segunda-feira, agosto 08, 2005

Hiroshima e Nagasaki

Na semana passada completou-se 60 anos da explosão das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, as únicas na História da Humanidade que passaram pelo pesadelo nuclear.
Li uma matéria que desmentia a versão de que as explosões seriam necessárias para por fim à guerra no Pacífico. Na verdade, o Japão estava combalido, com pouquíssima munição e recursos, não haveria de resistir por muito tempo. As razões da decisão pelo uso da bomba foram outras bem mais pérfidas.
Com o fim da guerra na Europa, a antiga União Soviética começou a se posicionar nos territórios que ela “libertou”. Com a famosa Conferência de Yalta, os líderes vitoriosos Churchill, Roosevelt e Stalin repartiram o mundo entre eles. Nascia ali a Guerra Fria, com a oposição entre a URSS comunista e os EUA e seus aliados do outro.
No início de agosto de 1945, os soviéticos declararam guerra ao Japão. E já foram invadindo as ilhas Sakalinas e Kurilas (onde estão até hoje). Os americanos perceberam que se a URSS invadisse o resto do país nipônico, a exemplo da Alemanha, ele estaria dividido em “Japão do Norte” (comunista) e “Japão do Sul” (pró-USA). Para evitar dar mais terreno para os vermelhos, Truman (que assumiu depois da morte de Roosevelt) autorizou o uso das soluções atômicas, que certamente apressariam o fim da guerra, garantindo a vitória norte-americana.
Para uma decisão “de Estado” como essa, o fato de que haveria centenas de milhares de mortes de civis inocentes era um mero detalhe... Para o “Estado”, seria mais estratégico vencer a guerra e mandar um recado de supremacia para a União Soviética, que não tinha a bomba A.
Cento e tantos milhares de pessoas mortas, parte delas pulverizadas instantaneamente, outra parte morrendo aos poucos (e aos muitos). Gente que ainda iria nascer sofreria as conseqüências daquela decisão.
No tempo das monarquias absolutistas, os reis tomavam decisões de guerra onde milhares morreriam. Mas a patuléia não podia fazer nada, diziam que ele era rei por direito divino. Com as repúblicas, de tempos em tempos a população seria chamada a opinar, elegendo aqueles que tomam decisões em seu nome.
Se eu tivesse sido um eleitor do Truman e dos congressistas, que votaram pelo lançamento da bomba sobre as cidades japonesas, ficaria muito amargurado. De certa forma, seria como se fosse cúmplice.
Guardadas as proporções, é como me sinto por ter votado no Sr. Luiz Ignacio. Mas isto é uma outra história...
M.S.

5 comentários:

Ronie disse...

Pois é Marcos, perdão pela pretensão (e pela rima pobre), mas acredito que você não votaria no Truman, apenas porque temos o distanciamento do tempo, necessário para fazer qualquer análise mais sensata. Os americanos concordaram com os ataques, ademais muito do horror foi escondido, estratégia fundmental em época de guerra. Maldade: o episódio das bombas poderia ser utilizado para um grande final de filme de guerra. Todos nas ruas (que não foram explodidas obviamente) comemorando a vitória da liberdade e da democracia, mães felizes recebendo os restos de seus filhos em pacotes escuros (junto com uma medalhinha do governo), esposas recebendo os mesmo pacotes, só que ao lado dos amantes (salve Benjor, vide 'Morre o burro, fica o homem"), criançinhas mutiladas brincando em parques cinzentos. Que coisa mais macabra!!!!

Ronie disse...

Sobre 'Chan chan': valeu pela correção. Aliado ao esquecimento crônico, estava sem o CD na hora do post e cometi o deslize.
Sobre a Grazi: tudo bem, não a divido com mais ninguém. Não falei que o mundo é ingrato!

Marco Santos disse...

Amigo Ronie (posso chama-lo assim? A internet tem a propriedade de tornar íntimos quem não conhecemos), estamos carecas de saber que a opinião pública americana é moldável, impressionável e sugestionável. Em 1945, Truman era vice do Roosevelt, que morreu em pleno governo. Não sei se o velho Franklin fosse vivo ele autorizaria a utilização das bombas. Pelo menos ele morreu sem esta pecha no currículo. Os milicos e o próprio "pai da bomba", Robert Oppenheimer, estavam doidinhos para testarem aquela máquina de assassinato em massa. Daí, não foi difícil manipular a opinião pública para apoiarem aquela "solução final". E ainda tinha a URSS, que, como se sabe, comia criancinhas no café da manhã...

Paulo Assumpção disse...

Marco, além da velha desculpa de poupar vidas americanas e de dar um nada sutil aviso a Stalin de que quem mandava naquele pedaço eram os EUA (como muito apropriadamente explicou no post), um dos motivos que levou Truman a autorizar o lançamento das bombas atômicas contra o Japão foi justamente o perigo de ver o seu partido se afundar nas eleições para o Congresso Nacional norte-americano que se aproximavam. A maioria dos eleitores norte-americanos mostrava-se então favorável a ações drásticas para o fim imediato da guerra no Pacífico. Logo, não é improvável que em um outro contexto histórico sua opinião fosse bem outra.

Marco Santos disse...

Pois é, caro Paulo... A tal maioria do eleitorado norte-americano é bastante influenciada pela chamada "voz da opinião pública" e pelo que diz o governo. Culturalmente, eles acreditam no que o governo diz. Por isso é sempre aquele OHHHHHH... quando pegam um Clinton e um Bush digamos, faltando com a verdade. A imprensa, o governo e a academia estavam loucos para ver o "Little Boy" botar para derreter (literalmente...). Com a entrada da URSS na guerra do Pacífico, tiveram a faca, o queijo, o prato e a vontade de comer!