segunda-feira, outubro 16, 2006

O pato e o paquete


Lá vamos nós para mais explicações espantosas sobre a origem de expressões que costumamos usar, embora não saibamos de onde vem. Quer dizer, não sabíamos. O seu blog Antigas Ternuras, preocupado com o seu bem-estar, está providenciando para que seus leitores aprendam sobre a origem destes ditos. Sinceramente, não sei como temos vivido sem saber dessas coisas. Já publiquei algumas aqui, quem me lê há mais tempo sabe disso. Pois hoje, falaremos de mais duas. A primeira é:

Pagar o pato

Segundo Deonísio da Silva, a origem da expressão é bem remota. Isto significa dizer que só Deus sabe quando ela apareceu. O que se conhece é que ela surgiu em Portugal, a partir de um jogo um tanto ou quanto sem graça. Mas que fazia a diversão da moçada naquele tempo. Era assim: num terreno descampado, amarrava-se um pato em um poste ou num pau fincado na terra. Quem quisesse entrar na brincadeira tinha só que vir a cavalo, num galope, e tentar cortar a corda com um único golpe de facão. Quem errasse mais vezes, pagaria o pato. Divertido, não é? Pois é. Os portugas de antanho não tinham TV a cabo, não tinham videogame, não tinham revista Playboy, nem transmissão de algum jogo importante, como Portuguesa contra o 15 de Piracicaba, para assistir nas tardes de folga... Precisavam arrumar algo para passar o tempo! Aí inventaram este empolgante folguedo. Nossa! Tinha até aposta! Que excitante, não?
*

Com o tempo, a frase decorrente deste jogo passou a significar algum ato pelo qual pagamos sem conseguir nenhum benefício. Esta expressão aparece em diversos textos antigos portugueses e mesmo em escritos brasileiros, como num de Gregório de Matos, que compôs a seguinte modinha para uma mulata:
Quem te curte o cordovão
Por que não te dá o sapato?
Pois eu que te rôo os ossos
É que hei de pagar o pato?

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Ah, vai... Diz aí que não gostou de saber disso? De qualquer forma, eu me esforcei para pesquisar essas coisas. Me deu trabalho. Alguém vai ter que pagar o pato!
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A outra expressão que trago pra vocês é:

Estar de paquete

Confesso que na primeira vez que ouvi esta expressão eu era menino, estava numa roda de rapazes e um deles falou algo como: “Ih, fulana está cheia de coisa. Acho que ela está de paquete”.
Lembro de ter perguntado: com mil tubarões, o que seria estar de paquete? Riram na minha cara. É curioso que no Brasil, terra de ignorantes, quando um confessa ignorar alguma coisa é ridicularizado. Um esperto tentou me explicar: “É quando a mulher tá com regra; tá sangrando, entendeu?”
Não, eu não entendi. Mas percebi que o cara também não sabia muito sobre o assunto. Naquele tempo, alguns temas eram tabu. Menstruação era um deles. Hoje, sei que quando a Johnson & Johnson lançou no Brasil o Modess, foi uma brabeira para fazer o comercial explicando que aquele absorvente íntimo vinha substituir as famosas toalhinhas para amenizar os incômodos mensais. Dizia-se, na época, que a mulher ficava “incomodada” naqueles dias de menstruação. Já no meu tempo, teve um comercial que entrava logo rasgando a lona: “Incomodada ficava a sua avó!”
Hoje em dia se fala em TPM e menstruação até no programa da Xuxa. Até a Rita Lee já cantou pra quem quiser ouvir: “Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra!”. Mas não era assim em tempos idos.
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Voltemos ao “estar de paquete”. Como surgiu esta expressão como sinônimo de estar menstruada?
Pois é. Diz o “pai dos burros”, o Dicionário, que “paquete = Navio veloz e luxuoso, ordinariamente a vapor, para transporte rápido e regular de passageiros entre certos portos”.

A partir de 1810, chegava da Inglaterra ao porto do Rio mensalmente um paquete sempre no mesmo dia. Com a bandeira vermelha inglesa a tremular no mastro. Algum gaiato fez a ligação entre o ciclo menstrual e a periodicidade dos paquetes com bandeira vermelha. Criou-se a expressão estar em paquete para designar os dias em que as mulheres também estavam com “bandeira vermelha” hasteada. Ao longo do tempo, a expressão se consagrou como “estar de paquete”. E se disseminou por todo o país. Certa vez, eu estava em Caxias do Norte, no Maranhão, e ouvi uma menina se referindo a outra como estando ela de paquete.
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Portanto, jovem leitora, quando você estiver em seus padecimentos mensais, saiba que existe uma imagem romântica entre o seu sofrimento e a regularidade de uma linha de barcos que vinham da terra do Fog, do chá das cinco, do Big Ben e das mulheres com a sensualidade de um saco de batata inglesa.
M.S.

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Como estou falando de um assunto tão “Carinhoso”, a Rádio Antigas Ternuras traz até você o próprio, pela flauta mágica de Altamiro Carrilho.

21 comentários:

Alê Barros disse...

Oi querido,

Então o Antigas Ternuras também é cultura...rs
Meu, eu nem imaginava o que significava a expressão pagar o pato, agora esse lance de Paquete´aí, eu nunca ouvi falar!
Adorei...texto e imagem ficaram perfeitos.
Beijos e linda semana.
tem post novo no Caraminholas.

Claudinha disse...

Olá Marco...

Pobres portugueses sempre pagando o pato... Eu já conhecia esta expressão, mas não sabia a sua origem e significado. Quanto ao tal "paquete", nunca tinha ouvido falar. Conheço outras expressões para estes dias e elas são muito utilizadas, mas não gosto delas, esta é mais amena. Quando era mocinha, eu me lembro de ter vergonha de comprar modess no supermercado, e se algum menino visse, aí meu Deus,que vergonha. Tudo por conta dos tabus e da criação. Hoje é tudo tão natural e euprocuro passar isto nas aulas e em casa.
Obrigada por me ensinar mais. Beijo grande!

nancy moises disse...

Eiii obrigada pelo carinho de sua visita, me desculpe a demora , estive uns dia fora da net, mas voltei e vim correndo matar as saudades.
Seu blog esta cada dia mais lindo.
bjs

Anônimo disse...

Marco, estou pagando o pato, porque não sabia o que era paquete e também nunca ouvi falar.
Imaginava que pagar o pato fosse uma expressão vinda das caçadas.
Coisa da terra de Carlos! (rs*) Boa semana! Beijus

Lili disse...

Marco, confesso que já sabia a origem do pato, mas quanto ao "estar de paquete" nem que eu soubesse ousaria lhe dizer tal coisa! Um pesquisa dessas vale ouro! A bem da verdade, creio nunca ter ouvido a expressão. Um "Carinhoso" beijo procê! Valeu!

Mut disse...

Huheuahuarhauehea... essa do pagar o pato é dureza. Mas o paquete é ainda pior. Como diria uma amiga minha , quem confia num bicho que sangra cinco dias e num morre?

Abração!

PS:Se possível , queria que trocasse o link pro PPP.

Márcia(clarinha) disse...

Marco queridoamigoparasempre
Hoje você foi fundo,aff!
Já paguei muito pato e sem nem saber o que significava, agora estou mais tranquila, se pagar sei onde cobrar,rsss
Quanto a expressão estar de paquete, sempre achei horrível, soa mal aos meus ouvidos, sei lá...quando eu era mais garota tinha uma música que cantavam [uma sátira] que falava sobre isso,eu tinha vergonha, terrível, argh!
Mas hoje em dia somos descolados e sem vergonha,ainda bem:)
Vir aqui é aprender e me deliciar com antigas ternuras!
linda noite querido
beijossssssssssss

Saramar disse...

Ô Marco, meu anjo, essa do paquete é fenomenal!

Eu adoro os brasileiros por essa criatividade imensa, às vezes sutil, às vezes nem tanto, mas que sempre tem um lado brincalhão e irônico.

Agora, a história do pato, ai, ai, que joguinho sem graça! Só a sua intervenção para tornar a história interessante.

Você é sempre o MAIS.

beijos
P.S.1 A música é maravilhosa!
P.S.2 Desculpe pelo "s" sobrando e obrigada por seus exageros maravilhosos no bloguinho.

Roby disse...

Pagar o pato,já paguei tantos Markito..rs
O origem desta expressão não conhecia,a brincadeira devia tomar o tempo dos portugas, divertindo-os.
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Ahh paquete!!!
Nunca ouvi falar...na minha época se usava outras expressões, que eu morria de vergonha.
Ia a escola toda cuidadosa, eu tinha a impressão que o mundo me cuidava e sabia..rs

Excelente post Markito!
Abraço grande.

Yumi Yabiku disse...

auHAUHuhahAHhahUAU NUNCA tinha ouvido falar em 'estar de paquete', meu querido!! ahuHUAUHahahhua mas adorei, vou até adotar a expressão! hahuahuhua ADORO essa sua série!! beijooooo

DO disse...

Marcos,é um enorme serviço de utilidade pública,sabia??
Sempre tive curiosidade,hehehe
valeu mesmo.
Abração e uma otima semana a vc.

M.Eduarda disse...

Oi Marquito!!! Já te disse que a sua forma de escrever me fascina? Pois é.. nem parece que é flamenguista! ho ho ho!
Adorei a explicação de "pagar o pato", quanto a "estar de paquete", tenho algo a confessar: NUNCA TINHA OUVIDO FALAR! hahahaha

besos (Estou de volta!!!)

Vera Fróes disse...

Marco, já cansei de pagar o pato, hoje, não é bem assim, fiquei mais esperta!

Quanto ao estar de paquete, nunca ouvi falar. É a primeira vez que tenho contato com a palavra. Gostei das suas explicações.

Bjos.

Anônimo disse...

Bem, estou criando coragem para lhe perguntar o significado de uma expressão. Ainda não tenho essa coragem! (rs*) Volto depois!! Beijus

marconi leal disse...

Marco, a tirar pelos dias de "incômodo" da minha mulher, creio que expressão mais apropriada seria "estar de porta-aviões" ou algo do gênero. Muito, muito bom o texto. Abração!

Jéssica disse...

Sensacional, vc me surpreende a cada texto. Paquete nunca ouvi, mas vivo pagando o pato. Ô dó deu...rs...
beijo*.*

Karine disse...

E, no fim, sempre algum bichinho tem que pagar o pato...
Será que você descobriria de onde diachos vem a expressão "estar devarde"?? Significa estar à toa, mas nunca consegui descobrir de onde surgiu... em SC o pessoal falava muito isso... levei uns 3 meses pra sacar o significado, acho qeu o Tico tinha congelado e o Teco estava hibernando...
Beijo!!!

Ana Carla disse...

Ô Marco... sempre adoro esse seu jeito de prosear! Eu já conhecia o "pagar o pato", mas você sabe me explicar de onde vem a expresão "pagar o mico"? rs... Beijão!

Zeca disse...

Marco,

muito boas as explicações dessas expressões. Pagar o pago, quem nunca pagou, não é? Eu já, e muitos. Mas não sabia de onde se originava. Quanto a estar de paquete, a primeira vez que ouví, aconteceu algo parecido com o que aconteceu com você. Acho que ficaram me gozando na escola durante uma semana. A mesma coisa aconteceu quando uma colega de classe sussurrou para outra que "estava ficando moça" e eu, que ouví de orelhada, fui perguntar para a outra garota o que significava a frase. As meninas quase me mataram...
Deliciosas lembranças este texto me trouxe. Obrigado.
E obrigado também pela música, uma das minhas favoritas desde sempre. Tanto quanto Fascinação...

Abração.

Claire disse...

Devidamente informada, Marco! (E olha q da segunda expressão eu nunca tinha ouvido falar.)

Marco Santos disse...

Querida Alê: Mas o Antigas Ternuras É cultura! Pelo tom dos comentários, todo mundo já pagou o pato em alguma vez. O paquete nem todos conhecem. Curioso... Ouvi tanto isso durante a minha vida...

Minha doce Claudinha: O portugueses foram os primeiros a pagarem o pato. Mas depois nós, brasileiros, pagamos também pela ave, já que todo mundo usa a expressão. Sobre os incômodos das mulheres, é verdade. No nosso tempo era um tremendo tabu. As moças morriam de vergonha de tratar disso em público. Coisas da Igreja, que trata sexo e funções sexuais como pecado. Ainda bem que professores como você tratam do assunto na escola, com orientações seguras.
Querida Nancy: Que bom que você se agrada de meus escritos.
Querida Luma: Terra de Carlos???? Não te captei a idéia, ó cachopa! Pode perguntar o que quiser, amiguinha! Se estiver com vergonha, pergunte por e-Mail.
Querida Lili: Fico muito contente por você apreciar minhas pesquisas sobre a origem das expressões de uso corrente. Já postei várias aqui.
Grande Bruno Mutante: Pois é... Mas eu confio nas criaturinhas sanguinolentas. Eu sou até apaixonado por uma delas... Ré! Ré! Ré!... Já troquei o link.

Marcíssima! Até que enfim alguém aqui conhece a expressão do paquete! Sobrou pra você! Pagou o pato!
Eu concordo com você. A expressão é chula e um tanto desagradável. Mas, temos que admitir, a sua origem é deliciosa. Depois você me conta que música é essa que cantavam...

Querida Saramar: Pois é, nosso povo é muito criativo, mesmo. Poderiam usar esta criatividade para coisas mais úteis... Obrigado pelos elogios! Vindo de você que é uma escritora espantosa, só me deixa mais que feliz.

Querida Roby: É, eu sei que existem outras expressões para indicar menstruação. Tem a do "estar de Chico", que eu ainda não consegui descobrir de onde veio. Que bom que gostou.

Querida parceirinha Yumi: Pois fique a vontade e use mesmo! Rá! Rá! Rá!...

Grande DO: Rapaz, eu sou fascinado por origem de expressões e palavras! E fico feliz por saber que o povo daqui também gosta. Volta e meia estou postando algumas. Na semana que vem coloco mais.

Que bom que retornou, querida Eduardinha! E nem vem com essa sua risadinha de Papai Noel, não, tá? Sou assim porque SOU rubro-negro, cidadão da Nação Rubro Negra, coisa de gente boa! Você é bacalhosa e membro das Forças das Trevas. Mas eu gosto de você mesmo assim. Que bom que gostou deste post.

Querida Vera: E querm é que não pagou o pato alguma vez na vida? Eu já paguei vários. E, pelo visto, vou continuar pagando...
Grande Marconi: Eu conheço as histórias da sua esposa... ela sabe o que você escreve sobre ela? Que bom que gostou!
Querida Karine! Que bom vê-la por aqui! Sobre esta expressão, olha, eu nunca ouvi falar. Talvez ela seja de usa muito localizado. Mas vou ver o que eu consigo. Mas ela tem um jeito de ter se originado a partir do erro em se pronunciar alguma palavra...

Querida Ana Carla: Pagar mico? Essa é fácil! Vem de um jogo de cartas. Uma delas é a figura de um mico. O jogo consiste em descartar o máximo de cartas. Aquele que, ao fim do jogo, fica com a carta do mico, perde. Diz-se que ele pagou mico. Do jogo, a expressão passou a significar qualquer situação vexatória que alguém fica.

Grande Zeca: Então você também conhece a expressão estar de paquete? Puxa! Eu já estava pagando o pato de falar de algo que ninguém conhece...
Pois é. Além de "ficar de Chico", "ficar incomodada", "ficar de bode", também se costuma dizer "ficar mocinha", esta significando a primeira menstruação. Bem lembrado!

Que bom que você gostou. Na semana que vem explico mais algumas.

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!