quarta-feira, agosto 16, 2006

Vila Boa, Goiás...


Em 1986, estive em Goiânia a trabalho. De lá, quis conhecer a cidade de Goiás, terra de alguém que muito admirava: a doce Cora Coralina. Eu não a viria. Ela tinha ido morar com Deus exatamente um ano antes. Mas me consolaria por andar por onde ela tinha andado, olhar onde ela resvalou os olhos, conheceria a casa que lhe velou o sono e os sonhos...
Assim fui.
*

Ao chegar na cidade, uma forte impressão de que já a conhecia. Comecei a andar pelas suas ruas estreitas com uma estranha familiaridade. Eu sentia mesmo que já tinha andado por lá. Cheguei até a ouvir vozes, que segredavam somente ao meu ouvido!
*
Estive na casa de Cora, a velha Casa da Ponte sobre o Rio Vermelho, rio que por tantas vezes levou as lágrimas de Cora para longe dali. A casa estava vazia, mas a energia de sua senhora ainda pairava por lá. Eu a senti muito intensa.
*
Percebi no ar o cheiro forte do açúcar no tacho de cobre, revirado pela mão obreira, calejada, sábia de seus movimentos no preparo do doce, do confeito que regalava os olhos e a boca.
E me encostei naquelas paredes grávidas de tantas histórias, que viram o tempo e a vida passar no ritmo modorrento do Rio Vermelho.
*

Me deu saudade de Dona Ana, de Aninha...da menina que corria por aquelas pedras, da velha senhora que a cantava com palavras de amor. Me deu saudades de quem não conheci, mas de quem era irmão, era filho, era quem queria deitar a cabeça em seu regaço para ouvir sua voz: “me conta, minha Cora... Me revela, Dona Ana...”
*
Ali, as palavras me chegaram à mente, todas encadeadinhas. Foi só passar para o papel do jeito que elas se achegaram em mim, feito gato que quer carinho. Escrevi, com força, sulcando o papel, com a ligeireza necessária para não perder nada. E me saiu assim:
*
“Levei meus olhos pra sair em procissão pelas ruas de Goiás.
No chão, as pedras gastas pelos pés de mil passos.
No ar, mais de dois séculos de histórias mil vezes recontadas.
O Rio Vermelho ainda corre lá. Como uma espécie de veia, pulsando, conduzindo o sangue da cidade. Cidade que tem coreto, fonte e velho de pijama sentado na soleira.
As velhas, vela na mão, piscam molemente os olhos baços, na ladainha pra Sant’Ana.
Vila Boa de Goiás...
Teus mortos guardam cada esquina e as vozes que às vezes se ouve, são os cantos de uma musa antiga que ficou encantada e virou música.
Na velha Casa da Ponte, penso ver alguém na janela. Eu me detenho, respeitoso, e peço:
“Dá licença, dona Cora?”

Dedicado a Cora Coralina, ao Lázaro e família, e ao povo de Goiás, que me deu a honra de expor estes versos na Câmara de Vereadores da cidade.
M.S.
***************************************
Na Rádio Antigas Ternuras, você ouve “Somewhere in Time”, trilha sonora eterna deste blog.

18 comentários:

Lili disse...

Oba! Parece que sou a primeira a me deliciar com tão doce poema! Um beijão!

Janaina Staciarini disse...

EEEEEEebaaa!!! É daqui, de pertinho de mim!!!
A casa da Cora é linda... a Cidade de Goiás é mágica.
Quando vier à Goiânia de novo, avisa! Beijão!

rubo jünger medina disse...

Marco, tudo isto são emoções que você foi buscar. E as impressões estavam lá, a sua espera. E pensar que morei em Brasília e não conheci nada de Goiás. Nem Caldas Novas... rs
Abraços.

Dulcinéia já está no Episódio 11.

Nina disse...

Marco, saudade de vc! Desculpe a ausência deste seu recanto tão aconchegante.
Lindos versos, meu amigo! Com certeza, se pudesse, Cora lhe daria um beijo no rosto, emocionada e agradecida.

beijo pra vc!
Estou te enviando um email, ok?

Márcia(clarinha) disse...

..."Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida."...
Palavras de Cora ao querido Marco que me enche de orgulho por ser meu amigo!
Linda noite meu querido
beijosssssssssss

claudia disse...

lindo...
sabe, estou me tornando repetitiva e isso as vezes me preocupa(rs)
espero que não se canse...

mas esse post ficou muito lindo.

um beijo

DO disse...

Não conheço nada do estado de GOIAS,mas adoro cidadezinhas assim...
Vc deve mesmo ter ficado feliz com tal passeio,Marco
Abraços!

Fugu F. disse...

Marco querido. Saudades do seu cantinho - acolhedor como uma cidade pequena e cheia de histórias. Não conheço Goiás, mas sempre me sinto em casa quando chego a uma das centenas cidades brasileiras que têm o mesmo clima: casas baixas, arquitetura atemporal,um silêncio que acalma a gente. Beijo você!

Giulia disse...

Querido Marco! Que lindeza de texto..."paredes grávidas de tantas histórias", ofertando palavras ao prosador-poeta, que as deixa nascer e transbordar em emoções e sentimentos. Belíssima homenagem... maravilha!!! Super beijo

M.Eduarda disse...

Que lindas palavras :)
Acredita que morei por 9 anos em Brasília e não conheço Goiás? Um pecado, né?

Beijos

ps: Essa música é linda demais, assim como o filme. Quando eu era pequena sonhava em aprender piano só para poder toca-la!

Vendetta disse...

ai, como vou sentir tua falta, Lindo! Minha mãe conta que eu era moleca e vivia pedindo para o meu pai recitar Cora Coralina... hmmm antigas ternurar, não?

Claudinha disse...
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Claudinha disse...

Uai... Eu tinha comentado aqui ontem...
Mas comento de novo...
Eu sempre senti estas coisas quando passo em determinados lugares, toco objetos antigos, vejo pessoas que acho que já conhecia há séculos. Sua experiência com a terra de D. Cora é singular e sei que marcou. O texto é lindo e parabéns por ter ele sido escolhido para figurar entre as homenagens de Cora Coralina...
Beijo, querido, até mais...

Zeca disse...

Mais um presente amigo para seus fiéis visitantes. Belíssimo e poético texto e justa homenagem a quem tanto ajudou a disseminar o estado de Goiás pelo mapa do Brasil. Ah! E tem a música, uma das minhas prediletas, como pano de fundo!

Abração.

ronie, voltando à ativa disse...

ZZzz ainda estou sonolento z z zzz mas... voltando a frequentar o recinto. Z zzz

Goiás Velho né?

O pessoal de lá não gosta que a cidade seja chamada desta forma, é pejorativo. Preferem Cidade de Goiás (o nome oficial) ou então Vila Boa (do tempo que era capital). Zzzz O grande agito cultural é (era) balançar o esqueleto n"A Carioca". O inferninho local.


z zzz zz

Muito conhaque vagabundo, refrigerante genérico e cerveja 'brahma' quente.

zzz z

Nota triste: estive por lá pouco antes da cidade ser proclamada patrimônio mundial. No mês de janeiro seguinte (2000 ou 2001, não tenho certeza), o rio Vermelho enfurecido não tomou conhecimento das obras, nem do título ganho.


Milhões de reais que desceram, literalmente, pelo ralo. Fiquei com um peso danado na consciência: será que foi porque eu e meus amigos deliquentes ficamos até altas horas entupidos de álcool na porta de Cora(isso mesmo, do lado da pontezinha mais charmosa que já vi) declamando poesias infames?


ZZZZ

Marco Santos disse...

Querida Lili: Que bom que gostou.

Pois é, querida Janaína: Aquela cidade mexeu mesmo comigo!

Grande Rubo: Pois você não sabe o que está pedendo. Goiás é maravilhosa! E Caldas Novas também é bem legal. Na verdade, eu adoro o estado de Goiás.

Querida Nina: Que bom que você apareceu. Eu sei que de onde ela estiver, me mandou beijos e eu os retribuo.

Marcíssima, querida: Eu também me orgulho de ser seu amigo. E essas palavras que escolheu são lindas. Cora Coralina foi um sonho bom que a gente teve...

Quêisso, doce Claudia... Se você gosta do que escrevo, eu é que fico contente. E muito feliz mesmo.

Grande DO: Você nem imagina o quanto eu gostei da cidade de Goiás e do estado todo. Se tiver chance, vá lá conhecer. E dê uma chegadinha casa da Cora.

Querida Fugu F.: A cidade de Goiás é um gracinha...Você nem imagina. Acho que você e Fugu M. iriam adorar aquele lugar.

Ah, querida Giulia...Fico imensamente feliz por você ter gostado do meu texto. Que bom! Vindo de você, que tem tanto talento, nossa!, é um baita elogio...

Ah, Eduardinha! Quem elogia "Somewhere in Time" aqui, ganha carteira de sócio na hora!
E você perdeu uma grande chance de conhecer uma cidade adorável!

Querida Vendetta: Ué! Como "sentir minha falta"? Como eu não pretendo me ausentar daqui, é você que vai sair do ar?

Minha doce Claudinha: Pois é. O mais curioso é que não me considero assim, tão "mediúnico"...Mas aconteceu lá exatamente como contei! Foi uma experiência incrível!
Eu tenho um carinho enorme pela Cora. Gostaria mesmo de tê-la conhecido. Eu fiquei muito feliz quando me avisaram que o meu poema para ela foi exposto numa mostra sobre a grande poetisa. Foi uma honra enorme!

Grande Zeca: Como escrevi acima, quem elogia a trilha e o filme "Em algum lugar do Passado" aqui, ganha carteida de sócio especial. Legal saber que você gostou do texto.

Rá! Rá! Rá! Ah, papai Ronie... A Isadora está te dando canseira, né? Mas essa fase passa... Daqui a pouco, você não vai dormir por ela não chegar em casa!
Eu sei que eles não gostam que chamem de Goiás Velho. Tanto que não chamei, você viu. A minha ligação com a cidade foi espiritual, por isso, não cheguei a conhecer o inferninho de lá (ré! ré! ré!...)
Eu vi pela televisão a desgraceira que a enchente fez na minha amada Goiás... Inundou a casa da Cora...Nossa fiquei triste de chorar... Mandei dinheiro pra eles.
Você ficou declamando poesias infames do lado da casa da Cora? Herege! Serás consumido pelas chamas do Hades!

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

Saramar disse...

Marco, você é mágico! Mas acho que já disse isso antes. Porém repito mil vezes, porque tem o dom de elevar a alma da gente, de nos fazer levitar.

O post é tão lindo, acho que já o li umas 10 vezes e me emociono sempre.

beijos e obirgada por tanta beleza e sensibilidade.

Luciano Max disse...

Parabéns Pelo Blog Ta Muito Lindo e Organizado, tenho o meu também , com muitas noticias e textos e poemas sobre a cidade de Goiás,quando der visete minha humilde casa www.diariovilaboense.com

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