quinta-feira, maio 04, 2006

Marvin


Uma vez estávamos na varanda da casa do Jurandir, numa de nossas tradicionais festinhas movidas a cerveja, batida de (Q-suco de) pêssego e “calcinha de nylon” (parêntesis: cachaça, leite condensado e groselha. Fecha parêntesis). Eu era o “didjêi”, como se diz modernamente, ou discotecário, como se dizia naquela época. Estava botando a moçada para se sacudir ao som de “Barrabás” (“Woman”) e Paul McCartney & Wings (“Love is Strange”), quando percebi que a pista estava esvaziando. Alcir, meu “Obi Wan Kenobi” em termos musicais, veio correndo, tirou um certo compacto da capa e botou pra tocar. A pista rapidamente se encheu, com a moçada dançando bem agarradinho. Era o que eles queriam.
A música era “Don’t mess with Mr. T”. O cantor, um certo Marvin Gaye.
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Há um tempo atrás, meu camaradinha Bruno, o popular Mutatis Mutante da “Padoca do Mutante” (link aí ao lado), escreveu um comentário me avisando que está em produção o filme “Marvin”, a cinebiografia do gênio da soul music. Prometi a ele que faria um post dedicado ao grande Marvin Gaye, assim que fosse possível. Estou pagando a minha promessa.
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Marvin Pentz Gaye, Jr. nasceu em Washington D.C., no dia 2 de abril de 1939. Era o filho mais velho de um pastor evangélico, que criou seus 4 filhos com extrema severidade. Bastava um deles cometer a menor falta que o couro comia e feio. Não demoraria para Marvin se revoltar contra aquela pancadaria generalizada.

Foi na igreja onde o pai pregava que ele tomou contato com as primeiras manifestações musicais, junto com seu irmão Frankie e suas duas irmãs menores Jeannie e Zeola.
A sua relação com seu pai (veja a foto do boneco à direita) seria marcantemente problemática para o resto de sua vida.
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Logo que deu baixa no Exército, tornou-se cantor, viajando junto com o roqueiro (jurássico) Bo Diddley. Resolveu seguir para Detroit e se juntou a Harvey Fuqua, do “Harvey and the Moonglows”. Era a época de um gênero conhecido como “Doo Wop” (baladas melosíssimas, normalmente com corinhos do tipo “tchu-tchu-tchurúúúúú...”) e Marvin seria um dos poderosos neste estilo.
No que ele conheceu Berry Gordy, Jr., o criador do “Motown Sound”, aí foi nitroglicerina pura! Marvin entrou para a “Fábrica de sucessos” e a máquina registradora não parou de tilintar.
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Seu primeiro grande sucesso na Motown foi “Soulful Moods of Marvin Gaye” (1961), seguido por “That Stubborn Kinda Fella” (1963). Nesse momento, o cara já era considerado o novo Nat King Cole. Em 1964, o compacto simples que gravou com Mary Wells, intitulado “My Guy” subiu nas paradas feito foguete, disputando o primeiro lugar com quatro rapazes ingleses de Liverpool que estavam lançando “I want to hold your hand” nos USA.
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A partir dali, Marvin virou o maior vendedor de discos da Motown Records. Ah, sim. Virou cunhado do dono da gravadora também, pois casou-se com Anna Gordy, irmã de Barry, em 1961.

Todos os críticos são unânimes em apontar o seu álbum “What’s Goin’ On”, de 1971, como seminal em sua carreira. Seria possível dizer que ali estava um LP conceitual, como o fora o “Sargeant Pepper’s Lonely Heart Club Band” dos Beatles. No seu disco, Marvin falava de Meio Ambiente na belíssima “Mercy Mercy Me (The Ecology)” (aliás, a primeira vez que eu li a palavra ecologia na minha vida), da vida urbana nos USA em “Inner City Blues (Makes Me Wanna Holler)”, da guerra do Vietnã na canção-título... Um espanto naquela década de coisas espantosas que viriam a seguir.
Vejam um trecho da letra de “What’s Goin On” (“O que está acontecendo”:

Mãe, mãe
Há muitas de vocês chorando
Oh, irmão, irmão, irmão
Há muitos de você morrendo em lugares distantes
Tudo bem
Vocês sabem que temos de achar uma saída
Para trazer alguns destes seus amados aqui hoje.


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Ainda nos anos 70 ele faria um grande disco-solo e participaria de outro que podem se situar entre os melhores do período. O primeiro foi o “Let’s Get it On”. O segundo, “Diana Ross & Marvin Gaye”, ambos em 1973. Começo pelo segundo.
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Juntar duas das melhores vozes negras da América foi um achado daqueles de fazer o executivo que teve a idéia ganhar estátua na gravadora. E com aquele repertório ainda por cima...
Pelo menos três músicas estouraram nos píncaros das paradas de sucesso: “You are Everything”, “My Mistake” e a fantástica “Stop! Look! Listen”. Esse rapaz que vos escreve já atraiu muitas fêmeas de encontro ao corpo ao som desta música...Ah, meus tempos!
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Sobre o “Let’s Get it On”, nossa! chego a ver nesse momento meu amigo Alcir alucinando com essa música estourando pelos alto-falantes do seu aparelho de som Grundig...
A música-título do disco é de uma sensualidade extrema. Na letra, um cara está cantando a moça, chamando ela para fazer saliência com palavras como:

Eu tenho tentado, baby,
Tentado esconder meus sentimentos por muito tempo
E se você sente o que eu sinto, baby
Vem, ah, vem
Vamos fazer...
Ah, meu bem, vamos fazer...

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O seu sucesso aumentava e sua vida pessoal descia ladeira abaixo. O casamento com Anna Gordy foi para o espaço. Ele conheceu e se casou com Jannis Hunter, com quem teve os filhos Frankie e Nora Gaye.

Em 1982, ele saiu da Motown e foi para a Columbia, onde lançou o álbum “Midnight Love”, que vendeu dois milhões de cópias, incluindo a explosiva “Sexual Healing”.
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Mesmo com todo sucesso (ou exatamente por causa dele...), sua vida pessoal não andava nada bem. Entrou na espiral maligna das drogas, consumindo cocaína em quantidades industriais. Cheirou tanto que já não conseguia compor nem cantar . Tomado por imensa depressão, tentou o suicídio diversas vezes. Ele adorava a mãe, mas odiava o pai, provavelmente como herança dos maus tratos da infância. Por conta disso, começou a espancar o velho sempre que se irritava ou se drogava, não necessariamente nessa ordem. Até que em uma discussão com seu pai, em primeiro de abril de 1984 (ironicamente, um dia antes ter completado 45 anos), a eterna divergência entre eles teve fim. Marvin, o pai, atirou em Marvin, o filho. E a música popular universal perdeu um grande artista.
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Fico só imaginando as relações entre estes dois em vidas passadas. A solução do conflito entre pai e filho estava num trecho da canção “What’s going on”. Era só ambos terem prestado atenção:

Pai, pai
Nós não precisamos ficar tensos
Olha, guerra não é a solução
Só o amor pode vencer o ódio
Você sabe que temos que descobrir um caminho
Para trazer um pouco de amor para os dias de hoje.


M.S.
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Dedico este post ao Bruno McMut, o Mutante dono da Padoca mais musical da Internet. É isso aí, cara, Stop, look, listen to your heart...

Na Rádio Antigas Ternuras, você está curtindo "What's Going On", na voz inesquecível de Marvin Gaye...

15 comentários:

Claudinha disse...

Olá amigo Fantástico. Fantástico é o seu post, sabe que eu adoro música e adoro relembrar. Não sabia desta história e,como você, antes de acabar de ler já fui pensando no carma destes dois. Tento entender tudo por este lado, pois é a única filosofia que me explica tudo e todas as coisas que já me aconteceram, tudo que vi e tudo que sabia que aconteceria,sem nem pretender saber. Gosto demais do soul, de músicas negras, embora haja alguns brancos com alma negra. Ninguém canta, ninguém tem o balanço igual ao deles. Uns dizem ser do sofrimento pela escravidão e suas conseqüências, mas eu acho que é de raça mesmo, é constituição genética mesclada a alma. Mas enfim, quem sou eu para entender... Gostei de aprender com você e de relembrar as discotecas, feitas as vezes no domingo as 16h, por que éramos novinhos... Beijos!

lúcio disse...

Marco, tenho gostado da programação da rádio AT, mas essa do Marvin pegou pesado. Parabéns. Já tinha esquecido que você já foi djalma. Quando pintar aqui (ou nós aí), é mister organizar uma sessão de "discotecagem" vinílica com você e o Ronie. (Bobagem minha: Qual seria a Motown de hoje?) O último som classudo assim que ouvi foi o Maxwell. Conheces? Só gostaria de contribuir com uma pergunta: você não quis dizer "doo wop" em vez de "dop woo"? Ou seriam duas coisas diferentes? Abraço.

dira disse...

é. eu fico aqui me perguntado pq vc n ta em alguma coluna de cultura de um grande jornal desses por aí. eu nem conhecia o moço aí, apenar de ser apaixonada por soul. vc escreve com os dedos mágicos, nos transporta para dentro do texto e quando a gente acaba de ler fica sem saber pra onde ir. sem noção de onde tá o que tá fazendo aqui. oxi. tu és bom demais da conta, marco.

meu carinho, pois.

luma disse...

Essa música surtiria efeito se ele estivesse lúcido. As drogas, postezito à parte. Ele era ótimo e está sendo eternizado no cinema por Quentin Tarantino, é isso mesmo? Tenho muita coisa dele e alguns cds de outros artistas cantando ele, um especial da Lisa Stanfield.
Ei menininho! sou mineira, mas adoro o Rio!
Beijus

ronie disse...

Agendado: próxima sessão vinílica faremos uma singela homenagem ao AT. Só não vai rolar vegetarianismo.

Mut disse...

Marvin Gaye é o cara quando falamos de soul music. Posso dizer , com segurança , que "What's Going On" é um dos 5 maiores discos de soul de todos os tempos(os outros , a saber:"I Never Loved A Man The Way I Love You" , da Aretha Franklin , "Al Green's Greatest Hits" , do Al Green , "Tim Maia 1970" , do Tim Maia , "Talking Book" , de Stevie Wonder , e "Cuban Soul" , do Cassiano). Na verdade , Marvin se chamava Marvin Gay , mas para não ter complicações com o nome acrescentou o "E" a seu sobrenome.

Uma das primeiras músicas que eu ouvi do Marvin foi justamente "Stop Look , Listen" , com a Diana Ross. Mas as minhas favoritas ainda são "Ain't No Mountain Enough" , que ele divide os vocais com uma cantora que eu não lembro o nome , "I Heard It Through the Grapevine"(que depois seria regravada pelo Creedence com maestria) , "What's Going On" , "Pride and Joy" e "Let's Get It On". Pra não falar de "Sexual Healing"...

Enquanto a gente não vê o filme do Marvin Gaye , vamos curtindo as melodias do Tim Maia(só as melodias!) no disco "Racional" , de 75 , quando ele tava em sua melhor fase musical.

Um abraço!
PS:Sinto-me muito honrado com esse post!

Zeca disse...

Gostei demais deste texto! Já curtia Marvin Gaye, mas não sabia de vários detalhes contados por você.

Anônimo disse...

Blogueiro(a), o meu conto - O CAVALEIRO DAS NUVENS está postado no Comunidade do Blog. Você já conhece a CDB? Eu explico: gerenciado pela RH Rosilene, o blog vem desenvolvendo um trabalho de valorização dos blogueiros, os quais dispõem de espaço para publicações de seus trabalhos. Lá existem também links por regiões, selos de destaques, prêmio para o post mais comentado do mês e prêmio para o Melhor Comentário. Conto com a sua participação, prestigiando o conto. Assim, você estará concorrendo também ao prêmio Melhor Comentário.
Viaje com as emoções de O CAVALEIRO DAS NUVENS.
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Claire disse...

Puxa! Q post rico!! Teria muitas coisas a comentar, não sei se vou lembrar de tudo...
"You're everything" - 'minha música' por muito tempo, e mesmo agora, em certos momentos.
Marco: um cavalheiro não comenta seus sucessos com as damas, rs...
Pais e filhos é tema de interesse, e sempre complexo; precisamos de uma imagem feminina positiva, precisamos de uma imagem positiva masculina; e, claro, isso começa no lar. Lembro Van Gogh, Kierkegaard, Lutero, Kafka - e quantos mais com relações complicadas, de amor e ódio, com seus pais. Não me cabe dizer q A ou B era o mais responsável pela má relação; o fato é q se entendiam mal, e isso é triste, tem conseqüências para toda a vida.

Jade Prado disse...

Olá Marquito! Que sau-da-de. Voltei para espiar teus posts maravilhosos, os quais sinto tanta falta. Sobre o Gaye, não me lembro de já ter ouvido algo dele, vou até pesquisar... Mas sobre a história(mais especificamente a sua morte), eu já tinha ouvido falar não sei como, não sei por quem, nem quando e muito menos onde, rsss.
Tudo certinho contigo? Beijo na Fiva linda. Logo, logo estarei pela tua terrinha... :)*

Evandro C. Guimarães disse...

Excelente retrospectiva. Muito esclarecedora. Confesso que conheço pouco da música de Marvin Gaye e fiquei espantado ao saber como se deu a sua morte. Que negócio barra pesada!
Se o filme chegar, já não ficarei tão perdido!
Um grande abraço!

Marco Santos disse...

Obrigado pela presença, pessoal!

Claudinha: Como você também sabe, esta é a filosofia que eu igualmente acredito, que faz sentido na minha cabeça. E realmente, fico imaginando a trajet´roia espiritual desses dois. Na música e em determinados esportes, não tem jeito: a coisa tá preta! A moçada da melanina dá de dez a zero nos brancos. Que bom que você curtiu o post e relembrou as festinhas do tempo em que éramos "novinhos".

Lúcio: "Djalma"??? É a gíria atual para disc-jóquei? Caraco...Estou desatualizado mesmo... Pois é, parceiro, imagino que quando escrevo os meus posts musicais a moçada do Modos Artificiais se agita e faz até hola. E olha que eu só falo das minhas músicas de antanho! Gostaria mesmo de participar das tardes vinílicas com Ronie e seus candangos. Levaria minhas coisas e poria vocês em alfa, só com flashbacks!
Já acertei o doo wop. Me atrapalhei na hora de digitar. Valeu.

Dira: Ah...Não vale...Você é parceira, é amiga...
O moço do post era um verdadeiro rei do soul. Cantava e compunha pra dedéu!

Luma: O filme "Martin" vai ser dirigido pelo Tarantino? Essa eu não sabia... Huummm Lisa Stanfield... Gosto muito!! Vi o show dela no Rock in Rio II. Dez, nota dez!
Mineirinha? Olha só...Que legal, Luma. Desculpe tê-la confundido com o pessoal daqui da terra, mas você escrevendo post sobre o Rio, aparecendo na beira do mar na foto, achei que fosse carioquíssima.

Ronie: Obrigado pela homenagem. Se quiser algumas dicas de quais músicas o escritor do Antigas Ternuras gostaria de ter na sua tarde vinílica, é só falar.

Grande Bruno Mutante: Fico muito feliz por você ter gostado do post. Assino em baixo da sua lista de melhores do soul. Se coubesse mais um, incluiria Isaac Hayes, e a trilha de "Shaft".
Também gosto muito de "Ain't No Mountain high Enough". Só não falei dela no post porque o bicho estava ficando muito grande e tive de cortar algumas coisas. Marvin gravou essa com a Tammi Terrel.
Você conhece a trilha do filme "Troble Man" ("O Terrível Mister T")? Especialmente "Don't Mess with Mr. T" é fantástica.

Zeca: Pois é. Marvin no soul era O cara! Que bom que você gostou.

OK, anônimo. Vou dar uma olhada no seu conto. Valeu.

Claire: Antes de mais nada, deixa eu esclarecer um baita mal-entendido. Quando eu escrevi "atraí muitas fêmeas de encontro ao corpo ao som dessa música" eu quis dizer "já dancei muito ao som dessa música". Pelamor de Deus! Não pense mal de mim. Eu jamais seria indiscreto e inconveniente a ponto de me gabar de meus "sucessos" com garotas por esse aspecto. Eu só quis fazer gracinha e escrevi daquela forma, que eu dançava muito nos meus bailinhos de adolescente. Esclarecido?
Relações conflituosas entre pais e filhos, você tem razão, não são nenhuma novidade. Qual de nós, na adolescência, não teve discussões com pai e mãe? Só que no nosso tempo, as divergências logo eram resolvidas. Ninguém da nossa época matava os pais a pauladas só por eles serem contra namoros. Gostei de saber que você gosta de "You are Everything". Legal...

Jade: Que bom tê-la de volta no ambiente bloguístico! E você está vindo para o Rio? Puxa, que legal! Isso significa que um certo rapaz vai voltar a visitar com freqüência a minha cidade, não é?
Tenho certeza de que você já ouviu músicas do Marvin. Volta e meia aparece alguma em filmes.

Grande Evandro: Você estava lendo o post justo no momento em que eu trocava o do Marvin pelo da Viagem no tempo. Legal você ter gostado. Vamos aguardar o filme e ver o que vai rolar.

A todos, abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim. Já tem coisa nova na área!

Claire disse...

Marco, li seu esclarecimento. Fique tranquilo. Um abraço!

murilo disse...

GRANDE ! Leve -nos ao seu líder !!
Então descubro a que vim...
Cara, vc já que ousou desenterrar das mais profundas teias do nosso coração, essas reminiscências musicais, pensei: Não teria vc, talvez como nos presentear com algumas canções, e letras como por exemplo "woman" (Barrabas)? Poderemos trocar preciosidades, já que soul músico e tenho em algumas apresentações, momentos de nostalgia pura, onde essa canção ficaria muito bem...Fazendo compania a " Artigo 26", do Ednardo...que tal?

jorge cezar disse...

Você falou, falou...contou a história da vida do Marvin Gaye, mas eu me senti como sendo enrolado. Calma , eu explico: encontrei teu blog depois de uma pesquisa para a letra da canção Don't Mess With Mister T. Mas, após ler seu post, describi que você apenas a usou como mote para discorrer sobre o autor da letra...No final, gostei do seu blog mas, não vou te enganar não, fiquei puto da vida que não consegui a letra. Faze o que né? Um abraço e parabéns pelo seu blog!

Ps. Se tiver um tempinho, dá uma chegada no meu:http://kizombaafestadaraca.blogspot.com/