sexta-feira, novembro 04, 2005

Assim caem os impérios

Imagine uma cidade onde os políticos são corruptos, os poderosos usam e abusam do sexo, utilizam dinheiro para comprar aliados e não têm nenhum escrúpulo para atingir seus objetivos.
Você pensou em Brasília? Errou.
Washington? Errou também.
Estou falando de Roma. Não a atual, mas a do tempo de Júlio César, por volta do ano 50 a.C.
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É como podemos verificar na minissérie “Roma”, que está indo ao ar pelo canal HBO (domingos, 22h, com reprise em alguma noite durante a semana).
Provavelmente é a série mais cara da história da televisão (até agora). Toda filmada em Cinecittá, mitológico estúdio italiano, com cenários monumentais e bastante reais. Nada daqueles ambientes assépticos que a gente se acostumou a ver nos antigos filmes sobre o império romano. É tudo sujo, encardido, com paredes pichadas. As cenas são cruas, atores e direção não aliviam em nada.

Além do destaque que tem os personagens famosos – Julio César, Marco Antonio, Átia, Servília (mãe de Brutus), Otávio, Pompeu, Porcius Cato etc, vemos outros personagens pouco conhecidos, mas que existiram e não tiveram suas histórias relatadas pela História. Falo dos centuriões Lucius Voreno e Titus Pulo (veja na foto). Mas não quero antecipar nada. Prefiro que vocês mesmos verifiquem e tirem suas conclusões. Uma curiosidade: reparem na personagem Níobe, representada pela atriz Indira Varma. Ela é uma sósia feminina do Rodrigo Santoro. Se alguém quiser ver mais sobre a série, clique aqui .
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No mesmo tom da série “Roma”, em que vemos que as falhas da natureza humana não são nenhuma novidade, recomendo um filme que é um dos melhores deste ano e deste século. Pelo menos, até o momento atual presente que se conhece hoje em dia (copyright PRK-30). Estou falando de “Crash – No limite” (2005, USA/Alemanha, dir. Paul Haggis). Ele também poderia se chamar de “O declínio do império americano”, se já não existisse um outro (excelente) filme com este nome. Mas se na Roma de César, a República mostrava sua decadência, mesmo que o império só fosse se extinguir cinco séculos depois, em “Crash”, vemos que o poderio financeiro-militar dos Estados Unidos pode durar mais uma porção de anos, mas sua decadência moral faz a sua sociedade feder como carniça.
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Finalmente, o filme que eu estava esperando há muito tempo, por conta de sua carpintaria dramatúrgica. Ele pode ter várias leituras, inclusive a partir do título – Crash – que remete a batida, colisão e realmente, carros e pessoas estão em constante colisão neste filme. Mas eu prefiro analisá-lo por outra ótica: pela sua história, onde a natureza humana é mostrada em toda a sua verdade, sem filigranas, sem tons edulcorantes. Está lá, o que somos: ora capazes de salvar alguém, ora capazes de desgraçar os outros. Ninguém é monodimensional – só “bonzinho” ou só “peste” - nem a vida é bimensional, tendo por únicas alternativas o “bem” e o “mal”. Não somos personagem de telenovela, nem das comédias açucaradas do cinema, muito menos levamos a vida como está nos desenhos animados da Disney. Viver machuca. Dói. Corrói.
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Esta abordagem da nossa real natureza eu praticamente não tinha visto em cinema. Só vira em algumas histórias em quadrinhos. E em “Crash” é a grande atração.
O que pensamos quando um policial vem nos encher o saco, às vezes até sendo inconveniente? Que ele é um bom filho da puta ou que ele pode ser um filho extremado, que está alterado por conta do pai doente e não consegue uma internação porque o plano de saúde não permite?
E quando a nossa empregada doméstica pode ser muito mais amiga no sentido inteiro da palavra do que coleguinhas que nos acompanham no shopping? Até onde somos incorruptíveis? Até um valor em dinheiro ou até a vida de um irmão depender de nossa, digamos, flexibilidade de caráter?
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Pegue conceitos como estes e adicione personagens tão díspares como dois ladrões, um promotor e sua esposa perua, um consertador de fechaduras e sua filha, um diretor de TV negro e sua esposa, um policial de comportamento indigno e seu parceiro que tem dignidade e não concorda com seus métodos, um chinês atropelado e arrastado quando estava entrando na sua van, uma família de iranianos (no filme, são chamados de persas), chefiada por uma pai que só quer ser tratado com dignidade, um policial correto e sua mãe preocupada com o outro filho que vivia em más companhias e você terá um filme inesquecível. Muito bem dirigido, com excelentes atuações, diálogos fantásticos, como o dos dois negros no bairro chique dos brancos.
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No mais, o que se tem são doses maciças de humanidade. Vemos a natureza humana espremida e exposta como o carnegão de um furúnculo, com a dimensão real de um pedaço de calcáreo, que existe e pode ser usado para construir ou para agredir. Assim como o era na Roma dos Césares. Assim como o é na Los Angeles atual. Assim como é no nosso quarteirão.
M.S.

6 comentários:

Paulinho Patriota disse...

Marcos:

Com um texto extremado desses - amena lucidez,Você não apenas indica,porém praticamente nos impele a constatar tua plena razão.

Atente-se neste pormenor muito interessante que observaste:

"Nada daqueles ambientes assépticos que a gente se acostumou a ver nos antigos filmes sobre o império romano. É tudo sujo,encardido,com paredes pichadas".

E nisto:

"Viver machuca. Dói. Corrói."

Perfeito. A vida é mesmo um amontoado de coisas... No entanto,apesar da luta urbana e humana,ainda existem certos prazeres como descobrir ANTIGAS TERNURAS,dormir na hora que se tem sono e bater o tapete,na borda da janela,como se estivéssemos sacudindo o pó do tempo.

PS: que honra meu link por aqui. Outras pessoas precisam descobrir este espaço luzente.

Bom final de semana,meu grande.

Paulinho Patriota disse...

Epa,é MARCO,de Marco Aurélio,Marco Polo... só gente assim de alma não diminuta como a tua...

carla disse...

Epa, bela aula. Sempre aprendo um pouco mais por aqui. grande abraço.

Paulo Assumpção disse...

Por falar em quarteirão, ainda não consegui ver o meu pelo Google Earth. Como recomendou, baixei novamente o programa. Mas quando clico para instalar, nada... Falando em recomendações, novamente você acertou com "Crash". Até agora, o melhor do ano. Muito interessante a ligação que estabelece entre o filme e a minissérie "Roma". Aliás, depois que chamou a minha atenção, reparei na semelhança entre a Níobe e o Santoro. Será que o galã global gostou tanto de interpretar um travesti em "Carandiru" que decidiu fazer carreira internacional usando a identidade fictícia e feminina de Indira Varma? Grande abraço!

Belisa disse...

Para entender Roma de verdade precisei assistir ao fabulosíssimo "Roma de Fellini". Aliás, para absorver a Itália do século passado também só assistindo ao glorioso "palhaço" e "mentiroso" da tela grande... hehehehhehehe. Não pego a HBO, portanto...

Outra coisa: costumo não ler nada sobre filmes que pretendo assistir, mas foi impossível passar reto pelos teus comentários sobre "Crash". Cada vez mais a minha ansiedade é maior e espero não me decepcionar. Parabéns pelo texto!

Marco Santos disse...

Eu costumo dizer que o grande barato dos blogs são os comentários. É quando um texto provoca boa discussão que o autor sente que atingiu o alvo. E desta vez, tive o prazer e a honra de receber comentários de alguns dos mais “poderosos” blogueiros que conheço. Mas vamos ao diálogo:
- Paulinho grande Patriota: pelas suas palavras elogiosas, você acaba de ganhar uma carteirinha de sócio “super mega ultra golden ouro platinum plus de amigo do Antigas Ternuras”. Com ela, você pode entrar em qualquer um dos links que estão ali no lado esquerdo, pagando meia entrada e sendo muito bem recebido.
Agora, falando sério: a série “Roma” mostra um Estado corrupto, violento, sujo, que não está nem aí para o sofrimento do povo. Ainda bem que não vivemos em tempos assim, não é mesmo? Sobre seu outro comentário, tem uma música do Léo Jaime com a frase: “Mas eu acredito que ninguém tenha vindo no mundo a passeio” (Rock Estrela). Pois é. Aqui não é colônia de férias. É ambiente de trabalho de regeneração de nossas faltas. Muita gente não entende isso, por isso os ferimentos, a dor. Obrigado pela sua sempre brilhante presença aqui e pelo seu ótimo blog. Estaremos sempre em contato. Aqui ou no seu Zoom. E obrigado pela retificação. É Marco, no singular.
- Opa, Carlinha! Então empatou! Cada vez que eu leio seus textos aprendo um pouco mais sobre cinema e sensibilidade. Beijão!
- Meu caro personal teacher! Olha, eu gravei em CD o executável do Google Earth. Talvez fique mais fácil para você instalar o bicho. Como é que eu faço ele chegar às suas mãos? Talvez pela Luciana. Vamos ver isso.
Eu tinha certeza de que você iria concordar comigo sobre o “Crash”. É, para mim, o grande filme de 2005, pelo menos até agora. Ele foi filmado com uma micharia, pelos padrões milionários de Hollywood. Os figurões que participaram dele o fizeram por cachês simbólicos, só para poderem fazer um filme com densidade. A Sandra Bullock chegou a pagar a passagem de avião do próprio bolso para fazer praticamente uma ponta. Mas que ponta, como a perua fútil, mulher do promotor! Brandon Fraser e Matt Dillon se ofereceram para filmar praticamente de graça. Don Cheadle (um dos produtores) batalhou muito por este filme. E todos são responsáveis por uma bela obra.
Sobre a “Indira Santoro” e seu gêmeo “Rodrigo Varma”, eu queria muito que um conhecesse o outro. Acho que foram separados ao nascer.
- Cara Belisa: pena você não pegar a HBO. Eu imagino que esta minissérie, pelo tanto de dinheiro que ela teve na sua produção, vá para DVD. Os caras precisam recuperar a grana. Aí você e quem não tem acesso ao canal a cabo vão poder ver e tirar suas próprias conclusões.