja tanta inspiração? Parabéns! Beijo!

Márcia(clarinha) disse...

Duas irmãs, duas histórias,um final, pois MC jamais colocará fim nas boas lembranças de amor enquanto MD começou pelo fim sem amor.
Linda narrativa amigopratodavida, linda!!
meu carinho
beijosssssssssssss

feiticeira disse...

Tao giro!!!!
Gostei muito.

Lili disse...

É a vida!!! Texto muito forte. Adorei. Beijos

Ana Carla disse...

idcwAdoro seu rádio-teatro! E sua interpretação dos sentimentos. E gosto do seu gosto musical. Posso resumir: continuo sua fã! Hehehe...

Ana Carla disse...

Puxa! O código secretíssimo ali de baixo saiu impresso pra todo mundo ler!! Hihihi... Desculpe!

Luma disse...

Marco, criar dependência não é amar. Sentimento egoísta, querer só pra si, controlar, espezinhar, cuidar como plantinha...rs. carências?! Escreveu muito bem sobre o caráter do amor!
Beijus