sábado, fevereiro 03, 2007

Muito saliente


Noutro dia, estava eu num ônibus e duas mulheres conversando atrás de mim, contando uma história de um sujeito que seduziu duas irmãs (sim, eu fiquei ouvindo; como disse o grande autor que eu tanto admiro, Dalton Trevisan, todo escritor é uma espécie de “vampiro de almas”, sempre à espreita por uma história, uma tema, um mote). Na verdade, não há exatamente novidade hoje em dia em saber que um cara passou o rodo em duas irmãs. Vivemos tempos complicados, moralmente falando... Mas a história me fez lembrar de um texto para radionovela que escrevi em 2002, no tempo em que eu e outros atores gravávamos novelas para uma rádio comunitária daqui do Rio. Quem me acompanha há mais tempo sabe que coisas do Rádio são minhas antigas ternuras.
Acho que eu já postei este texto aqui há tempos atrás, mas não tenho certeza e estou com preguiça de verificar. De qualquer forma, ele está aí para quem não o leu.

O SEDUTOR
Um original de Marco Santos

Personagens: Zé Manduca, Mirinha, Fina, Santinha, Compadre Gervásio, Sô Candelário e Narrador

NARRADOR – Zé Manduca tinha dois grandes prazeres na vida. O prazer da cama e o prazer da mesa. Exatamente nessa ordem. Era o maior sedutor do vilarejo de Espinhaço. Tinha chegado há um mês e já cobiçava e era cobiçado pelas mocinhas donzelas do lugar. Especialmente pelas filhas de Sô Candelário. Ele só deixava de pensar em mulher quando se entregava ao pecado da gula. E se lhe perguntavam qual o prato preferido ele tinha a resposta na ponta da língua:
ZÉ MANDUCA – Prato grande, de preferência, fundo.

NARRADOR – Mas naquele momento, seu interesse era Ramira, a Mirinha, filha mais velha de Sô Candelário. Moça bem feita de corpo embora de rosto anguloso e imperfeito. Para dizer a verdade, ela era feia que nem o cão chupando manga de aparelho nos dentes. E Zé Manduca se importava com isso? Cercava a moça na saída da missa.
ZÉ MANDUCA – Como vai a senhorita?
MIRINHA – Ri, ri, ri...Como Deus quer, Seu Zé Manduca...Ri, ri, ri...
ZÉ MANDUCA – Seu, não, nosso, Mirinha...
MIRINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E com essa conversa de cerca-lourenço, Zé Manduca faturava mais uma...A próxima vítima, quer dizer, conquista, seria a segunda filha de Sô Candelário – Josefina, a Fina. O apelido lhe fazia justiça. Além de ser um diminutivo do seu nome, esclarecia sobre as dimensões de seu corpo. Era magra como se doente fosse. Uma verdadeira tábua de passar roupa, embora tivesse um rosto agradável. Embora parecesse uma vara de virar tripas, era viciada em doces. Zé Manduca foi cercá-la na vendinha do Bebelo.
ZÉ MANDUCA – Um pirolito pelos seus pensamentos...
FINA – Ri, ri, ri...Eu já tenho o meu confeito...E não estou pensando em nada...
ZÉ MANDUCA – Nem em mim, ingrata?
FINA – Ri, ri, ri...

NARRADOR – Mais uma marca na coronha do revólver, quer dizer... ah, vocês me entendem! A mira do artilheiro agora estava voltada para Horácia, a Santinha, a filha caçula de Sô Candelário. Muito carola, os bebuns da bodega do Bebelo duvidavam que ele conseguisse conquistar mais essa virgem. A moça era um tanto gordota, vivia de negro e de véu, sempre com terço e livro de orações na mão. Mas Zé Manduca confiava no próprio taco. Dentro da igreja, durante uma novena, o sedutor rezava contrito: olho no santo, olho na beata. Na primeira oportunidade, escorreu para perto de Santinha.
ZÉ MANDUCA – Acabei de fazer um pedido à São José. Que o meu santo amolecesse o seu coração, que não tem piedade de quem lhe vota amor e respeito.
SANTINHA – O senhor pediu a São José? Amolecer o meu coração?
ZÉ MANDUCA – Quero vê-lo molinho, como broinha de fubá mimoso...
SANTINHA – Ri, ri, ri...
NARRADOR – E o Paraíso perdeu mais uma virgem para aquele demônio de boa lábia. Em pouco tempo, Sô Candelário descobriu que a desgraça tinha feito a perdição de suas filhas. Estava ele se lamentando para o seu compadre Gervásio, quando este lhe fez a pergunta de chofre:
GERVÁSIO – Ô compadre! O diabo desse homem vem e faz mal às suas filhas. Na sua família não tem homem não?
SÔ CANDELÁRIO – Tem, compadre Gervásio, mas ele não quer. Ele só quer as mulheres!
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo o grande Lua, Luiz Gonzaga, com Fagner, num pot-purri de forrós. Oi... Coisa boa!

23 comentários:

cilene disse...

Vai ser gostoso assim na caixa prego...rsrs...bela historia...tambem acho que um escritor deve ouvir as historias especialmente do povo..

Lili disse...

Pra aqui tá tudo de bom: forró e história saliente e de ótimo ritmo. Escrevi algo sobre assunto - sem a sua maestria, claro - no dia 27/04/2006. Chama-se "Entre irmãos". Dá uma olhada. Um beijo e ótimo domingo!

DO disse...

Uauauauau,esta resposta eu jamais ia esperar,MARCO.
Muito bom!!

Otimo domingo à vc.
Abração!

Bruxinhachellot disse...

Muito show! Confesso que estive ausente e não vinha lendo seu blog.
Esse Zé Manduca heim!

Beijos de mar.

Claudinha disse...

Olá Marco!
Gostei muito da radionovela. Me diverti com o cara, muito 171... Sabe que Trevisan está certíssimo, é a famosa comédia da vida...
Um beijo!

_Maga disse...

Marco!!!! Que texto delicioso!!! Uma pena que não deu pra ouvir... fiquei imaginando as falas...

Quem sabe um dia você não se anima a fazer um podcast de algumas dessas perolas?

beijos grandes, e uma semana deliciosa pra ti

celina disse...

adorei, marco, simplesmente adorei: idéia, construção, fluidez, fechamento, tudo nota 10!
e obrigada pelas mensagens gentis que tem deixado no neurotóxicos. beijo e carinhos.

adelaide amorim disse...

Marco, de volta das férias e querendo matar saudades, adorei a história e a referência a Trevisan, que também admiro. Pode aparecer que já tem gente em casa, viu? Um beijo.

lucio disse...

Ha hahahhaha (vezes oito deitado). Parece a do galinho chileno(não sei porque chileno). Valeu, Marco.

Alê Barros disse...

Querido Marco,

Acho que esse foi um dos textos que mais gostei por aqui...excelente...e divertido!!!
Fiquei imaginando cena por cena e até a cara do danado comedor de virgens...kkkk
Beijos e linda semana!

Lino disse...

Marco:
O homem não perdoava ninguém, mesmo. Além de um texto ótimo, você achou as ilustrações perfeitas para as filhas do Seo Candelário.

Anne disse...

Oi, Marco!

Esta história de cara que fica com irmãs é mais comum do que deveria. Um dia, estava conversando sobre isso com meu ex-namorado (quando ainda atual), dizendo que jamais admitiria uma coisa dessas. Na festa de fim de ano da empresa do meu pai, ele foi comigo e quando viu minha irmã (ele não a conhecia) disse "já fiquei com esta menina". Eu quase morri! Olhei para ele e falei "É MINHA IRMÃ!". Ele, muito sem graça, só conseguiu dizer "sabe como é, né? BH é um ovo. Mas eu posso ter me enganado... ou não". Perdeu a oportunidade de ficar calado.

Adorei seu texto!!

Bjão!!

Bosco Sobreira disse...

Grande Marco!
Que delícia de texto, tanto o preâmbulo quanto a radionovela. Já me reportei aqui, mas não custa repetir, a importância de teu bom-humor. Você deve ser aquele cara que ninguém quer que falte ao papo de final de semana, do final de tarde.
Bem, estava pensando o quanto seria interessante ter esse texto sonorizado. Será que vc. não tem aí uma versão em mp3? Gostaria de ouvir teu talento de ator também.
Forte abraço, amigo.

Jéssica disse...

Saudades de vc e dos teus textos, esse pra variar, muito bom e hilário e o som, tb...rs... classe A...

Criei mais um blog?
http://umlugargostoso.blogspot.com

Beijos*.*

Blogue da Magui disse...

Gostei. mas as figruas estão de lascar!!!

Eärwen Tulcakelumë disse...

Olá Marco!
Adorei!!!! Muito bom mesmo e o fundo musical nem se fala.
Gosto de vir aqui!!!
Pérolas incandescentes em forma de beijo.
Eärwen
07.02.07

Moacy disse...

Muito bom, cara, muito bom. Não conhecia o texto. Parabéns!

Lena Gomes disse...

Hello, Sweet Marco! Congratulations!
Mais um texto delicioso, e com trilha sonora da melhor qualidade! Adorei a foto das "meninas donzelas"... hahaha... foi bom pra fechar a minha noite.
Olha, já respondi seu último comentário lá no Penedo, ok?
Beijinhos!

luma disse...

ri...ri...ri...ri muito com esse texto aqui, imaginando as moçoilas. Ainda não tinha lido o texto!!
Marco que saudade das suas histórias, das suas antigas ternuras!!
Beijus

Saramar disse...

rsrsrsrs...
Menino, é uma delícia esse seu jeito de contar histórias.
Mas que homem saliente, não???
Conquistou até o pai? (risos).

ADoro esse blog, demais!

beijos

Renata disse...

hahahhaha Descobri que sou uma vampira de almas então, pois eu adoro e sempre ouço a conversa alheia!!!!! Acho interessantíssimo, um mega laboratório... mas se quiser pode me achar só "inxirida" (esqueci como escreve) mesmo!!!
Bjo!

Alê Barros disse...

Fala querido,

Só passando pra ver se já tinha coisa nova...
Fico esperando.
Beijocas

Bel disse...

Hahahahahahahaaaa
Pena que não li isso aqui antes... Es faço "Rádio e TV"... e semestre passado tive que escrever tanto pra rádio que cansei a criatividade! Adorei a história... posso usar, se ainda precisar? Com os devidos créditos, é claro!
Bjo!