terça-feira, janeiro 23, 2007

A História tem cada história!


Quando ministro minhas palestras por aí, sempre digo que a disciplina História não é inútil ou que ela leva as pessoas a decorebas sem sentido. Aliás, nenhum professor de História atualmente bota seus alunos para decorar nada.
A função da História é explicar fenômenos de nossa realidade e proporcionar reflexões sobre eventos que ocorrem nas sociedades, pois, como eu costumo dizer, quem despreza o seu passado, se perde no presente e não constrói o seu futuro. Ela não é absolutamente estática, muito pelo contrário. Se na Matemática 2+2 será sempre igual a 4, na História, nada é definitivo.
Certa vez, eu estava fazendo uma palestra em um Teatro e perguntei à platéia: “Na frase: Pedro Álvares Cabral foi quem descobriu o Brasil, tem quantos erros?”
Um ou outro arriscou alguma coisa. Aí eu expliquei quantos erros efetivamente havia na sentença.
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Eu não sou historiador. Infelizmente, pois adoraria sê-lo. Sou jornalista e ator, mas sempre fui apaixonado pelo estudo da História. Desde que aprendi a ler e ficava fuçando no Tesouro da Juventude de meu tio e no Lello Universal de meu pai (herdei as duas enciclopédias), buscando sempre conhecer fatos históricos. Ainda novinho, lia a Bíblia não por conta de razões religiosas, mas para tomar conhecimento daqueles fatos incríveis narrados ali.
Portanto, estudar História é minha paixão, minha antiga e eterna ternura. Atualmente, como já disse aqui, trabalho em um projeto ligado à pesquisa histórica. E para mostrar a vocês que o estudo desta disciplina não é uma coisa chata, começo aqui mais uma seção fixa do Antigas Ternuras: “A História tem cada história!”, onde vou contar fatos históricos pitorescos, unindo conhecimento e entretenimento, com as habituais doses de humor.
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E começo, justamente, explicando quantos e quais são os erros da frase lá de cima, sobre o descobrimento do Brasil.
Tem, no mínimo, três.
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Tecnicamente, o Brasil não foi descoberto. Uma terra só pode ser descoberta se não for habitada. E aqui (e na América como um todo) existiam trocentas nações indígenas, em diversos graus de cultura e desenvolvimento. O certo é dizer que o Brasil foi achado, encontrado (e invadido, ocupado) pelos europeus.
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O segundo erro dá conta de que o nosso querido Pedro não foi o primeiro a pisar nessa terra brasilis. Na verdade, nem o segundo, nem o terceiro.
Comprovadamente, o primeiro europeu a pisar em solo que seria futuramente chamado de Brasil, foi o português Duarte Pacheco Pereira (esse aí na foto, a direita), que aportou em algum ponto entre o Pará e o Maranhão, em 1498 (esse fato, só foi revelado recentemente pelos portugueses). E, meses antes de Pedro Álvares chegar aqui, o espanhol Vicente Pinzón esteve no que hoje é o Ceará, em janeiro de 1500 (dizem que também esteve no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, mas historiadores acham improvável). E, neste mesmo ano, outro espanhol, Diogo de Lepe, esteve na foz do Amazonas. Tudo isto está plenamente documentado, não são lendas. Mas, por tradição, ninguém vai tomar de Pedro Álvares a chancela de ser o primeiro a achar as novas terras a oeste d´África, mesmo se sabendo que o nosso velho Pedrão, no máximo, é o responsável pelo achamento da Bahia... Mas, certamente, ele não tem culpa nenhuma da axé music, nunca mandou ninguém “sair do chão”, nem “jogar as mãozinhas pro alto”.
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E o terceiro erro da frase está no próprio nome do gajo. Quem esteve no Brasil foi o fidalgo português Pedro Álvares de Gouveia (o barbudo aí da foto à esquerda). Ele só teria “Cabral” no nome a partir de 1515. Eu explico.
Naquele tempo, só o filho primogênito tinha direito ao sobrenome do pai. A razão disto era evitar brigas e o enfraquecimento do poder familiar. No caso do clã Cabral, caberia ao primogênito o sobrenome, o título de senhor de Belmonte e as propriedades da família. O filho mais velho era João Fernandes Cabral e só com a sua morte, em 1515, o nome, o título e as terras passaram para o filho homem seguinte, Pedro Álvares.
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Vocês poderiam perguntar: “Mas por que a gente não aprendeu isso na escola?”, e eu candidamente responderia: “Não tenho a menor idéia”. Como não entendo o motivo destes fatos ainda permanecerem ocultos das aulas de História do Brasil (se algum professor que me lê explica isso atualmente pros alunos, me perdoe).
Numa visão eurocêntrica, ou seja, centrada na Europa, na civilização branca, que deteve por muito tempo a cunha de “História oficial”, era preferível dizer que se estava “descobrindo” novas terras para serem colonizadas e cristianizadas (ô... Eles tiveram uma atitude muito cristã...).
Os três navegantes europeus que aqui estiveram antes da famosa chegada de 22 de abril de 1500 não puderam divulgar suas descobertas por conta do Tratado de Tordesilhas, já que o português Duarte encontrou terras na parte espanhola da América do Sul e os espanhóis Pinzón e Lepe acreditaram terem avistado terras na banda portuguesa. E ninguém ali iria botar azeitona no bacalhau ou na paella de ninguém...
Na famosa Carta de Caminha, em nenhum momento ele cita o nome do Pedro. Só o chama de “o Capitão-Mor”. Quando retornou a Lisboa, depois do achamento das terras, Pedro Álvares se desentendeu com o rei D. Manuel I e caiu em desgraça no reino. Quando ele foi reabilitado (muito tempo depois), já tinha o nome de Cabral, e ficou assim conhecido pela História.
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Pois aí está o primeiro texto desta nova seção. O que vocês acharam?
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Minuete”, com o ótimo conjunto português Madredeus.

25 comentários:

Dira disse...

primeira?????


ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Dira disse...

agora, vou comentar. só quis garantir a pole. rs

amore. num sabia de nada disso. tá vendo como a gente fica mais sabindo no antigas ternuras? acho a historia fundamental na nossa vida. o homem sem passado, certamente terá um futuro duvidoso. há muitas coisas que não sabemos nesse mundão de Deus.

saudade de tu. sim, adorei o post de hje. e vim dizer que depois de mexer muuuuito no blog. consegui fazer um arranjo. mas prometo fazer um curso de html e wibsite. prometo.

Saramar disse...

Marco, achei excepcional, c omo tudo o que você escreve.
E não é historiador, hein??? Imagine se fosse.

Sempre gostei de história também. E agora, acho fascinante essa revisitação dos fatos, despindo-os do que você chamou de visão eurocêntrica.

Espero ansiosa, as novas "aulas", Mestre.

beijos

DO disse...

Particularmente eu adorei,Marco.
Que venham outras histórias assim. Tbem gosto muito de história e tenho me deliciado com as verdadeiras "revoluções" que a tal "história oficial" tem sofrido nos ultimos tempos.
Como diria o meu lado anarquista em ebulição: "eu quero é mais!"
Heheheh
Abração!

Vera Fróes disse...

Marco, o seu trabalho é belíssimo. Pode mandar mais que estou gostando muito.
Vc já lei os livros do Eduardo Bueno sobre a História do Brasil?

Bjos.

Giulia disse...

Salve, salve, querido amigo Marco!
Vim agradecer a sua passagem lá nos meus Temporais... apesar da chuvarada estava tudo em ordem - sem bolor ou poeira, já que vc abriu as janelas para arejar... obrigadinha!
Adorei a sua história da História: não tinha conhecimento que fôra assim! Que venham outras mais!
Muitas beijocas saudosas,
Giulia

Claudinha disse...

Marco, eu sempre detestei a história que ensinavam na escola. Mas amo de paixão aquela história que vivenciei nas ruas, travessas e ouvi dos sinos centenários (*). Tenho absoluta certeza de que é a forma como era ensinada que me desanimava. Se você fosse meu professor e explicasse as coisas assim, ah, eu adoraria a área de humanas! Eu não sabia dos erros das frases. Mas quanto às invasões, eu acho muito mais coerente com o que eu penso, acho ainda (sem comprovação de minha parte, li em algum lugar) que vários outros povos chegaram aqui antes dos grandes navegadores. Há relatos mas não sei descrever com precisão. Sempre aprendi com o meu revolucionário professor de história, hoje Cônego Simões da Igreja do Pilar em Ouro Preto, que a história sempre foi escrita para atender ao manda chuva da época, que pagava para que ela fosse escrita. Aprendi a Inconfidência mineira de outro modo e ele, apesar de muito polêmico, me ensinou a não acreditar em tudo o que estes livros (de lavagem cerebral, segundo ele) diziam. Se sou mais desconfiada que o normal,em parte devo a este homem.(A outra parte devo ao sangue subversivo da família, derramado nos porões da ditadura...)
A- do-rei minino, um beijão!

Samara Angel disse...

oieee,meu querido Marco,nossa que lindo adoro saber sempre mais,acho a historia do mundo um enigam ,sempre se descobre coisas que nunca imaginams existir, te adoro e deixo meu carinho a ti,e um lindo começo de semana ,muita luz em sua vida, bjss

Anônimo disse...

Adorei esse novo espaço do blog, história sempre foi uma das minhas preferidas matérias no colégio...
Qto ao post, muito instrutivo! Adorei mesmo!!!!!!

Vendetta disse...

ai, Ternurinha, adorei, adorei, adorei!
nunca achei história decoreba! bom, mas eu também nunca achei biologia decoreba... e ciência e história caminham de mãos dadas!
São coisas mutantes e lindas!
Lindo mesmo, só vc, querido!

beijão, beijão, beijão

Márcia(clarinha) disse...

E pensar que ficava sempre em segunda época[sim, eu assumo que no meu tempo era segunda época,rsss] em história, professores chatos, matéria irritantemente decoreba e sem graça....mas se todos fossem iguais a você, que maravilha teriam sidos os momentos de estudo...rssss
Muito, muito bom saber tudo isso dessa maneira gostosa de ler...amei!
lindo e feliz dia amigopratodavida
beijosssssssssssss

Lili disse...

Cada história mesmo, não? Nota 1000, Marco. Vamos aguardar ansiosos as novas postagens. Beijos!

claudia disse...

Oi
tudo bem querido?
Estou ótima.
Ah, eu também adoro história, sempre gostei. Ia super bem na escola justamente pq. gostava. Sem muita decoreba.
Mas sabe, tenho dificuldade em lembrar o que li. Estranho né?
Queria muitas vezes contar o que li até pq. tem coisas ótima, mas eis que dá branco.
Pode ser alguma dificuldade né?
sei lá
Um beijo querido.
No coração

Roby disse...

Incrível Marquinho, como a história brasileira está capenga não é?
Explicam pra gente tudo errado..rs
Aprenderam errado e até os dias de hoje passam informações errôneas da história brasileira..
E olha que se calhar, no mundo todo há erros de história, até na Bíblia, disso não tenho dúvidas.
*
*
Grande abraço querido amigo.

Maria Alegria disse...

Eheheeh!
Eu sou portuguesa e adorei a tua história! Beijinhos
Se puderes vê este novo grupo de música portuguesa:
http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&videoID=1210853515
São o máximo!

Wilma disse...

Adorei!!! bem interessante a proposta do post vou recomendar a minha filha. Só sabia que o Brasil não tinha sido descoberto, os outros detalhes aprendi agora. Obrigada!!!

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Marco,
Imagina se vc. fosse um historiador, no sentido acadêmico do termo. Historiador e dos bons, no sebtido de contador de histórias e História.
Muito obrigado pelas lições contidas em seu texto, delicioso como os demais.
Forte abraço, e muito obrigado pelas visitas e a generosidade dos comentários.

Anônimo disse...

Extreiando no blog.rs

Adorei seu blog. Bem completo.
Gostei tambem da Midia que vc coloqcou de fundo.Linda.
Gosto muito de história, mas muito mesmo. Já até quis fazer cursos relacionados com história, mas optei por outros cursos.....
Imagine se você fosse ser hitoriador hein??? hehe! Meu rapaz que habilidades você tem hein! E um poder enorme pra contagiar o leitor......
Abraços

Francisco Sobreira disse...

MARCO.
Quando estudante (há "trocentos" anos), História era a minha disciplina preferida. E, na minha época, parece que no segundo ano ginasial, se estudava História da América, além da do Brasil e Geral. Gostei dessa nova "seção" em sua casota. E veja você: nunca me ensinaram que o descobridor (vá lá o termo) não tinha Cabral no nome. E, naquela época o nível de ensino era incomparavelmente melhor do que o de hoje em dia. Um grande abraço.

Anônimo disse...

Eu acho que sou muito desinformada, e você é um "sabão"* de primeira!! (* aquele que sabe muitão). Beijocas!

Cherry disse...

Olá, MArco! Jura que vc não é historiador??
Olha, qdo eu estava na quinta série (rs) lembro que meus professores já diziam que o Brasil não foi "descoberto". E lembro vagamente da dessa parte da história em que Cabral não era Cabral qdo aqui chegou. Agora, saber que ele não foi o primeiro europeu a chegar em nossas terras, disso eu não sabia...
Blog tb é cultura! E a gente, aqui, com vc, aprende de forma divertida, pois a forma como vc conduz o texto é fascinante!

Beijos, Marco!

Moacy disse...

Meu caro, aproveito para contar uma do Mestre Cascudo, quando, então, era professor de História do Brasil no Atheneu Norte-Rio-Grandense. Numa dada prova, só colocou uma questão: Quem (e como) descobriu o Brasil. Todos responderam segundo o figurino oficial. E todos recberam do Mestre generosos 9 e 8. Todos, vírgula. Houve uma exceção: um aluno respondeu que o Brasil fora "descoberto" pelos marcianos. Mestre Cascudo não teve a menor dúvida: sapecou-lhe um exuberante 10, o único da turma, para espanto geral. E depois deu uma aula sobre a necessidade da ousadia e da surpresa. Um grande abraço.

Marco disse...

Queridos amigos, Adorei a visita e os gentis comentários de todos vocês. Por conta de meu tempo cada vez mais escasso, não vou poder respondê-los. Eventualmente à alguma questão, darei a resposta no próprio blog de vocês quando visitá-los. Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim.

Eärwen Tulcakelumë disse...

Acho que só quem ama realmente o que faz seria capaz, de mesmo sem "ser historiador" como você diz, de nos mostrar fatos tão importantes.
Muito interessante este passeio na história.
Um pérola incandescente de forte abraço.
Eärwen

marconi leal disse...

São textos como este que me fazem ter o teu blog entre os meus preferidos, Marco. Delicioso. Abração.