sábado, fevereiro 09, 2008

Os vigaristas


Eu abro os jornais e vejo a seção política, a seção econômica, vejo a lambança que o Bush anda fazendo nos EUA e no mundo, vejo as trapalhadas do Luiz Ignácio e a sua turma do cartão corporativo por aqui (aliás, já descobriram gastos esquisitos nos cartões corporativos do governo paulista, o que prova que a natureza humana não falha...), leio sobre o descaramento do prefeito Cesar Maia e penso: “Mas que vigaristas! Os eleitores que votaram nesses caras caíram num belo conto-do- vigário!”
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Pois é. Aí eu lembrei que sei a origem desta expressão. Então, afivelem o cinto que lá vamos nós para mais uma seção: “A origem das expressões que usamos, mas não sabíamos a origem”. Vamulá!

Cair no conto-do-vigário.

E por tabela, descobrir de onde vem o vigarista (que nem o Dick...), ou seja, o que aplica o conto-do-vigário.

Bem, como se sabe, a expressão significa ser enganado, iludido. No Aurélio: “Embuste para apanhar dinheiro, em que o embusteiro, o vigarista, procura aproveitar-se da boa-fé da vítima, contando uma história meio complicada, mas com certa verossimilhança”. Se cair no conto-do-vigário significava tão somente entrar de gaiato em alguma trapaça em que um espertinho conseguia tirar dinheiro de alguém, usando um estratagema qualquer, posteriormente, a expressão passou a ser sinônimo de ser ludibriado, em qualquer situação. Como votar naqueles camaradas, por exemplo.
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Mas, de onde veio esta expressão? Pois é. Como costuma acontecer com tudo o que é muito antigo, há mais de uma explicação para a frase. Contudo, mais de um pesquisador concorda que a origem mais conhecida e plausível é a que envolve a disputa entre dois vigários de Ouro Preto (no tempo em que ela se chamava Vila Rica), no Século 18. Um pertencia à Igreja de Nossa Senhora do Pilar; o outro à de Nossa Senhora da Conceição. Ambos estavam disputando a mesma imagem da Virgem Maria.
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Foi quando um dos vigários, o da Igreja do Pilar, fez a seguinte proposta: amarrariam a santa num burro que estava por ali, solto na rua. O animal seria levado para um ponto eqüidistante das duas igrejas. A paróquia para onde o burro se dirigisse ficaria com a imagem.
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E assim foi feito. Amarraram a santa, levaram o burro para o tal ponto, soltaram o bicho... expectativa, suspense... E o burrinho seguiu para o lado da do Pilar, que ficou com a imagem. O outro vigário acabou se conformando. Só que mais tarde, ele descobriu que o burro era do vigário da igreja do Pilar e que era ensinado a voltar para lá, sempre que se afastasse. Ele tinha acabado de cair no primeiro conto-do-vigário da História!
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Mas uma expressão tão usada como esta não poderia ter só uma explicação. Em Portugal, tem outra. Dizem que por lá, no Século 19, dois homens chegavam numa cidade se dizendo emissários do vigário. Vinham com uma mala enorme, que afirmavam conter muito dinheiro, fruto das doações de fiéis ao longo do caminho. Segundo eles, o vigário tinha pedido que deixassem a mala naquela cidade e seguissem viagem, arrecadando mais doações. Depois, o padre enviaria uma pessoa para pegar a mala. Só que os dois homens falavam que se sentiam inseguros em deixar tanto dinheiro com estranhos, sem uma garantia. Aí, eles pediam uma quantia aos moradores, que garantiria que eles não iriam se apropriar do dinheiro da igreja. Quando o vigário chegasse, ele ressarciria os que tinham dado a grana usando o próprio conteúdo da mala. Como eles falavam em nome do vigário, o povo concordou e os otários, quer dizer, os fiéis deram o dinheiro para os caras. Obviamente, eles sumiam, ninguém nunca mais sabia do paradeiro deles. Quando os tolos abriam a mala, encontravam lá papel velho, penico, tocos de madeira, só bugiganga. Com isso, a fama do vigário ficava mais suja que pau de galinheiro. E este padre pelo menos, até onde se sabe, era inocente. Parece que muita gente caiu nesse conto-do-vigário.

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Pessoalmente, eu acredito nas duas versões. Elas não são excludentes. Pode ter havido o golpe do burrinho no Brasil, e o golpe nos burrinhos de Portugal. O que não falta é esperto nesse mundo.
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Aliás, por falar em burrinho, quando eu estive em Ávila, na Espanha (a propósito, uma cidade adorável; eu moraria lá sem a menor dúvida!), descobri uma outra história com bicho no meio. Mas desta vez, sem conto-do-vigário. Foi assim: quando San Pedro del Barco (um santo espanhol) morreu, no ano de 1115, houve uma disputa sobre o local onde ele deveria ser enterrado. Um garoto deu a seguinte sugestão – que o corpo do santo fosse colocado em uma mula. Aí se vendariam os olhos dela e a deixariam seguir. Onde ela parasse, ali seria o local da sepultura do santo. Colocaram o presunto, digo, o defunto na mula, taparam os olhos do bicho e saíram atrás dela. A mulinha andou, andou, até chegar em Ávila, onde entrou na Igreja de San Vicente. Ali ela parou e...cataplaf!... caiu mortinha.

O santo foi enterrado na cripta da igreja, junto com São Vicente e suas irmãs (veja a cripta na foto que eu tirei).
E isso não foi lenda, não. Eu vi a cripta, e mais importante: vi a marca da patinha da mula no chão onde ela estrebuchou e caiu (veja a foto; eles colocaram uma grade em cima). Dizem que a mula foi enterrada nas magníficas muralhas, em frente à igreja. Há até um ponto em que asseguram estar a cabeça dela.

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Eu até faria uma proposta semelhante: que a gente pegasse o Cesar Maia, o Luiz Ignacio, o ministro tapioqueiro, a ministra do cartão nervoso, o Bush, o Chávez, o Evo Morales, o Osama bin Laden e todos os políticos vigaristas (do PT, do PSDB, do DEMO...), os amarrassem em uma mula de olhos vendados e a soltássemos no deserto do Sahara. Onde ela parasse a gente enterrava todos eles. Eles nem precisavam morrer. Pode ser agora mesmo.
O que vocês acham?
M.S.

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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Você abusou”, com Maria Creusa.

23 comentários:

Your Soul disse...

Pois é Marco, fico um tempo sem ler ou saber das notícias, e quando resolvo saber vem umas sandices dessas, é demais!
Beijo

fabiana disse...

Oi Marco!
Tudo bem?
Não sabia como tinha surgido essa expressão " conto do vigário".
Boa idéia essa de levar essa galera para o deserto do sahara! Rsrsrs!
Adorei a charge! Rs!
Muito boa!!
Um beijo!

Claudinha disse...

Olá Marco!
Bem, a primeira versão eu já sabia, é claro, mas a segunda não. Mas eu gostei demais de saber sobre a história da mula lá da Espanha, achei interessante. Quanto aos políticos, eu prefiro não escrever nada pois eu acabaria sendo mal educada.
Beijo!

luma disse...

Menino, tô vindo lá da roça! Estava completamente alheia as últimas trambicagens do governo Lulla. E a expressão "conto do vigário" assim como a Claudinha, só conhecia a primeira versão :=))) Beijus

Francisco Sobreira disse...

Caro Marco,
Mais uma lição que aprendo e com o seu estilo inconfundível. Não conhecia nenhuma das versões para a origem do conto do vigário. E assino em baixo a sua sugestão sobre os nossos vigaristas da política. Abraço.

Zeca disse...

Meu caro amigo Marco,

após tanto tempo, estou retornando e inaugurando um novo blog: Janelas do Zeca. Mas não me confunda com a mula de Ouro Preto, nem com a de Ávila... risos. Mas dou a maior força pra enviar toda essa cambada pro Sahara e ainda sou capaz de ir bater com a pá sobre o túmulo deles pra ter certeza de que nenhum conseguirá sair vivo.
Enorme abraço.

benechaves disse...

Marco: muita novidade por aqui, hein? Boa a sua peça, pena que não conseguiu patrocínio. Espero que com o sucesso do seu livro você consiga logo. Não conhecia tb a origem do chamado 'conto do vigário'. Excelente texto com o seu humor natural.
E nossos políticos? Seria bom mesmo uma viagem dessas e que os deixassem no Saara sem água e pão. Apenas que eles se devorassem entre si.

Um abraço...

Lena Gomes disse...

Me segurei até o fim do jogo, pra poder "saborear" o comentário... 4 a 1, e não adianta dizer que foi o time reserva do seu Menguinho, o meu Pavunense deu show... hahaha... Fluzão até debaixo d'água, sem luz, com luz, com reservas, sem reservas... o que vale é o amor... eu sou é TRICOLOR!!! E vamos pro próximo! Beijos.
PS. Ainda não li o post... vim só responder seu "comment" hehehe...

Janaina Staciarini disse...

Ai, Marco! Adorei as histórias do conto do vigário. E do Dick Vigarista eu amava quando ele dizia: Mutleyyyyy faça alguma coisaaa e u Mutley dava aquela risadinha beeeeem sarcástica. A história do sepultamento do San Pedro também é interessante. Só fiquei com pena da mula. Tadinha. Viajar um tantão pra morrer.
Quanto a seguir o exemplo com nossos políticos... bem, vamos preservar nossa fauna né?

ฑคh disse...

Caracaaaaa... muito rox seu blog!
=D
Super criativooooo! A cada post me informo mais... e dou muuuuuita risada!
Ah... kuando for amarrar os políticos no burrinho, me avisa q eu vou tirar fotenhaaas!
ausuauhsuahuhsuahuhsuaus
bjin...

DO disse...

Adorei saber as origens,MARCO.
Nem passava na minha cabeça algo assim. Vc sempre com coisas muito interessantes.

Abração e uma otima semana.

http://www.ramsessecxxi.blogger.com.br/

DO disse...

Adorei saber as origens,MARCO.
Nem passava na minha cabeça algo assim. Vc sempre com coisas muito interessantes.

Abração e uma otima semana.

http://www.ramsessecxxi.blogger.com.br/

guiga disse...

Voltei das minhas queridas férias! lool
Estava com saudades de te visitar!!! Tanto tempo sem ler todas estas histórias maravilhosas!
Voltei com a pica toda! lool

Beijos!!!

p.s.- Então, já aproveitaste a expressão, "estou em pulgas"? loool

mario disse...

É vir aqui e aprender um pouco mais. Essa do conto do vigário é novidade para mim. Gostei da sua proposta final, mas desconfio que os envolvidos nela não aceitarão participarem...rs. Boa semana, Marco.

ฑคh disse...

auhsuahsuhahsuha (risada... se bem q noon acho q eu rio assim... rio??? tah...)
xD
Acredite, rox eh um elogio... qr dizer q seu blog tem fundamentoe e/ou agitado... ah depois eu explico essa teoria q eu e minha amiga inventamos (com fundamento!)
Muito ROX seu blog!!!!
=D
bjin...

Isabella Kantek disse...

Caramba, eu não conhecia nenhuma versão. Que vergonha...mas agora fica até fácil imaginar os vigários discutindo e tentando resolver a situação da santa, coitada. Adorei!
Obrigada pelas palavras queridas no Desme. É sempre bem-vindo!
Abraços.

Erika disse...

adoro esses seus posts explicativos sobre expressões populares.
a do conto eu já conhecia, muito interessante.

e eu concordo, aliás, poderíamos poupar as pobres mulinhas e manda-los amarrados pelo deserto a pé mesmo, né? rsrs

beijos

"Oncotô? (Erika)"

Renata disse...

pra variar eu nunca sei de onde vem as expressões mesmo...rs..rs...
Agora a proposta de mandá-los para o deserto tem todo meu apoio!
bjos!!!!

Lino disse...

Marco:
A história do vigário de Ouro Preto já tinha lido, a de Portugal, não. As duas são ótimas.
Quando aos espertalhões, o povo é sempre enganado.

simone disse...

Muito boas estas historias Marco. Mas a melhor mesmo foi a da burrinha. Por mim pode executar rsrs...e nem precisa ser no Sahara.

bjs

maristela disse...

Marco. Fazia tempo que você não nos dava uma colher de chá com estas pesquisas que eu adoro.
Aliás, você já contou aqui a origem da expressão pra inglês ver?
Conta do seu jeito, é muito melhor que ler em livro.
um beijo

Márcia(clarinha) disse...

Já tá tudo certo aqui rumo ao deserto, só falta empacotar os safados...
Adorei saber sobre o conto do vigário, genial.
Amigopratodavida, o ano começou afinal e torço para que seja de imenso sucesso para você, com amor e carinho nos dias felizes...
beijos

Só Magui disse...

O pior é o ato que merece a máxima.Sua pesquisa foi muito interessante.Em tempo: vijar para a Espanha é a glória total.
http://somagui.zip.et