terça-feira, julho 12, 2005

Atendendo a pedidos...

Atendendo a vários pedidos (dois), aí vai mais uma novelinha que eu escrevi em tempos idos para o Rádio. Espero que gostem.
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O SEDUTOR
Um original de Marco Santos

Personagens: Zé Manduca, Mirinha, Fina, Santinha, Compadre Gervásio, Sô Candelário e Narrador

NARRADOR – Zé Manduca tinha dois grandes prazeres na vida. O prazer da cama e o prazer da mesa. Exatamente nessa ordem. Era o maior sedutor do vilarejo de Espinhaço. Tinha chegado há um mês e já cobiçava e era cobiçado pelas mocinhas donzelas do lugar. Especialmente pelas filhas de Sô Candelário. Ele só deixava de pensar em mulher quando se entregava ao pecado da gula. Quando lhe perguntavam qual o prato preferido ele tinha a resposta na ponta da língua:
ZÉ MANDUCA – Prato grande, de preferência, fundo.
NARRADOR – Mas naquele momento, seu interesse era Ramira, a Mirinha, filha mais velha de Sô Candelário. Moça bem feita de corpo embora de rosto anguloso e imperfeito. Para dizer a verdade, ela era feia que nem o cão chupando manga de aparelho nos dentes. E Zé Manduca se importava com isso? Cercava a moça na saída da missa.
ZÉ MANDUCA – Como vai a senhorita?
MIRINHA – Ri, ri, ri...Como Deus quer, Seu Zé Manduca...Ri, ri, ri...
ZÉ MANDUCA – Seu, não, nosso, Mirinha...
MIRINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E com essa conversa de cerca-lourenço, Zé Manduca faturava mais uma...A próxima vítima, quer dizer, conquista, seria a segunda filha de Sô Candelário – Josefina, a Fina. O apelido lhe fazia justiça. Além de ser um diminutivo do seu nome, esclarecia sobre as dimensões de seu corpo. Era magra como se doente fosse. Uma verdadeira tábua de passar roupa, embora tivesse um rosto agradável. Viciada em doces, Zé Manduca foi cercá-la na vendinha do Bebelo.
ZÉ MANDUCA – Um pirolito pelos seus pensamentos...
FINA – Ri, ri, ri...Eu já tenho o meu confeito...E não estou pensando em nada...
ZÉ MANDUCA – Nem em mim, ingrata?
FINA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – Mais uma marca na coronha do revólver, quer dizer, ah, vocês me entendem! A mira do artilheiro agora estava voltada para Horácia, a Santinha, a filha caçula de Sô Candelário. Muito carola, os bebuns da bodega do Bebelo duvidavam que ele conseguisse conquistar mais essa virgem. A moça era um tanto gordota, vivia de negro e de véu, sempre com terço e livro de orações na mão. Mas Zé Manduca confiava no próprio taco. Dentro da igreja, durante uma novena, o sedutor rezava contrito: olho no santo, olho na beata. Na primeira oportunidade, escorreu para perto de Santinha.
ZÉ MANDUCA – Acabei de fazer um pedido à São José. Que o meu santo amolecesse o seu coração, que não tem piedade de quem lhe vota amor e respeito.
SANTINHA – O senhor pediu a São José? Amolecer o meu coração?
ZÉ MANDUCA – Quero vê-lo molinho, como broinha de fubá mimoso...
SANTINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E o Paraíso perdeu mais uma virgem para aquele demônio de boa lábia. Em pouco tempo, Sô Candelário descobriu que a desgraça tinha feito a perdição de suas filhas. Estava ele se lamentando para o seu compadre Gervásio quando este lhe fez a pergunta de chofre:
GERVÁSIO – Ô compadre! O diabo desse homem vem e faz mal às suas filhas. Na sua família não tem homem não?
SÔ CANDELÁRIO – Tem, compadre Gervásio, mas ele não quer. Ele só quer as mulheres!
M.S.

Um comentário:

Helena disse...

Muito bom, parabéns!!! (estou finalmente lendo com calma, ok?)
Seu humor é fantástico!