terça-feira, setembro 05, 2006

Lua e Mar - A mais bela história de amor


(Da série: Contos avulsos)

E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade que não tem luar
(Mar e Lua, Chico Buarque)

Numa rodoviária do interior, eles buscavam sonhos, com esperança e apreensões. Ele, decidido a conhecer o seu futuro. Ela, travando um combate interno entre a insegurança e a confiança no porvir.
*
E então se viram. Eram dois personagens colocados ali pelo Universo, que os tinha conduzido àquele lugar sem nem avisar o porquê. Numa troca de olhares entre ambos, foi como se uma história de passados, de séculos e milênios ali se reiniciasse, sob a pena do Destino. A moça empalideceu. O rapaz foi até ela.
- Moça, você está bem?
- Só um pouco tonta. Deve ser o cansaço.
- Eu busco uma água pra você.
Ele tinha gestos duros de quem lida no campo, mas compensados com a doçura na voz. Seus olhos não conseguiam se desviar dos da moça.
Ele trouxe a água, sentaram-se num canto da rodoviária.
- Prazer, moça. Meu nome é Lucimar.
A moça riu, mostrando os dentinhos separados, um jeito sapeca e tímido no olhar.
- Olha só... Eu também me chamo Lucimar. Mas o meu povo me chama de Lua...
- Que coincidência... Meus amigos me chamam de Mar...
*
Em volta dos dois, uma colméia de passos apressados, a vida urbana rodando suas engrenagens, vidas e histórias se entrecruzando. Mas para LucimarLua e LucimarMar, o Livro de Gênesis começava ali. Tudo o mais estaria por vir, por ser escrito, construído, nomeado.
- Eu estou indo pra outra cidade. Procurar emprego. Aqui não tá dando conta, não.
- Eu também estou seguindo com a vida. Tem cidade perto daqui que está precisando de moça pra trabalhar numa farmácia.
- Daqui a pouco sai o meu ônibus.
- O meu também.
*
No pouco tempo que tinham, derramaram palavras, riram das tantas coincidências... Nem perceberam que o Tempo é bicho manhoso; se disfarça de jabuti quando precisam dele, mas se o deixam de lado, volta a ser uma lebre veloz.
Lua deixou-se invadir por uma calma de flor no campo, que espera o tempo certo de desabrochar. Mar se viu encantado pela moça. Deixava ela contar suas histórias e bebia suas palavras como o mar sorve o leite de prata dos reflexos da lua cheia. Por onde o destino escondera aquela prenda?
*
A voz metálica nos alto-falantes trouxe os dois do céu pro chão.
- Esse é o meu ônibus. Preciso ir.
- Mas, Lua, e eu não vou te ver de novo?
- Se Deus quiser, sim.
- Será que foi coincidência a gente ter se esbarrado aqui?
- Sinhá Dona Fifi diz que coincidência não existe. Os bons espíritos sempre dão um jeito de juntar quem tem que ser juntado. E eles me deram um presente hoje, no meu aniversário.
- É hoje? Seu aniversário? Pois então você vai ganhar um presente meu.
*
Entraram numa pequena lojinha ali perto.
- A senhora tem camiseta?
- Tem, mas tem pouca. Pro seu tamanho só tem essa.
Era uma sem manga, em tonalidade de amarelo, que deveria atrair todos os canários da região. O rapaz tirou a que estava vestindo e a deu à moça. Vestiu a que acabara de comprar.
- Procê sempre lembrar de mim. Feliz aniversário.
*
Caminharam até a plataforma onde Lua teria que pegar o ônibus.
- Mar, você gosta de mim? Posso acreditar?
- Veja nos meus olhos a resposta.
E a moça leu naquelas pupilas uma história de buscas, de querências, de um porto que finalmente recebeu um barco.
- Quero saber se você gosta de mim também. Me dê a sua mão.
Como se a mão da moça fosse uma flor aberta em pétalas, separava cada dedo e o beijava, do polegar ao mindinho, dizendo “você gosta”, “você não gosta”, “gosta”, “não gosta”... No último dedo, ele teve a certeza de que ela, sim, gostava.

Foi quando a beijou. Um beijo cheio de urgências, de ternuras represadas, de um amor que ultrapassava frestas e obstáculos, como o vento deitando os cabelos das campinas verdejantes.
*
Lua entrou no ônibus. Mar ficou a observando por longo tempo. Até que o veículo dobrasse na esquina e sumisse de seus olhos. Um aperto que ele sentiu no peito era sinal que ela tinha saído dos seus olhos para se alojar num espaço ao lado do seu coração.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Todo azul do mar”, com 14 Bis.

17 comentários:

DO disse...

Muito bonito,claro.
Lindo,eu diria,MARCO...
Destas histórias de contos de fada que sempre esperamos que aconteça conosco...
Abração!!

Claire disse...

Ah, como ouvi 14 Bis na adolescência!

luma disse...

Marco!! Histórias de amor pra mim tem que ter final feliz!! Vai ter segunda parte?? (rs*)
Beijus

Lili disse...

Nem preciso dizer, não? Simplemente adorei! Amo estas histórias! Nascerá daí uma nova estrela-do-mar? Beijos!

M.Eduarda disse...

Que lindo Marco. Para pessoas extremamente românticas como eu foi uma forma de começar o dia suspirando :) Ainda mais embalada por essa música que eu adoro!

beijos

Márcia(clarinha) disse...

Ai meu Deus do céu azul...
que coisa-mais-linda!!
Marco querido,meiga história de um amor instantâneo, urgente.
Lindo,lindo, uhuuuuuuuu!!
Feliz dia meu querido
beijossssssssssss

Roby disse...

Genial Marco!!
Queria tanto que tu desses continuidade nesta história...
Lembrei-me de uma filme ( lá vem eu com meus filmes..)
Que doi jovens se encontram em Paris, numa estação ferroviária...
Ele ía pra Austria, e ela não me recordo..
Sei que os dois ficaram vidrados um pelo outro, de mandeira que ela decidiu viajar no trem com ele até Austria.
E lá eles se separaram, ela seguiu viagem..
O fim do filme ficou a nossa imaginação.
*
Aquele abraço querido amigo.

Claudinha disse...

Olá Marco!
O conto é maravilhoso! Eu vivi em rodoviárias por muito tempo, prá lá e prá cá,vi muitas cenas bonitas e outras tristes que dariam um livro.Até já escrevi post sobre isto. Mas esta sua história ganha pela beleza,a começar pela música, por Venturini e pelo romantismo... Dá vontade suspirar ao ler, dá vontade que algo assim aconteça na vida. De verdade mesmo... Será que ainda existem amores perdidos no tempo que se reconehcem à primeira vista?
Parabéns pelo seu texto, por você ser assim sempre tão especial.
Beijo grande!

Mary disse...

Nossa é a primeira vez que eu venho aqui e me deparo com uma história tão linda desta.
Que maravilha isso é um sonho em que a maioria das pessoas vivem.
Adorei tudo que li aqui em seu blog,parabéns pelo seu bom gosto.
beijokas pra vc

nina disse...

Me diga depois se vai ter um segundo capítulo, quero mais. rs

beijo meu querido, um feriadão maravilhoso pra vc e até domingo.

Zeca disse...

Marco,

que linda história de amor, carregada de ternura, como só você mesmo saberia contar! Espero que o mesmo acaso que os colocou alí, naquela rodoviária, volte a colocá-los frente a frente em outra situação, que lhes proporcione o final feliz que merecem.

Abraços.

Samara Angel disse...

oieeee,meu querido ,to de boca aberta se te contar ,mas sei que vai acreditar, nesse ultimo post de segunda feira ,te juro,peguei essas duas imagens para fazer um poema de amor,é impressionante a coincidenica!!..mas depois nao sei pq ,mudei o poema sou assim mesmo ,escrevo o que ta no meu coraçao,e chego aqui vejo as imagens e uma linda historia de amor ,adoreiiii..temos uma sintonia impressionante ..Marco,brigaduuuuuuuu,pelas gentis palavras que sempre deixa no meu cantinho ,fico muito feliz com sua presença,e vim deixar perfume de rosas que eu mesma faço com muito carinho ,e mais uma lembrancinha pra vc se lembrar sempre de mim.
deixo meu email para vc me mandar o seu ok te adoro bjssssssss

navespacial1@hotmail.com


copie esse endereço e cole no seu navegador ,bjs

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_Maga disse...

Que história terna!!!!!!!!!!!!!!

Adorei, totalmente inesperada... linda demais!!!!

Ah... as pessoas também me chamam de Mar...

beijos

Saramar disse...

"o Livro de Gênesis começava ali."

Existe forma mais bela de descrever o inicio do amor?
Marco, é lindo, lindo!
Você sempre me deixa emocionada!
Que coisa! Que coisa boa (risos).
Obrigada.

beijos

nancy moises disse...

Ola passando por aqui pra te desejar um ótimo feriado. Aproveito e vou ver as novidades por aqui. Ofereço o Award Mulher “BLOG ESPECIAl” do lua em poemas.
Seu blog esta lindo demais.bjs

Maritza disse...

Fiquei encantada com o seu estilo...enluarada de ternura...
Beijos parabenizantes
Maritza

Marco Santos disse...

Grande DO: Que bom que você gostou.
Quem não gostaria que uma história como essa nos acontecesse, não é?

Cara Claire: É...14 Bis é muito bom.

Querida Luma: Quem sabe? Espero que sim! Vamos ver o que acontece...

Querida Lili: Fico feliz por ter gostado. Eles são duas estrelas, ainda vão luzir muito!

Ô, Eduardinha querida: que bom que gostou. Sei que você é uma romântica. Essa história são para todos os românticos.

Marcíssima querida: Gostou? Que ótimo! Gosto quando você gosta das coisas que escrevo.

Querida Roby: Eu espero que a história deles continue (ré! ré! ré!...)
Sobre o filme que você fala, se chama "Antes do amanhecer"
(Before sunrise, 1995, com Ethan Hawke e Julie Delpy).
Este filme tem uma continuação: "Antes do pôr-do-sol" (Before sunset, 2004,
com os mesmos atores).
Ambos são imperdíveis, lindíssimos. Se você não viu o segundo, corra e
alugue o DVD que você vai adorar. (Não sei que nome deram a eles aí na
Suiça, mas estou mandando os nomes originais).

Minha doce Claudinha: Essa história pode ter acontecido, ou está acontecendo ou vai acontecer. Vai saber o que acontece nas rodoviárias da vida, não é? Se existem amores como este? Bem...Eu acho que existe. Você concorda?

Obrigado pela visita, Mary. Prometo retribuí-la. E mais grato ainda estou por suas palavras carinhosas.

Querida Nina: Espero que a história continue, também! Ré! Ré! Ré! Vamos ver o que acontece.

Grande Zeca: Também estou na torcida pelos dois. Tomara que eles se encontrem novamente e vivam felizes para sempre. Quando a gente acha alguém que estávamos procurando, como Lua e Mar acharam, o Universo faz festa, comemorando.

Linda Samara: Puxa! Coincidência mesmo! Fico muito feliz por ter gostado desta história. Imagino que uma romântica incurável como você aprecie mesmo contos como este.
Adorei as imagens. São lindas! Obrigado mesmo!

Querida Mar...Maga: Quer dizer que você é xará de um de meus personagens? Que legal! Mais legal ainda é saber que você gostou da história!

Querida Saramar: Puxa... Um elogio assim como este e vindo de alguém que tanto admiro como escritora, uau! Obrigado, amiga!

Querida Nancy: Obrigado por seu carinho. E pela gentileza de me dar seus selos (eu não sei como colocá-los aqui, mas agradeço de qualquer forma).

Querida Maritza: Obrigado pela visita e pelas palavras carinhosas.

Valeu, moçada! O incentivo de voc~es me é muito importante. Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!