quarta-feira, novembro 22, 2006

Se segura, malandragem


Prontos para mais explicações a respeito da origem de expressões de uso cotidiano? Então lá vai.
Apresentarei hoje esclarecimentos sobre duas expressões que utilizo bastante. E, de propósito, eu as escolhi para este post por terem pontos comuns em sua utilização. Fui procurar de onde vieram e o mestre Câmara Cascudo, que sempre me vale nessas horas, me auxiliou.
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A primeira é:

Da pá virada.

Essa veio de longe e de muito tempo atrás. Do tempo em que o homem tirava o sustento de sua família do chão. Ou tinha ele mesmo que construir a sua casa para abrigar a si e aos seus. Um dos instrumentos utilizados nessas empreitadas era a pá. Ela era e é extremamente útil quando existe uma pessoa na outra ponta a manejá-la. Se ela está largada, ou emborcada no solo, ela é absolutamente inútil. E se não está sendo utilizada, é sinal que a pessoa que a deveria utilizar está vadiando. Daí, originalmente ser da pá virada significava que o cara não queria nada com o batente, deixava a ferramenta largada.
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Mas, e sempre existe um mas... No Brasil, a expressão tomou outra característica. Aqui, deixar de trabalhar, ser malandro, passou a ser elogio, uma virtude, e não um xingamento. Ser “da pá virada” hoje é ser “o bom”, ou “a boa”. É o desejo de muitos para a admiração de tantos outros.
Li no jornal que um taxista carioca estava se vangloriando por ter enganado um turista, cobrando 100 dólares por uma corrida que não custou nem cinco. Ele ria, orgulhoso do feito. Afinal de contas, ele mostrou que é esperto, malandro, muito vivo... Disse a matéria que o jornalista explicou a ele ser aquele procedimento ruim para a cidade, que o turista enganado tende a não voltar e ainda queima o filme do país para os outros. E se o motorista lucrou 95 dólares, a cidade perdeu muito mais.
Você acredita que o cara vai deixar de fazer isso, se houver chance? Duvido. Ele mostrou que é da pá virada.
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Há uma outra expressão, também usada neste contexto do malandro que “se vira”, que dá um jeitinho brasileiro, que se safa... Estou falando da...

Quem não tem cão, caça com gato.

Essa aí talvez não seja tão antiga como a outra, mas também é do tempo do Onça. E ao longo das gerações sofreu transformação. Originalmente, se dizia: “quem não tem cão, caça como gato”.
Acho que vocês já devem ter visto em filmes cenas de caçada (tanto de raposa, de patos, de javalis etc.) com pessoas primeiramente soltando os cães, que farejam e saem em disparada, fazendo o maior esporro, com o objetivo de assustar a caça e acuá-la em algum canto da floresta. Uma vez acuada, basta o caçador chegar e nem precisar mirar, é suficiente apontar o pau de fogo e mandar bala.

Essa é a moda dos brancos caçarem. Os silvícolas, evidentemente, não caçavam assim. Eles se esgueiravam, matreiros, fazendo o mínimo ruído, andando como gato para surpreender a presa. Então, quem não tinha um cão para assustar e acuar o animal, só podia agir de modo astuto, felinamente. Com o tempo e o uso, a expressão se desvirtuou, e o “como” virou “com” gato.
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No Brasil, pátria do “jeitinho”, essa expressão se alastrou mais rápido que pereba em menino. Por exemplo: aqui no Rio, temos que fazer anualmente a vistoria dos veículos. Neste exame, feito pelo Detran, os técnicos observam vários itens, incluindo o estado dos pneus e a validade do extintor de incêndio. Aí o malandro está com os pneus parecendo bóia de levar para a praia e o extintor com validade de novembro de 1972 a.C. Mas não quer gastar uma grana para normalizar a sua situação. O que ele faz? Quem não tem cão, caça com gato. Ele vai nos arredores dos locais de vistoria e aluga quatro pneus novos e um extintor de incêndio por qualquer vinte merréis (acreditem: existe camelôs que prestam esse serviço!). Então vai ao Detran, submete o carro à fiscalização, volta, pega de volta seus pneus e extintor e sai feliz da vida por ter dado uma volta no governo.
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Se essa criatividade brasileira fosse destinada a coisas realmente úteis, seríamos um povo imbatível no quesito cidadania. Mas preferimos agir como “gatos” a termos uma matilha de cães adestrados. Dá muito trabalho. Mesmo porque, somos da pá virada, mesmo...
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Malandro não vacila”, com o impagável Bezerra da Silva.

24 comentários:

Claudinha disse...

Ah menino do Rio, "o malandro prá valer não espalha, aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal, dizemas más línguas que ele até trabalha, mora lá longe e chacoalha num trem da central"... Eu conhecia o "como gato", por causa das "Pérolas do vestibular", mas a pá virada não. legal saber, adoro estas coisas. Eu tenho até um resuminho com estas expressões, que o cursinho dá para a gente.
Um beijo bem mineiro procê!

lucio disse...

Marco, não estou conseguindo colocar o AT como link no novo boteco. Dá uma ajuda? A propósito, teu convite foi enviado. Dá uma escrevinhada lá pra melhorar o nível. O Ronie pareceu entrar em entressafra e só eu tenho postado. Abraço. Última forma! Consegui. Da pá virada essa seção do AT...

Marconi Leal disse...

Já te disse, Marco: tu tens que lançar isso em livro, rapaz! É muito bom. E o interessante é que consegues manter sempre o mesmo nível.

Mut disse...

HUehuahea... eu não acredito que esse taxista fez isso... fala sério!

Abração!

Márcia(clarinha) disse...

Hehehe, se somos da pá virada, e ai de que algum gato venha cantar de galo no nosso terreiro, se segura malandro que o bicho pega,rsssss
Deliciosas histórias...adoro!
queridoamigopratodavida! ailoviuuuu
beijossssssssssssss

Lili disse...

Puxa, que taxista sem-vergonha!!!! Felizmente, poucos são assim, tenho certeza.

Estes seus posts "didáticos" são maravilhos, Marco!


Beijos!

Claire disse...

Acho incrível , não pela primeira vez, como as pessoas desonestas muita vez preferem ter mais trabalho, criarem histórias complicadas, a serem honestas. Não seria mais fácil o contrário?

cilene disse...

O problema do Braisl e que todo mundo e como esse taxista...quer tirar vantagem...ai a coisa pega...idiota taxista...idiota brasil que fabricou gente assim

Roby disse...

Esse taxisista é um pá virada mesmo hein Markito??
Gostei da expressão, não conhecia...
Eu tenho verdadeira aversão a taxis, não confio em nenhum..e estou generalizando mesmo.
*
E nestas horas quem precisamos de taxi, prefiro ônibus..rs afinal QUEM NÃO TEM CÃO CAçA COM GATO! rsrs

Tem bolo procê! rs
Traga uma térmica de café combinado?? rs

Bjus Markito.

DO disse...

Marco,eu estou besta com este jeitinho dos cariocas pra fugir da fiscalização qto a pneus e extintor.
Pára tudo que acho que este país é,de verdade,o campeão da criatividade ( e da sonegação tbem ,claro ),heheheh
Abração!

Alê Barros disse...

Oi meu lindo...
Puxa, vc não sabe como gosto das tuas visitas em meu blog, e vamos combinar uma coisa então...vc pode me usar sim, como tua personagem, aliás, é uma honra pra mim, ser inspiração (mesmo que cômica) pra alguém. Vc já é o segundo que me pede isso acredita???rs
Qto a expressão da Pá Virada, eu uso pra caramba e adorei saber o significado.
Beijocas ruivas procê...rs
(sem desbotar)

Anônimo disse...

Estava confundido alho com bugalhos; pensava que "da pá virada" tinha outro significado. Como se alguém fosse impossível, difícil de controlar ou mesmo doído.
Marco, corrigi aquele texto e coloquei todo Rádio com letra maiúscula, viu??
Beijus

Jéssica disse...

...rs... e a gente usa tanto essas expressões e nem se toca do verdadeiro significado...rs...
Marco tb é cultura!
Você é d+++++++++
Beijocas*.*

claudia disse...

oba, conheci e aprendi mais um pouquinho por aqui

beijos

Fernanda disse...

Adoro ler essas coisas! Quer dizer que dá pá virada não tem nada a ver com o que dizemos hoje? Diferença, não?

Kisses

Vendetta disse...

hahahahahha!
Chorei de rir com a foto do gato com o cachorro!!!
Muito legal esse post, Ternurinha.
E tuas palavras de ontem me fizeram escolher o post de hoje!
um beijão

Zeca disse...

Grande, Marco!

Já conhecia ambas expressões, mas desconhecia suas origens. Vivendo e aprendendo.

Por falar em aprender, essa história do aluguel de pneus e extintor me deixou pasmo. Tal coisa nem passava pela minha cabeça.

É sempre uma delícia ler essas explicações sobre as origens das expressões que usamos diariamente, muitas vezes, até sem sabermos exatamente seu significado.

Abração.

Vera Fróes disse...

Marco, sempre vi usarem esse termo "da pá virada" para dizer que a pessoa aprontava muito. Vivendo e aprendendo...
Detesto pessoas que querem levar vantagem em cima da ignorância dos outros. Putz!!!

Bjos.

Anônimo disse...

Marco, a criatividade do povo brasileiro deveria entrar no livro dos recordes. Somos sim, da pá virada e caçamos com gato, já que os cachorros de hoje estão muito modernos, vivem em spa, qualquer espirro cura-se com uma fortuna de veterinário, produtos importados pra ficar na moda, etc.
Damos nosso jeitinho porque não temos como andar na linha com o salário miséria que recebemos. Até os cachorros são melhores atendidos nos postos de saúde do que nós que pagamos impostos. Daí eu queria ser cachorro de madame e ser bajulada e servida, só precisando latir e dar aquele olhar de coitadinha. Brincadeirinha. Prefiro ser do jeito que sou, uma gata de rua, vivendo a aventura de viver na cidade dos sobreviventes.

Beijos malandros.

M.Eduarda disse...

Marco... essa do taxista foi dose hein! Depois Carioca fica com fama ruim e a gente não sabe porque!
Eu recebi esses dias um e-mail cheio dessas origens de expressões e lembrei muito de você! Tinha essa do "Quem não tem cão caça como gato"!!

beijos

Janaina Staciarini disse...

A-M-E-I! Eu já tinha ouvido falar mesmo que quem não tem cão caça como gato. Faz bem mais sentido né...

Cris Couto disse...

Muitas afininidades menino...
amei o carinho de seu comentatio e gostaria de agradecer muito. realmente meu papi lembrava muit essa frase...ele sempre dizia que deveria combater o bom combate e ele o fez. Foi e é um exemplo ate hoje pra gente.
Meu querido, amei tua visita e amei teu blog . . . vou lembrar sempre de oce pelo niver de sua mami, ainda noa encontrei ninguem q fizesse niver junto com papi, primeira pessoa, acredita!? E oce é de onde aqui do RJ? Beijins

Marco Santos disse...

Minha doce Claudinha: É uma alegria constante pra mim saber que você se agrada de meus posts. E fico mais feliz ainda por ser útil de alguma forma, ou seja, repassando os poucos conhecimentos que adquiro por aí.
Grande Lúcio: Tenho ido lá no Modos Artificiais. Mas só Deus sabe como tenho mantido posts aqui. Não é falta de inspiração, muito pelo contrário. Tenho idéias para trocentos posts. Mas ando muito ocupado. Vou ver o que posso fazer. Mas ainda não recebi o convite para entrar no administrador e postar.

Grande Marconi: Puxa... Fico até sem jeito com seus elogios. Mas essas expressões já estão em livros. Câmara Cascudo, Deonísio da Silva e um monte de gente boa já escreveu sobre a origem das expressões. Eu só escrevo as explicações do meu jeito. Mas que legal saber que você curte!

Grande Mutante: Disse o jornal que foi exatamente assim como contei. E eu acredito. O que tem de esperto, de malandro-bobo aqui é uma festa!

Marcíssima amigapratodavida: Que bom que você gostou e reconhece a nossa pá virada e nossa capacidade em caçar como gatos. Se bem que às vezes o malandro se atrapalha...

Querida Lili: Tem taxista que faz coisas do arco da velha!

Cara Claire: Pois é. O cara prefere fazer força pra burlar do que ser correto sem esforço! Vai entender uma coisa dessas...
Querida Cilene: Não diria que TODO MUNDO quer tirar vantagem dos outros. Na verdade, uma minoria usa estes artifícios e os demais pagam o pato. Mas concordo com você que existem muitos idiotas no Brasil que acham a maior graça em quebrar regras. A do celular no cinema, o jogar lixo na rua... Eu vivo me batendo aqui contra esse tipo de comportamento.

Querida Roby: Já vou lá já, já filar o seu bolo! Adoro quando você cozinha e dá receita! Me aguarde!
Grande DO: Pois é, amigo... O que tem de esperto aqui... Você nem imagina!
Querida Alê: Que gentil de sua parte! Fico muito feliz. Realmente, você tem histórias que dá vontade de pegar a essência e criar um personagem assim. Se você não se importa, beleza.

Querida Luminha: A expressão “da pá virada” nasceu para designar o vadio. Com o tempo, foi ficando elástica e abrangeu o cara que apronta, a criança levada, o marginal etc. Só que ultimamente, ela é dita com uma entonação e um sentido de quase admiração. O cara que tem coragem para aprontar, o cara que arma as suas trapalhadas é visto benevolamente como alguém digno de elogios ou de admiração. Ele faz o que o cara gostaria de fazer e não tem coragem. Aí ele diz com um sorriso cúmplice: “Ah, fulano é da pá virada!” Como se costuma dizer: Ah, beltrano é doido!” e não está falando que as faculdades mentais do indivíduo são perturbadas e sim que ele faz “loucuras” que o homem médio não tem coragem de fazer. E daí, o cara que burla, que dá jeitinho, que tem coragem de passar os outros para trás vira “da pá virada”, desvirtuando totalmente o sentido original.

Querida Jéssica: Você é muito gentil. Obrigado!

Que legal, querida Claudia. Fico feliz por saber disso.

Querida Fernandinha. Tem, sim, com o que dizemos hoje. Não tem com o que se dizia originalmente. Antes, era pro vadio. Hoje é pro esperto, pro que apronta.

Querida Vendettinha: Fico extremamente contente quando você vem aqui e aprecia os meus posts.

Grande Zeca: Pra você ver, amigo... O que tem de esperto nesse mundo! Que ótimo que você curte essas explicações!

Querida Vera: Pois é. O uso da expressão foi ficando elástico. Além de se referir a quem apronta, também tem sido usada para se referir ao esperto, como respondi para a Luma.

Querida Bruxinha: ocê está certíssima, querida. A criatividade do brasileiro para descobrir caminhos para o jeitinho é um caso sério!
Adorei ler que você é “gata de rua vivendo de aventuras”. Muito legal!

Querida Eduardinha: E eu não sei o que é essa fama do carioca? Quando vou a São Paulo, sempre ouço gozações, gente me dizendo que carioca é “ixperrrrto”.

Querida Janaína: Gostou, né? Que bom! Eu também adoro saber da origem dessas expressões.

Querida Cris: Eu que agradeço por suas gentilezas. Pois é. Minha mãe é de 18 de novembro. Eu também não conhecia outra pessoa que fosse do mesmo dia.
Depois vou te visitar.

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

marconi leal disse...

Eu sei! Mas o interessante é justamente o teu jeito de contar!