quarta-feira, outubro 07, 2009

Eu me recordo


Sempre que me perguntam qual a minha lista de melhores filmes que eu vi na vida não deixo de incluir no topo da relação uma obra cinematográfica que me é particularmente querida: “Amarcord”.
Tem um outro filme que é minha paixão particular: “Em algum lugar do passado”, cuja trilha, inclusive, é a minha música favorita de todas que existem. Mas eu não relaciono este em listas de melhores filmes. Ele tem valor sentimental para mim. Esteticamente, bem sei que ele não é nada de especial, embora não seja, definitivamente, um filme ruim.
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Mas “Amarcord” tem, para mim, valor sentimental e é uma obra maravilhosa esteticamente, cinematograficamente e outros “mentes”. É, ao meu ver, o grande filme de Fellini, que só filmou coisa boa. No dialeto da região italiana em que ele nasceu (na cidade de Rimini), Amarcord significa “Eu me recordo”. Com o filme, ele relembra, com uma saudade gostosa, de sua infância/adolescência, dos personagens que foram parte de sua vida, mesmo naqueles tempos difíceis do fascismo italiano.
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Eu já assisti a este filme 16 vezes e volta e meia pego o DVD e me deixo levar por aquelas lembranças fellinianas. Quem não o viu, não sabe o que está perdendo.
Lembro que quando minha mãe o assistiu, nos anos 70, quando ele foi produzido, chegou em casa e disse que tinha visto um filme que a fizera lembrar de mim. Isso porque aparece um garoto, que segundo ela, fez gracinhas que eu devia fazer na escola. “Êpa!” – protestei eu, indignado. “Eu sou muito comportado, não faço gracinhas nem travessuras no colégio”. Eu disse isso com a maior cara de pau, sem nem ficar vermelho. Lembro que minha mãe olhou para mim com uma cara que dizia: “arrã... sei... Quem não te conhece é que te compra.”
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Ela não me disse qual era o tal garoto (aparecem vários). Nem precisou. Quando vi o filme, soube direitinho qual era. E digo mais: se eu tivesse visto as cenas quando tinha aquela idade, provavelmente faria o mesmo ...Bwa-ha-ha-ha-ha-ha... (Essa é minha risada satânica...)

Ah, Fellini... A gente sabe que uma pessoa é gênio quando consegue nos falar diretamente ao coração e mente, mesmo sendo de época, cidade, país diferentes...
Essa cena do filme que está aí em cima, por exemplo. Olha, tinha dia que o almoço lá de casa era bem parecido, com minha mãe ameaçando um dia sumir no mundo, avisando aos berros que ia dar uma coça com fio de ferro no meu irmão se ele voltasse a pegar minha máscara de mergulho para tomar banho na caixa d’água de casa dizendo que era o “Príncipe Submarino”...
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Soube que o Arnaldo Jabor voltou a filmar e quis justamente fazer uma espécie de “Amarcord” de sua geração, o seu “Eu me recordo”. Pois é. Acredito que todo mundo tenha o seu “Amarcord”. Se pudesse fazer um filme, com certeza faria o meu “Amarcord”. Como ninguém me dá grana para filmar o meu filme de recordações, escrevo num blog bem na linha “Amarcord”, e é o que tenho procurado fazer por aqui já há quatro anos.
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Pois vocês sabem do que “eu me recordo”?
Eu me recordo de minha mãe me chamando para tomar o meu prato de mingau feito com maizena e chocolate em pó Bhering e depois eu discutia com meus irmãos para saber quem ia raspar a panela. O mesmo acontecia quando tinha angu... Eu me recordo de pedir para brincar na chuva e insistir muito para minha mãe deixar e quando ela concordava eu fazia a festa até ela me chamar para tomar banho, passar álcool na cabeça e tomar uma colherada de Rhum Creosotado ou vinho moscatel para não me constipar...

Eu me recordo quando os telefones eram pretos, as geladeiras e fogões eram brancos, as casas de minha rua eram “simples, com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que era um lar”... Eu me recordo de tomar hidrolitol; de, no botequim, dividir um grapette e um litro de água mineral com gás com meus amigos, pois não tínhamos dinheiro para comprar um refrigerante para cada um... Eu me recordo de pegar vagalume e esfregá-lo na camisa para ficar brilhando, de capturar libélulas para amarrar uma linha fina no rabo dela, soltá-la e ficar controlando feito pipa no ar... Eu me recordo de deixar a janela do quarto aberta para sentir o perfume de “dama da noite” que exalava do jardim, de olhar pra lua e desenhar a figura de São Jorge nela com a ponta do dedo... Eu me recordo de chegar feliz no colégio para ver meus amigos, sair com eles para jogar totó, trocar gibi e livrinhos de bolso; de torcer para o professor mandar a Therezinha apagar o quadro só para ver o fundo das calcinhas dela quando levantava o braço... Eu me recordo de ficar sentado na beira do campo, mordiscando um talo de capim, esperando o sol baixar para começar a jogar futebol, de ficar triste em casa quando chovia no final de semana, impedindo a sagrada pelada de sábado e domingo...

Eu me recordo de ir ao parquinho ver as lutas com lutadores do programa Telecatch Montilla, de vaiar o Mongol e o Verdugo, e aplaudir o Demônio Cubano e o Leopardo... Eu me recordo de ficar torcendo para começar a ventar e para isso eu cantava a musiquinha: “vem, vento, caxinguelê, cachorro do mato quer me morder” e quando dava para colocar a pipa no alto, desafiar os outros cantando: “Tá com medo, tabaréu, sua linha é de papel”... Eu me recordo de minha mãe tomar susto toda vez que entrava no meu quarto e dava de cara com um mega pôster na parede do Fio Maravilha com a camisa do Mengão; de excursionar com o time em que eu jogava, o Sociedade Esportiva Codajás, e fazer cantoria no ônibus, especialmente entoando o hino do clube, cujo refrão era "ê calunga, esse time não pega macumba, calunga..."

Eu me recordo de juntar dinheiro da mesada, passar na Ultralar e comprar um compacto simples do Bread ou da Gladys Night and the Pips ou do James Taylor e correr para a vitrola da marca ABC A Voz de Ouro e botar o disco para tocar até quase furar... Eu me recordo de ir ao cinema nos domingos, voltar para casa, reunir os amigos da rua e contar o filme todo, inclusive representando cada personagem, de economizar na passagem de ônibus para comprar um sorvete daquelas máquinas com vidros de xarope colorido... Eu me recordo de brincar, de rir, de chorar...
Ah, como eu me recordo de ter sido uma criança feliz!
M.S.

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Eu quero agradecer de coração à amiga Samara que me deu um selo The Best 2009 (mas não tenho conseguido entrar no blog dela para linká-lo) e ao amigo Marcos Dhotta que também me ofereceu o selo "Este blog tem e faz História" e pediu que eu o repassasse para três blogueiros que escrevessem textos de recordações. Bem, atendendo ao pedido do Marcos, repasso este belo selo que aí está para o blog Playground dos Dinossauros, em que também escrevo, para o Morcegos e o Transmimentos de Pensações.


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Na TV Antigas Ternuras, você vê, lá em cima, uma das muitas cenas hilariantes do filme “Amarcord”, de Fellini. E aqui embaixo, um lindo clip com a música “Rio Antigo”, de Nonato Buzar e Chico Anísio. Eu não sou do tempo de quase nada que a música fala, mas ela tem o exato clima que eu quero passar neste post. Eu também quero muita coisa que não existe mais no Rio Antigo ou nas cidades do Antigo Brasil, mas que eu sei que era e é muito bom.

14 comentários:

Lula disse...

Eita Marcão...
Sempre "pegando pesado" naquele passado que, felizmente para nós, é cada vez mais presente!!!!
Beijo fraterno, querido amiguirmão.

Moacy Cirne disse...

Oi,
apesar da minha admiraçãlo por Fellini, não o tenho entre os meus diretores de especial preferência (entre os italianos, fco com Antonioni, Visconti e Rossellini). Mas, sem dúvida, 'Amarcord' é um belo filme. De resto, eu me recordo de tantas coiasas da infância: seriados no cinema, gibis, estampas eucalol, e assim por diante.
Um abraço.

Dilberto L. Rosa disse...

Caro primo:

escrevo-te esta missiva para relembrar o quão irmanados sempre fomos, apesar de nossos times não se bicarem e de nossos tempos serem levemente diferentes... Mas as "antigas ternuras", e muito dos gostos, são semelhantes, porque a sensibilidade pela nostalgia é quase a mesma! Fellini e Amarcord, por exemplo, andam encabeçando minha listinha dos meus (poucos mais de) 50 melhores filmes nos Morcegos, e ainda me emociono muito vendo-o, juntamente com Oito e Meio...

Sempre rio muito com tuas observações argutas (como o riso diabólico bem onomatopeizado!) e aprecio tuas reminiscências! As minhas são de um tempo mais recente, da década de 80, mas nem por isso menos encantadoras... Ainda farei um 'post' sobre este tema...

Falando em reminiscências, eis que encaminhava minha leitura para o final e fiquei pensando, nas últimas linhas "Taí um selo-prêmio legal de receber...": e eis que o cabrón me brinda com este presente?! Agradecido, meu caro, apesar de, nos últimos tempos, andar meio afastado das tais antigas ternuras (ainda me lembro quando gostava de implicar com esta tua expressão, quando nos desafiávamos na bolinha de gude - claro, eu sempre te ganhava! E tenho as bolinhas até hoje para provar!)... Por isso que te adianto: na próxima quarta, 'post' sobre reminiscência garantido nos Morcegos!!!

Mais uma vez obrigado pelo selo, primão! Quando em São Luís, apareça, que a prima Jandira adorará conhecer você!

Abração na família, na Cecília e nas crianças!

tertulías disse...

EU ESTOU APAIXONADO POR ESTE BLOG... mas que delícia, uma postagem melhor do que a outra... tenho muito pouco tempo mas estou tentando ler tudo... Parabéns mais uma vez!!!!!!! De uma olhadinha numa postagem que fiz em 29/04/2009... voce entenderá!!!!!!

Claudinha ੴ disse...

Olá Marco!

Ah... Obrigada pelo selo! Logo estará em minha página de presentes!
Eu imagino o capeta que foi e compartilho com algumas de suas ternuras. Eu adoro Amarcord e aquela cena do início e fim, que dá a idéia de continuidade, de tempo e de poesia. Eu sei exatamente de qual menino sua mãe fala. Mesmo sem conhecê-lo, só pelas leituras... É um daqueles capetas, aquele que faz xixi no tubo de mapas e incrimina o colega! Ah, se é!(Acertei?)
A propósito, viu uma propaganda nova (me esqueci do que) que reproduz a cena inicial de Amarcord? E eu amei o louco jogando coisas em cima da árvore.
Sobre os seus "eu me recordo", eu também me recordo dos Grapettes, das brincadeiras, dos brinquedos que criávamos. Adorei seu post!
Um beijo e feliz dia das crianças!

Claudinha ੴ disse...

Esqueci de dizer! A fotografia da radiola (que você chama de vitrola) é idêntica à que meu pai tinha, vou postar uma foto qualquer dia destes.
Beijo.

DOhttp://www.ramsessecxxi.blogger.com.br/ disse...

Poxa,Marco,vc falou tão bem do filme que fiquei mega curioso. Até anotei na agenda pra caçá-lo em alguma locadora,rss

Abração e um otimo fds a vc.

garotabossanova disse...

E as tuas recordações te formam,te completam,te comovem e nos comovem tb...como é bom poder voltar no tempo através dos teus dedos e do teu olhar.Abraço grande!Quanto a mim o meu filme "Amarcord" é "Cinem Paradiso". :*

Julio Cesar Corrêa disse...

Amacord já é um clássico e nunca será esquecido. Táxi Driver e Perdidos na Noite são os meus favoritos. Embora não seja tão nostálgico, tb gosto de recordar de momentos felizes. Recordar é viver. Mesmo!
abraço

Marcos Dhotta disse...

Há tempos que não "revejo" este filme... Já assisti-o umas 03 vezes. Depois desse post, acho que esta na hora de revisitá-lo. O meu inesquecível é "Morte em Veneza" do Visconti. Abraço Marcão.

Joias da Família disse...

Qualquer coisa que eu disser agora vai parecer piegas, pois não alcanço com palavras esse momento de emoção. Gostei demais, viajei!

Theo G. Alves disse...

é, adoro fellini e amarcord é dos meus favoritos. esse post de lembranças é uma delícia. me põe a recordar o que vivi. e posso dizer então "amarcord"... quanta coisa boa havia. leve. a vida é melhor leve.

abração!

Francisco Sobreira disse...

Marco,
Ao contrário de Moacy, tenho Fellini como um dos meus diretores preferidos. Esse Amarcord é o tipo daquele filme, que, depois de o ver, a pessoa fica quase em estado de graça. Acho que, nesse aspecto, ele está para a obra de Fellini, assim como Depois do Vendaval está para a de Ford. Dois filmes encantadores, maravilhosos. Mas,apesar de gostar muito do filme, coloco Oito e Meio em primeiro lugar. Um abraço.

Armando Maynard disse...

Caro Marco, eu me recordo, o ano era 1960, nessa época estávamos comendo de marmita e eu ia buscar todos os dias em minha bicicleta Monark. Um dia, já pertinho de casa, ao passar com o pneu por cima dos trilhos dos bondes, que não mais trafegavam nos trilhos e nem mais existiam, só que os trilhos permaneciam nas ruas, a bicicleta escorregou, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio, derrubando a marmita que estava pendurada no guidom da bicicleta, abrindo as tampas, fazendo com que toda a comida se espalhasse pela rua. Além do meu desespero, pude ver também o de minha mãe, que já estava a me esperar na porta de casa, motivada pelo adiantado da hora. Todo nosso almoço acabava de ser posto em via pública, uma tragédia. Fiquei ali estático olhando toda aquela comida espalhada, o arroz, macarrão, salada e feijão, tudo misturado. Foi quando de repente, apareceu um cachorro e rapidamente abocanhou um lombo cheio de farofa, saindo em desembalada carreira, todo feliz a balançar o rabo. Assim lá se ia um dos pratos que eu mais gostava. O acidente chamou atenção da vizinhança, que solidária e penalizada, começou a enviar lá pra casa, pratos com comida para o nosso almoço. Naquele dia o cardápio foi novo e variado. Mas eu não conseguia tirar da minha cabeça o desespero da minha mãe e a alegria do cachorro, saltitante com o lombo na boca. Um abraço, Armando.