quarta-feira, abril 09, 2008

Cadê o bispo?

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Quando eu era menino e assistia ao desenho dos Jetsons, imaginava que se vivesse até o Século 21 (que começou em 2001, não se esqueçam), eu encontraria além daquele videofone e dos carros voadores, a erradicação de todas ou da maior parte das doenças. Estudava que no início do Século 20, Oswaldo Cruz tinha lutado bravamente contra uma população ignorante e omissa, que vivia numa indigência higiênica que propiciava o aparecimento de várias pestes e epidemias. “Isso vai acabar depois de 2001”, pensava eu, inocentemente.
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Eis que vivo em pleno Século 21, no futuro que eu tanto imaginara. Converso com minha irmã, que mora na Europa, por um videofone parecido com o dos Jetsons. Meu carro não voa, mas tem alguns itens que eram inimagináveis naquela época. Mas em plena época da tecnologia, vejo a minha cidade retroceder no tempo e ser assolada por uma epidemia como nos tempos do Oswaldo Cruz. Naqueles idos, um mosquito, o Anopheles, transmitia febre amarela. Atualmente, um outro mosquito, o Aedes Aegypt, está matando crianças e provocando uma hecatombe nos hospitais públicos. Como ficamos nessa situação? De quem é a culpa? Vamos ter que nos queixar ao bispo?
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Está aí um bom motivo para mais um texto da seção “A origem das expressões de uso corrente”. Hoje trataremos da expressão:

Vá se queixar ao bispo!

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Costuma-se dizer isso a quem tem alguma reclamação e sabe que não adianta se dirigir a um órgão de governo. A origem da frase vem dos tempos coloniais brasileiros e, acreditem, é inacreditável! Esse tipo de coisa só poderia acontecer no Brasil...
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Quando o primeiro governador-geral brasileiro, Tomé de Souza, veio para cá e fundou a primeira capital, Salvador, em 1549, ele viu rapidamente o núcleo urbano crescer. Os portugueses que lá viviam assentaram suas roças, formaram um incipiente comércio, foram se estabelecendo. Tomé criou uma ouvidoria-geral, um servidor público que ficaria com a responsabilidade de ouvir as queixas da população e investigá-las. Escolheu para o cargo um certo Pero Borges. Acontece que as maiores queixas da população eram contra o próprio governador-geral (que nem era tão ruim assim, na verdade, foi o melhor dos três primeiros que o Brasil teve...). Como o Pero, além de corrupto até dizer chega, tinha o rabo preso com o Tomé de Souza acabava empurrava as queixas com a barriga, não investigando nada. Mais tarde, o rei de Portugal determinou que caberia ao bispo designado para o Brasil as funções de ouvidor.
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Vem para o Brasil o seu primeiro bispo, Dom Pero Fernandes Sardinha, para ser também o Ouvidor-Geral. Aliás, o Sardinha era mais corrupto que o Pero Borges, mas vou tratar disso em um outro post sobre as origens da corrupção no Brasil. Podem me cobrar.
Naquele início de colonização, mulher por aqui era artigo raro. Quer dizer, tinha índia pra dedéu e elas adoravam liberar a perereca para os lusos. Não respeitavam nem os padres jesuítas! Caíam matando mesmo. Mas os portugueses não queriam se casar com elas, só queriam fazer saliência com elas. Foi necessário importar mulheres de Portugal. Cataram um punhado de órfãs, prostitutas, prisioneiras, quem tivesse dando sopa lá em Lisboa e mandaram para cá (repararam no nível da mulherada que deu início ao povo brasileiro? Vocês não viram nada...).
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Como o intuito era povoar as novas terras, os homens portugueses queriam ter certeza de que as mulheres eram férteis. Daí pediam para fazer um test drive nas cachopas. Se elas pegassem filho, aí eles se casariam com elas. E pasmem! A Igreja autorizou! Liberou a moçada para comer a merenda antes do recreio! E foi então que aconteceu o inevitável: os gajos passavam o rodo nas meninas, elas ficavam prenhes e eles sumiam no mundo ou diziam que não queriam casar.
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O que restava à gaja barriguda? Ora, se queixar ao bispo! E o Sardinha mandava a guarda caçar e prender o fujão, o obrigando a se casar com a moça.
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Pois é. Quem fornicava, tinha que assumir. E hoje? Quando o governo, quando as “otoridades” f(@#$%&*)odem com a vida do cidadão. Cadê o bispo para a gente se queixar?
Se bem que no caso da dengue, estou certo de que não são somente os governos (municipais, estaduais, federal) os responsáveis pela disseminação dos focos de mosquitos. Esse nosso povinho é o principal culpado. Tanta campanha pela TV, Rádio, jornais, para se evitar criar ambiente para os mosquitos porem seus ovos e a imprensa vive mostrando caixa d’água destampada, garrafas e pneus com água parada nos quintais, vasos de planta cheios de larvas na porta de casa (vi no jornal a cara de babaca de um sujeito que ficou “espantado” quando mostraram um baita criadouro de aedes nas suas plantas, bem na sua varanda)... Contra essa falta de cidadania, nem o papa dá jeito!
M.S.

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Caros amigos, fiquei sabendo que quem mora em São Paulo, capital e interior, não teve como assistir ao programa do Sergio Britto. A Cultura retransmite parte da programação da TV Brasil, mas não todos os programas e, infelizmente, o “Arte com Sergio Britto” não é um deles. Mas, calma! Não vos desesperei! Um amigo gravou a entrevista em DVD e vai arranjar um jeito de dividi-la em dois blocos de 10 minutos para inseri-la no You Tube. Aí eu boto as telinhas aqui e quem não conseguiu ver vai ter a oportunidade. Fiquei muito feliz com o resultado. A minha entrevista ocupou metade do programa! Obrigado a todos que assistiram e aos que tentaram.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve Adoniram Barbosa e Demônios da Garoa contando um caso típico para se queixar ao bispo: “O casamento do Moacir”.

20 comentários:

cartassemselo disse...

OI Marco!

Euy não poderia deixar de passar por aqui, rsrsr....essa pagina já é uma das minhas favoritas.
Acabei de ler a pouco que se tomarmos duas gotas de própolis diariamente estaremos livres do perigo de ser picados pelo mosquitinho, acontece que o propolis tem em sua formula componentes que ao serem eliminados pela sudorese se tornam em repelente para o bichinho. Tomara que evite mesmo, porque a coisa ta feia hem. Faz assim você testa ai, e se ficar imune você me avisa tá. E que o sabor do própolis não é muito agradável. Mas fazer o que. Nem tudo é perfeito. E não adianta reclamar com o bispo não, que ele não resolve nada. rsrsr...

Um abraço

Giovanna Batini disse...

Ah! Eu já ia me queixar ao bispo, pensando que vc tinha dado a data errada...rsrsrsr... Ok, aguardamos sua postagem ansiosos, bjs
Giovanna Batini

DO disse...

Fiquei muito curioso com a sua promessa de novo post sobre o inicio da corrupção aqui na terrinha,MARCO.
Se bem que ,com tantas senhoras "nobres" vindo pra ca naquela época,muito já se explica dos inúmeros porquês sobre o nosso povinho.
Adorei!!

abração!!

Francisco Sobreira disse...

É, Marco, este país não tem mesmo jeito. Ainda bem que você nos dá mais uma lição da origem de expressões populares, com o humor e a irreverência de sempre. Um grande abraço.

benechaves disse...

'Só queriam fazer saliência com elas' é ótimo! Pois é, amigo, não sabia mais uma vez da origem desta expressão'cadê o bispo'. Vivendo e aprendendo. Mas, a corrupção, hein?, vem mesmo de muito tempo. E acho que vai também durar muito tempo. Não tem quem acabe, igual esse mosquitinho. Melhora um pouco e depois volta com a corda toda.Ironia do destino brasileiro: o ser humano sendo dominado por um simples mosquito.
Olha: não assisti ao seu programa. A minha TV à cabo não pega o dito canal que vc informou. Uma pena, pois fiquei esperando e nada...
Tem nada não: vejo depois quando vc dispuser o vídeo.

Um abraço...

Mimi disse...

Ah bom! já achei que estava louca de olhar na tela da tevê e não te ver!!!

mal posso esperar1

Ternuróvski, dei muita risada com teu post hoje!

Informação e diversão, tudo que um blog pode ter de bom!

beijocas estaladas na bochecha!

Samara Angel disse...

to triste até agora Marco ,nossa queria tanto te ver,pior que eu pego a tv Brasil,e cultura e nao passou o programa ,fiquei frustrada mesmo,nao entendi pq ,mas to ansiosa pra vc colocar o video viu,sou sua fã numero 1,te adoro,quando vai ser esse video espero que nao demore,,bjsss

Saramar disse...

Marco, você é realmente genial.
Esboçou um arco perfeito entre a irresponsabilidade atual e a dos moços do início da colonização, além de contar esse episódio delicioso da nossa história.
Hoje, infelizmente, se formos nos queixar ao bispo, ela provavelmente dirá que somos elite e que não há motivo de queixa neste país famoso por sua "saúde quase perfeita".

Infelizmente não vi o programa, mas como sei que sempre se repete, espero assistir e gravar.

De qualquer forma, você estará no you tube para sempre.

beijos

itiro disse...

É verdade, tem casos como esse do dengue que não adianta ir reclamar para o bispo nem pro papa. Mas o dengue, infelizmente, não é privilégio de países como Brasil. Aqui no chamado primeiro mundo, temos também o dengue, conhecido como WNV ou West Nile Virus, que aparece no verão, provocado por mosquitos, matando muita gente todos os anos.

Estou também esperando pelo seu vídeo com o Sergio Brito.
Um grande abraço!

Georgia disse...

Como nao se tem mais bispo para reclamar o negócio tem que ser por aqui via net mesmo.

Adorei o seu texto, super jovem, parece hilário, mas nao é.

E eu vim te convidar para fazer parte da blogagem coletiva contra o analfabetismo no Brasil. Exatamente para mudarmos juntos esse quadro, exatamente por nao termos bispos a reclamar...
Esse é um assunto que incomoda quando pensamos que esses números estao aumentando. A blogagem será dia 18 de abril. Qualquer coisa pode perguntar sobre a blogagem que eu te explico.

Vou gostar se você puder fazer parte. Acredito que você tenha muito para escrever sobre este assunto.

Obrigada

guiga disse...

Depois quero ver essa entrevista! Coloca no youtube mesmo!

Adoro vir cá e aprender! É maravilhoso!
Beijinhos *.*

Moacy Cirne disse...

Sem desmerecer o texto, claro, sempre muito bom, a ilustração do grande J. Borges vale por uma postagem. Abraços.

Dora disse...

Tudo de bom por aqui...Informação, imagens, música, texto agradável, puxão de orelha no "pessoal que não vê os mosquitos se proliferando...". É tudo Marco! É tudo de bom gosto.
Eu estou toda boba, porque vi você, muito bem visto, na minha TV que apresentou sua entrevista!
Mas, verei, de novo!
(E eu ainda "me queixo ao bispo", às vezes, quando reclamo do governo! rs).
Beijão, Marco!!
Dora

Claudinha disse...

Olá Marco,
infelizmente eu não pude ver sua entrevista, mas quando tiver no you tube avise a gente!
Adorei o texto e os pernilongos no créu foi hilário. Você sabe como conduzir sua crítica, como informar e nos divertir ao mesmo tempo. E vale lembrar que o brasileiro sempre pensa: comigo issonão vai acontecer e é aí que o bicho créu!
Beijos!

Luma disse...

Cheguei em casa e o programa estava acabando! Posta no ytb! é tão fácil!

Marco, a Claudinha tá de prova que na minha cidade - que ela conhece super bem - tem um palácio do Bispo. E desde criança eu penso que ir reclamar para o bispo, é mesmo reclamar para o bispo. Não sabia que era uma expressão popular.

Bom fim de semana! Beijus

Juliana disse...

Haja bispo para tanta queixa! E haja ação para tanta ausência de quem resolva!

adelaide amorim disse...

Entra século, sai século, e o Brasil continua parecido com aquele do tempo do Sardinha. As ssementes de mudança custam a crescer, se perdem no meio de tanta irresponsabilidade e malandragem, histórica e atual. Fazer o quê? O único jeito é continuar cada um a fazer a sua parte e tentar suprir o que muitos não fazem. O difícil é a gente não ficar ranzinza no meio disso tudo.
Acabei perdendo a entrevista com o Sérgio Britto, justamente na terça, por conta de problemas com pessoas amigas que precisavam de um help. Mas vou esperar o YouTube, viu?
Beijo pra você e um ótimo domingo.

Dominique disse...

Oi, Marco,

primeiramente posso te dizer que o seu texto fala muito do que eu estudo: História. Dizem que estudar História serve para compreendermos os erros do passado e não voltarmos a cometê-los. Infelizmente, as pessoas, principalmente no Brasil, têm memória curta. Se são capazes de esquecer a roubalheira e corrupção de alguns políticos ao ponto de reelegê-los ( como no caso do presidente deposto sob impeachment) imagine se não seriam capazes também de esquecer que a dengue não tem vacina preventiva e que uma epidemia é um risco constante. Parece que é só acabar a época de chuvas que todo mundo "esquece" água no pneu, na vasilhinha da planta e etc. Cobrar do governo, nós temos. Mas isso é responsabilidade de todos nós.

Outra coisa, você sabe que fim levou o bispo Sardinha, não?

Se não sabe, eu te conto:
ele foi devorado pelos índios depois do naufrágio da embarcação em que estava. Falava tão mal de nossa terra que virou comida daqueles que considerava selvagens.

Um abração e vou ficar torcendo para o seu post com a entrevista ser colocado aqui logo. Não pude assistir (de qualquer forma) porque tinha aula na facool no dia. Mas deve ter sido ótimo.

Um abração, querido, e boa semana!

Mimi disse...

Saudades, Ternurinha...

muitos beijos, amigo meu!

Marcos disse...

Hoje até os bispos estão na desconfiança geral e o papa não é lá muito querido por essas plagas.