quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Evite acidentes: leia


Noutro dia, flanando pela Internet li uma notícia curiosíssima. Parece que em tempos recentes, um fato tem afetado as estatísticas de saúde da Grã-Bretanha. Lá, durante cerca de duas semanas após este fato, o número de atendimentos em hospitais por conta de acidentes, fraturas e outras contusões cai drasticamente, especialmente em crianças e adolescentes na faixa dos 7 aos 16 anos.
Querem saber que fato mágico é este?
O lançamento de cada um dos livros da série Harry Potter.
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Tão logo um desses livros da Joanne K. Rowlings chega às livrarias, a molecada britânica se atraca com ele, permanecendo em casa e fazendo baixar os indicadores estatísticos de saúde. A notícia que li só fala dos números britânicos, mas imagino que em alguns países a "febre Potter" tenha efeito parecido.
Esta notícia nos leva a pelo menos duas reflexões.
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Primeiro: os livros têm qualidade e isso eu posso atestar. Na última semana do ano passado, eu estava em um hotel-fazenda e decidi conferir se a saga do bruxinho era realmente boa. Peguei o primeiro livro: "Harry Potter e a Pedra Filosofal". Eu o li em dois dias. Na semana seguinte, peguei o segundo, "Harry Potter e a Câmara Secreta". Não levei mais que dois dias. Então, eu me atraquei com o terceiro (Prisioneiro de Azkaban) e dei cabo dele nos mesmos dois dias. Já terminei o quarto (Cálice de Fogo) e caindo de olhos no quinto (Ordem da Fênix).
É uma leitura vertiginosa. Não lia nada assim desde quando decidi encarar a trilogia "O Tempo e o Vento", de Érico Veríssimo, e os livros de "As Brumas de Avalon". A Joanne conhece a fórmula mágica (com trocadilho, por favor) de algemar o leitor à estória, desencadeando uma sofreguidão por saber como aquilo tudo terminará. E olha que eu assisti aos quatro filmes da saga! Aliás, posso garantir que os livros são muito melhores que os filmes, que já considero, disse-o aqui, um ótimo entretenimento. Na verdade, as histórias nos livros são bem mais amplas, com muito mais detalhes que não caberiam nas duas horas de uma obra cinematográfica.
Pela sua habilidade em contar uma estória, J. K. Rowlings merece cada penny que recebeu pela venda de seus livros.
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A outra reflexão que eu gostaria de fazer, acho até ser mais importante que esta. Por incentivar a moçada a ler tijolos de 400, 500 páginas, a Rowlings merece cada centavo de dólar que ganhou e mais uma estátua pública. Aqui no Brasil, os seus livros tem excelente vendagem, mas não acredito que cheguem ao ponto de fazer baixar o número de fraturas e acidentes domésticos. A juventude brasileira não lê assim, tão maciçamente, quanto os britânicos, norte-americanos, europeus etc.
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Recentemente, eu li um texto na internet, escrito por uma jovem, em que ela dizia que "blog estava fora de moda", o sucesso do momento eram os fotologs, "porque não tem nada escrito e é esquisito ler coisas que outros escreveram". Ora, ora... Mas na literatura é isso o que acontece o tempo todo e isto desde que o mundo é mundo.
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Na minha infância, tão logo aprendi a ler, me tornei um devorador de qualquer coisa que tivesse letras: lia livro, muito gibi, a Bíblia, a enciclopédia Tesouros da Juventude, livrinhos de bolso, fotonovela, receita de bolo, bula de remédio, frase de banheiro... A lista é grande. O meu gosto por leitura, devo-o em boa parte aos meus pais. Meu falecido pai lia muito. Minha mãe já leu muito também (hoje, a vista fraca não lhe dá muita chance). Os filhos tendem a assimilar os hábitos dos pais. Quando eles não leem, dificilmente os filhos terão incentivo para cair dentro dos livros. E com a concorrência de computador, videogame, celular, shopping center... aí mesmo que a moçada não vai se interessar por descobrir o mundo mágico da leitura.
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No meu tempo de colégio, as professoras botavam a gente pra ler. Tínhamos pelo menos dois livros por ano para ler e resenhar. E nessa, eu devorei "Meu pé de laranja lima", "Dom Casmurro", "Vidas Secas", "Dom Quixote"...
No outro dia, eu estava conversando com uma adolescente e perguntei quantos livros ela tinha lido naquele ano: "Nenhum", foi a resposta. Ela me confessou que nunca lera um livro sequer na sua existência. Tinha preguiça. Lembro de ter dito a ela para jogar muito na Mega Sena, pois se ela tivesse que trabalhar na vida não conseguiria passar nem no concurso para garis.
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E aí, quando eu leio que uma série de livros é capaz de prender crianças encapetadas dentro de casa, chego a imaginar que há salvação para a raça humana, que não teremos que repetir a história do "Fahrenheit 451"... (Imagino que vocês conheçam a história escrita por Ray Bradbury e filmada por Truffault. Se não, que tal uma passada na livraria mais próxima ou na locadora de DVD?)
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O epitáfio do historiador pernambucano Manuel de Oliveira Lima diz: "Aqui jaz um amigo dos livros". É tão fácil fazer amizade com os livros... Na minha infância eles eram dos melhores colegas de folguedos, sempre me sugerindo novas brincadeiras que eu sequer sonhara.
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De todas as espécies da Terra, somos a única que lê. O nazista Goebbels disse que toda vez que ouvia falar em cultura tinha vontade de sacar sua arma. Eu, toda vez que ouço falar em falta de cultura, tenho vontade de sacar um livro.
M.S.

19 comentários:

Dira disse...

Meu amor, me perdoe a ignorância..rs achei mesmo que vc tivesse esquecido o cedilha, ce me perdoa? So queria que vc pudesse conhecer o meu pai. Devo a ele toda a minha paixão pelos livros. Sabe que ele sentava com a gente (três filhos pequenos) no chão e dava um pedaço de pano a cada um pra gente limpar livro por livro de sua estante? Então, a gente aproveitava a empolgação dele e folheava livro por livro. Ai, Marco, eu queria tanto que os meus filhotes tivessem esse mesmo amor que tenho por livros.

Ei, aceita um beijo e um abraço nessa manhã de pedido de desculpas?

Carinho pra vc.

Mut disse...

Hehehe...realmente , se há um livro que é viciante é esse Harry Potter. O único problema é voltar a realidade depois de ler todos os livros. E concordo com você quanto ao Goebbels.

Um abraço!

ronie disse...

Qualquer iniciativa que incentive a leitura é válida: então, Harry Porter neles.

Dira disse...

ah, esqueci... essa gran finale aí seu, foi espetacular.

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Bendito seja Você! Louvado seja teu amor irrestrito aos livros.

O que não é de estranhar que teus textos saiam de tuas entranhas com inolvidável prazer. Pois se alguém despreza a leitura,certamente abominará uma redação. E que belas companhias estas,lá nos longes (no bom sentido) de tua adolescência: "Vidas Secas","Dom Quixote"...

Confesso que aprendi mais gramática pelo carinho extenso de ler do que na própria Gramática.

Meu Deus,o que seria de nós sem o universo das palavras impressas?... Sem elas,não poderíamos ao menos anunciar o silêncio nem assinalar o medo do tempo que paira nos espelhos.

PS: gosto por demais de me estender por aqui,meu caro,mas só me conectei há pouco,pois os relâmpagos espoucavam nos céus num frenesi de bacanal - e o "modem" do meu micro é melindroso ao cubo; portanto,desculpe-me o lacônico comentário.

Que todos do ANTIGAS TERNURAS aproveitem com precisão esta quinta-feira,que aqui vai amanhecer úmida e sabendo a beterraba...

Marco Santos disse...

Valeu, moçada pela presença e pelos comentários. É aqui que o Antigas Ternuras se faz. E vamos a eles.

Bela Dira: Sobre o affair do xadrez, te respondo no seu magnífico blog.
Eu teria muito prazer em conhecer o seu pai. Tenho sempre prazer em conhecer os apaixonados por livros.
E, pelo visto, ele não só apreciava a leitura como cuidava bem dos bichinhos, né? Que ótimo.
(À propósito, quantos filhotes você tem?)
Claro que aceito o seu carinho e seu beijo! Con mucho gusto! Beijo procê também.

Grande Mutante: Eu realmente sou fascinado pelos livros da série Harry Potter. Sabe uma coisa incrível? Às vezes eu estou assistindo ao Jornal Nacional e me dá votade de ler um pouquinho. Nos comerciais ou quando estão lendo alguma notícia que não me interessa eu emburaco dentro do livro e a mágica se faz. Nem preciso abaixar o volume da TV. A mulher é fera, mesmo! Vou sentir falta quando a série acabar. Um abração!

Grande Ronie: Huumm...Sinto um certo travo de crítica neste seu comentário. Talvez você não considere a série Potter como boa leitura. Afinal, os livros fazem um baita sucesso e fazer sucesso no Brasil e ser visto com desconfianças. É uma pena...

Ô meu caro Paulinho grande Patriota: Sim, tenho paixão pelos livros. Consegui montar uma razoável biblioteca (acho que tenho uns mil livros) e leio muito, sim. Quem me conhece mais amiúde, diz que eu sou uma espécie de "dicionário ambulante", que pareço "saber de tudo". Um exagero, é claro. Mas quando me falam isso, eu respondo que o pouco que eu sei aprendi nos livros. Não nasci sabendo. Logo, qualquer um pode aprender também. Eu não tenho filhos, mas tento inocular nos meus sobrinhos o prazer da leitura. Imagino que não será tarefa fácil. Na idade deles eu já andava atracado com livros e gibis e não vejo em nenhum dos dois a mesma disposição.
Um forte abraço!

Dira disse...

Ei, please, vá no meu blog e veja o link Claire Insone. Ela é outra apaixonada por Livros. Garanto que é um tesouro de se ler. Eu assino embaixo. Visite-a e conheça-a. Beijo.

Dira disse...

Eitcha, perdoe, esqueci. Tenho 2 filhotes, uma boneca de 18 anos (o fotolog dela tá linkado no meu blog: camila vieira) e um moço de 17 anos.

ronie disse...

Perdão Marco, acho que não fui claro o suficiente, a intenção não foi esta: no entanto, realmente não li nenhum episódio da série. Não por algum tipo de preconceito, mas, por absoluta falta de tempo. Assim que possível lê-los-ei.

Marco Santos disse...

Diramiga, como diria o grande Paulinho: Já atendi com muito gosto aos seus pedidos. Sua filha é linda. E talentosa.

Caro Ronie: Entedi mal o seu comentário. Por favor, me desculpe.

claudia disse...

Meu coração...
vim aqui porque seu médico cardiologista pediu ...como vc. vai lá uma vez por dia...tenho que vir mais duas aqui...te dar mais dois beijos no coração...
Se bem que hoje te daria um monte...
Belo texto de hoje.( de todo dia)
Li as Brumas de Avalon, até agora me lembro do lago cheio de neblina que ela atravessava...tenho a imagem em meu pensamento, assim como o do Riacho que foi o primeiro livro que li e gostei.
E coincidêntemente hoje, estava falando para a minha Beatriz, que os livros fazem a gente voar...e fazia os gestos com as mãos de uma pomba voando...ela ria tanto...tanto, falei que a gente entrava na história...seria princesa, rainha...e Bruxa né mamãe?eu disse( dando uma piscadinha para ela) que a gente podia escolher.
Rs...foi mágico.
Ela tem seis aninhos e lê, rapidinho, você precisa ouvir...qq. dia vou gravar e te mandar.
Ler é delicioso.
Precisamos apenas "saber ler" , não só as letras...mas a história em si.
Isso demorei um pouco mais...
Mas a gente aprende.

Mas olha, parabéns...
Lindo texto...
Beijo grande...no coração.

carla disse...

Penso que os livros pelo menos levam os adolescentes a lerem. Se bem que a maioria prefere esperar os filmes chegarem aos cinemas. Mas vale o mérito.
Quanto aos acidentes, já é provado que o povo se influencia facilmente com esse tipo de informação. Infelizmente.

Um grande abraço, amiguinho.

Claire disse...

Um texto saboroso, Marco; daqueles q eu quereria escrever (de vez em qdo encontro um assim na blogsfera). Tentava acessar desde ontem, mas a conexão estava leeeeeeenta até irritar. Eu volto. Um prazer conhecer seu espaço (olhei os outros posts lá embaixo, hummm!)

Marco Santos disse...

Claudinha, anjo meu: O meu cardiologista vai gostar de saber que estou seguindo direitinho as prescrições dele. Nossa! que bom saber que você gostou deste texto! Que ótimo saber que você ama os livros e incentiva a linda Beatriz neste caminho.
Na minha vida, em vários momentos eu tive livros nas mãos que eu não queria largar de jeito nenhum. "As Brumas..." foi um desses. Lembro que eu levava o livro na mão para a mesa do almoço, por não conseguir me desgrudar dele.
Realmente, livro faz a gente voar. E se transformar em outros personagens. Eu já fui Ivanhoé, o Conde de Montecristo, já brinquei no Sítio do Picapau Amarelo... Hoje em dia já nem leio mais romances na quantidade de antes. De forma geral, tenho preferido biografias e livros sobre fatos históricos. Mas caí na teia da J.K. Rowlings e só sossego quando ler tudo.
Vou adorar ouvir a Beatriz lendo.
Um beijo grande. Pras duas.

Carlinha: A série Potter caiu no gosto dos adolescentes por que é muito bem escrita. A cada página que eu leio me surpreendo com a força imaginativa da autora. Ela é imbatível na definição de personagens, na tecitura das histórias, no uso da carpintaria literária. É incrível como tudo aquilo pode ter saído da cabeça de uma pessoa só!
Aliás, eu já pensava nisso sobre o Érico Veríssimo, no "Tempo e o Vento", a Marion Zimmer Bradley, nas "Brumas...", o Machado de Assis em "Dom Casmurro", O Lima Barreto, o João Ubaldo...
Um beijo, querida.

Claire: Muito obrigado pela visita. Ganhei o dia! Fico mesmo muito feliz por você ter gostado daqui desses meus velhos alfarrábios. Certamente, voltarei a te visitar outras vezes, porque eu não resisto a um bom texto.
Um beijo procê.

Dira disse...

uma saudade abre o meu peito e revira os pertences... sei não, prenuncio de um fim de semana cinza? então vim dar beijo.

lúcio disse...

Marco, recebeste meu e-mail?

Marco Santos disse...

Dirinha: venha sempre que quiser dar beijo. E transforme esse seu momento de saudade em texto no seu belo blog que a gente está aqui mesmo pra ler tudo o que você escreve. Beijo, proc~e.

Amigo Lúcio: Não recebi o seu e-Mail. Por favor, manda de novo.

Paulo Assumpção disse...

Marco, também sou viciado em leitura. Infelizmente, ando com pouco tempo para os livros, mas quase todo dia leio algumas matérias das muitas revistas de História que compro, por ofício e por prazer. Agora, sabe que não herdei este hábito dos meus pais? Contudo, apesar de serem leitores ocasionais, eles sempre me incentivaram à leitura. Lembro-me de um dos adoráveis natais da minha infância em que me presentearam com uma coleção de livros. Na escola, meus mestres também indicavam um livro por bimestre - no mínimo! Pena que eu, como professor, não possa fazer o mesmo. Tenho certeza de que muitos dos pais dos meus alunos mal tem dinheiro para colocar arroz com feijão no prato. Pobre desta geração aletrada... Grande abraço!

P.S.: Perdoe-me a ausência. É que as aulas já recomeçaram e tem me sobrado bem pouco tempo para a Internet.

Marco Santos disse...

Caro personal teacher: Só pelo seu jeito de escrever a gente pecebe que você é dos que gosta de ler. Claro que nem todo mundo que aprecia um bom livro teve iniciação pelos pais. Em muitos casos é da natureza da pessoa mesmo. Mas seus pais te incentivaram de outra forma bastante válida: eles te davam livros de presente. O meu sobrinho já aprendeu a ler e eu estou sempre dando livros para ele. Quando a minha sobrinha já estiver lendo vai ser a vez dela ganhar uns bons livrinhos.
Sobre os pais de agora não terem dinheiro para comprar livros, hummm, se você me permite, eu discordo. Existem clássicos que a gente compra por cinco reais. E sempre tem os sebos, onde é possível encontrar livros a preços bem em conta. Se definitivamente não der para comprar, que se incentive a garotada a ir a uma biblioteca pública. "Dom Quixote de la Mancha" eu li na Biblioteca Pública lá de Caxias, onde eu morava. Quem quer ler, corre atrás.
Eu sei que com as aulas a sua freqüência aos blogs amigos tende a diminuir. Fique à vontade. Aqui voc~e sempre será muito benvindo. Um abração!