sexta-feira, janeiro 27, 2006

O tolo do monte


Quem lê estas mal tecladas linhas pode achar que eu sou um saudosista irrecuperável. Ou que eu fico pensando somente no passado, suspirando e dizendo: “Ah, bons tempos eram aqueles...”
Na verdade, não é bem assim.
Escrevo sobre o passado como uma provocação ao presente. Creio que é parte de nossa herança genética o desejo de evolução constante. Mas não é o que vejo. Culturalmente estamos andando para trás. E isso em uma época onde somos bombardeados diariamente com doses maciças de informações, em quantidades muito maiores do que podemos absorver. Demasiada informação é igual a nenhuma informação.
*
José Saramago disse, certa vez: “não sou pessimista; o mundo é que é péssimo”. Posso parafraseá-lo e dizer: “não sou saudosista; o presente é que não me deixa saudades”.
Como o tolo do monte, da música “The Fool on the Hill”, dos Beatles, dia após dia, sozinho aqui no alto, vejo o mundo dar voltas. Vejo mudanças, mas não vejo melhorias. Como o homem de mil vozes, falo claramente aqui que esta opção pelo egocentrismo, pelo “farinha pouca, meu pirão primeiro”, vai acabar arruinando o que nos resta de civilidade. Já houve época em que não era assim e eu não consigo entender como chegamos ao ponto em que estamos.
Por conta disso, tenho nostalgia de um tempo em que não vivi. Ou que somente vislumbrei. Mesmo assim, não me deixo aprisionar nesta saudade. O tempo é inexorável e com ele sempre virão mudanças. Não necessariamente para melhor, mas, mudanças. Não há como lutar contra isso.

Aqui, no presente, lembrando o passado, eu me preparo para o meu futuro. Talvez venha daí o cuidado e o carinho que eu tenho pelos mais velhos. A criança que fui ficou para trás, minha mente me avisa diariamente isto, quando gasto mais tempo para lembrar um nome, uma palavra, que antes pousava em minha memória com a velocidade do beija-flor.
*
Meu presente se superpõe ao meu passado, como quando afago os cabelos brancos de minha mãe e vejo as veias de minha mão, que insistem em se ressaltar.
M.S.

18 comentários:

Dira disse...

Hummm. Vamos por partes.

1. Li em algum post aqui que vc é ator? Mas um ponto pra vc. Eu fui atriz num tempo que tb me causa muita saudade.Aquele papo: eu era feliz...rs

2. Bom te ver no meu quintal. E me linkou? È uma honra, sabia? Q eu faço para agradecer?

3. Como o título do seu blog mesmo diz: houve um tempo de ternura. Não sei se esse tempo ainda possa ser resgatado, mas trazê-lo à tona é ter a esperança de reativar o bom de nós guardado em algum lugar dentro da gente.

4. Beijo. E outro. E mais um.

Marco Santos disse...

Respondendo por partes:
1. sim, sou ator. E já me avisaram que vai pintar uma peça lá na Companhia Teatral onde dou plantão e estou dentro!
2. Estarei no seu quintal sempre. E roubando pitanga e araçá!
Agradecer? Basta continuar escrevendo com esse talento que Padim Ciço te deu.
3. Como diz o slogan do canal Boomerang: "o que é bom, volta!"
4. Rebeijo-te tumbém. Bom final de semana!

Mut disse...

Hehehe... para identificar que o mundo não anda , é fácil de observar o cenário da música. Desde a explosão do grunge , com Nirvana e etc , não surge nada decente. Quer dizer , até existem boas bandas , mas é reciclagem do passado. Tal como na política externa , onde o último grande acontecimento foi a queda da URSS... e dá pra se destacar milhões de outros sinais.

Um abraço!

PS;And I'm a fool on the hill...

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Inicio pelo teu desfecho deste post: emocionante.

Você está ficando imelhorável,posto que estás numa zona de perfeição pelos teus poemáticos textos.

Ouso pensar,parafraseando o sociólogo Gilberto Freyre,que pareces viver no tempo "tríbio" concebido pelo mestre de Apipucos. Isto é,no passado,presente e futuro simultaneamente.

Sempre retive tua maneira de ser como um nostálgico "light" mesmo,jamais como retrógrado. Acho que porque houve uma época em que o romantismo ingênuo do proceder era mais táctil. Por isso,acho sempre saudável o exercício da tua rememória.

*****

Nota:

Você sabe me responder?

Um dia,amigo,estava eu a cavaleiro do sítio da Sé,em Olinda,quando tive um idéia: perguntei às ondas que fustigavam quilhas se o mundo ainda existia depois de tantos erros! E o afluxo de espumas emudeceu...

Abraço fraternal.

PS: e pode deixar que Madame Min (com N,porque a M já me é do coração) terá a minha benquerência também.

Janaina disse...

Oiee!! Achei seu blog por acaso e achei bem interessante, vi vc comentando no blog..purviance.zip.net e ja gostei d vc, pelo simples fato d tb gostar d cinema clássico..rs
Sempre q der vo voltar..Passa no meu tb ok?
Bjs

Marco Santos disse...

Caro Mutante: Andou lendo Fukuiama, não é? A História não acabou com a queda do Muro de Berlim. Veio o 11 de setembro e mostrou que ainda temos muito carvão para queimar, reescrevendo a geopolítica do mundo.
Mas o meu tolo do monte observa as revoluções que o desamor pelo próximo e a excessiva paixão por si mesmo está trazendo para o nosso cotidiano. São mudanças para pior,infelizmente. Ontem, caiu um temporal brabo no Rio. As ruas alagaram e morreu gente afogada. As ruas alagam porque estão sujas. Cada um que jogou lixo na rua, lixo que entupiu os bueiros, causando o alagamento e consequentemente os afogamentos, é cúmplice de assassinato de seu próximo. E este tolo do monte observa tudo isso e lembra que "nobody wants to know him".
Um forte abraço.

Pailinho grande Patriota: Rememória! É isso! Mataste a charada.
E, sim, respondo a sua pergunta. E vou responder em paráfrase:
ora, direis ouvir as ondas...Que bobagem, as vagas não falam. Simplesmente as ondas refletem as inconstâncias que existem em todos nós.
Tenho certeza de que você há de se encantar com a talentosa Dira e seus escritos enfeitiçadores de Madame Min.

Cara Janaína, rainha do mar virtual. Obrigado por vir conhecer a minha cristaleira de emoções. Irei, sim, com prazer, conhecer o seu blog.
Um beijo grande.

Evandro C. Guimarães disse...

Temos outra coisa em comum: Em mais da metade das minhas poesias faço uma certa apologia do passado. Ou então,questiono o porquê deste apego incontrolável pelo que já passou.
Semana passada, estava no meu recesso de verão em Cabo Frio. Visitei a Capela da Guia e vi as pedras onde os índios,antes e durante a chegados dos europeus, iam afiar seus instrumentos. Sempre faço isso, por mais que já tenha visto aquelas pedras(desta vez tinha caldo de cimento derramado num dos sulcos feitos pelos indígenas, é mole?). Olhei a cidade de Cabo Frio lá de cima e uma emoção forte me bateu. Me amaldiçoei por não poder viajar até o tempo em que tudo aquilo era mata, dominada pelos índios. Amaldiçoei aquele mar de concreto que substituiu a mata.
Amaldiçoei o maior massacre da história, cometido contra as populações indígenas pelos europeus ávidos por lucros. Amaldiçoei até a minha inegável descendência portuguesa. E pensei: não é por acaso que esta sociedade é o que é. Sua gênese foi num banho de sangue(contra os índios) e na vergonhosa escravidão dos formidáveis povos africanos.
Eu, que também tenho descendência africana e indígena, sinto-me o resultado deste estupro cultural, racial e social. Como a "sociedade brasileira" também é! Concluindo: nem no passado que tanto reverenciamos há muito o que reverenciar!
NOTA: É claro que apesar de todo o saudosismo, estou sempre planejando para o futuro. A História continua!

Paulinho Patriota disse...

Menino da peste:

Meu ZOOM era pobre; com tuas indicações suntuárias prontamente enraizadas na minha amorável lista de links,o meu "chatô" vai virar mansão...

Obrigado.

Um grande fim de semana plenamente utilizável.

Belisa disse...

Adorei a cara nova do blog, parabéns!!!

Paulo Assumpção disse...

Marco, num certo sentido, creio que também seja válida para aqui a minha breve tentativa de analisar o porquê da onda de revivals de décadas passadas (post "Será o Benedito?"). Também sou um nostálgico incorrigível. Não é à toa que meus filmes prediletos são justamente os que conheci na infância e ensinar História é a minha profissão. Em tempo, as imagens do post estão sensacionais. Um grande abraço!

Marco Santos disse...

Grande Evandro: Você sabe que durante um longo tempo eu também achava que o nosso mal era a colonização portuguesa, especialmente do jeito que ela foi feita? Hoje, tenho certeza que com qualquer outro colonizador tudo o que você descreveu iria acontecer. Ando tão desgostoso da natureza humana que passei a ver o problema muito mais psicologicamente que etnocentricamente. Historicamente, também descobri não ser correto alegar que os índios brasileiros eram bonzinhos e o português branco o malvadão. Aqui era uma terra de várias nações indígenas. Algumas eram mais preocupadas com valores culturais. Outras, parece que cultuavam o "coisa ruim". Eram especialistas em fazer maldades. E isso não era privilégio do Brasil. Li recentemente algo sobre a queda da civilização azteca e descobri que teve a participação dos nativos naquele massacre.
Mas é sempre ótimo te ler por aqui, com seus comentários pertinazes. Um forte abraço.

Grande Patriota: Da mesma forma que eu recomendo o seu maravilhoso blog para os novos amigos que fiz na Internet, tenho prazer em te indicar páginas de gente de talento, como você. Bom domingo, amigo!

Cara Belisa: Que bom que você gostou. Um abraço.

Meu nobre personal teacher: Como escrevi, a gente escreve sobre o passado como uma provocação ao presente. E eu sei que voc~e é assim também.
Procurar imagens é para mim tão importante quanto escrever o texto. Dá um trabalhão mas eu fico muito feliz quando eu encontro aquelas que são perfeitas para ilustrar as minhas palavras. Bom domingo procê!

Evandro C. Guimarães disse...

Acho que me empolguei tanto que não me fiz entender claramente. Tudo o que você falou não é novidade para mim. Jamais cairia nesse maniqueísmo de índio bonzinho e europeu malvadão. Sei que o Brasil indígena não era o paraíso. Mas, em primeiro lugar, isto não dava aos europeus o direito de fazer o que fizeram, que continua sendo errado. Um massacre covarde. Em segundo lugar, o Brasil indígena não era o paraíso, mas era muito melhor que a atual sociedade brasileira.
Da mesma forma, não há africano bonzinho. Já havia escravidão na África antes de chegada dos europeus. Só que esta escravidão era bem diferente de escravidão mercantilista que os europeus implantaram depois. Portanto este fato não diminui em nada a responsabilidade dos europeus por este nefasto comércio de almas.
Por último, em momento algum defendi a idéia imbecil de que somos o que somos por causa da colonização portuguesa. Falei portuguesa porque é o nosso caso específico, mas ingleses, franceses e etc agiram da mesma forma na maioria de suas colônias.
Não creio que as explicações psicológicas, alienadas da interpretação histórica, sejam o suficiente para entender o rumo das sociedades.
É sempre um prazer trocar idéias neste espaço. Um forte abraço!

claudia disse...

Oi

Ei...
veias saltando das mãos?
Deve estar muito magro...
rs.
Precisa comer meu bolo de cenoura.
Com café com leite. A Beatriz ama.
rs

Cheguei a uma conclusão ( ah...pode não parecer, mas penso !!!rsrs)
E essa conclusão diz o seguinte:

Vai ficar pior.
Sem ser pessimista. E nada de filosofia boba.
O problema é que o mundo está superlotado.
As pessoas não sabem mais o que é "bom" ou "ruim"...estamos perdendo o critério...as normas.
Não existe mais regra.
Não existe mais norte.
O que está ficando ...é uma super-lotação.
Um beijo grande...
no coração
uma ótima semana.

Visitei os blogs que me indicou.
E amei. De paixão.
Obrigada.

claudia disse...

ah...

ia indo embora sem comentar do novo visual...
Sou distraída o suficiênte para passar batido.
Mas ainda continuo "educada".
Parabéns...ficou ótimo.
E bem parecido com algo terno.

Adorei.

Marco Santos disse...

Ôpa, que este papo é ótimo. Você está coberto de razão, grande Evandro, quando escreve que os europeus não tinham o direito de empreender os massacres que fizeram nos quatro continentes. Eles se arvoraram no conceito de que tinha civilização superior para oprimir povos, alguns até cientificamente tão avançados quanto eles. E pior ainda, foi a alegação de Portugal e Espanha de que “civilizaram” em nome da fé cristã. Até imagino ouvir Jesus Cristo dizendo: “eu não! Me inclua fora dessa!”
A sociedade indígena era melhor que a atual? Em alguns aspectos, sim. No respeito à natureza. No respeito ao próximo que algumas nações (não todas) indígenas tinham. Por outro lado, a sociedade moderna expandiu consideravelmente a expectativa de vida em relação àquele tempo. Até sei que em alguns casos isso não é vantagem, mas na maioria deles acredito que seja.
Quanto à escravidão, olha, mercantilista ou não nenhum ser tem que escravizar o outro. E algumas nações d’África trocavam negros que capturavam em tribos inimigas por cachaça, instrumentos agrícolas e otras cositas. Se você leu a história do Forte da Mina sabe do que eu estou falando.
Não acho que seja “imbecil” a afirmação de que somos o que somos por conta da colonização portuguesa. Nós somos o que somos graças a colonização portuguesa. O que acho tolo é achar que se fôssemos colonizados por ingleses, franceses , holandeses ou chineses nós seríamos mais adiantados tecnologicamente. Já está mais que provado que não importa a nacionalidade e sim o tipo de colonização que se faz. Quando é por povoamento, como nas treze colônias da América do Norte, como foi na Austrália, por exemplo, o desenvolvimento do colonizado tomou um caminho. Quando é por exploração, como a Inglaterra fez na África, Ásia, na Guiana, como a França fez em trocentos lugares, aí sempre se estabelecerá diferenças. A metrópole não verá a colônia como parceira e sim como um empório.
Desculpe eu discordar, mas explicações psicológicas não são apartadas da historiografia. A história é feita para e por homens e todo homem é um universo próprio em termos psicológicos. A característica pessoal de cada rei poderia ditar o rumo de uma colonização feita. A natureza humana é condicionante, sim. Defendo isso como tese e uso a literatura disponível.
O prazer é todo meu, nobre Evandro. Esse tipo de discussão me interessa muito. Um dia teremos a oportunidade de desenvolvermos estas e muitas outras discussões pessoalmente. Não vejo a hora disso acontecer. Um abração pra ti.

Marco Santos disse...

Minha doce Claudinha: Não estou magro, não. Estou é ficando velho! Sobre o seu bolo de cenoura, hum, não vejo a hora de prová-lo. Mas com chocolate quente ou suco. Não gosto de café.
A sua teoria sobre a superpopulação do mundo procede. Multiplica e muito a parte nociva da natureza humana. Com tanta gente, as pessoas sentem um desejo incontrolável de se distinguir de alguma forma, de se valorizar. Por isso o egoísmo acaba governando as vidas, por isto essa filosofia do “primeiro eu o resto que se dane” termine prevalecendo.
Eu sabia que você iria gostar dos blogs que eu recomendei. Pessoas sensíveis e inteligentes como você são automaticamente atraídas para os seus iguais.
E que ótimo que você gostou da nova face do meu, do seu, do nosso Antigas Ternuras.
Beijos em cascata pra você.

Lena Gomes disse...

Li mais um! Nossa, tava inspirado, hein! Eu nem preciso dizer q sou saudosista... mas enfim, tenho saudade do presente e do futuro. Não só do passado. Um dia explico isso. Bem, preciso voltar aqui pra ler os comentários deste post, com calma. Os "entendidos" (no melhor sentido) estão dando "um banho" de história. Beijos.

Marco Santos disse...

Doce Helena: Saudades do presente eu até posso entender, mas saudades do futuro... Como diriam os lusitanos "não te dominei a idéia..."
Mas até que é um excelente título para qualquer coisa: "Saudades do Futuro". Gostei!